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§29 Segundo tal visão mecanicista e materialista, oriunda,

prioritariamente, da física de Galileu (admirada por Hobbes37), o universo é formado por movimentos que atuam, enquanto força, nos corpos, sem, no entanto, a estes pertencerem. Neste sentido, o movimento significa, simplesmente, alteração em uma posição espacial de determinado corpo material38, a qual só é possível porque outro corpo imprimiu, naquele primeiro, certa força, empurrando-o e ocupando o seu local. Portanto, não há, pelo movimento, alteração nas propriedades, na qualidade, dos objetos (como pensavam os Aristotélicos)39, mas, tão somente, alteração na posição destes. §30 É importante compreender que a cessação do movimento de uma

coisa que estava se movendo só se dá em razão de um movimento em sentido contrário de outra coisa que possua igual potência dinâmica, pois, no caso desta segunda coisa possuir uma maior potência de movimento do que a potência dinâmica da primeira coisa, em sentido contrário ao movimento desta, esta primeira coisa continuará se movendo, só que em sentido inverso, ou, em outras palavras, esta será movida. Assim, um corpo não pode se mover, ou deixar de se movimentar, por si mesmo, mas, apenas, por forças que nele são impressas. Portanto, se não houver força que pressione um corpo, ou se houve uma composição de forças externas cuja resultante seja nula, tal corpo, se parado, continuará parado, e se em movimento, continuará se movendo.

37 TUCK expressa: “...há boas razões para supor que Hobbes tenha iniciado suas investigações

filosóficas no final dos anos 1630 porque ficara intrigado com os problemas filosóficos levantados pela ciência natural moderna, particularmente com a possibilidade de substituir o ceticismo do final da Renascença por uma filosofia adaptada às idéias de (sobretudo) Galileu”. Hobbes. p. 57;

38 TUCK, Richard. Hobbes. p. 63

39 LEIJENHORST, Cees. Sense and Nonsense about Sense – Hobbes and the Aristotelians on Sense

Perception and Imagination. in SPRINGBORG (Org.) The Cambridge Companion to Hobbes's Leviathan. p. 84;

§31 Esta dinâmica entre os corpos, que foi primeiramente40 visualizada

por Galileu41, e depois enunciada por Newton42, consiste no Princípio da Inércia. Ela permeia toda a filosofia hobbesiana e abarca a idéia de liberdade na medida em que apenas os corpos que conseguem manter o seu estado dinâmico é que são livres.

§32 Mas, afinal, o que é corpo? A resposta a esta pergunta consiste na

compreensão da visão materialista do mundo, segundo a qual tudo o que existe, existe no espaço, sendo o movimento, como dito acima, o deslocamento no espaço destas coisas existentes.

§33 No Leviatã, Hobbes diz que:

“A palavra corpo, na sua acepção mais geral, significa o que preenche ou ocupa um determinado espaço ou lugar imaginado, que não dependa da imaginação, mas seja uma parte real do que chamamos universo. Como o universo é o agregado de todos os corpos, não há nenhuma das suas partes reais que não seja também corpo, nem há coisa alguma que seja propriamente um corpo e não seja também parte desse agregado de todos os corpos que é o universo. Além disso, uma vez que os corpos estão sujeitos à mudança, quer dizer, à variedade da aparência para os sentidos das criaturas vivas, ao mesmo se chama também substância, quer dizer, sujeito a diversos acidentes, como às vezes ser posto em movimento, outras a ficar parado; ou a parecer nos nossos sentidos às vezes quente, outras frio, às vezes de uma cor, cheiro, gosto ou som, e outras vezes de outro diferente. E atribuímos esta variedade do parecer (produzida pela diversidade das operações dos corpos sobre os órgãos dos nossos sentidos) às alterações dos corpos que operam, e chamamo-lhes acidentes desses corpos. Segundo esta acepção da palavra, substância e corpo significam a mesma coisa. Portanto, substância incorpórea são

40 ROVIGHI, Sofia V. História da Filosofia Moderna. p. 39-40, p. 58-59;

41 Sobre a noção inercial em GALILEU, vide diálogo entre Simplício (representante da filosofia

aristotélica) e Salviati (representante da visão de Galileu) no Diálogo Sobre Dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico e Copernicano. Segunda Jornada, ;

42 Inércia (ou primeira lei das leis de movimento) segundo NEWTON: “Todo corpo continua em seu

estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, a menos que seja forçado a mudar este estado por forças impressas sobre si” (tradução livre) – Newton's Principia : the mathematical principles of natural philosophy. p. 83;

palavras que, quando reunidas, se destroem uma à outra, tal como se alguém falasse de um corpo incorpóreo”. 43

§34 Note-se, primeiramente, que não há possibilidade de existência do

nada na visão hobbesiana acerca dos corpos.

