4. Cat`s cradle metodologi
4.2 Worlding som materiale
Com base nos registros em diários de campo, procuraremos, neste item, destacar uma versão específica sobre como o pesquisador entende o funcionamento e a articulação das ações de prevenção - situadas no bairro do Jaçanã - com demais políticas, setores e práticas sociais, ou melhor, por meio das experiências pessoais compartilhadas com os diferentes atores envolvidos, selecionamos alguns recortes, inquetações e críticas que fazem parte da construção desta pesquisa e que dizem respeito ao funcionamento das ações locais de prevenção de riscos de desastres.
Seguindo uma cronologia, a primeira experiência que merece destaque refere-se à identificação do bairro do Jaçanã como território para o desenvolvimento desta pesquisa. Tal escolha apareceu como possibilidade numa conversa com o Coordenador de Ações Preventivas e Recuperativas da COMDEC/SP, no dia 2 de setembro de 2011, mais especificamente, quando falávamos sobre a imagem comumente associada aos agentes de Defesa Civil na cidade de São Paulo.
De acordo com o nosso interlocutor:
Todos os que atuam nas políticas de Defesa Civil devem lutar, permanentemente, para a construção de uma imagem que não esteja, apenas, associada aos agentes que contam mortos, mas também às estratégias de prevenção. Segundo esse coordenador da COMDEC/SP, os agentes de defesa civil devem lutar e ser reconhecidos (socialmente) como profissinais que se dedicam diariamente ao trabalho preventivo, priorizando, desse modo, um trabalho articulado entre as políticas públicas, instituições, pesquisadores e comunidades vulneráveis (Diário de Campo – 02/09/2011).
Nesta direção, rumo a uma proposta "preventiva" estariam atrelados inúmeros desafios, principalmente, quando se leva em conta as atuais condições estruturais, organizacionais e políticas da Defesa Civil na cidade de São Paulo, pois, para o coordenador, se tivéssemos como horizonte uma perspectiva de prevenção, deveríamos, deste já, promover ações que não se limitam às tecnologias de previsão, identificação e cálculo de riscos. Em resumo, deveríamos tomar como prioridade o desenvolvimento de estratégias locais, envolvendo a população (moradores das áreas de risco) e apostando em discussões sérias sobre os processos de comunicação e gestão dos riscos de desastres.
Como exemplo, tomamos dois trechos da conversa, nos quais o coordenador da COMDEC/SP esclarece seus argumentos: "precisamos de comunidades e pessoas preparadas, estruturadas material e conscientemente para o enfrentamento das situações de possíveis desastres"; "[...] falta um melhor preparo para os técnicos (agentes) de defesa civil, visto que as dificuldades não estão somente no trabalho operacional, mas numa competência em estabelecer vínculos e dialogar com as pessoas e comunidades" (Diário de Campo – 02/09/2011).
Outra experiência que merece destaque refere-se a uma conversa com um dos líderes comunitários do bairro do Jaçanã. O registro é do dia 17 de agosto de 2012. Na ocasião, tínhamos como objetivo conhecer os moradores das áreas de risco, e se possível, discutir com eles temas relacionados aos desastres associados às chuvas (inundações, alagamentos e deslizamentos).
Vale assinalar que o nosso interlocutor residia no bairro do Jaçanã desde sua infância e que, atualmente, morava com sua esposa e filho numa região bem próxima ao CEU – Jaçanã (área de risco). Filho de uma das funcionárias do CEU, ele também trabalhou por lá durante quase três anos, tanto como funcionário registrado, como quanto voluntário. Soma-se a isso
seu amplo conhecimento do território, seu posicionamento político relacionado às experiências comunitárias e seu entendimento sobre o funcionamento das Políticas Públicas.
Foi uma longa conversa sobre sua ação política e experiência comunitária nas diferentes problemáticas sociais43, como ocupação territorial, distribuição espacial e populacional, alternativas para ações estruturais e não estruturais conforme as diretrizes das Políticas de Defesa Civil. Falamos também sobre intersetorialidade dando ênfase às estratégias comunitárias de saúde e assistenciais, principalmente, quando tratadas a partir de uma perspectiva preventiva.
