Shame, violence and the black body – narrative resistance
3.3. Doubling father figures
A história da marcha fúnebre no Brasil se confunde também com a do piano, que começou a ser importado em grande escala já na primeira metade do século XIX. Chegaram muitos, vindos diretamente da Inglaterra para ocupar as salas das casas das famílias mais abastadas do Império que necessitavam de instrumentos modernos e de qualidade para responder às exigências de pianistas e professores. Por isso, os comerciantes anunciavam instrumentos de
boa qualidade e mais resistentes ao clima. E “por gozarem as mercadorias inglesas de tarifas
283
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador, p. 226. 284
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador, p. 226. Segundo a autora, isso ocorreu a partir de 1871. 285
Na segunda metade do século XIX, acompanhando a difusão das bandas de música, surgiram também figuras
de grande valor no cenário musical brasileiro. Como exemplo, podemos citar Miguel dos Anjos Sant‟Anna
Torres (1837-1902), que se destacou como compositor de marchas militares e regente de bandas no Norte e no Nordeste do Brasil, e Anacleto de Medeiros (1866-1907), chamado para o cargo de 1º regente da Banda do Corpo de Bombeiros que ajudara a criar em 1896. Cf. Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira. Disponível em: <www.dicionariompb.com.br>. Acesso em: 10 out. 2011.
privilegiadas nas alfândegas brasileiras, em retribuição aos serviços prestados pela esquadra da Sua Majestade Britânica na trasladação da corte portuguesa para o Brasil”,286 a entrada dos pianos, principalmente britânicos, foi bastante significativa.
Foto 2 – Homens negros, vestindo calça e paletó, pés descalços transportando piano de cauda no Rio de Janeiro no século XIX. Carregavam os instrumentos importados levando à mão chocalhos ou sinos para
alertar pessoas, pedir desobstrução das passagens estreitas das ruas da cidade.287
Aos poucos, o piano integrou-se à vida brasileira. “De início um indiscutível distintivo de classe social, no fim do século ele já ultrapassava os salões senhoriais, atingindo bairros mais modestos e até arrabaldes”.288 O gosto pelo instrumento chegou às grandes fazendas brasileiras onde se cultivava o gosto pela prática musical. O privilégio de se ter boa música ao som do piano possibilitou que compositores das pequenas cidades e fazendas se dessem ao luxo de compor e ouvir música que só poderiam ser apreciadas nos grandes centros. O caso de Dores de Campos, no interior de Minas Gerias, exemplifica bem. Lá, em fins do século XIX,
“O Primo da Califórnia, opereta de Joaquim Manoel de Macedo, musicada pelo grande e
saudoso pradense, intelectual e musicista, professor Antônio Américo da Costa,
286
ANDRADE, Ayres de. Francisco Manuel da Silva e seu tempo (1808-1865), v. 1, p. 47-48. 287
DINIZ, Edinha. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Nova ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: J. Zahar,
2009. Segundo Jurandir Malerba, “quando a carga era muito pesada, juntavam-se aos quatro ou aos seis, sendo
que um capitaneava a atividade, imprimindo ritmo à equipe com suas cantilenas africanas, sempre curtas e
repetidas, que os demais entoavam em coro”. Cf. MALERBA, Jurandir. A corte no exílio, p. 142.
288
possivelmente foi encenada por volta de 1890 na Fazenda do Capão, onde havia boa pianista”.289
Em 1834, construiu-se no Rio de Janeiro o primeiro piano brasileiro. As melhores casas passaram a ter um piano, o qual, além das suas funções musicais, ajudava a compor o ambiente. Em Recife, o Diário de Pernambuco anunciou a venda de piano em loja de ferragens localizada à Rua da Cruz, nº 60. Lá, no início de janeiro de 1839, ano em que Chopin concluiu sua Sonata da Marcha Fúnebre, se encontrava à venda piano francês, do tipo
armário residência “de uma das melhores fábricas de Paris, com excelentes vozes e próprio
para ornamento da sala por ser mui rico, e d‟um gosto novo e moderno; na mesma casa também tem outros pianos para vender e para alugar”.290
Em 1816, no navio em que veio o embaixador especial de Luís XVIII, o Conde de Luxemburgo, com a missão de restabelecer os laços diplomáticos entre a França e o Brasil, embarcou, também, o compositor austríaco Sigismund Ritter von Neukomm (Salsburgo, 1778
– Paris, 1858), para se tornar um dos músicos mais prestigiados a serviço da corte no Brasil.
