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In document TILLATELSER MEDDELT I 1969 (sider 32-40)

Seguindo os indícios da produção têxtil no final do século XVIII, muitos autores71 têm reconhecido na colônia a existência da uma variedade de atividades agrícola, comercial ou artesã, indicadora da consolidação de um mercado interno. Dentro destas atividades podemos vislumbrar a produção têxtil, principalmente do algodão, encontrada em diferentes áreas do Brasil desde o século XVI. HOLANDA (1957) nos apresenta inúmeros dados comprobatórios de como estas atividades se desenvolveram na região centro-sul, desde os tempos da antiga Capitania de São Vicente, passando para Capitania das Minas Gerais e São Paulo, em 1709 e Capitania de São Paulo, em 1720.

Associando as tipologias de produção ao tipo de vida e necessidades daqueles que viviam na colônia, vemos que os tecidos não tiveram uma importância qualquer, mas sim, um papel primordial no desenvolvimento das vilas que foram se formando. Além disto, eram necessários nos deslocamentos feitos a pé, com animais ou através do rio, seja para o uso pessoal (vestimenta), seja para a segurança e conforto da comitiva (utensílios). A difusão de seu feitio foi incentivada pelos Jesuítas, que viram neste fazer manual duas vantagens necessárias, cobrir os índios e instituir um ofício de grande valia, não somente para as tribos, como para o consumo das Missões e para o comércio ou trocas.

Segundo HOLANDA (1957), o padre Manuel da Nóbrega pedia em sua primeira carta, de 1549 (ano em que desembarcou na Bahia), endereçada ao padre Simão Rodrigues, provincial em Portugal, que mandasse quem soubesse tecer o algodão, porque era encontrado em grande quantidade naquela região. Pedia, ainda, roupas para vestir os gentios da terra, “ao menos uma camisa a cada mulher”72, para que se cobrissem para assistir à missa e na hora do ensino. Em carta de 1558 relata já existir entre os índios, um tecelão e um tear na aldeia baiana, sendo seguido por outros que se dedicavam a plantar a matéria-prima, fiar e tecer para a confecção de vestuário.73 Este ofício também seria ensinado nas aldeias do Espírito Santo e de São Vicente, para a produção de tecidos de uso diário e para a confecção de redes para dormir. Através de inventários, referido autor verifica a extensão da atividade em toda a capitania paulista, antes, durante e depois da sua formação em 1720. Tendo em vista que a capitania de Minas Gerais e de São Paulo englobava um vasto território, fazendo divisa com a capitania do Grão-Pará e do Maranhão, ao norte, de Pernambuco e da Bahia, a nordeste, Rio

71 Referindo-se a PRADO JR.(1967), NOVAES (1979), ARRUDA (1980), HOLANDA (1994), FURTADO, J.

(1999), CHAVES (1999), entre outros já citados anteriormente.

72

HOLANDA, 1957, p.211.APUD Cartas do Brasil: 1549-1560. Rio de Janeiro, 1886, p. 59.

de Janeiro, a leste e de São Pedro, ao sul, verificamos que sua influência será implantada nas áreas que posteriormente se dividirão nas capitanias de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso (FIG.06).

FIGURA 06: Capitanias em 1709 e em 1789.. FONTE: http://pt.wikipedia.org/ficheiro

Apesar de HOLANDA (1957) conseguir verificar no registro de 1729, dos testamentos estudados74, a referência a um tear indígena75, específico para a produção de redes, acha difícil acreditar que, àquela época, os moradores da capitania dependessem dos trabalhos indígenas para a produção necessária ao dia-a-dia. Quanto aos teares específicos para produzir panos76, afirma que estes já eram conhecidos desde o século XVI77.

No sul a produção parece ser insuficiente em 1585, determinando a Câmara da capitania de São Vicente, medidas de proteção, estipulando preços para a vara de tecido grosso e fino e da rama limpa, além de proibir a sua venda para fora da vila, “por haver na terra pouco pano de algodão” (HOLANDA, 1957, p.212)78.

