11 APPENDICES
11.3 World Wildlife Fund (WWF) material
O rap, mais que um gênero musical, exprime a experiência urbana dos periféricos na cidade de São Paulo. Constitui-se como um símbolo de resistência cultural e ativismo urbano, como este trabalho buscou discutir.
Resultado de uma fusão entre gênero musical, sistema orientador e ativismo, o rap é portador de ideologias e narrativas que possibilitam a aproximação à realidade periférica e ainda localizá-lo como movimento social, que processa e critica a realidade.
A posição dominante classifica cor, raças, territórios e valores na sociedade, e impõem modos de ser, agir, normas, códigos de comportamento, códigos estéticos etc. A categorização, a classificação apressada, entre tantas outras a cultural, surge como meio de excluir. Ou seja, como um dos diversos mecanismos de dominação por exclusão. Nesse sentido, se tomarmos o referencial dominante, o rap, trilhou um caminho de desprestígio, sendo muitas vezes considerado subcultura por ter classe e território definidos.
As desigualdades sociais e, particularmente, raciais, a promoção de valores meritocráticos em uma sociedade que não oferece as mesmas oportunidades para todos, o consumismo exacerbado, o acúmulo do capital em detrimento da distribuição de renda, o sistema judiciário, todos esses planos são definidos e estabelecidos por um sistema que pune e condena a pobreza, recorrendo ao território para sua materialização. Sob o domínio dessa lógica, percebemos a nítida clivagem social que estabelece perfis para exclusão, nos quais indivíduos pobres e negros são alvos, e hoje, automaticamente vistos como suspeitos.
No presente trabalho, observamos que os mecanismos que imobilizam o sujeito relacionando-o a uma classe social e território são a causa, não o efeito, das políticas estatais. As políticas trabalham num sentido de garantir a manutenção das desigualdades. Para a continuação da segregação urbana como uma determinação histórica, prevê mecanismos de controle e dominação, como por exemplo, a negativação da expressão cultural periférica.
A determinação histórica fica evidenciada quando a figura do pobre e a figura do negro se confundem, normalmente, perfazendo uma só. Quanto à criminalização, esta ocorre como mecanismo de domínio e controle para manutenção do sistema.
No Brasil, o Código Penal de 1890 (promulgado dois anos após a publicação da Lei Áurea) ressalta o aspecto racista da sociedade republicana da época: as disposições do Título XIII, “Dos vadios e capoeiras”, criminalizavam a vadiagem (basicamente não exercer ofício, profissão ou não possuir meios de subsistência e domicílio certo) e a prática da capoeira (inclusive prevendo como agravante a prática em grupo e qualificando a prática de capoeira pelo mestre); já as disposições do Título III criminalizavam o curandeirismo, o espiritismo, a magia e até mesmo o uso de talismãs. Nem seria preciso dizer que tais condutas estavam diretamente relacionadas aos negros: seja em relação à própria cultura africana e afrodescendente, seja pela situação do negro naquele momento histórico. (Frade, 2015)
É evidente que o racismo, legalizado até 1940 (quando promulgado um novo Código Penal) e legitimado até hoje vem se mantendo aliado à situação de pobreza e exclusão territorial. O processo histórico ainda desencadeou a construção dos estereótipos de delinquentes, pela classe dominante majoritariamente branca.
A segregação urbana, agravada em São Paulo a partir da década de 1980, com o erguimento dos muros e a construção de enclaves fortificados, investimentos em sistemas de segurança eletrônicos, reclusão em condomínios fechados, passaram a integrar um conjunto de ações que utilizam como justificativa o aumento da violência nas áreas centrais. O novo padrão refletiu a orientação defensiva das elites em relação aos espaços públicos e também a sistemas de disciplina e discriminação social, pois a imagem do suspeito é feita de estereótipos e, consequentemente, a triagem discrimina os pobres e negros.
Dessa forma o rap, cantado e composto geralmente por sujeitos negros moradores de periferias é, equivocadamente, classificado como proveniente de uma subcultura ou mesmo da delinquência. Contudo, esse sentimento de exclusão e violência de classe é justamente a inspiração que alimenta os rappers, suas críticas e protestos em um ativismo urbano.
O rap foi compreendido no trabalho como ação insurgente e contra narrativa. Por meio dele, o rapper pode se colocar e informar a sociedade sobre situações diversas, sob seu ponto de vista, de uma forma criativa e crítica. A construção do espaço social acontece no cotidiano, por atores que vivenciam, representam e concebem o espaço. Dessa forma, os rappers, ao escolherem o cotidiano como fonte de inspiração e enredo para suas músicas, disputam esses espaços em suas dimensões simbólica, material, territorial e política.
Referêncas
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