Shame, violence and the black body – narrative resistance
3.1. Inheritance of shame
Com a nau que trouxe ao Brasil, em 1817, a arquiduquesa d‟Áustria D. Leopoldina, veio numerosa e variada comitiva, inclusive uma banda de música,250 organizada e dirigida por
246
LANGE, Francisco Curt. A música no Brasil durante o século XIX, p. 145. 247
LANGE, Francisco Curt. Los músicos ambulantes alemanes y su actuación en el Brasil. Latin-American Music Review, Austin: Universidad de Texas, año I, n. 2, 1980.
248
Duas das Forças Armadas do Brasil foram criadas a partir de 1824: Exército e Marinha. A Aeronáutica é de 1941.
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Em agosto de 2011, a Polícia Militar de Minas Gerais possuía 19 bandas de música. No mesmo período, estava em andamento a criação de outras, como é o caso da de Poços de Caldas. Nenhuma das cidades envolvidas nesta pesquisa possui uma banda de música da polícia militar, somente São João tem a do Exército. Sobre as bandas de música da Polícia Militar de Minas Gerais, consultar www.pmmg.mg.gov.br.
250
Erdnan Neuparth, mestre de banda militar.251 O hábito de embarcar nas caravelas grupos de músicos com objetivo de tornar a viagem entre Portugal e o Brasil menos cansativa e monótona parece ter sido comum naquela época. E foi nesse ir e vir de embaixadores, príncipes e princesas que muitos músicos chegaram ao Brasil e permaneceram. O próprio maestro Neuparth foi um deles.
Tendo a banda que dirigia agradado, foi convidado a fixar-se no Rio de Janeiro com seus músicos, constituindo a Música das Reais Cavalariças, denominação dada à corporação dos antigos menestréis da corte. “Foi sensacional o êxito alcançado por essa banda magnificamente organizada.252 José Maurício compôs para ela 12 divertimentos”,253 cujo
paradeiro é ignorado. “A banda ensaiava ao ar livre, bem defronte da casa onde José Maurício
tinha seu curso de música. Os ensaios eram assistidos por uma verdadeira multidão”.254 Em carta enviada ao seu irmão Francisco, em 1º de janeiro de 1818, d. Leopoldina, esposa de D. Pedro I, menos de um ano após ter chegado ao Brasil, deixou claro o ambiente musical que
encontrou na nova terra, especialmente no palácio imperial: “a uma hora estudo violão e, com
o meu esposo, piano. Ele toca viola e violoncelo, toca todos os instrumentos, tanto os de corda quanto os de sopro. Talento igual para a música e todos os estudos, como ele possui, ainda
não tenho visto”.255
Essa habilidade demonstrada por D. Pedro I bem reflete as condições em que esses jovens
reinóis estudavam música. Segundo Thurston Dart, “os músicos geralmente tocavam muitos
instrumentos visto que precisavam tocar as músicas de interior e possuíam instrumentos mais
possantes para serem usados ao ar livre”.256
Foi nesse ambiente que a corte “migrada e
251
Erdnann, ou Eduardo Neuparth, nasceu em 6/4/1784 no Principado de Reis, em Voigtlande na Saxônia. Cf. BINDER, Fernando. O Dossiê Neuparth, p. 71-101.
252
A banda era formada por 16 músicos, incluindo o maestro Neuparth e se distribuía da seguinte forma e vencimentos: Hum Director, 1$600 Reis, 1.º Clarinete 1$200, 2.º Clarinete, 1$200, 2.º Clarinete 1$200, 2.º D.º 1$200, Flautim 1$200, Dº 1$200, 1ª Trompa 1$200, 2.ª D.ª 1$200, 1.º Clarim 1$200, 2.º Clarim, 1$200, 1.º Fagote 1$200, 2.º Fagote 1$200, Trompão 1$200, Bumbo 600, Rufo, 600, Prateiro 480, D.º 480. Informações prestadas pelo próprio Erdnann Neuphart em autobiografia. Cf. BINDER, Fernando. O Dossiê Neuparth, p. 71- 101. Deve-se observar que o número de 16 componentes desse conjunto já se mostra grande para o momento. O próprio Neuparth, antes de vir para o Brasil, mantinha na Europa um grupo formado por sete músicos que viajava em serviço entre cidades e países. Segundo DART, Thurston. Interpretação da música, 2000, p. 59, os conjuntos instrumentais, desde a época de Lully e Purcell, no final do século XVII, sempre foram pequenos. 253
SANTOS, Maria Luiza de Queiroz Amâncio. Origem e evolução da música em Portugal e sua influência no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942, p. 123.
