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Os aspectos discursivos da ação criadora são compreendidos a partir do modo como o texto se organiza e se articula, ou seja, observa-se nesse nível: a) o plano organizacional do

texto, com sua abertura, desenvolvimento e fechamento; b) a organização em relação ao tópico introduzido, se há desenvolvimento e pertinência; e, c) o foco sequencial, se o texto tem enfoque utilitário, prático/cotidiano, teórico/científico ou de apresentação de resultados; e d) a articulação entre as ideias.

Para esta discussão, fundamento-me nos estudos de Liberali (2012), que se pautam nas propostas de Toulmin (1958), Orsolini (2005), Pontecorvo (2005), Bronckart (1997), Meaney (2009), Aristóteles (350 aC/2005), Perelman & Olbrechts-Tyteca (1958/2005), Liberali (2008), entre outros.

O plano organizacional apresenta as formas de como o enunciado é iniciado, desenvolvido e finalizado. Liberali (2012) compara-as ao que propõe Bronckart (1997) acerca da sequência dialogal, observando, na abertura (ou início), que os interlocutores constatam regras sócio-comunicativas que divergem por razões culturais de seus enunciadores; no desenvolvimento, o conteúdo temático da interação é coconstruído; e, no encerramento, a interação se encerra.

Assim, o modo pelo qual a pesquisadora-formadora inicia o encontro de formação de professores, revela o tipo de interação entre os enunciadores: se esse consegue proporcionar espaço para todos participarem com opiniões, perguntas e complementações, ou se o determinado encontro é estruturado por exposição monologal, centralizado em um interlocutor apenas. Portanto, a abertura pode definir o desenvolvimento do evento discursivo e sua finalização.

Por exemplo:

(136) Daniela: Bom, o que a gente vai fazer agora? A gente vai através da tabelinha que eu dei pra vocês a gente vai criar tarefas que ajudem a reconhecer, interpretar, lembra semana passada, Josimara? Que a gente fez a tarefa "quais serão as tarefas ao assistir o curta-metragem?" O que podemos fazer com essa música, nem que seja o que você já fez, Fernanda, eu vou digitando aqui.. ó, quais tarefas, pessoal? Eu vou começar escrevendo uma, às vezes é difícil escrever em slides, depois eu passo pro slide. (02/06/12)

Nesse exemplo os participantes são convocados a participar.

Sobre a organização em relação ao tópico pode-se constatar se houve ou não “desenvolvimento” e se o enunciado foi ou não “pertinente” à argumentação

(PONTECORVO, 2005) (cf. Vendramini-Zanella & Liberali, 2011). Pontecorvo (2005, p.69) destaca que as dimensões “desenvolvimento e pertinência” podem ser apresentadas numa “sequência forte” de argumentação em contexto de coprodução na escola. Em outras palavras, essas dimensões relacionam-se com a consideração das discussões entre as alunas-professoras se constituírem como “raciocínio exteriorizado coletivo no qual o conhecimento se constrói mediante a concatenação dos argumentos por meio de um pensamento coletivo”, entre diferentes interlocutores.

A “sequência forte” se caracteriza por aquelas que apresentam desenvolvimento pertinente de nível cognitivo mais alto, que pode apresentar diversas categorias, como relacionar, delimitar, contrapor-se argumentando, generalizar, problematizar, reestruturar (PONTECORVO, 2005).

Assim, a dimensão “desenvolvimento” liga-se ao “avançar e progredir, coletivamente, a análise, bem como a interpretação e a definição do objeto de discurso, mediante a introdução de novos elementos e de novas perspectivas” (2005, p. 69). Já, o “não- desenvolvimento” é a situação de inércia da sequência, quando há o bloqueio do raciocínio do grupo.

A dimensão “pertinência” permite verificar se o tópico proposto foi seguido ou desviado, comprometendo a progressão (ou não) do discurso. Os desvios ou digressões podem também se caracterizar no plano do desenvolvimento, mas não ser em absoluto pertinentes. Isso ocorre com frequência, por exemplo, em reuniões ou encontros professores ao trazerem experiências próprias em comentários que digressionam o tópico, mas avançam a construção de significados, mantendo o desenvolvimento do discurso.

Seguindo a ideia da apresentação de categorias de análise de Guerra (2011), organizei as dimensões desenvolvimento e pertinência no quadro das características discursivas:

Categoria de análise

Dimensão Característica Categorias analíticas Exemplo

Desenvolvimento - Avanço e progresso da análise e interpretação do objeto do discurso; - Ingresso de novos elementos e novas perspectivas.

Trazer elementos novos; Relacionar;

Delimitar; Contrapor-se argumentando;

Compor relações de nível alto;

Generalizar; Problematizar;

(7) Fernanda: Mas,

também tem essa, você terá que fazer uma interpretação, uma análise, mas não vai fazer o que a gente está falando[...] você vai fazer diferenciação, criar elos, entender o que está

Reestruturar. acontecendo, você não vai chegar nesse nível de criticar. Até aí, vai ficar mais neste daí. (Traz elementos novos) (19/05/12) Não

desenvolvimento - Bloqueio do raciocínio coletivo e inércia. Repetir; Confirmar Referir-se a uma experiência particular. (3) Daniela: Compreender

o enredo do filme. Por que?

