Quando abordamos o envelhecimento, a vulnerabilidade é uma realidade que lhe está subjacente. Abordar a vulnerabilidade na velhice é considerar a interação entre saúde, condições sociais, económicas, individuais, e ambientais, incluindo os programas para esse segmento populacional (Silva et al, 2012). A questão da vulnerabilidade na última etapa da vida tem merecido, nos últimos anos, um importante destaque no que respeita a pesquisas e investigação. Como já foi referido, o envelhecimento traz consigo um conjunto alargado de adversidades que colocam aos idosos entraves que põe em causa o seu bem-estar, qualidade de vida e a sua própria inclusão em meios sociais. Podemos até achar, que o facto do idoso não estar incluído socialmente, não atrai quaisquer problemas, contudo isto não é de todo verdade.
Durante o século XX, a vulnerabilidade foi um conceito explorado tendo-lhe sido associadas inúmeras definições. Segundo Shrodher-Butterfill e Mariantti (2006) citado por Silva at al (2012) a vulnerabilidade:
“é o resultado de interações complexas entre riscos discretos que resultam em ameaças que crescem e se materializam ao longo do tempo, aliada à ausência de defesas ou recursos para lidar com o desfecho negativo dessa ameaça” (p.98).
De forma mais sintetizada “a vulnerabilidade tende a desvincular o homem das suas capacidades por meio do desgaste das normas sociais, tornando as capacidades opacas e pouco utilizáveis” (Schumacher et al, 2013). Perante esta realidade é possível prever que, na velhice, um acumular de vivências positivas e negativas, acrescendo os recursos internos (psicológicos e biológicos) e ainda os recursos externos (ambientais, políticos, sociais) se traduza numa maior ou menor vulnerabilidade das pessoas idosas perante os eventos da vida (Silva et al, 2012).
Maciel et al, (2012) defende que um crescente acumular de problemas físicos ou psicológicos conduz a um aumento da vulnerabilidade. Na realização de um estudo, Maia (2011) observou que a vulnerabilidade social é apenas associada ao óbito, enquanto que a vulnerabilidade física é associada à fragilidade e à redução da capacidade funcional na concretização de atividades do quotidiano. Um idoso fisicamente vulnerável depende de outro na execução das atividades básicas, e isto pode levar a que o idoso se torne socialmente vulnerável. Por outro lado, Ayers et al, (2003) atribui à vulnerabilidade a categoria individual, social e programática. Segundo este, a vulnerabilidade individual compreende os aspetos biológicos, emocionais e cognitivos baseados nas atitudes referentes às relações sociais, ou seja, a vulnerabilidade individual está diretamente
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relacionada com os comportamentos adotados pelo indivíduo (Ayres et al, 2003). Contrariamente a Maia (2011) o nível social é caracterizado por aspetos culturais, sociais e económicos que determinam as oportunidades de acesso a bens e serviços. A vulnerabilidade programática refere- se aos recursos sociais necessários para a proteção do indivíduo a riscos de integridade e ao bem- estar físico, psicológico e social. O estado de saúde e o autocuidado vai variar segundo os comportamentos adotados, sendo estes favoráveis ou desfavoráveis para o indivíduo (Ayres et al, 2003).
Aliado a isto, Campinas e Rodrigues (2011) citado por Silva et al (2012) defendem que a vulnerabilidade da saúde na velhice é ainda definida por condições objetivas, que compreendem as socioeconómicas, número de doenças e o acesso e disponibilidade de serviços e, por outro lado, as subjetivas compreendendo a perceção de suporte social na velhice.
Uma maior ou menor primazia de aspetos individuais, coletivos, contextuais e históricos das experiências e o seu desenvolvimento incitam possibilidades de adoecer e, como resultado, crescentes dificuldades de acesso aos recursos disponíveis na sociedade. Na velhice, em regra geral, existe um predomínio de incapacidades funcionais, de défices cognitivos, de doenças crónicas e de sintomas depressivos, que assumem valores superiores em indivíduos mais velhos, em mulheres e nos idosos com mais baixo nível de pensão e também de escolaridade. Neste sentido, várias pesquisas têm demonstrado que os idosos que utilizam mais os serviços de saúde são as mulheres, tendo um maior número de doenças e pior auto perceção de saúde (Pinto, 2014).
É defendido por muitos profissionais de saúde que a fragilidade é uma condição inerente ao envelhecimento, levando a um atraso no início das intervenções, a uma maior dificuldade de resolução e ainda a uma crescente utilização de recursos financeiros, humanos e da própria gestão para reverter todas as consequências advindas de situações vividas (Duarte, 2009). “A fragilidade trata-se de uma síndrome biológica caracterizada por declínio cumulativo em múltiplos sistemas fisiológicos, podendo causar vulnerabilidade e consequências adversas, tais como quedas, hospitalização, institucionalização e morte” (Fried, Tangen, Walston, Newman, Hirsch, Gottdiener, Seeman, Tracy, Kop, Burke e McBurnie 2001) citado por Silva (2012, p.104). Jesus (2017) refere que a fragilidade presente nas pessoas idosas tem aspetos multidimensionais, heterogéneos e instáveis gerando uma complexidade crescente quando dispõe de influências de fatores característicos da vulnerabilidade social. Uma relação entre fragilidade e vulnerabilidade social traz
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consigo uma necessidade de procura de políticas públicas associadas a cuidados de saúde, e assistência social e pessoal.
A concessão de saúde está aliada às condições económicas, comportamentais, estruturais, sociais e individuais, uma vez que influenciam o quanto é possível dispor de recursos para alcançar um nível desejado de saúde. Condições estáveis traduzem-se em melhores cenários para atingir níveis de saúde considerados como essenciais e necessários para, consequentemente, atingir uma qualidade de vida na velhice (Maciel et al, 2012).
O suporte social (condição subjetiva) nesta fase da vida é um fator muito importante envolvendo um conforto emocional, físico e material, perante situações de incapacidade funcional e dependência física ou psíquica. Por parte dos recetores do suporte social é notória uma mais valia no que respeita às trocas de afeto, apoio em momentos mais frágeis, permitindo um maior controlo sobre as relações sociais e diminuindo possíveis sintomas depressivos comuns perante situações vulneráveis. Aliado a tudo isto, as condições de saúde, a qualidade de vida e a própria segurança assumem valores positivos (Antonucci, Fuhrer e Dartigues, 1997).
A verdade é que na prática o suporte social ainda está longe de conseguir dar resposta a todas as necessidades existentes. O facto é que segundo Fontes et al (2011) existe um crescente número de idosos com idade superior a 80 anos a morar sozinhos, mostrando índices inferiores no que corresponde ao suporte social prestado, e ainda uma menor expetativa de receber cuidados provenientes da família.
Neste sentido, face a situações frágeis a nível de saúde que, posteriormente, podem afetar outros aspetos do individuo, é importante que a saúde integral da pessoa idosa permita a participação da vida normativa em redes de relações sociais valorizando o afeto, amizade, estima social, reconhecimento de direitos e responsabilidades (Schumacher, 2013).
2.2.3. Consequências decorrentes da vulnerabilidade no Envelhecimento