No século XVII, HOLANDA (1957) verifica as consequências desta medida, visto que a plantação foi intensificada na região. Produziam não somente os produtos têxteis utilizando o algodão bom (de fibra longa), mas também produtos ordinários, aproveitando o algodão ruim (de fibra curta), como por exemplo, “pavios de vela, redes de pescar, fios de sapateiro, franjas ou varandas de rede, (...) para acolchoar os (...) gibões estofados dos sertanistas, (...) e

74 HOLANDA, 1957, p.92. APUD Inventários e Testamentos (São Paulo, 1920). 75

O autor se refere ao tear vertical, de alto-liço, também conhecido como tear chileno.

76 Tear horizontal, de baixo liço, conhecido como tear mineiro.

77 Segundo HOLANDA, “é de 1578 (...) a ordem de um camarista da vila para que só se teçam panos de acordo

com a marca do mar, isto é, que tenham três palmos e meio de largura”. APUD Atas da Câmara da Vila de São Paulo, I, p.118.

outros, os escupiletes, destinados a resguardar apenas o peito e o ventre” (HOLANDA, 1957, p.214).

O estudo dos inventários apontou que poucos nas vilas dispunham de teares, o que provavelmente levou a quem os tinha, a tecer para outros, como acontecia também em Minas Gerias, cuja especificidade veremos adiante. Mesmo sendo o ofício, historicamente e desde a Antiguidade, considerado impuro e rude em diferentes culturas, inclusive no Brasil Colonial, senhores abastados eram, em geral, os proprietários, que, se interessando pela empreitada, reuniram quem quisesse trabalhar para eles na produção de tecidos, indicando, assim, que a atividade deveria ser lucrativa e que valeria a pena investir.

O ofício de tecelão, assim como tantos outros, era regulamentado pela Câmara e orientado segundo as diretrizes do “Regimento dos Ofícios Mecânicos de Lisboa”, de 1572 (FIG.07), trabalhando o artífice por conta própria e recebendo a porção fixada. Posteriormente, na Capitania de São Vicente, o pagamento foi determinado pelo tipo de fio trabalhado, ou seja, produção de tecido grosso, médio e fino, sendo dada como pagamento “uma (1) vara de pano para a tecelagem de dez (10) varas do tipo grosso, nove (9) do médio e sete (7) do fino, passando logo em seguida, para o pagamento de uma (1) vara de pano para a tecelagem de nove (9) do grosso, oito (8) do médio e sete (7) do fino” (HOLANDA, 1957, p.215), parecendo ser esta uma prática comum em todo o Brasil, veste relatos em outras regiões.

A Capitania de São Paulo apresenta-se como um exemplo e prova efetiva do conhecimento das técnicas e desenvolvimento da produção doméstica no Brasil, deixando claro HOLANDA (1957) que, em Minas Gerais, Pernambuco e, principalmente, no Maranhão a produção era muito superior. Na Capitania do Maranhão, o algodão tinha uma importância crucial, pois era usado como moeda, que “os naturaes fiavão (SIC), e reduzido a novellos e rollos de pano, formavam o representativo (...) por dez mil réis” (GAYOSO, 1818, p.169). Quanto ao comércio, os ditos panos de algodão eram exportados “para os centros da capitania, e das outras de minas gerais, e goyaz (SIC), sendo seu retorno em ouro em pó, ou em barra.” (GAYOSO, 1818, p.169)

Visto através de dep na região norte, podemos c Rodrigues, onde em seus de produção de tecidos de algo usados como vestuário, con contas que enfeitavam a ma

Veremos que apesar indústrias de artigos manuf Albuquerque e Aguilar80 o Maranhão. No entanto, pass não foi consolidada.