§35 Note-se, também, que, para Hobbes, o corpo é o mesmo que

substância e os movimentos do corpo, que nos atingem, são o mesmo que acidentes. Substância e acidente são palavras do vocabulário filosófico aristotélico, que é aquele que a nova visão mecanicista e materialista busca combater. Substância, para Aristóteles, é resultado de uma série de causas que vão desde a consideração de substância como matéria até a sua consideração como pura forma (substâncias sem matéria – substância primeira), passando, inclusive, pela consideração de substância enquanto matéria e forma ao mesmo tempo (sínolo de matéria e forma)44. Na Metafísica, Aristóteles diz:

“É evidente, portanto, que também a matéria é substância: de fato, entre todos os movimentos que ocorrem entre opostos há algo que serve de substrato às mudanças”45 (substância enquanto matéria); “Chamo forma a essência de cada coisa e a substância primeira”46 (substância enquanto forma – substância primeira); e “Para quem considera o problema desse ponto de vista, segue-se que substância é matéria. Mas isso é impossível, pois as características da substância são sobretudo o fato de ser separável e de ser algo determinado: por isso a forma e o composto de matéria e forma parecem ser mais substância do que matéria”47 (substância enquanto forma e matéria).

§36 Hobbes visa combater a possibilidade de se considerar substância

como algo que não tenha corpo, sendo estas considerações aristotélicas acima

43Leviatã. Parte 3 – Da República Cristã. Cap. XXXIV – Do Significado de Espírito, Anjo e Inspiração

nos Livros das Sagradas Escrituras. p. 330-331;

44 REALE, Giovanni. Aristóteles. p. 46-50; vide, também, DRISCOLL, J.A. EIDE. Teorias da Substância

de Juventude e de Maturidade de Aristóteles in ZINGANO, Marco (Ed.). Sobre a Metafísica de Aristóteles. p. 281-313.

45ARISTÓTELES. Metafísica. H 1, 1042a; 46 ARISTÓTELES. Metafísica. Z 7, 1032b; 47ARISTÓTELES. Metafísica. Z 3, 1029a;

transcritas, para ele, um abuso de linguagem48. E, mais do que combater a substância primeira aristotélica (substância enquanto pura forma), o que, de certo modo, já vinha sendo feito por Galileu49, Hobbes quer se opor a visão de mundo da Antiguidade, inserindo-se como verdadeiro agente da mudança estrutural de perspectiva que ocorreu com o advento da Modernidade.

§37 Para Aristóteles, substância é “aquilo de que todo resto se predica”50. Além disso, Aristóteles define matéria como “aquilo que, por si, não é nem algo determinado, nem uma quantidade nem qualquer outra das determinações do ser”51. Assim, para o filósofo peripatético, se a substância é reduzida à matéria, está-se dizendo que a substância é algo indeterminado, o que é incompatível com o conceito de substância aristotélico, visto que, se esta contém a possibilidade de sua separação do predicado, ela, necessariamente, precisa ser determinada, determinação esta que, no sistema aristotélico, opera-se com a forma, a qual, como já dito, é chamada de substância primeira.

§38 Também é interessante atentarmos que o filósofo da Antiguidade

diz que “toda potência é, ao mesmo tempo, potência de ambos os contrários...a mesma coisa tem possibilidade de ser e de não ser”52. Se partirmos das idéias aristotélicas de que aquilo que pode não ser explicita a corruptibilidade e de que potência se relaciona à matéria, então, poderemos dizer que é esta parte da substância (a matéria) que impede a realização plena do ser que está inscrita na forma. Esta possibilidade de não ser é aquilo que também vai individualizar a coisa. O indivíduo “A” é diferente do indivíduo “B” na medida em que para cada um falta algo diferente para a realização plena do homem que está inscrita na forma.

