O eixo norteador de todo o pensamento bakhtiniano caracteriza-se pela interação verbal, seu caráter dialógico e polifônico, o que resulta compreender a língua em uma perspectiva histórica que “não se transmite: dura e perdura sob a forma de um processo evolutivo e contínuo” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2010, p.111). Para Bakhtin e o Círculo19 (1929/2010; 1934-1935/2002, p.71-210; 1951-1953/1997, p.277-326; 1959- 1961/1997, p.279-327; 1959- 1961/1997, p.327-359; 1930-1940/1997, p.368- 398; 1930- 1940/1997, p.399-414), o princípio dialógico é fundamental para a concepção de linguagem, entendido como o “permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade” (BRAIT, 1997, p.98).
A citação de Brait explica que o dialogismo bakhtiniano ultrapassa o diálogo entre os interlocutores numa interação; implica, igualmente, o diálogo entre outros discursos. Essa questão elucida que a relação dialógica está nas relações de sentidos estabelecidos na interação verbal que decorrem, sobretudo, da atitude responsiva do falante, entendida como a tomada de posição axiológica, inerente a todo e qualquer enunciado (Bakhtin, 1930- 1940/1997).
A responsividade permite ao falante concordar ou não, adaptar, completar, enfim, elaborar constantemente sua resposta desde as primeiras palavras emitidas por seu locutor, enriquecendo-as com oposição ou reforço. Bakhtin estabelece uma fusão dialética e recíproca entre compreensão e resposta, sendo impossível a concepção de uma sem a outra, ou ainda, recuperando mais uma vez suas palavras de que “toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz” (BAKHTIN, 1930-1940/ 1997, p. 290).
O dialogismo, como enfatizam Clark & Holquist (1998, p. 235), reconhece “a necessidade de dar conta da presença do outro a quem uma pessoa está falando”. Ainda, coloca em relevo à alteridade que norteia as atividades discursivas, ou seja, torna-se condição sine qua non considerar o papel do “outro” na constituição do sentido, pois nenhuma palavra é propriedade exclusiva do falante; outras vozes que antecederam aquela atividade comunicativa se entrecruzam na fala do locutor.
O princípio dialógico da linguagem também explica a noção de texto verbal (oral ou escrito) ou ainda em outra forma semiótica. Bakhtin (1959-1961/ 1997, p.331). concebe o
19 Brait e Campos (2009) destacam que a disputa em torno das assinaturas no universo de Bakhtin e de seu círculo, entre outros fatores, “advém de conturbada e polêmica história” (p. 17). Cabe destacar que essa discussão sobre autoria não é o foco deste estudo. Dessa forma, as referências ao longo do texto seguem conforme as assinaturas nas obras.
texto como uma “mônada específica que refrata (no limite) todos os textos de uma dada esfera. Interdependência de sentido (na medida em que se realiza através do enunciado)”. Essa concepção vai ao encontro do entendimento de enunciado concreto, visto como a unidade da comunicação discursiva, um evento único, irrepetível, cujo aspecto mais importante é a possibilidade de resposta que ele proporciona. Um enunciado “nunca é o primeiro, nem o último; é apenas o elo de uma cadeia e não pode ser estudado fora dessa cadeia” (BAKHTIN, 1930-1940/ 1997, p. 375).
Desse modo, o texto (objeto de análise e reflexão) não pode ser compreendido fora de seu contexto dialógico (interrogativo, contestatório, entre outros). A construção de sentidos, produto entre o texto e o contexto na qual se realiza, implica o encontro entre dois textos e, por conseguinte, um encontro entre duas consciências, estabelecendo uma relação alteritária e responsiva.
O dialogismo, nesta pesquisa, ilumina a compreensão de como as vozes dos sujeitos do Tempo de Aprender podem produzir significados. Ainda, permite demarcar a presença do “outro” no “eu”, na apropriação de sentidos, na atividade de formação docente. Importante ressaltar que, no Tempo de Aprender, as relações dialógicas foram estabelecidas em vários momentos interativos, como: nos encontros de formação, no planejamento das aulas, nos momentos de elaboração da proposta didática de ensino-aprendizagem de língua inglesa e nos estudos individuais de cada participante. A partir das relações intersubjetivas estabelecidas entre os participantes da pesquisa, houve a oportunidade de aprender, ressignificar e produzir conhecimento com “responsibilidade”20 (do russo, otvetstvennost)(FUGA, 2009).
Neste trabalho, a concepção dialógica de linguagem também fundamenta o enfrentamento de pedido de concordância do outro, em que o enunciador tem de elaborar seu ponto de vista. O grau de engajamento em suas réplicas depende de quão consciente esse enunciador atua em sua atividade, pois para estar engajado e consciente na formação docente, é necessário que os envolvidos conheçam e assumam cada componente da atividade; do contrário, perdem de vista o objeto e a apropriação realiza-se como alienação (MARX, 1844/2004). Ao enfrentar o outro num evento argumentativo, o engajamento atua nas recombinações que o enunciador faz para suas réplicas. Essas reiterações implicam na criação de algo novo, ao encontrarem soluções para os novos problemas (VYGOTSKY, 1933/2009).
20 Responsibilidade, neologismo em Língua Portuguesa, proposto por Adail Sobral, Doutor em Linguística Aplicada e tradutor profissional, com o objetivo de traduzir o termo russo, não neológico, otvetstvennost, que une a ideia de responsabilidade (responder pelos próprios atos) e responsividade (o responder a alguém ou a alguma coisa).
A formação docente no Tempo e Aprender pretende-se, como já fiz menção, um espaço de produção de novos conhecimentos, intercâmbio de saberes, com vistas no pensar e repensar, a prática de todos os envolvidos no projeto. A perspectiva dialógica de linguagem reitera a interação entre interlocutores como fulcral para a necessidade de escuta de uma multiplicidade de vozes, a adesão do outro, a retomada de algo já dito que torne possível sua ressignificação.
No espaço interativo no Tempo de Aprender há o compromisso teórico de desenvolver, no pensar freireano, uma atitude curiosa e indagativa que possibilite a tomada de decisão sobre o que fazer nas situações de ensino marcadas pela dúvida. Igualmente, há o compromisso teórico de compreender o movimento de sentidos produzidos na interação em uma determinada atividade que, posteriormente, são compartilhados em outras atividades (LIBERALI, 2006) do projeto. Valendo-me das palavras de Fuga (2009, p.54), “a relação dialógica entre os envolvidos na interação, em meio a Atividades Sociais historicamente situadas, propicia que um significado evolua”. Essa discussão será centralizada na próxima seção.