Conversamos, ainda, sobre a importância das instituições de educação, em especial sobre o CEU - Jaçanã como instituição privilegiada para o desenvolvimento de ações interdisciplinares e multisetoriais. Destacamos, a seguir, trechos de suas falas.
As microrregiões ao entorno do CEU têm aproximadamente uns 100 mil habitantes, divididos entre os bairros: Guapira, Filhos da Terra, Jova Rural, Nova Galvão, Felicidade, Vila Zilda, Fontalis, etc. São todos territórios liderados por moradores que têm profundo conhecimento sobre o bairro, seus limites, o tráfico, as instituições, as pessoas, os vereadores, enfim, a dinâmica comunitária e seu funcionamento. [...] Este bairro é carente de tudo, precisamos muito de trabalhos nas comunidades, falta tudo, cursos técnicos, educação, saúde, assistência (Diário de Campo – 17/08/2012).
Finalizamos com a pergunta: E o que você pensa sobre remoção de moradias? "O valor pago pela prefeitura de R$ 300,00 durante dois anos (bolsa aluguel), e o valor inicial de R$ 1.200,00 reais não garantem uma moradia segura para ninguém" (Diário de campo – 17/08/2012).
Ainda como aspecto importante do percurso deste pesquisador, ressaltamos a sua participação em um curso sobre percepção de riscos e desastres urbanos, promovido pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente em parceria com a UMAPAZ44 e realizado na sede do CEU - Jaçanã, totalizando 20 horas de atividades, entre os meses de setembro e outubro de 2012.
43 Para nossa surpresa, ele havia sido conselheiro local (região norte) do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - CADES por dois anos, o que, necessariamente, implicava alguma participação política frente às questões que envolvem o meio ambiente, áreas de risco, alternativas de urbanização sustentável, etc.
44 UMAPAZ: essa sigla refere-se a uma ONG da cidade de São Paulo que atua em áreas voltadas aos estudos sobre meio ambiente, poluição, urbanização, entre outros.
Dentre os temas em discussão e as experiências compartilhadas com os agentes públicos diversos (saúde, meio ambiente e defesa civil) e os moradores da região da Subprefeitura Jaçanã-Tremembé, destacam-se:
1) cisão entre conhecimento especialista e leigo, pois, quando as pessoas não demonstravam o "saber correto", ou não faziam o uso "adequado" dos termos técnicos, elas eram consideradas ignorantes, ou seja, para discutir com a coordenadora e demais colegas de curso sobre os fenômenos relacionados aos desastres - de acordo com a proposta do curso - necessitávamos, em primeiro lugar, aprender os termos técnicos "adequados", sem os quais, o conhecimento leigo não tinha qualquer valor;
2) inexistência de um trabalho de prevenção articulado entre defesa civil (representados pelos agentes locais) e os moradores dos territórios vulneráveis (representados pelos próprios moradores da região). Neste ponto, acrescentamos, baseados nos relatos dos moradores (registrados em diários de campo), que eles caracterizavam os trabalhos da defesa civil local, como sendo de um tipo repressor (militarizado) e distante da população;
3) o incômodo gerado pela descoberta de que a sede do CEU – Jaçanã está localizada em uma área de risco, isto é, nós estávamos numa área irregular, isso porque, dois rios correm ao lado das construções do CEU - Jaçanã, e nos períodos chuvosos é recorrente os desastres como enchentes, alagamentos e/ou inundações. Além de, na época, constatarmos um caso típico de descaso público, em virtude do atraso de obras para contenção de encostas, agravados por uma série de entulhos (restos de obras e lixos) espalhados pelo leito dos rios;
4) as ações de prevenção de riscos de desastres localizadas no bairro do Jaçanã. Neste ponto, optamos por utilizar as descrições feitas pelos próprios agentes locais de defesa civil, que, de modo geral, caracterizam os serviços, a estrutura e as ações de prevenção situadas naquele território. Como ilustração separamos algumas falas:
1)"Trabalhamos com um quadro de 4 profissionais, sendo 1 coordenador, 2 para emergências e 1 para o plantão no telefone"; 2) "Em relação às condições materiais para o auxílio à população, temos atualmente somente 1 machado para cortar árvores"; 3) "Em todo nosso território temos somente um único NUDEC em funcionamento"; 4) "Existem locais, onde foram removidas várias famílias, mas que essas já retornaram devido à demora na espera por habitações novas"; 5) "Existem, agora, muitas pessoas que se tornaram especializadas na negociação dos terrenos clandestinos situados em áreas de risco" (Diários de Campo – 24/09/2012).