§39 Adicionalmente, é possível dizer que a forma casa possui uma

finalidade que é o abrigo. Existem duas casas diferentes a serem analisadas. Uma possui um quarto e a outra três. Ambas não deixam de ser casa, pois atendem a

48 Isto principalmente se considerarmos a interpretação moderna de ZELLER de que a 'forma' é o

universal – vide REALE, Giovanni. Aristoteles. p. 51;

49 ROVIGHI, Sofia. História da Filosofia Moderna. p. 61 50ARISTÓTELES. Metafísica. Z 3, 1029a;

51ARISTÓTELES. Metafísica. Z 3, 1029a;

mesma finalidade (abrigar). Porém, ambas são diferentes materialmente em relação ao número de quartos. Para Aristóteles, ao conhecimento importa saber aquilo que permite definir as duas coisas como casa, ou seja, a forma, e não aquilo que individualiza cada casa, ou seja, a matéria. Esta é corruptível e se transforma no tempo. Aquela é imutável, sendo o que permite a ciência.

§40 Por estas simples e superficiais explanações, torna-se plausível

dizer, então, que Aristóteles está preocupado com as causas da substância (causa material, causa formal, causa eficiente e causa final), sendo os acidentes relegados a um segundo plano. A relação enquanto acidente acabará por possuir importância secundária53 para Aristóteles, no campo do conhecimento (episteme), na medida em que ela é, por natureza, posterior a substância.

§41 Hobbes, ao contrário de Aristóteles, não está preocupado com o

modo pelo qual as substâncias são constituídas. Hobbes, por tomar as substâncias como algo pronto (corpo), preocupa-se com a relação que entre elas pode existir (movimentos/acidentes). E para combater o que Aristóteles chama de substância primeira (a forma), Hobbes o acusa de abusar da linguagem, o que fica claro no final da citação do Leviatã que utilizamos previamente para explicitar o pensamento do filósofo inglês acerca dos corpos54.

53 Segundo REALE, “A segunda ciência teorética para Aristóteles é a física ou 'filosofia segunda', que

tem por objeto de pesquisa a realidade sensível, intrinsecamente caracterizada pelo movimento, assim como a metafísica tinha por objeto a realidade supra-sensível”. Aristóteles. p. 66 – Note-se que Hobbes

parte da Física (a qual é bem diferente da de Aristóteles) para construir sua Política e sua Ética (itinerário lógico que concordamos, mas que alguns comentadores de Hobbes divergem, a exemplo de Strauss, o qual defende que a moral hobbesiana é independente do uso que o filósofo faz da ciência moderna – STRAUSS, L. The Political Philosophy of Thomas Hobbes. Introduction, p. 5).

54 É importante sublinhar que o fato de Hobbes se preocupar com as relações dos corpos, e não com as

causas da substância aos moldes aristotélicos, não o torna avesso a idéia de causalidade; ao contrário, esta é uma das idéias, em seu tom determinista, que mais caracteriza a obra do filósofo inglês. Façamos uma observação: (i) segundo REALE, “'causa' e 'princípio', para Aristóteles, significam o que funda, o que

condiciona, o que estrutura”. Aristóteles, p. 32; (ii) segundo MARTINICH, “Determinismo é a visão de que todo evento possui uma causa. Para Hobbes, é analítico, verdadeiro por definição, que uma causa determina seu efeito e que, por isto, todo evento é determinado pela sua causa” (tradução livre) -

§42 Ora, o materialismo hobbesiano está justamente na negação da

possibilidade de se considerar como real, como parte do espaço55, substâncias sem matéria.

§43 Da visão aristotélica causal polivalente de que “o ser se diz de vários modos”, porque nós o podemos apreender pelas suas causas, passa-se, então, para a visão hobbesiana puramente materialista e mecanicista pela qual o ser é simplesmente matéria em movimento. E se, em Aristóteles, ao conhecimento importa fazer as perguntas: “De qual material é feito?”; “Quem fez?”; “Para o que é feito?” e “Que forma tem?”; em Hobbes, ao conhecimento importa fazer esta pergunta: “Como as coisas que são se relacionam ou podem vir a se relacionar?”.

