Shame, violence and the black body – narrative resistance
3.4. Refusing shame – narrative resistance
Thomas Lindley, protestante inglês, foi um dos homens que se aproveitaram da abertura dos portos da colônia portuguesa na América do Sul para finalmente visitar a “desconhecida terra”
e promover “novo descobrimento do Brasil”, segundo palavras de Sérgio Buarque de
Holanda,296 tamanha a importância do relato de suas observações. Esses viajantes, militares, pastores, artistas, naturalistas, mercadores, ou outros profissionais, vindos especialmente da Inglaterra, França e Alemanha, trataram de registrar e publicar o que viram, criando uma
“literatura” feita de relatos, de memórias de viagem.
John Luccock, que esteve no Brasil entre 1808 e 1818, de início, se espantou com as cenas grotescas de enterros, tanto de brancos quanto de negros, na cidade do Rio de Janeiro. Todavia, confessou que
Em anos subsequentes, a rudez costumeira do cerimonial fúnebre de muito se adoçou. Tornou-se hábito entre a gente fidalga usar por cima do ataúde de uma coberta solta, fácil de retirar-se; o corpo não fica exposto ao público nas ruas, sendo visto, no máximo, apenas pelos padres dentro da igreja. Recebem o corpo no dia do falecimento, conduzem-no à sepultura e procedem ao enterro; um ou dois dias após, levanta-se na igreja um grande altar, coloca-se em cima um caixão vazio, coberto com uma mortalha em que se vê bordada uma cruz; sobre ele se canta o réquiem e se executam as cerimônias maiores.297
296
LISBOA, Karen Macknow. Viajantes veem as festas oitocentistas. In: KANTOR, Iris; JANCSÓ, István (Org.). Festa: Cultura & sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec, 2001, p. 623-635. (citação na p. 623).
297
Esse abrandamento para que as pessoas deveriam ser sepultadas no “interior d‟algum edifício
sagrado”298
está, sem dúvida, alinhado ao uso do caixão e do requiem cantado na igreja durante exéquias. Do lado de fora do templo, era comum ouvir música e assistir a gestos de continência prestados pelos soldados-músicos quando se deparavam com uma procissão. “Ao Santíssimo Sacramento, às relíquias do Santo Lenho, punham-se as armas em adoração, inclinavam-se as bandeiras e os estandartes, as músicas e cornetas tocavam marchas graves”.299 Certamente, repetiam esses gestos em enterros naqueles tempos tocando marchas graves ou acordes de marcha fúnebre da maneira como os militares escreveram em suas orientações sobre funerais de seus companheiros de farda, como se observará adiante.
A marcha fúnebre se valeu de um acontecimento básico e marcante o bastante para poder se firmar como gênero musical no Brasil e no exterior: a construção de cemitérios afastados dos núcleos urbanos. Tudo porque, desde fins do século XVIII, o século das Luzes, iniciou-se um trabalho para retirar desses espaços a condição de receber os mortos, atendendo primeiro a uma demanda de saúde pública e, em segundo, ao apelo cultural e científico dos iluministas,
para quem os sepultamentos não deveriam mais ocorrer nas igrejas, “onde a acumulação de
sepulturas contribui para a poluição urbana”. A sua transferência para fora das muralhas,
segundo Daniel Roche, “modificou profundamente, e não sem dificuldades, uma relação com a morte, com o sagrado”.300
298
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro, p. 171. Em 1810, com o Tratado de Comércio e Navegação, os ingleses, protestantes, puderam construir e fazer funcionar, no Rio de Janeiro, um cemitério próprio que lhes garantia, além de uma sepultura, a possibilidade de praticar suas cerimônias fúnebres sem a interferência dos preceitos católicos. Em Sorocaba, cidade do interior paulista, o episódio da interdição do sepultamento de um protestante no cemitério católico fez D. João VI, em 1811, decretar o estabelecimento de um cemitério especificamente destinado aos anglicanos. Uma questão que os portugueses católicos tiveram que arranjar para que se efetuassem os sepultamentos dos não-católicos, como os dos aliados ingleses da igreja anglicana. Desde então, foram criados cemitérios para os ingleses em algumas cidades brasileiras, principalmente as portuárias, como foi o caso do Rio de Janeiro, que mandou construir um na Gâmboa, ainda no ano de 1811, quando se realizou o primeiro enterro no mês de abril do mesmo ano, fato registrado por John Luccock. Sobre a construção de cemitérios protestantes no Brasil, cf. RODRIGUES, Cláudia. Cidadania e morte no Oitocentos: as disputas pelo direito de sepultura aos não-católicos na crise do Império (1869-1891). In: Anais do XXIV Simpósio Nacional de História: História e Multidisciplinaridade: Terremotos e deslocamentos, 2007, São Leopoldo. Anpuh/UNISINOS, 2007; ou RODRIGUES, Cláudia. Sepulturas e sepultamentos de protestantes como uma questão de cidadania na crise do Império (1869-1889). Revista de História Regional, v. 13, n. 1, p. 23-38, verão, 2008.Cláudia Rodrigues destaca ainda algumas datas importantes como a Resolução de 20/4/1870, que reservou aos protestantes espaços para sepultamentos, visto que os cemitérios públicos ainda eram fundamentalmente católicos. Em 1879, a Câmara dos Deputados discutiu projeto de secularização dos cemitérios proposto pelo deputado maçom Saldanha Marinho, tendo sido defendido por Joaquim Nabuco, dentre outros; em 1890, deu-se a implementação da secularização de cemitério e casamento civil; e, em 1917, ocorreram a implementação do Código Civil e a retirada definitiva do controle eclesiástico dos registros de nascimento, casamento e óbito. 299
SEIDLER, Karl. Dez anos no Brasil, p. 42 300
As novas maneiras de tratar os sepultamentos no século XIX favoreceram “o retorno da
memória dos mortos, com novos tipos de monumentos, inscrições funerárias e o rito da visita
ao cemitério”.301
É uma nova época quando vão ser valorizados os costumes de vestir-se de luto, de demonstrar publicamente os sentimentos de tristeza pela morte do outro. Entraram em curso novas tendências, costumes funerários que proporcionaram maneiras de representação em que bandas de música e marchas fúnebres se viram presentes. Convém observar as conclusões de Phillip Ariès de que:
A partir do século XVIII, o homem das sociedades ocidentais tende a dar à morte um sentido novo. Exalta-a, dramatiza-a quere-a impressionante e dominadora. Mas, ao mesmo tempo, já se preocupa menos com a própria morte, e a morte romântica, retórica, é antes de mais nada a morte do outro; o outro, cuja lamentação e saudade inspiram ao século XIX e ao século XX o culto novo dos túmulos e dos cemitérios.302
Sobre a morte, observados os quatro tempos longos expostos por Ariès, interessam-nos o
iniciado no Barroco, no século das Luzes, quando “a morte do outro assume sentido de ruptura, passa a ser indesejável, embora admirada pela beleza que lhe dá o romantismo”. Em
seguida, àquele que se desenvolve ao longo do século XIX e atinge o XX, a partir do
momento em que ela passa a ser “acompanhada no leito do moribundo, por ritos e manifestações de choros, gestos dramáticos”.303
A morte converte-se em realidade constante
na vida das pessoas que se “familiarizam [com] os acompanhamentos fúnebres às igrejas e aos cemitérios”, colocando-se como “parte integrante na vida cotidiana das pessoas”.304