Após a descrição destes fenómenos será o processo de gentrificação um aspeto positivo ou negativo para a construção da cidade? Atkinson e Bridge (2005) realizaram uma extensa revisão dos impactos do fenómeno da gentrificação nos centros urbanos traduzido na tabela acima.
Apesar de identificados inúmeros aspetos positivos, como a valorização imobiliária, o incentivo á reabilitação habitacional e urbana, e por sua vez á preservação do patrimônio arquitetónico, que deram origem a fenómenos de desconcentração da pobreza e mistura social, a gentrificação não deixa de ser um fenómeno que será sempre desfavorável para as classes mais baixas (Atkinson, 2004:7). Como principal aspeto negativo Atkinson e Bridge (2005) descrevem o processo de despejo e deslocamento que inúmeras famílias de classes baixas e até medias são vítimas, a perda do direito à habitação que deixa de atingir preços acessíveis, o aumento da criminalidade, a segregação residencial e fragmentação que é visível em bairros gentrificados (Atkinson, 2004:7-14).
A verdade é que este processo pode ser encarado de diversas perspetivas, como um potenciador de investimento e enorme lucro para a bolsa publica e de oportunidade de reabilitação de edificado debilitado e de espaço urbano ou pode ser, por outro lado percecionado como um motivador de um movimento social de expulsão geográfica, gerado pelo despejo habitacional e pela subida do valor imobiliário. Assim, os impactos positivos e negativos gerados pelo fenómeno de gentrificação só podem ser interpretados como tal quando vistos de um ponto de vista específico, do gentrificador ou do gentrificado (Atkinson, 2004:7).
Tabela 10-Impactos Posisitos e negativos da Gentrificação
Fonte 1-Adaptado de, De Atkinson & Bridge,2005: 5
Positivos Negativos
Despejo através do aumento dos valores imobiliários Custos psicológicos secundários do despejo Estabilização das áreas em
declínio
Conflito e ressentimento da comunidade
Aumento dos valores das propriedades
Perda de habitação acessível Insustentável preço da propriedade especulativa aumenta
Vaga taxas reduzidas Desalojamento Aumento de receitas fiscais
locais
Maior controlo dos gastos locais através de pressão e articulação Incentivo e aumento da viabilidade de um maior desenvolvimento Deslocamento comercial / industrial. Aumento de custos e mudanças nos serviços locais Redução da expansão
suburbana
Desalojamento e pressão sob a procura de habitação em áreas periféricas e menos ricas Aumento da mistura social Perda de diversidade social (a partir socialmente díspares para guetos afluentes)
Reabilitação de
propriedade com e sem patrocínio estatal
Sub-ocupação e perda de população para áreas gentrificadas
4.5 CONCLUSÃO Ao longo deste capítulo assiste-se à evolução do processo de gentrificação, enquanto fenómeno descrito por Ruth Glass como um comportamento ou movimento social de transformação da cidade de Now York e Londres (Glass, 1964). Consoante as circunstâncias do lugar e da época, e muitas vezes os seus interesses políticos, a gentrificação foi ressurgindo na cidade adaptando-se ao novo contexto (Smith & Hackwoth, 2001; Mendes, 2003).
Neil Smith e Hackwoth explicam o processo de gentrificação segundo três fases distintas, onde a última se estende até aos dias de hoje (Smith & Hackwoth, 2001).
Luís Mendes apresenta-nos um paralelismo com a evolução do fenómeno da gentrificação em Lisboa. Em Lisboa o processo de gentrificação desenvolve-se na cidade de forma mais tardia, só a partir da década de 90 é que se verifica o início gradual da presença do fenómeno, mas até 2012 a lei das rendas protegia o aumento súbito das rendas tornando o processo até aí muito suave e despercebido (Mendes, 2017a).
Quando intersectada a expansão da saturação turística e a evolução do fenómeno da gentrificação, formam um processo de gentrificação turística na cidade, que é dependente da geografia do lugar (Mendes, 2017a).
Esta nova tipologia de gentrificação turística que surge adaptada ao contexto turístico contemporâneo vem refletir inúmeros impactos positivos, mas também negativos para o espaço urbano. Estes impactos podem ser encarados de diversas perspetivas para obter diversas conclusões, segundo a experiência do turista, sendo ele um morador temporário; do ponto de vista dos arrendatários e dos inquilinos, sendo ambos moradores permanentes. O processo de gentrificação mostra-se sempre um processo mais negativo para as classes mais baixas e muitas vezes privilegia a posição de turista em relação ao direito de habitar do morador (Atkinson, 2004).
5
ALOJAMENTO TURÍSTICO
5.1 INTRODUÇÃOO Alojamento Local está presente na construção da cidade turística como uma função de suporte á estada de turistas. É uma realidade emergente em todo o país, mas principalmente na Área Metropolitana de Lisboa pela crescente e constante saturação turística.
O Alojamento Local não pode ser entendido como uma atividade de exploração económica, mas sim reconhecida como um sector de suporte turístico de bastante impacto na dinâmica da cidade onde se insere. Assim com este capítulo pretende-se obter uma perceção do impacto da figura do Alojamento Local e da pressão que representa na cidade, para tal é esclarecido a constante polémica da sua situação atual, do seu regime jurídico, respetivos impactos e do seu processo evolutivo e desregulado.
