5. THE WORK TASKS OF A ‘FAMILY MEMBER’
5.4. Making chemistry works
5.4.1. C ULTURAL EXCHANGE THROUGH FOOD
As indústrias de cerâmica vermelha são muito importantes para a economia da região, haja vista que, no município de Monte Carmelo, das 69 indústrias credenciadas junto à prefeitura, no ano 2000, 49 eram cerâmicas e segundo a ACEMC, em 2000, elas geravam em torno de 4.000 empregos diretos. Isso significa dizer que, em média, 71% das indústrias do município são cerâmicas e que cerca de
10% da população são trabalhadores cerâmicos, visto que, nessa data, a cidade contava com 42.000 habitantes (SILVA 2001, p. 14-15).
De acordo com Silva (2001) e Santos (1999), a História da indústria de cerâmica no município de Monte Carmelo tem início em 1932 com a primeira cerâmica instalada (Cerâmica Nossa Senhora das Graças) pelo Sr. Jorge Fernandes que, para iniciar seu funcionamento, trouxe pessoas especializadas de Franca, Estado de São Paulo. Silva e Santos ressaltam, ainda, que essa atividade já era praticada no município, na zona rural, em uma tradição oleira doméstica e familiar. Um exemplo disso é a fábrica de tijolos montada em 1890 também pelo Sr. Jorge Fernandes, em sua fazenda. Segundo dados de sua biografia, ele permaneceu no ramo de cerâmicas por cerca de 60 anos, falecendo com 84 anos, na década de 1960.
Ao falar sobre a história da indústria de cerâmica em Monte Carmelo é Importante salientar que, no final da década de 1950, a construção de Brasília, distante 450 km, contribuiu decisivamente para o crescimento do setor cerâmico na cidade, pois impulsionou o aumento da produção nas cerâmicas da região que passaram a fornecer tijolos furados e telhas para a Capital Federal.
No entanto, após o Golpe Militar de 1964, o Governo iniciou um processo de mudanças na economia que interferiu no crescimento da indústria de cerâmica, mudanças essas que acabaram levando à sua retração, já que a indústria da construção civil foi de imediato, a mais afetada pelas medidas de combate à inflação. Por outro lado, essas mudanças levaram as indústrias a buscar sua modernização e ampliação para sobreviver (ACEMC, 2009).
Com a implantação do Sistema Financeiro Habitacional (Banco Nacional de Habitação), o Governo Federal tentou reduzir, a partir dos anos de 1970, os efeitos da política contracionista até então adotada. A partir daí, o parque cerâmico de Monte Carmelo passou a ganhar nova dimensão com características mais modernas e atualizadas, de acordo com a ACEMC (2009). Dessa forma, foi entre as décadas de 1970 a 1990 que houve um notável aumento e desenvolvimento das cerâmicas. Nesse período, houve um grande êxodo rural na região, provocado pelo processo de industrialização/urbanização do País, possibilitando, assim, o aumento de mão de obra disponível para as indústrias que começavam a expandir suas atividades. Além
disso, tem-se a “modernização” do setor com a incorporação de maquinarias a partir de meados dos anos de 19802.
Ainda na década de 1970 e início da década de 1980, o processo de trabalho era bem artesanal. Os trabalhadores contavam apenas com pás e enxadas para a retirada da argila e sua colocação nos caminhões, para ser transportada para a indústria; as prensas eram acionadas manualmente e o processo de secagem das telhas era feito ao sol; depois eram levadas aos fornos de queima. Não existiam secadores nem carrinhos para o seu transporte. Podemos constatar um pouco dessas condições, por meio do Sr. Ademir, que trabalhou 28 anos na indústria de cerâmica, durante depoimento prestado em 24 de junho de 2009:
Lá naquela época era tudo manual, a lenha que quemava no forno era lenha de mato, mato do cerrado. Naquela época num tinha o pinus, era só lenha do mato, dava trabaio, por que aquela lenha as vez vinha grossa e na época ainda não tinha, maquina, maquinário aperfeiçoado. Lenha grossa pra pô na vagoneta não passava, tinha que rachá na marreta. Intão dava um trabaião danado. Naquela época o forno que eles quemava, colocava só 3 mão de teia. 3 mão é assim, 3 lado de teia no forno, agora, hoje em dia existe forno que eles coloca até 8 lado de teia no forno; tem forno aí que quema na faxa de 80 mil teia duma vez, na época dava na faxa duns 3 caminhão, na faxa de 25 a 30 mil teia mais ou menos. (Sic)
Só em meados da década de 1980 que uma nova etapa no processo de industrialização da cerâmica se iniciou. Essa nova etapa foi marcada pela aquisição de máquinas e, a partir de então, o processo produtivo passou ser composto por meio das seguintes etapas e equipamentos:
· Barreira: local do qual é extraída a argila ou barro, localizada geralmente em fazendas em que o proprietário vende o direito de exploração da matéria-prima. A extração é feita por máquinas escavadeiras (Figura 1).