§44 Por fim, podemos dizer que se aristotelicamente é possível dizer

que uma substância pode ser entendida por meio de suas quatro causas constitutivas (material, eficiente, formal e final), hobbesianamente é possível dizer que uma substância pode ser entendida por meio da análise, apenas, dos efeitos que o substrato, a matéria, e nada mais, causa aos nossos sentidos quando posta em movimento e contato com nossos corpos. Em Hobbes, a substância, assim, está sujeita ao movimento sem que este afete suas propriedades, suas qualidades. Já em Aristóteles, ao contrário, o movimento é parte constitutiva da substância, a qual acaba por ser engendrada quando a causa eficiente coloca, dinamicamente, a potência de uma causa material dentro de uma unicidade formal, tudo com vistas a uma finalidade.

§45 Apesar da complexidade de uma análise comparativa entre dois

sistemas filosóficos fugir ao escopo desta pesquisa, estas brevíssimas considerações já são capazes de nos situar em relação à importância que o corpo

55 Vale recapitular o pensamento hobbesiano sobre matéria e movimento pela explanação de

MARTINICH: “Para Hobbes, um corpo é 'tudo que ocupa espaço, ou que pode ser mensurado como

comprimento, largura e profundidade' (Anti-White 311, see also 320). Um corpo ocupa espaço, mas não é espaço...A matéria vem, na verdade, em pequenas quantidades, que não são divisíveis. Hobbes define movimento como 'o contínuo abandono de um local, e aquisição de outro' (De corpore 8.10; veja também 15.1). A matéria é o que faz com que o universo esteja em movimento, porque nada pode se mover por si mesmo, e todas as mudanças de movimento são causadas por outros movimentos. Nada pode iniciar movimento em si mesmo ou em outro. A razão primária depende do princípio de causação e movimento...Em parte, Hobbes...aceitou o princípio da inércia, formulado por Galileu...(Leviatã 2.1; De corpore 15.1, 15.7)” (tradução livre). Hobbes. p. 24-25;

enquanto matéria suscetível de movimento passou a ter no século XVII, bem como, tais considerações já são capazes de nos situar quanto à mudança que, com o advento da Modernidade, ocorreu em relação àquilo que importa ao conhecimento, que deixou de ser o modo pelo qual a substância é constituída e passou a ser o modo como ela, a substância, relaciona-se56.

§46 Vejamos, então, como, por meio desta nova visão mecanicista e

materialista do século XVII, podemos compreender o modo pelo qual o mundo atinge o ser humano, partindo da premissa de que o mecanicismo materialista combatia57 a idéia aristotélica de que a percepção se dá por alterações qualitativas 58.

§47 A partir da noção de que nós somos corpos que integram o

universo, as idéias (concepções) que temos sobre as coisas passam a ser resultados (efeitos) de movimentos que fazem com que estas coisas, e todas aquelas que a elas estão relacionadas causalmente, pressionem nossos órgãos dos sentidos. Isto acarreta no fato de que: (i) tais concepções acabam por possuir inerência não em relação ao objeto, mas em relação a nós mesmos (ao senciente)59; (ii) e no fato de que o conhecimento possui algo de experiencial.

56 Para se ter a visão de Hobbes sobre Aristóteles, deve-se consultar o Leviatã, Parte 4 – Do Reino das

Trevas. Cap. XLVI – Das Trevas resultantes da Vã Filosofia. 553-572;

57 MARTINICH. Hobbes. p. 35;

58 O seguinte trecho, de artigo de LEIJENHORST, é esclarecedor quanto a visão aristotélica, acerca da

percepção sensorial, que o mecanicismo materialista do século XVII visava combater. “É obviamente

uma simplificação falar acerca da posição Aristotélica sobre a percepção sensorial e a imaginação agora [neste artigo]. Mas para os nossos propósitos nós podemos discernir duas características que a maioria das teorias aristotélicas parece compartilhar e que Hobbes repudia veementemente. Primeiro, a percepção sensorial é descrita em termos não mecânicos como um processo que atualiza potencialidades interiores da alma; e segundo, a percepção sensorial era vista como orientada para qualidades reais existentes no mundo. Acerca do primeiro ponto, seguindo Aristóteles, os livros escolásticos mais antigos descrevem a percepção sensorial como um processo engendrado a partir do objeto, como composto de matéria e forma, para a recepção da forma sensível (sem a matéria) pela alma imaterial. Este processo foi pensado como que ocorrendo em vários estágios. Primeiro, por meio de suas qualidades sensíveis, como a cor, o objeto continuamente emite espécies sensíveis em todas as direções, que lembram o objeto a partir do qual são originados. Estas espécies são qualidades imateriais que são impressas no intermediário (i.e., ar ou água). Os escolásticos usualmente concebiam este processo como uma mudança qualitativa ou alteração, embora, especialmente no caso do som, eles cada vez mais reconhecessem o papel do movimento local produzido pelo objeto no intermediário”. (tradução livre) -