(4) Daniela: Você viu que

sempre tem que falar o porquê.

(5) Fernanda: É aquela

coisa, você sempre vai ter que reconhecer,

identificar para chegar a interpretar.(Repetição) (19/05/12)

Pertinência - Progressão do discurso proposto por um dos interlocutores no tópico e discurso compartilhado pelos outros. Permanecer inserido no tópico proposto Acrescentar novos elementos. Josimara (13): Um está

ligado com o outro. Só

que ali na pergunta está dividindo. Então, aquilo

que você tem, aquilo na pergunta que está ligado com outra coisa.

Daniela (14): Está, mas,

esse é o exercício. Quero ver na hora de a gente preparar uma atividade, isso vai direcionar diferente. (acrescenta elemento novo) (19/05/12) Não pertinência - Falta de progressão

do discurso quando existe desvio do tópico abordado. Desviar o tópico trabalhado Referir-se a outro tópico.

(8) Daniela: Hum hum; O

que você acha Josimara? (9) Josimara: O enredo é

tudo aquilo que dá a trama para o filme

(desvio do tópico) (19/05/12)

Quadro 7: Características discursivas: dimensões: desenvolvimento e

pertinência na disposição e interação do discurso (Pontecorvo, 2005).

O foco sequencial se ocupa da escolha do tópico em pauta e seu encontro discursivo; pode se caracterizar como: utilitário e instrucional, bem como mais prático/cotidiano ou mais teórico/científico; pode ser, ainda, uma apresentação de resultados. Liberali (2012) explica que o estudo das sequências de conteúdo do enunciado possibilita uma compreensão das escolhas dos interlocutores sobre o modo de lidar com os tópicos e como sequenciá-los na produção de conhecimento.

Dessa forma, no encontro de formação docente, o enfoque pode ser caracterizado pelo instrucional e teórico, como também pode ter indícios de enfoque prático. Portanto, é o modo como o foco sequencial dos conteúdos for abordado que permite o entendimento e a participação dos interlocutores sobre o modo de lidar com os tópicos e como sequenciá-los na produção de significados (LIBERALI, 2012).

Por último, a articulação que lida com a forma como as ideias, posições, pontos de vistas são apresentados, contrastados, sustentados, acordados na discussão argumentativa (LIBERALI, 2012). Em relação a essa articulação, os pontos de vista podem caracterizar a interação pela concordância ou discordância.

No quadro seguinte, são apresentadas as categorias elaboradas por Pontecorvo (2005) e Orsolini (2005) e têm como foco a análise dos aspectos interativos do discurso.

Categoria de análise

Categoria Característica Exemplo

Espelhamento Informação é repetida, reformulada ou

continuada. (181) Fernanda: Ela acha que pra sensibilizar, pra ajudar a analisar e chegar na finalidade a gente precisa pensar onde que circula.

(02/06/12) Pedido de

esclarecimento Pedidos de informações contingentes à contribuição dos interlocutores (29) Daniela: Fernanda, expressar opinião sobre os curtas não é diferente de destacar a ideia?(19/05/12)

Pedido de

explicação Pedir explicação relaciona-se a demandar que conexões sejam estabelecidas. (12) Daniela: E como que a gente cria elos a partir dessa minha localização?

(19/05/12) Concordância

Réplica

elaborada Fala de um interlocutor é continuada e elaborada com acréscimos de informações. (11) Fernanda: Ah, acho que não, porque você tem que fazer elos para compreender o filme[...] (19/05/12)

Réplica mínima Resposta simples sem elaboração. (1) Daniela: A gente parou aqui olhem, no

5: compreender enredo do filme. Está na ordem do reconhecer, compreender ou criticar?

(2) Fernanda: Acho que é interpretar. Discordância

Réplica

elaborada Oposição justificada – informação de um interlocutor é negada com justificações, Contraposição justificada – oposição precedente é recusada com justificações.

(34) Josimara: Bom, eu não acredito que

irá ter várias ideias. Geralmente o autor foca num assunto só, para levar o povo a refletir naquilo, naquele determinado assunto. Nunca vários assuntos, senão fica confuso.

Réplica mínima Oposição simples – asserção de um

interlocutor é negada sem justificações. (256)Pesquisadora-formadora: Não sei. (02/06/12)

Quadro 8: Características discursivas: categorias de análise interativa

Liberali (2012) afirma que a função que cada réplica exerce na articulação discursiva: se é exórdio (abertura do tópico ou introdução e estabelecimento de contato com os interlocutores), questão controversa, apresentação de ponto de vista, espelhamento (recolocação do que foi apresentado ou com pedido de dis/concordância), negação/refutação de argumento, acordo ou síntese, pedido/apresentação de esclarecimento, questões para entrelaçamento de falas, ou pedido/apresentação de sustentação.