A cultura da matéria 176081. O Maranhão não HOLANDA (1985, p.336),

79 Três eram as espécies encontra

o herbácio (fibra mais curta e me

80 VIVEIROS, 1992, p.62. 81

Sua exportação era feita em ram em 160 réis a arroba de rama, à p

FIGURA 07: Capa do “Livro

depoimentos que a fibra de algodão era encont s comprovar sua veracidade ao verificar os re desenhos e coleta de materiais indígenas diver lgodão, tingidos ou trabalhados com fios colori confeccionados com fios têxteis e materiais di manufatura, criando desenhos geométricos. sar da existência dos impedimentos em deixar d nufaturados, por carta Régia de 1739, o Rei c o privilégio de formar uma fábrica de chita e assados os 5 anos de prazo para a sua iniciativ

ria-prima do algodão no norte da colônia foi i ão se contentou na produção de algodão l 6), a CGCGM, além de buscar na Carolina do

tradas no Brasil, o comum (mais resistente, de fibra long enos resistente) e o algoduí (boa fibra, mas amarela). rama ou beneficiado. Sua distribuição foi tributada na pa à partir de 1776.

ro dos Regimetos dos Officiaes mecânicos da mui nobre Lixboa, 1572’.

FONTE: CORRÊA, 1926.

ntrada em abundância79 registros de Alexandre

ersos, nos apresentam a oridos, além de produtos diversos que formavam

r desenvolver na colônia i concedia a Manuel de a e pano de algodão no tiva, referida empreitada

i incentivada a partir de local. Na análise de do Norte as sementes de

nga e dá 3 colheitas ao ano),

passagem do rio Itapucurú,

arroz, implantadas por técnicos e engenhos estrangeiros trazidos especialmente para esta função, também a seda será inserida na Capitania, por Lourenço Belford, ajudado por famílias conhecedoras do cultivo e fiação dos casulos, que foram enviadas por Pombal a pedido do governador do Pará, Joaquim de Melo, que mandou plantar na Ribeira do Itapecuru82 algumas amoreiras, das quais casulos de seda foram colhidos e fiados, sendo as meadas oferecidas a D. José I, que mandou tecer uma veste para uso próprio83. No entanto, sua continuidade foi comprometida pela deficiência do desenvolvimento dos casulos na terceira produção, atribuída ao modo de cultivo.

No Norte, o tingimento também era atividade de conhecimento antigo e pertencente às tribos locais, usando elementos nativos da região, principalmente o anil (muito utilizado na produção de redes de dormir) e o urucum. Segundo GAYOSO (1818), no Maranhão, além da técnica nativa, era desenvolvida uma técnica diferente, graças ao ensinamento de uma negra vinda de Cabo Verde84.

É de grande relevância colocar aqui que, como em Portugal, até o século XIX no Brasil, a fiação e tecelagem eram feitas segundo os sistemas tradicionais, seja para o algodão, como para a lã, permanecendo em grande parte no sistema doméstico e oficinal de produção. No Brasil, o motivo para a predominância dos métodos tradicionais, sem o uso das novidades mecânicas, se dava principalmente pela submissão político-econômica ao Reino (e aos interesses deste), no qual a mecanização se deu tardiamente. O uso da fibra de algodão se afirma pelo tipo de matéria-prima nativa encontrada, constituída de fibra longa, sendo facilmente manufaturada pelos processos mais simples. Quanto à lã, esta permanência se efetivou visto a sua baixa produção, em função de ser pouco requisitada, praticamente, somente pelas regiões mais frias da colônia e por aqueles que poderiam pagar por seus tecidos (sempre competindo, no caso das classes abastadas, com a qualidade do produto estrangeiro).