Sense and Nonsense about Sense. Hobbes and the Aristotelians on Sense Perception and Imagination in The Cambridge Companion to Hobbes's Leviathan. p. 84;

59 Esta noção é também verificada em GALILEU – vide passagem do Ensaiador citada por ROVIGHI,

Assim, o mundo é que me faz senti-lo, apesar da sensação apenas a mim pertencer60.

§48 Hobbes, a isto se refere já no Elementos da Lei Natural e Política61,

e, no Leviatã, expressa que “...em todo os casos a sensação nada mais é do que a ilusão originária causada pela pressão, isto é, pelo movimento das coisas exteriores nos nossos olhos, ouvidos e outros órgãos para tal destinados” 62. §49 A aplicação do Princípio da Inércia ao nosso relacionamento com o

mundo é o que fundamenta o modo como este aparece para nós, inclusive no que diz respeito a nossa percepção do mundo no tempo e no espaço. Neste sentido, diz Hobbes no Leviatã:

“Uma vez em movimento, um corpo move-se eternamente (a menos que algo o impeça), e, seja o que for que o faça, não o pode extinguir totalmente num só instante, mas apenas com o tempo e gradualmente. Assim, o que vemos acontecer na água – cessado o vento, as ondas continuam a rolar durante muito tempo ainda -, acontece também no movimento produzido nas partes internas do homem, quando ele vê, sonha etc., pois após a desaparição do objeto, ou quando os olhos estão fechados, conservamos ainda a imagem da coisa vista, embora mais obscura do que quando a vemos. E a isto é que os latinos chamam imaginação...A Imaginação nada mais é, portanto, que uma sensação em declínio”63.

§50 O movimento, portanto, é aquilo que nos permite interagir com o

mundo e, em última instância, é o modo pelo qual todos os corpos interagem entre si.

§51 Hobbes, a partir desta visão mecanicista e materialista do universo,

definirá liberdade do seguinte modo:

“Liberdade, ou Independência significa, em sentido próprio, a ausência de oposição (entendendo por oposição os impedimentos

60 LEIJENHORST descreve a questão do mecanicismo do mundo natural ser aplicado a questão da

volição e da cognoscência do mundo humano como uma das mais importantes questões da primeira metade do Século XVII – vide sua obra já citada. p. 86-87;

61Elementos da Lei Natural e Política. Parte I. Cap. II. p. 25; 62Leviatã. Parte 1 – Do Homem. Cap. I – Da Sensação. p. 16; 63Leviatã. Parte 1 – Do Homem. Cap. II – Da Imaginação. p. 18;

externos do movimento), e não se aplica menos às criaturas irracionais e inanimadas do que às racionais” 64.

§52 Ou seja, a liberdade é algo, primeiramente, da ordem da Natureza,

independente, portanto, da existência humana. Ela estrutura o cosmos; é seu elemento constitutivo. Onde há movimento, necessariamente, há também liberdade daquele corpo que mantém seu estado dinâmico, seja este uma pedra, seja este um indivíduo65. E a ausência de impedimentos, requisito necessário, de acordo com o princípio da inércia, para se manter o estado dinâmico de um corpo, acaba sendo aquilo que constitui o caráter negativo desta liberdade que estrutura o cosmo.

§53 Assim, já podemos dizer que encontramos as respostas e os

fundamentos para as seguintes perguntas inicialmente tecidas: “O que é liberdade?” e “Será a liberdade também atinente ao que não é humano?”.

* * *

64Leviatã. Parte 2 – Da República. Cap. XXI – Da Liberdade dos Súditos. p. 179;

65 “Sempre que as palavras livre e liberdade são aplicadas a qualquer coisa que nãp é um corpo, há um

abuso de linguagem, pois o que não se encontra sujeito ao movimento não se encontra sujeito a impedimentos” - Leviatã. Idem retro;