Por exemplo, o exórdio:

(206) Daniela: Agora, vamos pensar no nível reflexivo, o que a gente pode, porque assim essa relação[...]Vamos achar outro exercício de relação porque a Fernanda achou xoxo, a gente achou bom mas ela tá adiantada, que outra relação a gente pode pedir, vamos olhar a tabela lá em cima[...] huumm[...] Tem esse nível linguístico aqui, palavras com luta e sofrimento. Acho que até a professora iria gostar de você trabalhar esse vocabulário, né? Você andou trabalhando também? (02/06/12)

A questão controversa na escolha teórico-metodológica na PCCol é pressuposta como elemento constitutivo do desenvolvimento e articulação da discussão com a formação de professores na universidade, pois ela instiga os interlocutores a se posicionarem, assumirem seus papéis sociais, em repostas e pontos de vista.

Por exemplo:

(10) Daniela: [...] Você concorda com ela que só o localizar vai dar para a compreensão do filme? (19/05/12)

O espelhamento, com pedido de concordância ou discordância, é a recolocação pelo interlocutor da questão controversa pelo uso do posicionamento do outro interlocutor. Por exemplo:

(33) Daniela: Uh, uh. E sobre o que a Fernanda falou? Ela acha que o destacar, além dessas perguntas condutoras de, por que, para que, e tan tan tan, ela acredita que trabalhar com ideia principal do filme, vai necessitar da reflexão, por que às vezes o filme tem várias ideias. Essa é uma opinião da Fernanda, o que você acha sobre isso? Você não precisa concordar. (19/05/12)

Os elementos que constituem a estrutura argumentativa podem ser apresentados com uma possível articulação argumentativa, organizada de forma simplificada, elaborada por Liberali (2011, p. 56-57):

 Criação de polêmica entre afirmações apresentadas- questões controversa;  Apresentação do ponto de vista;

 Apresentação de recursos para sustentar suas afirmações; - obtenção de evidências para a defesa de suas ideias;

- produção de explicações com emprego de conhecimento científico e cotidiano;  Produção de refutação;

 Busca de conclusão ou acordo.

Para que as alunas-professoras sustentem seus pontos de vista na argumentação, de modo a desenvolver pertinentemente ou não a discussão sobre o tópico dado, podem utilizar os tipos de argumento estudados por Perelman & Olbrechts-Tyteca (1958/2005). Assim, nas características discursivas, os “tipos de argumentos” são introduzidos nos enunciados que as alunas-professoras produzem ao estarem “intencionados em estabelecer um contrato com o interlocutor na tentativa de fazer com que o outro compartilhe do nosso ponto de vista” (GUERRA, 2011, p.104).

Para melhor visualização, os tipos de argumentos foram organizados no quadro das características discursivas, a seguir. Esse quadro foi baseado nas ideias de Meaney (2009) e por mim expandido.

Categoria de análise Característica discursiva Tipos de

argumento Característica Exemplo

De exemplo Menciona um fato ou caso anterior para

confirmar ou negar a tese. (12) Pesquisadora-formadora: Que são intertextuais, não é? Por que olhe, Josimara, você acha que você assistir àquele curta e localizar: “ah, eles estão falando ah”, eu vou tomar como exemplo o curta que mencionei, Vida Maria, tá? (19/05/2012)

De

comparação Objetiva apresentar constatações de fato. Podem ocorrer por oposição (o bom e o mau aluno), por ordenamento (é melhor aluno do que) e por comparação quantitativa (comparação de notas dos alunos)

(30) Fernanda: Se for um curta simples, acho

que esse destacar vai só interpretar. Mas, se for uma dessas histórias muito loucas, você acaba tendo que refletir, pois ele passa muitas ideias ao mesmo tempo e você vai ter que[[...]]

(19/05/2012)

(37) Pesquisadora-formadora: [[...]] Agora,

reconhecer a ideia principal, tudo bem que você disse que às vezes requer uma reflexão, mas reconhecer é diferente de refletir. (19/05/2012) De Objetiva, a partir de um acontecimento, (36)Fernanda: Para você chegar na ideia geral

causalidade aumentar ou diminuir a crença na existência de uma causa que o justificaria ou um efeito que dele resultaria.

do filme, acho que você tem que refletir antes do filme. (19/05/2012)

De analogia Traça relações de semelhanças entre

termos de gêneros diferentes. (30) Fernanda: [...] se for uma dessas histórias muito loucas, você acaba tendo que refletir, pois ele passa muitas ideias ao mesmo tempo e você vai ter que [...] (19/05/2012)

De retomada

de ideias Utilizado para resgatar ideias discutidas pelo grupo, que não chegam a ser referências nem fontes.

(5) Fernanda: É aquela coisa, você sempre vai

ter que reconhecer, identificar para chegar a interpretar. (19/05/2012)

(32) Josimara: Entra muito naqueles: “por ques, para ques”. (19/05/2012)

Quadro 9: Características discursivas: tipos de argumentos, com base

em Perelman & Olbrechts-Tyteca (1958/2005)

Liberali (2012) aponta que essas categorias não podem ser observadas de forma isolada. A autora acrescenta que, em um mesmo turno ou sequência, pode ocorrer mais de uma dessas categorias.

In document Therese Raa, juli 12.pdf (1.170Mb) (sider 50-54)