6.1 Økt sikkerhet
6.1.5 Økte sikkerhetskrav i jernbane,
As seis qualidades da literatura com que Calvino perspectiva este milénio são conhecidas, e os seus argumentos notavelmente explanados e ilustrados ao longo das Seis Propostas... Nelas, o escritor discorre sobre a ‘leveza’, a ‘rapidez’, a ‘exactidão’, a ‘visibilidade’, e a ‘multiplicidade’..
É impossível parafrasear as Propostas…, mas é significativo observar que, em qualquer das cinco qualidades abordadas, Calvino se refere a propriedades e/ou procedimentos formais, de expressão, que articulam forma e significado, e cuja verificação se traduz em conquistas novas para a possibilidade de verbalização daquilo que é aparentemente inefável e que não parece poder ser expresso de outra maneira. O próprio Calvino recorre profusamente à citação dos textos com que ilustra o seu argumento, reconhecendo, em alguns casos, que o comentário ou a interpretação diminuiria a densidade de sugestões dos textos tal como se encontram originalmente formulados: é o caso, por exemplo, de quando o escritor ilustra a leveza, de que diz ser “Perseu o herói”28
, através do recurso à descrição formulada nos versos de Ovídio, que encontram a imagem certa para aquela qualidade, na forma com que apresentam a delicadeza do herói ao pousar a cabeça decapitada da Górgona (sobre o terreno amolecido por uma camada de folhas e algas que se transformam em corais, atraindo as musas em redor da cabeça monstruosa e frágil, deteriorável como a vida dos humanos).
De facto, extraindo de todo o texto de Calvino a riqueza da sua densidade poética, decorrente do modo como é apresentado, identificamos, com Calvino, a ‘leveza’, como subtracção do peso à estrutura do conto e da linguagem; a ‘rapidez’, como a ligação que
25 CALVINO, I., Seis Propostas Para o Próximo Milénio. Lisboa: Teorema, 1994. p. 26. 26 Cit. por ibid. p. 26.
27 Ibid. 28
20
estabelece uma relação lógica de causa e efeito, captando e unindo, através de percursos mentais, pontos afastados no espaço e no tempo; a ‘exactidão’, como uma porção mínima de ordem num processo irreversível de entropia29 (e uma das coisas que a exactidão quer dizer, segundo Calvino, é, exactamente, a formulação de uma linguagem o mais precisa possível na sua capacidade de traduzir os matizes do pensamento e da imaginação, ou seja, a exactidão de formulação do significado); a ‘visibilidade’, como imaginação, ou seja, como um reportório múltiplo potencial de imagens que nascem umas das outras por analogias, simetrias, contraposições; e, finalmente, a ‘multiplicidade’, como um sistema de sistemas em que cada um condiciona os outros, e é condicionado por eles – outra vez, à maneira do próprio processo de verbalização do pensamento na inextricabilidade entre forma e significado, dir-se-ia.
Calvino, como escritor, como escritor de ficção, conhece bem a unidade essencial entre opções de expressão e de significado: o que os seus procedimentos constroem são porções mínimas de ordem, levíssimas, que estabelecem relações de causa e efeito, por contaminação recíproca, entre ‘imagens’ afastadas no espaço e no tempo, cujo significado é apenas pressentido no pensamento antes de ser articulado, como forma, da única maneira possível (certa). A maneira de Calvino conduz à formulação de versões de mundos leves como os percursos mentais, ou como “a filigrana de um desenho tão fino que [escapa] ao roer das térmitas”30
– aquela que Kublai Kan consegue discernir, “através das muralhas e das torres destinadas a ruir”31
, nos relatos de Marco Polo. Em uníssono com Calvino, Marco Polo junta, peça a peça, a cidade perfeita, “construída de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, por sinais que alguém manda sem saber quem os apanha”32
.
Estamos certamente confinados a múltiplos modos de descrição, como refere Nelson Goodman33, mas esta multiplicidade de ‘versões’34, que cria uma multiplicidade de mundos, constituindo, em última instância, o nosso universo, parece prolongar-se sempre com cada novo ‘sinal’ que alguém apanha – aqui reside a capacidade de agilidade no confinamento. De resto, quando Goodman, referindo-se ao problema da indução, e exemplificando com o recurso ao comportamento do predicado hipotético ‘verdul’ em projecção35, reconhece a
29
A tarefa de Sísifo dir-se-ia, que pode servir de metáfora para a tarefa de qualquer artista.
30 CALVINO, I., As Cidades Invisíveis. Lisboa: Editorial Teorema, 2006. p. 10. 31 Ibid.
32 Ibid. p. 165.
33 GOODMAN, N., Modos de Fazer Mundos. Porto: Edições Asa, 1995. p. 39. 34
Utiliza-se aqui uma expressão de Goodman que atravessa a obra Modos de Fazer Mundos. As subsequentes utilizações da expressão reportam-se à mesma referência.