2
Para saber mais: SILVA, Patrícia. Cotidiano e trabalho: trabalhadores ceramistas em Monte Carmelo/MG. 1970/200; SANTOS, Marcos Moreira dos. Lutas, organização e experiências de trabalhadores cerâmicos. Monte Carmelo, 1970/1990, monografia, 1999; BERNADO, Luciano Tiago. Agricultura e meio ambiente: um estudo comparativo entre os sistemas de produção patronal e familiar em Monte Carmelo e Iraí de Minas (MG).
Figura 1 Extração da argila
· Transporte: feito em caminhões e/ou bitrens, carregados pelas máquinas que fazem a extração até os depósitos das cerâmicas (Figura 2)
Figura 2 - Transporte da argila
· Depósito nas cerâmicas: a argila é estocada em depósitos localizados tanto no interior quanto fora delas, desde que se localize em suas proximidades (figura 3)
· A mistura: é o primeiro passo a ser dado para colocação da matéria-prima na linha de produção, visto que a qualidade e textura da argila são variadas e que para obter a qualidade e o padrão do produto faz-se necessária tal mistura que é processada por tratores (Figura 4).
Figura 4 - Mistura da argila
· Caixão dosador: local onde a argila misturada é colocada para que seja dosada a quantidade a ser transportada nas esteiras. Começa aqui o processo de transformação da matéria-prima (Figura 5).
Figura 5 - Caixão Dosador Alimentador
· Desintegrador: máquina onde o barro transportado pela esteira é colocado para que sejam fragmentados os torrões de barro, ou seja, as grandes porções de argila concentrada (Figura 6).
Figura 6 - Desintegrador
· Laminador: após a fragmentação, o barro segue conduzido pela esteira, depois é despejado nesta máquina e cortado, transformando-se em pequenas porções de massas bem finas (Figura 7).
Figura 7 - Laminador
· Misturador: o barro é novamente misturado nesta máquina para que fique mais homogêneo e também para ser umedecido de acordo com a exigência necessária para se ter tal homogeneidade (Figura 8).
Figura 8 – Misturador
· Maromba: nesta máquina o barro é compactado em forma de cilindros (Figura 9).
Figura 9 – Maromba
· Cortador: corta o barro compactado em cilindros de acordo com o tamanho necessário para cada tipo de telha a ser produzida (Figura 10).
Figura 10 - Cortador
· Prensa: é a máquina que comprime o cilindro de barro, dando-lhe a forma de telha (Figura 11).
· Vagoneta: vagão utilizado para o transporte da telha após ser retirada da prensa (Figura 12).
Figura 12 – Vagoneta
· Local de secagem: onde se dá o processo de secagem da telha, constituindo-se de um espaço retangular; ventiladores encarregam-se de espalhar o ar quente proveniente dos fornos de queima, por meio de canais construídos no solo (Figura 13).
· Fornos: onde é feita a queima da telha objetivando dar resistência e impermeabilidade ao produto (Figura 14).
Figura 14 - Fornos
· Pátio ou depósito: espaço reservado para armazenar as telhas após o esfriamento até que sejam transportadas ao local de comercialização (Figura 15).
Figura 15 - Pátio ou depósito
Além das máquinas e equipamentos básicos utilizados para a fabricação de telhas, temos algumas que incrementam o processo de produção. São elas: detector de metais, rebarbeador, palets e impermeabilizador. (figuras 16 e 17).
