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Na verdade, através da música, mesmo o sofrimento pode ser prazeroso. Os músicos, apesar de tudo, também experimentam sentimento de prazer quando executam a marcha fúnebre da Sinfonia Eroica (Daniel Barenboim).328

A terceira sinfonia de Beethoven é tida como um marco para a história da música ocidental. O revolucionário compositor alemão a compôs no espaço de tempo de dois anos, tornando-a, segundo especialistas, num ícone do nascimento do romantismo musical europeu. Até então, a marcha fúnebre já havia sido utilizada em ópera, instrumento solista ou pequenos grupos, mas não como fez Beethoven, em uma sinfonia, motivo de surpresas e críticas por parte de contemporâneos influentes.329 Ao término da sua primeira audição no teatro An der Wien, em

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COELHO, Geraldo Mártires. O brilho da supernova: a morte bela de Carlos Gomes. Rio de Janeiro: Agir, 1995, p. 47-48.

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A marcha de Gossec é uma peça curta de apenas 48 compassos, que se repetem, inteiramente em Dm, e é quase desprovida de melodia. Com duração aproximada de três minutos, caracteriza-se pelos densos acordes dos metais seguidos da percusão.

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RANDEL, Don Michael. Diccionário Harvard de Música. Versión española de Luis Carlos Gago. Madrid: Alianza Editorial, 2001, p. 620.

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BARENBOIM, Daniel. A música desperta o tempo. Tradução do inglês Eni Rodrigues. Tradução do alemão Irene Aron. São Paulo: Martins, 2009, p. 25.

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A Sinfonia nº 3, Heroica, em Mib Maior, opus 55, esboçada em Heiligenstadt em 1802 e terminada em Viena em 1804, foi editada pela primeira vez em 1806. Ela antecede em 33 anos a famosa marcha fúnebre de Chopin, escrita em 1837, cuja música será motivo de reflexão mais adiante. O segundo movimento – marcha fúnebre – constituído de 247 compassos, muito longo, para os padrões da época, chamou a atenção devido às ousadias presentes na partitura e por ter sido colocado no lugar costumeiro dos andamentos lentos das sinfonias.

7 de abril de 1805, “só recebeu alguns aplausos esparsos; os críticos julgaram-na interminável, sobrecarregada, incompreensível e demasiado barulhenta”, disse em depoimento de Czerny na ocasião.330 Entrementes, apesar dos desconfortos causados “por um trabalho inovador de estruturação dos timbres e por suas implicações extramusicais, a Heroica modificou a ordem formal do estilo sinfônico clássico”331 e Beethoven introduziu a solenidade da marcha fúnebre épica.

Figura 4 – Beethoven (1819). Ferdinand Schimon (1797-1852).332

Não somente pela partitura exuberante, mas também pelas atitudes do mestre que “viveu

como vive um compositor moderno, dos ganhos do seu trabalho num mercado livre”,333

o início do século foi de grande importância para a música. Isso porque, durante muito tempo, compositores escreveram, para atender ao mecenato régio, às vezes, desobedecendo ao próprio desejo de colocar no papel o que mais pretendiam.

“Homem de ideias avançadas e profundamente republicano”334

e entusiasmado com os ideais propostos pela Revolução, Beethoven dedicou a Napoleão a sua mais nova criação, a Terceira

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SOLEIL, Jean-Jacques; SOLEIL, Guy Lelong. As obras-primas da música. Tradução Antônio de Pádua Danese, Eduardo Brandão e José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 144.

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SOLEIL, Jean-Jacques; SOLEIL, Guy Lelong. As obras-primas da música, p. 144. 332

Schimon foi um pintor e cantor austríaco que viveu em Viena antes de se transferir para Munique. Obteve sucesso como músico e pintor. Criou uma série de retratos de músicos, entre eles as ilustrações de Louis Spohr, Carl Maria von Weber e esta de Ludwig van Beethoven. Quando realizou esse retrato, o compositor tinha 49 anos e o pintor 23 anos de idade. Disponível em: <www.beethoven-haus-bonn>. Acesso em: 18 ago. 2012. 333

RAYNOR, Henry. História social da música, p. 7. 334

Sinfonia, primeiramente denominda Sinfonia Bonaparte, mas rabiscou a dedicatória ao ser informado de que o mesmo se autoproclamara imperador.335 Decepcionado com a notícia do coroamento do Primeiro Cônsul, modificou o título da partitura rebatizando-a “Grande Sinfonia Heroica para celebrar a lembrança de um grande homem, passando a dedicá-la ao

príncipe Leibkowitz”.336

Partitura 1 – Primeiros compassos da Marcha Fúnebre da 3ª Sinfonia de Beethoven, editada por Ernst Eulemburg Ltd., Zürich.337

No conjunto da sua obra, trilhando entre o clássico e o romântico, Beethoven deixa transparecer os temas relacionados ao amor, à natureza e ao patriotismo que ajudaram a transformá-lo em símbolo de resistência contra a tirania e o absolutismo. O modelo bethoveniano foi copiado por mestres de grande envergadura dedicados à música sinfônica

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WAGNER, Richard. Beethoven. Tradução do alemão e notas Anna Hartmann Cavalcanti. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2010, p. 12.