Com base nesses relatos (ou denúncias) relacionados aos serviços, estrutura, organização e às ações locais de defesa civil, é possível identificarmos uma enorme lacuna entre os conteúdos e/ou enunciados das leis, instrumentos, parâmetros de atuação (conforme apresentados no capítulo 3) e as ações de prevenção (no cotidiano) localizadas neste território (conforme as falas dos agentes locais de defesa civil).
Em suma, o que nós encontramos na convivência com esses moradores, agentes públicos diversos e demais envolvidos é uma insuportável apatia por parte dos atores que desenvolvem ações e/ou intervenções no âmbito das políticas públicas, em especial, da Defesa Civil. Diríamos até, uma negligente e estúpida prática de não ação, em particular, quando se fala em prevenção de riscos de desastres. Estar nesses lugares, conhecer e conversar com essas diferentes pessoas, só nos confirmou algo que cruelmente já esperávamos: o predomínio do não (ou insuficiente) funcionamento das políticas de defesa civil, dos serviços, das instituições e das práticas sociais voltadas à prevenção de riscos de desastres.
CAPÍTULO 5
OS REPERTÓRIOS SOBRE RISCO: POLISSEMIA E CIRCULAÇÃO DE SENTIDOS NO COTIDIANO
Nós não fomos os primeiros a falar sobre Defesa Civil ou prevenção de riscos de desastres no CEU - Jaçanã.
[...] Concordamos, então, em aguardar e aproveitamos a situação para conversarmos com a coordenadora da EMEF até o horário da nossa atividade às 09h30. Dentre os assuntos relacionados à prevenção de riscos de desastres, conversamos sobre uma série de questões importantes, essas que envolviam, por exemplo: informações gerais sobre a EMEF; atividades locais da Defesa Civil; intersetorialidade das Políticas Públicas; e as relações entre escola, comunidade e demais grupos. A coord. nos contou sobre duas experiências pessoais, nas quais ela tinha levado grupos de estudantes na sede local da Defesa Civil (em outro território). Dentre suas considerações, nós destacamos os seguintes comentários: "Falta articulação entre os serviços, as instituições e a população". Como exemplo, ela mencionou a situação daqueles moradores que precisam avisar os agentes da Defesa Civil, através do telefone, sobre as condições de suas moradias. Em seu julgamento tal fator acaba por vulnerabilizar ainda mais as famílias, o que implica, quase que necessariamente em remoção. Além de ficarem algumas perguntas: 1) "Para onde serão levados?" 2) "Quais providências serão tomadas?" 3) "O que será ofertado aos envolvidos?" Ou seja: "quem vai querer isso pra sua família?"; Em suma: "Depois das visitas que fiz junto com os estudantes às sedes de defesa civil, não posso dizer que tenho uma boa imagem nem sobre a estrutura, nem sobre os serviços prestados pela Defesa Civil na cidade de SP. Uma delas até se mostrou adequada, aparelhada, mas isso não é garantia de um bom trabalho" (Diário de Campo – 10/09/2012).
5.1 As oficinas de risco como ferramenta teórico-metodológica para pesquisa com