Figura 16 - Detector de metais e Rebarbeador
Figura 17 - Palets e Impermeabilizador
O uso de tais equipamentos provocou mudanças nas relações sociais de produção, como também na forma de o trabalhador se perceber nesse processo. Segundo Santos (1999), os trabalhadores da indústria ceramista em Monte Carmelo perceberam as inovações tecnológicas como aliadas para a diminuição da fadiga provocada pelo processo artesanal antes utilizado. A concepção valorativa dos recursos tecnológicos, proferida pelo discurso capitalista, utiliza-se da árdua realidade experimentada por eles, configurando numa eficaz forma de dominação, gerando-lhes a expectativa de que esse é o caminho a ser percorrido na busca da diminuição da fadiga do trabalho (p. 36).
Como vimos até aqui, a indústria de cerâmica em Monte Carmelo, da década de 1970 até final da década de 1990, teve um período de crescimento e desenvolvimento. Entretanto, a partir daí começou a passar por inúmeras dificuldades. Em entrevista ao jornal Correio de Uberlândia, o coordenador administrativo do Laboratório de Ensaios em Monte Carmelo – LEMC diz:
Do auge na produção nas décadas de 1980 e 1990, quando as casas eram construídas com tijolos deitados, ao período de declínio no início deste milênio, o setor cerâmico de Monte Carmelo passou por transformações significativas. Nos últimos cinco anos houve a redução pela metade das empresas do setor na região (21 de junho/2009).
A maioria das empresas consideradas de médio porte fechou entre 2003 e 2008, provavelmente em decorrência das dificuldades enfrentadas pelo parque cerâmico de Monte Carmelo no início da década. Uma dessas dificuldades surgiu em 2001 com a denominada “crise da lenha” (matéria-prima usada como combustível de queima nos fornos das cerâmicas) quando a empresa fornecedora foi vendida a um grupo que não se interessou mais pelo fornecimento às cerâmicas. Os ceramistas então começaram a pensar no uso dos subprodutos da madeira (cavaco e serragem) como combustíveis de queima. Assim, hoje, todas as indústrias utilizam apenas os subprodutos da madeira.
Outra dificuldade enfrentada pelo setor foi o “embargo das barreiras”, em 2001 e em 2003, que atrasou bastante o processo de produção. Esse embargo aconteceu, porque as jazidas não eram legalizadas. Segundo Kleiber (09/07/2009), como 90% das jazidas que fornecem argila para as cerâmicas em Monte Carmelo são do município de Coromandel; o processo de legalização era demorado, visto que, no subsolo onde ela se encontrava, geralmente havia diamantes e grande parte desses terrenos tinha o direito de exploração comprado por multinacionais. Isso dificultava a compra do direito para que fosse retirada a argila.
Foi tentando enfrentar essas dificuldades e driblar a crise que os ceramistas começaram, por meio da ACEMC, a trabalhar em busca de mais qualidade para o produto. Em 2002, teve início um trabalho para conseguir a certificação das empresas junto ao Centro de Cerâmica Brasileiro – CCB. Além disso, por meio de parceria com a Fundação Carmelitana Marcos Palmério – Fucamp, ocorreu, em 2004, a construção do Laboratório de Ensaios de Monte Carmelo - LEMC, que faz
análises da qualidade da argila e de produtos de cerâmica vermelha e possui certificação nacional (CCB) e, a partir de junho/2009, internacional (Inmetro). Tais certificações são obtidas após comprovações sistemáticas da qualidade da matéria- prima e da composição dos produtos de cerâmica.
Em 2005, a Associação dos Ceramistas enviou para o SENAI Mário Amato, em São Bernardo do Campo/SP um profissional (Paulo Victor) que já trabalhava com a questão da qualidade dos produtos cerâmicos dentro de uma das empresas da cidade para fazer um curso técnico em cerâmica em nível de terceiro grau (Tecnólogo – Tecnologia em Cerâmica Vermelha). Esse profissional se tornou o primeiro da indústria de cerâmica em Monte Carmelo com formação de terceiro grau e, ao voltar de São Paulo, assumiu a coordenação técnica do LEMC (Laboratório de Ensaios de Monte Carmelo) e, em 2006, fez um trabalho de adequação das cerâmicas às normas técnicas estabelecidas para o setor a nível nacional, houve também o oferecimento de cursos técnicos para gerentes em parceria com o SEBRAE/MG. Já em 2007/2008, houve a certificação de várias empresas, fazendo com que Monte Carmelo se tornasse o parque cerâmico com maior número de empresas certificadas do Brasil, conforme informações da ACEMC (2009).