254
ANDRADE, Ayres de. Francisco Manuel da Silva e seu tempo (1808-1865), v. 1, p. 131. 255
LUSTOSA, Isabel. Dom Pedro I. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 86. 256
recriada”257
introduziu no Brasil costumes de uma Europa mais tradicional onde não podiam faltar festas, procissões, Te Deum, funerais e Semana Santa suntuosos. E para celebrá-los, a corte se incumbiu de criar sua orquestra, seu coral e bandas de música, formados por músicos contratados na Europa aos quais foram se juntando os negros escravos e mulatos nascidos no Brasil. Esse movimento musical ampliado ganhou novos contornos desde a vinda da pianista e arquiduquesa D. Leopoldina.258
A estada de d. Leopoldina no Brasil foi curta, visto que faleceu em 11/12/1826, aos 29 anos de idade. Passou por um período de amarguras ao lado do esposo, que descreveu como homem amável e bom, antes de surgirem os primeiros problemas conjugais. Em carta endereçada ao seu pai, o imperador Francisco I da Áustria, no dia 24 de janeiro de 1818, ela revelou o seu entusiasmo e admiração pelas habilidades musicais de D. Pedro: “o meu marido é compositor também, faz-vos presente de uma sinfonia e de um Te Deum composto por ele. Na verdade são um pouco teatrais, o que é culpa do seu professor,259 mas o que vos posso assegurar é que ele próprio os compôs sem o auxílio de ninguém”.260
Esse ambiente alegre, de muita música e festa para D. Leopoldina, haveria de mudar. Desde o momento em que D. Pedro passou a se relacionar com Domitila de Castro Canto e Melo,261 tornando-a sua amante, seu relacionamento com o esposo piorou. Quando morreu, deprimida e solitária, apesar do ambiente musical alegre descrito pela mesma, seu sepultamento aconteceu na ausência do imperador. No dia da sua morte, d. Pedro encontrava-se em São José do Norte, província do Rio Grande do Sul, envolvido que estava com a Guerra da Cisplatina (1826-1828). Esse, sem dúvida, teria sido um momento dos mais importantes se seu enterro tivesse sido realizado com toda a pompa. Mas, segundo Carl Seidler, não foi o que ocorreu. O desapontado viajante alemão descreveu a triste cerimônia que foi acompanhada por poucas pessoas, situação incomum para as exéquias de uma rainha:
O sepultamento propriamente teve lugar sem qualquer solenidade; foi uma cena triste de desespero, desordem, dúvida e medo. Vez por outra ouviam-se tiros de salva fúnebre e alguns sinos dobravam, tudo, porém tão irregular e precipitadamente como se dependesse de um minuto na conclusão do triste
257
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Império em procissão, p. 35. 258
Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena (Viena, 22/1/1797 – Rio de Janeiro, 11/12/1826).
259
Não especifica se Sigismund Neukomn ou Marcos Portugal. 260
LUSTOSA, Isabel. Dom Pedro I, p. 86. 261
Marquesa de Santos (São Paulo, 27/12/1797 – 3/11/1867), nobre brasileira e célebre amante de D. Pedro I. Eles se conheceram no dia 29/8/1822, sete dias antes da Proclamação da Independência do Brasil. Em 4/4/1825, D. Pedro I a nomeou primeira-dama da Imperatriz.
serviço realizado do objetivo que se visava, e que se arriscava perder com a menor protelação.262
Em carta à Marquesa de Santos datada de 15/1/1827, transcorridos 33 dias da morte da imperatriz e escrita ainda a bordo da nau Pedro Primeiro que o trouxera de volta ao Rio de Janeiro, D. Pedro se manifestou: “eu tomo nojo por oito dias [em referência à morte de D. Leopoldina] e esta é a única razão que eu não vá logo, como desejava, abraçar-te”.263
Da mesma forma, as mortes dos filhos do imperador passaram despercebidas, sem as costumeiras homenagens que se prestavam às pessoas de corte quando do seu falecimento, mesmo sabendo que aos pequenos não se prestavam as mesmas deferências nesses momentos.264 A pouca, ou nenhuma pompa, dada aos funerais dos filhos de D. Pedro I, principalmente da filha legítima Paula Mariana, nos impediu da notícia de bandas de música tocando nos enterros de membros da família real.