Neukomm, admirado pela sua compatriota D. Leopoldina, fez-se, além de estimado compositor, influente professor de música de D. Pedro I, tornando-o músico hábil em vários instrumentos (clarineta e violoncelo, p. ex.) e na arte de compor e de dirigir grupos musicais.291
Sigsmund von Neukomm, que retornou a Paris em 1822, trouxe consigo a boa formação musical que tivera em Viena, inclusive dos irmãos Haydn – Michel e Franz Joseph –, esse último, famoso e dos mais requisitados músicos da sua época. Neukomm era tipo nômade – passou por diversos países – e “sua vinda e estabelecimento no Rio de Janeiro foram favorecidos pelas relações diplomáticas entre Portugal e Áustria”.292 Conhecedor da estilística clássica, logo se encantou com a sensibilidade e habilidades demonstradas pelo insigne padre compositor José Maurício Nunes Garcia, aproximando-se do mestre brasileiro. Durante sua
289
PEREIRA, José Lopes. Na terra da figueira encantada: História de Dores de Campos. 3. ed. 1979, p. 89-93. (edição do autor). Na fazenda do Capão, em resposta ao sucesso alcançado com a opereta, foram encenadas outras peças como José do Telhado; Amor e Honra; Gaspar, O Serralheiro; e O Poder do Ouro, além de outras. 290
Diário de Pernambuco, Recife, de 19/1/1839, p. 3. Cf. DINIZ, Jaime Cavalcanti. Um compositor italiano no Brasil, p. 27. Segundo Jaime Diniz, “O número de pianos era incontável no Recife por volta de 1839. Até
armazéns de chapéus ofereciam “Piannos mui ricos e de superiores vozes, e de diversos preços”, como
anunciado pelo Diário de Pernambuco, Recife, nº 160, 04/1/1840, em sua página nº 4. 291
Além de Neukomm, D. Pedro foi aluno também do seu conterrâneo Marcos Portugal. 292
MONTEIRO, Maurício. Aspectos da Música no Brasil na primeira metade do século XIX. In: MORAES, José Geraldo Vinci de; SALIBA, Elias Thomé (Org.). História e música no Brasil. São Paulo: Alameda, 2010, p. 79-116. (a citação encontra-se na p. 102)
estada no Brasil, deu prosseguimento à sua profícua arte de compor sem deixar à parte suas habilidades de pianista e professor de música.
Foto 3 – Sigismund von Neukomm por Ary Scheffer (1795-1858). Fonte: Fundação Biblioteca Nacional – Divisão de Música e Arquivo Sonoro.
Sua competência o credenciou a terminar algumas obras de seu mestre Joseph Haydn em 1809, além de, em 1824, concluir e divulgar na Europa os arranjos que fizera de 20 modinhas de autoria do brasileiro Joaquim Manoel da Câmara e a compor obras para fortepiano a
exemplo de “o amor brasileiro”, homônima sobre o lundu de Domingos Caldas Barbosa.293
Tanto gosto pela temática local reflete o quanto significou para o Brasil ter em suas terras músico do seu porte, um dos melhores representantes da Europa naquele momento.
Neukomm compôs pelo menos três marchas fúnebres até aquela época, sendo duas delas concretizadas no Brasil. A primeira foi composta para piano (depois transcrita para conjunto de cordas pelo próprio) em memória de Jan Ladislav Dussek, pianista e compositor da República Tcheca, com o qual mantivera relações de amizade.294 A segunda, uma partitura para Grande Orquestra Militar, de 22 de junho de1817 (posteriormente instrumentada para piano a quatro mãos), foi em memória do conde da Barca – Antônio de Araújo e Azevedo295– que falecera um dia antes da criação da peça. A terceira faz parte de uma obra maior que
293
MONTEIRO, Maurício. Aspectos da Música no Brasil na primeira metade do século XIX, p. 104.
294 Marche funèbre. Tirée de L‟Elegie harmonique sur la mort de J. L. Dussek composée pour le piano forte et
arrangée pour 2 violons, alto, e 2 violoncelles pour le chevalier Sigismund Neukomm. Partes musicais disponíveis em: <http://www.rem.ufpr.br/_REM/REMv5.1/vol5-1/neukomm.htm>. Acesso em: 13 ago. 2012. Trata-se de Jan Ladislav Dussek (1760-1812), e a edição de que dispomos não traz a data da composição que deve ter sido escrita ainda na Europa no ano de morte do compositor e quatro anos antes de Neukomm ter vindo para o Brasil.
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Foi ele quem trouxe em 1807 as máquinas impressoras inglesas que inauguraram a imprensa no Brasil, bem como o responsável direto pela vinda da Missão Artística Francesa em 1816, um ano antes de vir a falecer.
dedicou ao rei da Prússia em fevereiro de 1819. A obra se compõe de 13 marchas para grande orquestra militar, das quais a primeira é de caráter religioso e a última é uma marcha fúnebre. Essas músicas bem que poderiam ter sido usadas em funerais no Brasil. No entanto, não temos notícia desse acontecimento. Neukomm, pianista que era, certamente as apresentou em
público, somente não temos notícia de onde e quando os “concertos fúnebres” se deram. De
qualquer forma, tem-se a certeza da disponibilidade dessas partituras no Brasil e de músicos prontos para tocá-las ao piano, em pequenos conjuntos de cordas ou por uma “grande
orquestra militar”, já na segunda década do século XIX.