Em entrevista nos concedida em julho/2009, Kleiber ressaltou que, embora a produção tenha reduzido de 54 milhões peças/mês para 40 milhões peças/mês, o município de Monte Carmelo ainda possui o maior parque cerâmico do Brasil. Segundo ele, enquanto a capacidade de produção de todo o Estado de São Paulo é de 60 milhões peças/mês, Monte Carmelo sozinho tem a capacidade de produzir 40 milhões. Destaca, ainda, que a indústria de cerâmica, hoje, oferece 2.000 empregos diretos e 8.000 indiretos para a cidade. No entanto, a queda de produção vivida pela indústria de cerâmica fica evidente nas informações referentes à economia do município, publicadas no jornal Correio de Uberlândia:
De acordo com dados da Secretaria de Governo da prefeitura de Monte Carmelo, o parque cerâmico não é mais a principal atividade econômica do município. A produção de telhas (principal artefato de cerâmica produzido na cidade) e tijolos (de oito furos) fica atrás do setor agrícola, principalmente café, e do setor de serviços, sobretudo a comercialização de insumos agrícolas (CORREIO DE UBERLÂNDIA, 21/06/09).
A crise do setor fica mais evidente quando atentamos para as constantes ações trabalhistas contra os ceramistas, movidas pelos trabalhadores nesse período, melhor dizendo a busca dos trabalhadores por seus direitos coincide com a crise vivida pela indústria no referido período. Para se ter uma ideia, em 1999, o juiz do trabalho da Junta de Conciliação e Julgamento da cidade de Patrocínio – a que Monte Carmelo pertence – intimou a ACEMC, o Sindicato dos Trabalhadores e o prefeito para tentar resolver os problemas trabalhistas. De acordo com o advogado Cláudio de Oliveira Pena, 50% das ações trabalhistas daquela Junta pertenciam a Monte Carmelo e eram referentes aos trabalhadores da indústria de cerâmica. A ata da reunião ordinária da Câmara Municipal, de 21 de setembro de 1999, registra o pronunciamento feito pelo então prefeito Saulo Faleiros, nos seguintes termos:
A justiça do trabalho, no Brasil, é muito complexa e os encargos trabalhistas extremamente altos, em torno de 100%. Devido a estes encargos e a carga tributária, os empregados, às vezes, precisam abrir mão de alguns direitos para preservar os empregos, mas isso não é feito só em Monte Carmelo, é em todo o Brasil. O Governo Federal é quem quebrou a Previdência Social, pois é o maior devedor dela, e não são as cerâmicas as culpadas. São as cerâmicas que sustentam Monte Carmelo, empregando quatro mil pessoas; se as cerâmicas fecharem, as pessoas não terão onde trabalhar. Em Monte Carmelo, a socialização é muito boa, os proprietários de cerâmicas vão tomar cerveja junto com seus empregados. (grifo nosso).
A fala do prefeito parece-nos bem sugestiva, pois além de isentar os empresários de qualquer responsabilidade e ter a coragem de pedir que os trabalhadores sejam pacientes e aceitem abrir mão de seus direitos, ainda parece orgulhar-se em dizer que a socialização entre patrões e empregados na cidade é muito boa pelo fato de tomarem cerveja juntos. Seria essa uma forma de socialização ou mais uma estratégia para ter o controle e a confiança do trabalhador?