D. Pedro já deveria conhecer o gênero musical que algumas bandas militares tocavam, sem contar com as partituras para piano ou orquestra que deva ter tido acesso por meio dos músicos que lhe prestavam serviço: Sigismund Neukomn e Marcos Portugal, principalmente. Eram, seguramente, músicas de autores estrangeiros, pois não tínhamos ainda, entre os músicos nascidos na Colônia, os inclinados a compor música instrumental fúnebre. Inclusive,
“o que se cantava no Brasil até a Independência como hino nacional era, naturalmente, o português”.265
São inúmeras as descrições de enterros ocorridos no Rio de Janeiro naquelas primeiras décadas do século XIX. Caracteriza-os o mesmo gosto pelas exterioridades e ostentações que se nota nas outras cerimônias religiosas. Variam, porém, largamente de acordo com a idade e
a condição do morto. Em se tratando de uma criancinha, observou Daniel Kidder, “o enterro é
262
Apesar das modestas encomendações que se celebraram no Rio de Janeiro, a notícia da morte da imperatriz foi lembrada em outras partes do Império, como ocorreu na Matriz de Nossa Senhora do Pilar em São João del- Rei. No dia 20 de fevereiro de 1827, passados mais de dois meses da sua morte, por intuição da Câmara
Municipal, “foram celebradas exéquias solenes na Matriz, em memória da Imperatriz Senhora Dona Maria Leopoldina Josefina Carolina, falecida no dia 11 de dezembro de 1826”. Cf. ALVARENGA, Luís de Melo.
Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. São João del-Rei, 1971, p. 24-25. (edição do autor).
263
Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos, 1984, p. 159. 264
VAILATI, Luiz Lima. Funerais de anjinho na literatura de viagem. Revista Brasileira de História, São Paulo, 2002, v. 22, n. 44, p. 365-392. Em 13 de março de 1826, faleceu Pedro de Alcântara Brasileiro (1825-1826) e, pouco tempo depois, no dia 25/10/1828, foi a vez de Maria Isabel Alcântara Brasileira (1827-1828), ambos filhos ilegítimos do imperador com Domitila. Posteriormente, em 16/1/1833, veio a morrer, aos 11 anos de idade, Dona Paula Mariana, filha do casal real, para a qual faltaram as devidas solenidades que deveriam ser realizadas para uma pessoa de corte. Não houve anúncios e convites para as exéquias, consideradas pobres, inadequadas para os costumes da época. Cf. Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos, p. 110-131.
265
considerado motivo de júbilo e organizam, então, uma procissão triunfal”,266
diferente dos concedidos aos adultos. Por sua vez, cerimônias eram ainda realizadas nas igrejas ou conventos, o que dispensava o cortejo fúnebre pelas ruas das cidades e a participação das
bandas de música. Pelos relatos disponíveis, nem as “marchas festivas” foram notadas nos
funerais dessas crianças filhas do imperador.
O caráter espetacular dos ritos fúnebres e a ampla mobilização social com a participação das irmandades e do poder público em breve ganhariam as vias públicas para se tornarem, juntamente com as procissões da Semana Santa, momentos únicos para a apresentação das marchas fúnebres. Por esse motivo, a ausência de música acompanhando o enterro de d. Leopoldina merece consideração, visto que já havia no Império bandas de música com repertório adequado ao cerimonial fúnebre. A prática, circunscrita ao meio militar, poderia facilmente ter sido estendida aos funerais da imperatriz. Não poderia haver naquele momento motivo melhor para que se pudesse fazer desfilar, fechando o cortejo, um grupo de músicos militares fazendo ressoar seus toques fúnebres.
Já havia naquela época descrição de bandas tocando nas procissões da Semana Santa. Porém, o costume de se ter música nos enterros estava ainda por se definir, visto que eles ainda eram realizados nas igrejas, lugar onde a banda de música não tinha participação. Era preciso que os enterros passassem a ser realizados nos cemitérios públicos que começaram a ser construídos a partir da década de 1830. Então, as bandas passaram a ter condições de atuar com mais intensidade nessas ocasiões. Assim, explica-se como o enterro de uma nobre se realizou sem música.
2.6 A inclusão da marcha nos enterros e nas procissões: os relatos de Seidler e