Para o algodão, usavam métodos de abertura e limpeza primários e manuais, segundo HOLANDA (1985, p.223). O autor aponta como instrumentos tradicionais utilizados em São Paulo: o arco (para bater) e pares de escovas (para cardar), sendo específicos de duas etapas diversas dentro do processo de fiação. Para a abertura da fibra usava-se no Brasil o desencaroçador ou bolandeira, de mesa ou puxada por carro de boi a manivela (tipo de engenho como o da cana-de-açúcar). A mais antiga referência de seu uso na colônia data de 1618, nas capitanias de Pernambuco e Paraíba, enquanto em São Paulo, os registros aparecem

82 Era a terceira maior povoação do Maranhão, depois de São Luis e Vila de Alcantara. 83

Fato contado em poesia da região, segundo GAYOSO, 1818, p.206

a partir da segunda metade do século XVII85. No interior de Minas, ambos os tipos são instrumentos encontrado em larga escala, mas desconhecemos a época em que foram introduzidos na fiação, visto não terem sido citados nos registros estudados. Segundo HOLANDA (1985), no Maranhão, seu emprego se dará somente no final do século XVIII, o que não parece condizer com a realidade da produção.

Enquanto as fibras de algodão provêm do fruto de um tipo de Malvácea, cuja origem é desconhecida, ocorrendo em diferentes regiões do mundo desde a antiguidade, as fibras de lã provêm da tosa ou do pentear dos pêlos de alguns animais (ovelhas, cabras e da família dos camelídeos, encontradas na região da Colônia Espanhola).

Diferentes variedades de fibras têxteis eram naturais do Brasil Colonial muito antes da chegada dos portugueses. De acordo com Lapa, podemos citar a fibra liberiana (floemas), uma embira86 encontrada em diferentes árvores brasileiras como o “embirucu, embiriti, goiambira”, usadas pelos índios para a produção de tecidos, calafetagem e cordoaria, e aproveitadas pelos oficineiros para produzir estopa para a calafetação dos navios e casas em Salvador, bem como cordas para utilidades diversas. Eram designadas por “estopa da terra” e eram exportadas para Portugal. Além destas, outras fibras podem ser encontradas em citações diversas, como a “zapucai” (sic), provavelmente a sapucaia, a “castanha do Maranhão” encontrada no Pará, a “castanha de macaco”, a “capucaya”87.

A embira se assemelhava ao cânhamo, mas era mais resistente que o “esparto”, gramínea conhecida para a fabricação de corda, cestas e esteiras. Segundo LAPA (2000), D. José Joaquim da Cunha de Azevedo Coutinho, escrevia no final do século XVIII, que as embiras do “Imbé” e do “Taecum”, já empregadas pelos índios na confecção de cordas dos seus arcos, bem como as do “Crata” e da “Guaxima88”, serviam com eficiência para as cordoarias89.

Outras fibras utilizadas foram as das piaçabas e das palmeiras bravas. O “Taecum” ou “tecum” é originário da palmeira Tucum, Tucumã (Astrocaryum vulgare), espécie nativa da

85 HOLANDA, 1985, p.224.

86 Do tupi ybyra (t u ) ou ymbyra (t u ), nome que pode designar comumente qualquer fibra vegetal que serve de

liame, ou é matéria-prima para cordoaria ou tecido grosseiro, ou ainda, algumas árvores anonáceas que produzem essas fibras.

87 LAPA, 2000., p.89. A sapucaia ou cabeça de macaco (Lecythis ollaria ou L. pisonis) é uma árvore brasileira

da família das lecitidáceas. Sua semente é chamada castanha-de-sapucaia.

88

Segundo J.C.Medina, Bragantia, Vol.10, n°.8. Arbusto de até 3 m, denominada Urena lobata, da família das malváceas, encontrada em grande quantidade no Brasil, cujas fibras são brancas e flexíveis, utilizadas para a confecção de redes, cestos e cordoalhas. Possui vásta variação de denominação: aguaxima, carrapicho-do-mato, carrapicho-redondo, guanxuma, guaxima-macho, guaxiúma, guaxuma, ibaxama, malva-roxa-recortada, ototó- grande, rabo-de-foguete, uacima, uaixima, etc. Foi amplamente utilizada pelos índios brasileiros.

região Amazônica, tendo sido bastante utilizada e procurada para a fabricação de cordas de boa qualidade.