35 ‘Verdul’ seria um exemplo de um predicado não projectável, porque as implicações da sua projecção, quando
equacionado com predicados projectáveis, conduziriam a conclusões erradas. O argumento é apresentado em GOODMAN, N., Facto, Ficção e Previsão. Lisboa: Editorial Presença, 1991. pp. 86-87.
21 existência de predicados não projectáveis, expondo assim a falibilidade da ‘projectabilidade’36
, e questionando a sua validade – em relação à qual afirma não termos garantias37 –, fornece, através da sua formulação, o raciocínio que justifica a transitoriedade do conhecimento: não há maneira de sabermos o que viremos a observar no futuro, e o nosso conhecimento está sujeito sempre a reformulações. Mas o mesmo raciocínio poderia justificar também, ilustrando-a, a eterna abertura dos nossos modos de descrição na ficção: eles nunca são definitivos, mas sim momentos num recorrente processo de construção – ou reformulação –, em função da integração de nova informação. Por isso mesmo, o nosso confinamento a múltiplos modos de descrição é um confinamento à representação, certamente, mas a área delimitada por essa fronteira é, paradoxalmente, um espaço eternamente extensível em multiplicidade.
A orientação construtivista do pensamento de Goodman, que está subjacente ao argumento sobre a incerteza da projectabilidade, conduz também todo o seu discurso em
Modos de Fazer Mundos: fazemos múltiplas versões de mundos através de processos de
‘composição’ e ‘decomposição’38; de ‘enfatização’39; de ‘ordenação’40; de ‘supressão’ e ‘completação’41
; e, finalmente – mas não só, porque, como refere Goodman, estes são apenas alguns dos processos de feitura de mundos, ou das suas múltiplas versões – da ‘deformação’42
. Trata-se, naturalmente, dos modos como o nosso comportamento cognitivo opera. Fazemos, refazendo, através de processos como os referidos, múltiplas descrições do nosso universo, que, se na ciência envolvem predominantemente a denotação, a articulação linguística e meios literais, na arte, de acordo com Goodman43, envolvem meios não literais, como a metáfora, e processos não denotativos como a expressão e a simbolização por ‘exemplificação’44
- frequentemente utilizada nas artes visuais. As versões de mundos da
36
A expressão é de Goodman. Ver ibid.
37 Ibid. p. 105.
38 Que consistem, de uma forma combinada, em separar e reunir. GOODMAN, N., Modos de Fazer Mundos.
Porto: Edições Asa, 1995. p. 44.
39
Organização diferenciada de espécies das mesmas classes em diferentes mundos: se são relevantes num, podem ser irrelevantes noutro: ibid. p. 48.
40 Relação entre o primitivo e o derivativo: ela altera-se em função do quadro de referência do sistema de
construção, tendo como consequência que os padrões percebidos se alterem em diferentes ordenações. Ver ibid. pp. 49-50.
41 A feitura de um mundo parte sempre de mundos já disponíveis, envolvendo sempre alguma eliminação e o
fornecimento de algum material novo. Ver ibid. p. 51.
42 Reconfigurações que, dependendo do ponto de vista, podem ser consideradas correcções ou distorções. Ver
ibid. p. 54.
43 É uma constatação em Modos de Fazer Mundos, que é verbalizada por Carmo d’Orey na sua introdução. Ver
ibid. p. 18.
44 A ‘exemplificação’ é posse mais referência. GOODMAN, N., Linguagens da Arte: Uma Abordagem a Uma
22
ficção, no âmbito da poética, são construídas através dos meios referidos e, no caso da ficção literária, do uso simultâneo de símbolos de sistemas linguísticos.
Não estamos longe do discurso de Calvino. Com efeito, se os sinais “apanhados”, cujos significados são apenas pressentidos no pensamento, por vezes “um breve trecho que se abre no meio de uma paisagem incongruente”45
, para depois serem juntados, peça a peça, na construção perfeita, que Marco Polo pensa ser possível – caracterizada pelas qualidades que Calvino aborda nas Propostas… –, conduzem às suas versões ficcionais, fazem-no precisamente através dos processos do funcionamento cognitivo identificados por Goodman, e que se traduzem, por exemplo, nas operações formais propostas por Calvino – uma a uma, elas requerem a conjugação de todos aqueles processos.
Assim se constroem, com etiquetas reais – predicados de sistemas linguísticos –, as versões de mundos da ficção, para o caso literária, que participam na descrição do nosso universo, não denotando qualquer coisa mas aplicando-se a ele: pressupondo a detecção de categorias e a percepção de padrões, elas impõem-nos projectando-os, através dos seus próprios meios, muitas vezes não denotativos, metafóricos, expressivos, no mundo real, e facultando-nos, desse modo, o acesso às características de que são símbolos, funcionando portanto cognitivamente.