A sua caracterização enquanto alojamento turístico, permite associar a sua utilização a plataformas como a Airbnb que vieram incentivar o seu desenvolvimento abrupto e levar a profundos processos de gentrificação turística. Panorama vivido não só em algumas cidades Portuguesas como em muitas outras, e em fases mais adiantadas. Ir-se-á refletir sobre as
opções tomadas em cidades onde o processo de turistificação já atingiu o seu limite ou continuar- se-á na transformação para uma cidade sem moradores?
5.2 “PORTUGAL ESTÁ NA MODA”
Em Portugal, são variados os motivos do exponente dinamismo turístico que levam á procura turística massificada exponencial. Para além das consequências já enunciadas da banalização das Companhias Low-Cost (LCC) que reduziram a escala da duração das viagens e o seu custo, tornando o país acessível a um publico muito mais abrangente. Assim como o presente fenómeno de gentrificação vivido em diferentes localidades, por vezes conduzido por políticas urbanas que privilegiam um marketing turístico da mesma.
Portugal caracteriza-se por ser um dos países onde este sector representa um maior contributo para o PIB (Produto Interno Bruto), com cerca de 9% do PIB, apresentando-se como a segunda maior proporção da Europa e dos países desenvolvidos. Espanha, o contributo exercido pelo turismo adquire uma percentagem mais elevada, de 11%, porém o sector em Portugal exerce uma maior pressão do que em França com 7%, Itália com 6% e Áustria, Hungria e Grécia com cerca de 5% do PIB.
Em 2017, registou-se mais de 20 milhões de pessoas turistas a visitarem o país, resultando num contributo acima dos 15 mil milhões de euros para a economia nacional. Comparando com o período anterior à grande Exposição de Internacional de 98, onde o númeno de turistas estava reduzido a menos de metade e as receitas a menos de um terço, observa-se o crescimento da grande saturação e tensão do setor turístico na cidade (UNWTO, 2018).
8,7 9,7 9,9 10,312,1 11,6 10,410,910,611,3 12,3 13,5 12,913,513,913,8 14,4 16,1 17,4 19 20,6 4,1 4,9 5 5,7 6,1 6,1 5,8 6,2 6,2 6,7 7,4 7,4 6,9 7,6 8,1 8,6 9,2 10,4 11,412,7 15,2 0 5 10 15 20 25
Chegadas turísticas em Portugal em Milhões Receitas turísticas em Portugal em Mil Milhões €
Fonte – Da autora, dados obtidos de UNWTO, 2018
O grande investimento no sector turístico, bem como no City Branding estimulou o interesse estrangeiro por Portugal, resultando na atribuição de variadas distinções no âmbito dos World Travel Awards (WTA) desde 2014. Tendo no último ano, em 2018, reunido um conjunto de trinta e seis prémios tornando-se Campeão do Melhor Destino Europeu pela segunda vez consecutiva e estando nomeados para o mesmo prémio países como Áustria, Inglaterra, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Turquia.
Portugal alcançou distinções como Melhor destino de cidade Europeu (Lisboa); Melhor porto de cruzeiros europeu (Porto de cruzeiros de Lisboa); Melhor design hotel europeu (1908 Lisboa Hotel) Melhor hotel português de negócios (Pestana Palace Lisboa); Melhor organismo oficial europeu de turismo (Turismo de Portugal); Melhor destino insular europeu (Madeira); Melhor atração turística de aventura (Passadiços do Paiva); Melhor projeto europeu de desenvolvimento turístico (Passadiços do Paiva); Melhor companhia europeia de cruzeiros de rio (Douro Azul); entre outros (Oliveira, 2018); (WTA,2018). E a terceira posição no Top Countries Best in Travel 2018 da Lonely Planet tendo em primeiro e segundo ficado o Chile e Coreia do Sul respetivamente (Lonely Planet,2018).
Na última década assiste-se ao desenvolvimento progressivo da atividade turística em Lisboa, correspondendo ao crescimento do número de chegadas turísticas para quase o dobro se analisar os valores 2007-2017, 12.3 Milhões- 20,6 Milhões de pessoas (UNWTO, 2018). É este progresso acelerado de procura por Portugal que leva Lisboa e outras cidades a sentir drasticamente os efeitos da transformação turística que geram uma reestruturação das redes de transportes, serviços culturais e turísticos, incentivando a reabilitação e requalificação urbana, essencialmente dos centros históricos. Resultando numa reforma profunda do tecido urbano e social da cidade que acaba por negligenciar os seus moradores, que são nostalgicamente
empurrados para a periferia. Dando origem a graves processos de gentrificação turística, desalojamento e especulação imobiliária (Machado e Viegas, 2017:100).
Por outro lado, a procura pela globalização que surge com a entrada de Portugal para a Comunidade Económica Europeia em 1997 e mais em 1986 para a União Europeia, incitaram uma grande competitividade entre destinos turísticos e núcleos urbanos (Ribeiro, 2017: 7) levando a utilização, cada vez mais complexa, das tecnologias de comunicação e propaganda. A consciência do valor da comunicação e publicidade á distancia para venda de serviços turísticos, experiências turísticas como propaganda do produto e da imagem da cidade tornam possível aos proprietários interessados a aquisição de rendimento, através do arrendamento dos seus imóveis a turistas (Machado e Viegas, 2017:100).
Segundo Seixas et al. (2015: 375,376), a cidade é encarada como um elemento central na conceção de fontes de consumo, particularmente quando expostos projetos de reabilitação e requalificação urbana, marketing urbano, estímulo de hábitos consumistas, incentivo de propriedade privada e turística, e a tendência de semiprivatização do espaço publico (Seixas et al., 2015: 375,376).