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SOLEIL, Jean-Jacques; SOLEIL, Guy Lelong. As obras-primas da música, p. 144. 337

Nota-se o ritmo da semicolcheia pontuada e da fusa logo na anacruse da frase dos primeiros violinos, uma marca do ritmo da marcha fúnebre. Em seguida, um conjunto de três notas tocadas ascendentemente pelos contrabaixos, elemento de retórica destacado por Lanzellote, anteriormente empregado por Louis Couperin no Tombeau de M. Blancrocher em 1625 e posteriormente como anacruse usado por Ireno Baptista Lopes na sua Marcha da Paixão em meados de 1870 em São João del-Rei, como será mostrado adiante. [ir para o corpo do texto]

que, tal como ele, passaram a incluir a marcha fúnebre em suas obras. Definitivamente, Gustav Mahler se destaca entre eles.338

Conta-se que um grande número de pessoas presenciou o enterro de Beethoven. “Os ricos olhavam de suas carruagens, o povo se comprimia para olhar pelas janelas, ou corria à frente para encontrar melhores lugares por trás dos cordões de isolamento”.339 Nada de surpreendente, visto que ele havia se transformado em uma figura pública, pois, diferentemente de seus antecessores, nunca foi um fornecedor de música para a nobreza. Com sua atitude, ajudou a fazer dos grandes compositores heróis e patrimônio de toda a humanidade não somente de círculos reduzidos da alta sociedade. Não por acaso, desde a sua morte, os funerais de grandes artistas se configuraram como acontecimentos grandiosos e de repercussão internacional.

Uma grande obra sendo tocada em funerais de figuras ilustres da política e da música internacional se converteu em fato corriqueiro desde meados do século XIX quando o número de compositores se dedicando à criação de marchas se ampliou significantemente. A Heroica de Beethoven começou a ser interpretada em ocasiões memoráveis. A marcha foi ouvida no funeral do jovem compositor alemão Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), que falecera dois anos antes de Chopin. Sucederam-se outros enterros, e, em pleno século XX, orquestras foram chamadas para interpretar a obra em momentos solenes. O maestro Serge Koussevitzky tocou a sinfonia para o funeral do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), e Bruno Walter realizou a sinfonia inteira para Arturo Toscanini (1867-1957), maestro italiano morto em Nova York e levado para a Itália para ser enterrado no Cemitério Monumentale em Milão. Em uma cerimônia de grande repercussão internacional, o segundo movimento também foi tocado pela Orquestra Filarmônica de Munique durante o enterro das vítimas do “Massacre de Munique” mortas por terroristas durante os Jogos Olímpicos de 1972.

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A galeria dos compositores que escreveram marchas fúnebres e as incluíram em obras maiores, após Beethoven, é repleta de grandes figuras da música sinfônica internacional. Não sendo possível uma relação completa, destaco alguns: Charles François-Gounod: Funeral March of a Marionette da Suite Burlesque; Sergei Prokofiev: Marcha Fúnebre de Romeu e Julieta; Dmitri Shostakovich: Marcha Fúnebre (Adagio Molto) do Quarteto de cordas nº 15; Giacomo Puccini: Marcha Fúnebre para Liu, da Ópera Turandot; Philip Glass: The “Funeral Music” for Akhnaten‟s father in Act I of the opera Akhnaten; e Zdenëk Fibich: The funeral march of opera “The Bride of Messing”.

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As dificuldades impostas pela escrita da marcha fúnebre da Heroica e a sua extensão impediram sua transcrição para banda, que prioriza peças mais curtas e de menor dificuldade técnica. E com ela ficam bem determinadas aquelas músicas eruditas mais adequadas às salas de concerto e de outras peças mais populares que vão se adequar melhor às manifestações de rua.

A importância histórica da marcha fúnebre da 3ª sinfonia não ofusca o reconhecimento de outras obras fúnebres do mestre, como a Sonata para piano nº 12 em Lá bemol maior, op. 26. Nela, encontra-se a Marcha Fúnebre sulla morte d‟un Eroe (1801), uma peça com dedicatória, de ampla aceitação dos pianistas e do público. Supõe-se que ela tenha sido um

“ensaio” para a futura Heroica, visto que o mestre a ela se dedicou um ano antes de iniciar a

escrita da sinfonia.340 Beethoven, sempre inovador, inverteu os movimentos internos da sonata – colocou o scherzo antecedendo a marcha fúnebre –, mas conservou as características próprias do ritmo de notas pontuadas que conferem à música um caráter marcial, militar. Teria Beethoven buscado inspiração realmente em um herói militar ou teria reagido à depressão experimentada em decorrência dos sintomas da incurável surdez?

Por sua vez, destaco a trauermarsch em Si bemol menor. Notadamente, sua escrita mais simples e seu caráter marcial favoreceram os arranjos e as transcrições que recebeu para banda de música. Por essa razão, a Funeral March é mais recorrente no repertório dos grupos brasileiros, podendo ser encontrada com certa frequência nos arquivos dessas corporações musicais. No entanto, não é tão solicitada, ou citada, quanto a marcha de Chopin.341