A fibra do cipó imbé é utilizada até hoje na confecção de cestaria e objetos. O “Crata” ou Coroá90 era muito comum no Maranhão e sua fibra foi muito valorizada por apresentar características próximas ao linho. A Guaxima, cujo uso se efetivará no final do século XVIII, foi utilizada para a manufatura de tecidos grosseiros (lonas e brins) para sacaria, roupas e meias, incentivadas pelo marquês de Lavradio91, mas eram de qualidade inferior ao cânhamo e ao linho de Riga, até mesmo do cânhamo produzido em Santa Catarina.

LAPA (2000) coloca que na segunda metade do século XVIII, as plantas têxteis brasileiras solicitarão grande interesse. O cânhamo europeu será implantado na Bahia nesta época, mas como as sementes eram velhas os resultados foram desastrosos. Seu sucesso se deu no sul, na região de Curitiba e Paranguá, apresentando concorrência à guaxima nativa. O cânhamo de Santa Catarina era comparado, em qualidade, ao cânhamo da Rússia. No Rio Grande do sul o plantio foi de grande sucesso.

Outra espécie que será implantada no Rio de Janeiro será o linho-donzela, mas que até 1788 os resultados de sua colheita não foram favoráveis visto a frustração de Portugal que esperava abastecer a Real Fábrica de Cordoaria e Lonas de Lisboa, com os cânhamos produzidos nesta região e no Rio Grande do Sul.

Acompanhando a questão do conhecimento e aproveitamento das fibras brasileiras, seja pelos colonos no Brasil, seja pelos portugueses no Reino, certo é que a partir do último quartel do século XVIII, diversas notícias chegavam a Portugal dizendo sobre o desenvolvimento das manufaturas no Brasil Colonial, que juntamente com o contrabando de mercadorias inglesas levariam a produção do Reino à falência. Neste período, sob a administração de D. Maria I, as fábricas portuguesas começavam a ganhar fôlego, produzindo produtos de melhor qualidade, visto que

o surto manufatureiro do último quartel do século XVIII reveste-se de um caráter diferente dos anteriores. Principiando [...] unidades industriais para a substituição de importações de artigos de luxo ou de importância estratégica - sedas, fardamentos -, vai se alargando a outros setores que visam um consumo mais generalizado [...] interessando artífices estrangeiros e negociantes. (...) As exportações de manufaturas nacionais para os domínios,

90 LAPA, 2000, p. 92. Na verdade, trata-se do Caroá (Neoglaziovia variegata), planta bromeliácea, nativa do

Nordeste do Brasil e uma das mais características da flora brasileira. Das 1600 espécies conhecidas, cerca de 1000 são nativas do Brasil. Possui poucas folhas lineares e acuminadas, dispostas em roseta, inflorescência laxa com 25 cm de comprimento e com até 60 flores, de sépalas vermelhas e pétalas purpúreas. Suas folhas fornecem longas fibras, de grande resistência e durabilidade. Também é conhecido pelos nomes de carauá, caruá, caroá- verdadeiro, coroá, coroatá, crauá, croá e gravatá.

fundamentalmente para o Brasil, são promovidas pela concessão de isenções fiscais (eram já uma das preocupações na remodelação da Real Fábrica das Sedas em 1757) e encontram condições mais favoráveis para o seu desenvolvimento, numa altura em que os rendimentos coloniais voltam a fluir. (PEDREIRA, 1994, p.60-61)

