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Zanzibar – et uverdig paradis

In document NAF orum (sider 59-62)

Os professores usaram, na primeira aula, notícias sobre a violência contra os povos indígenas (ANEXO A). Houve um debate com toda turma, e os alunos foram incitados a questionar o conteúdo das notícias e a situação socioeconômica dessa população. Uma das notícias descrevia o massacre de indígenas durante a ditadura militar no Brasil (1964- 1985) (ANEXO A). Dois alunos, diante disto, mostraram-se afeiçoados a esse período da história, como se comemorassem todas as vezes em que os professores falavam sobre a violência desta época. Ainda sobre a mesma notícia, um terceiro aluno perguntou aos estagiários “se os oito mil indígenas mortos durante o regime militar não estavam procurando problemas ou se não mereciam realmente morrer”; pois, para ele, a notícia não esclareceu a causa da morte deles, podendo ou não haver sido responsabilidade do poder militar.

Nessa mesma aula, um dos alunos desenhou uma suástica de caneta no braço e assinou seu nome acompanhado do mesmo símbolo na lista de presença (ANEXO B). Ele foi questionado pelos professores se estava ciente do que a suástica significava. O aluno falou que sabia o que o símbolo significava, contudo continuou usando-o e não manifestou interesse em debater sobre o assunto naquele momento. Outros alunos adicionaram que o uso da suástica era normal entre eles.

Durante a semana de planejamento da segunda aula do estágio, os professores questionaram se deviam reagir de alguma maneira aos comentários descritos acima. Em nenhum momento os discursos observados na aula anterior foram considerados típicos da idade ou brincadeiras feitas pelos alunos. A fim de resolver o conjunto de questões apresentadas até agora, os estagiários levaram em conta o contexto de produção histórica e social desses discursos, como indicado por Siqueira(2009).

25 e 26 de outubro de 2018

Na segunda aula, os estagiários propuseram um aprofundamento nos tópicos apresentados na aula anterior, retornando às questões problemáticas em foco: a comemoração ante a menção do período da ditadura militar no Brasil, o questionamento sobre o motivo das mortes dos indígenas durante a ditadura e a assinatura e desenho da suástica. A turma, então, foi dividida em três grupos, um para cada professor. Os assuntos a serem discutidos foram pré-determinados durante o planejamento, para que, embora fizessem parte de grupos distintos, os alunos debatessem sobre os mesmos pontos.

Como apontado por Siqueira (2009), o aluno muitas vezes pode ser considerado um ser vazio pronto para receber o conhecimento trazido pelo professor. Para os debates em sala, os alunos foram vistos como dotados de opinião e com noções próprias do mundo ao seu redor, o que facilitou a interação entre alunos e professores.

Ao longo das aulas, os professores buscavam acessar os conhecimentos prévios dos alunos sobre os tópicos. Os comentários dos alunos sobre o que já sabiam colaboraram para o andamento das discussões, e considerá-los como dotados de opiniões anteriores à sala de aula facilitou o processo de significação dos discursos apresentados pelos professores, como apontado por Bakhtin-Volochinov (1988, apud SIQUEIRA, 2009), assim os estudantes associaram o que já sabiam com o que estava sendo dito nas aulas, podendo, então, (re)formular suas próprias opiniões acerca do debatido.

Em nenhum momento os pontos de vista dos professores foram considerados como únicos, e a criação de estigmas sobre os alunos que fizeram os comentários em estudo foi evitada. Os estagiários manifestaram suas posições acerca dos tópicos discutidos utilizando argumentos respeitando a vez de cada aluno falar. Todos os estudantes participaram do debate, apresentando suas opiniões e comentando sobre as dos outros.

Em relação aos alunos que comemoraram a menção ao período militar brasileiro, os professores começaram explicando o que foi a Ditadura. Muitos deles não compreendiam muito esse período histórico, inclusive aqueles que os expressaram o discurso em estudo. Os professores mencionaram as torturas, a ausência dos Direitos Humanos, a censura, a fragilidade da saúde pública, a falta de liberdade na educação, a corrupção, a pobreza do nordeste, a precariedade das condições trabalhistas e a desigualdade social. Todos os pontos citados foram explicados pelos professores e discutidos pelos alunos.

25 e 26 de outubro de 2018

Um dos dois estudantes em foco falou que não tinha conhecimento sobre o período militar do Brasil, e que o defendia de qualquer forma, assim como seu pai. Isto acontece porque, muitas vezes, discursos estão enraizados na sociedade, e os professores, independente da área, podem questioná-los e discuti-los. O segundo aluno falou que entendia os acontecimentos acontecidos durante ditadura militar e, mesmo assim, acreditava que “foi um período excelente para o desenvolvimento do Brasil e queria que houvesse outra ditadura para melhorar a segurança do país”.

Apesar de um dos estudantes continuar com a mesma opinião, o debate sobre questões ideológicas foi, ainda assim, válido. Isso porque as discussões não foram realizadas com o objetivo de convencer os autores dos comentários o contrário do que haviam falado, mas sim para que eles pudessem refletir, assumir ou rever suas posições ideológicas, (re)elaborar melhor seus conceitos e explicar democraticamente por que ele/ela pensa dessa forma (SIQUEIRA, 2009).

Sobre a questão dos 8 mil índios mortos durante a ditadura militar e o questionamento do aluno sobre o razão das mortes, os professores já haviam debatido muito sobre esse período da história; então, apenas adicionaram sobre a integração da Amazônia, proposta durante o governo de Castelo Branco, que desmatou muitas áreas, executou obras que foram de grande impacto natural e social e assassinou muitos indígenas que lutaram por suas terras. Após a discussão, o aluno disse que “não entendia por que tantas pessoas foram assassinadas, pois ninguém merece morrer por aquilo que é, ou só por ser diferente”.

Para retomar a questão da suástica, os estagiários falaram sobre a Segunda Guerra Mundial. Primeiramente, perguntaram o que os alunos sabiam sobre a guerra, o nazismo e o holocausto. No máximo dois alunos de cada grupo sabiam de algo sobre os tópicos para compartilhar. No caso do estudante que assinou com a suástica e a desenhou no pulso, ele desconhecia até certo ponto o que estava sendo discutido, mesmo tendo afirmado na aula anterior que estava ciente do significado de tal símbolo. Isso mostra que o comentário feito pelo aluno, bem como a indiferença da turma em relação ao assunto, pode haver surgido devido a falta de conhecimento de todos acerca desta problemática.

Durante o debate, os estagiários falaram sobre o holocausto e todas as mortes causadas pelo nazismo, não só aos judeus, que para eles pareciam ser de uma realidade muito distante, mas também ciganas, deficientes físicos ou intelectuais, ou

25 e 26 de outubro de 2018

qualquer pessoa que não se encaixava na raça ariana. A maioria dos alunos admitiu não saber de todas as informações expostas sobre a Segunda Guerra Mundial e mostrou interesse em aprender mais sobre.

Na mesma aula, o aluno assinou novamente com a suástica após seu nome, mas dessa vez não desenhou o símbolo na mão. Contudo, outro aluno riscou a suástica feita na lista de assinatura (ANEXO B). É notável que uma conversa, dados argumentos e espaço para diálogo, pareceu provocar uma mudança de perspectiva em alguns dos estudantes. Em outras palavras, se antes os alunos mostravam-se indiferentes ao uso da suástica, agora não só se mostram incomodados, mas encorajados a discutir com mais delicadeza sobre assuntos que demandam delicadeza e a expor, de fato, suas opiniões. Da terceira aula em diante, o aluno não repetiu o uso da suástica.

In document NAF orum (sider 59-62)