Neste processo, o Alvará de 1785 aprofundará o Pacto Colonial, reforçando o exclusivo da produção industrial da metrópole, concluindo o impulso industrial da última fase do governo de Pombal, prolongado com as mudanças do governo de D. Maria I. Aqui, as exportações e as substituições de importações tiveram papéis relevantes, criando uma economia vinculada ao crescimento da indústria nacional, onde

entre os produtos nacionais [...] que contribuem para o aumento das exportações para os mercados coloniais, figuram-se destacadamente os algodões estampados (chitas e saias), que substituem em parte, os artigos indianos nos carregamentos para o ultramar.92

Isto pode ser confirmado pelo desenvolvimento das estamparias em Portugal. As primeiras fábricas de tecidos de algodão estampados surgem a partir de 1775, mas segundo o levantamento de PEDREIRA (1991), nas Balanças de comércio com os domínios dos mercados ultramarinos, disponíveis somente para os anos 1776-1777, estes produtos não constam entre os produtos exportados até então. No entanto, em 1796 eles já representavam 22% do valor das manufaturas nacionais e 7% das exportações totais, indicando um aumento considerável dos investimentos lançados sobre esta tipologia de produto e a importância que o algodão alcança em Portugal.

De 1785 para 1794, abre-se em Portugal, nada menos que 22 fábricas de estamparia, mesmo com a seleção apurada pela Junta da Administração das Fábricas, que recusou diversos pedidos, mas também começou a flexibilizar em suas avaliações, desde que tivesse a garantia que no Reino se produziria produtos de qualidade que pudessem concorrer com os tecidos estrangeiros.

É nesta realidade portuguesa que devemos observar o lançamento do Alvará de 1785, de iniciativa de Martinho de Mello e Castro, Ministro da Marinha e Ultramar no reinado de D. Maria I, que colocava em prática as idéias fisiocráticas presentes no governo português, nitidamente reconhecidas na determinação legal imposta à Colônia.

Referido Alvará, diretamente direcionado ao Brasil, é composto por duas partes, uma que proíbe a produção de certas tipologias de tecidos na colônia e outra que aborda o problema do contrabando de fazendas proibidas, descaminhos e extravios do ouro praticados

na colônia, em referência ao não cumprimento dos dispositivos do Decreto de 1750 do período pombalino.

Associando esta nova medida legal à análise das legislações lançadas desde a última fase do período pombalino, cuja recomposição da crise de 1760 conduziu Portugal a um desenvolvimento econômico manufatureiro, vemos que quanto aos tecidos, o Alvará de D. Maria I mantém as prerrogativas necessárias para referido objetivo, somente sendo possível graças às medidas legais que visavam proteger a indústria nacional, com limitações às produções externas e com incentivos às produções internas93.

No governo de D. Maria I, assim, dá-se continuidade a esta mentalidade de proteção, porém, com pensamentos opostos àqueles de Pombal, seja em relação à produção nacional94, seja em relação às medidas administrativas95 necessárias em um período de transição, mudanças e crise da produção colonial, em que a única salvação é o desenvolvimento manufatureiro nacional e o incentivo, na colônia, da produção de matéria-prima e novos produtos coloniais, principalmente o algodão. Segundo o pensamento fisiocrata, “a proibição das atividades manufatureiras se faz a partir da idéia de que elas retêm braços de uma população já de si escassa” (VALENTIM, 1993, p.85.) na colônia, cuja riqueza consistia “nos frutos e produções da terra, as quais somente se conseguem por meio de colonos, e cultivadores, e não de artistas, e fabricantes” (VALENTIM, 1993, p.85)96.

O Alvará tratando da proibição da produção têxtil foi explicitamente direcionado às autoridades no Brasil,

ao Presidente, e conselheiros do conselho Ultramarino; Presidente do Meu Real Erário; Vice-Rei do Estado do Brazil; Governadores, e Capitães Gerais, e mais Governadores, e Offciaes Militares do mesmo Estado; ministros das Relações do Rio de Janeiro, e Bahia; Ouvidores, Provedores, e outros

In document TILLATELSER MEDDELT I 1969 (sider 32-40)