Ainda sobre as questões trabalhistas, está registrado o comentário do vereador João Batista Chaves Filho, na Ata da Câmara Municipal:
A cada dia aumenta o número de denúncias de pessoas que assinam contratos em branco para trabalhar, que é alto o número de pessoas mutiladas [...] que o número de ações trabalhistas contra os ceramistas é até pequeno, apenas 10% do número de empregos que oferecem (21 de Set/ 1999)
Para termos uma ideia de como está hoje a situação dos trabalhadores na indústria de cerâmica em Monte Carmelo utilizaremos trechos da reportagem sobre ela feita pelo jornal Correio de Uberlândia em 21/06/09:
Há três anos consecutivos, patrões e empregados do setor cerâmico de Monte Carmelo chegam ao acordo salarial sem a interferência da justiça. A data base foi em maio, e o reajuste foi de 8%. Os funcionários de prensa que recebiam salário mínimo (R$465,00) tiveram 12% de reajuste. Os trabalhadores pediam 12% para toda a categoria. “Se não aceitássemos haveria dissídio coletivo”, afirmou o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Monte Carmelo, Valter Quinaia. A atividade econômica gera cerca de dois mil empregos, estimam as entidades representantes das empresas e dos trabalhadores. Os salários variam de R$ 465,00 (salário mínimo), mais abono de R$ 30,00 a R$ 900,00. A certificação das empresas também alterou a relação de trabalho entre ceramistas e trabalhadores. “Melhorou bastante. Antes havia um salário na carteira abaixo do que realmente era pago. O restante era pago por fora”, disse Quinaia, “Isso foi extinto (CORREIO DE UBERLÂNDIA, 21.06.2009).
Embora a reportagem traga melhoras em relação aos direitos trabalhistas se comparados á década de 1990 relatada na ata da câmara municipal, julgamos de fundamental importância registrar a visão de alguns trabalhadores sobre esses direitos conquistados e o que pensam sobre a crise que se abateu sobre a indústria no início desta década, já que são eles os sujeitos mais importantes de nossa pesquisa. Para tanto, colocaremos a seguir alguns depoimentos de trabalhadores sobre o assunto.
Antigamente o empresário ceramista preocupava muito em produzir quantidade e não preocupava com qualidade, então ele só via um tipo de capital que era o capital de giro, ele não preocupava com o passivo trabalhista, nós chegamos a ter aqui 80% dos trabalhadores sem carteira assinada, uma coisa horrorosa mesmo, cartões de ponto não existiam, carga horária não era obedecida. Então ele nunca preocupou com o passivo trabalhista, nunca preocupou com o passivo ambiental, ele nunca preocupou que o capital permanente da empresa fosse se deteriorando aos poucos, entende? Tanto é que você pode andar na cidade que você vai ver que tem cerâmicas que estão totalmente desmontadas, porque fez-se o prédio e foi sugando tudo que tinha a um ponto que não compensava mais, tinha que refazer, fazer outra empresa, o equipamento e as máquinas arcaicas, enferrujadas (Assessor do Sindicato dos trabalhadores, 2009).
Então veio o apagão a partir de 1999 que atingiu profundamente o parque aqui, aí começa a faltar argila, porque as barreiras começam a ser embargadas porque eles não cumpriram o termo de ajustamento e conduta. Então juntou o apagão, a qualidade do barro, a qualidade da telha (que piorou muito), aí foi um caos, nós tivemos o fechamento de algumas cerâmicas. Esse foi um problema, como eles não preocupavam com a questão da argila, não se preocupavam com a questão do meio ambiente e do passivo
trabalhista o quê que aconteceu? Foi tudo acumulando, é tudo passivo, é tudo dívida da empresa. (Huender, 2009)
Outro problema que interferiu bastante em relação a essa crise vivida pela indústria, segundo relato dos trabalhadores, foi a questão da lenha, já que, em Monte Carmelo, sempre houve lenha com abundância, porque o cerrado foi, em grande parte, desmatado para a plantação de café e de soja,
[...] então um patrão chegava para o outro e dizia: eu estou arrancando o cerrado para plantar café, soja, eu tenho lenha. Então lenha não valia nada, algumas empresas que plantaram aquela região do trevo vindo de Uberlândia ficaram 20/30/40 anos com tudo parado, mas um dia a lenha acaba e essas grandes empresas começam a voltar, porque acho que no país e no mundo todo, começa a pegar mais essa questão do meio ambiente nê? (Assessor Sindicato dos trabalhadores, 2009).
Um aspecto também bastante comentado pelos trabalhadores foi a questão do meio ambiente, que, segundo eles, foi devastado por muitos anos, sem a mínima preocupação em recuperar a área tanto em relação à retirada de lenha, quanto em relação à retirada da argila; além de isso levar a multas bastante pesadas, os ceramistas passam a ter também as barreiras embargadas.
E essa questão do meio ambiente passa a pesar de forma extraordinária na vida do empresário, porque se ele desmatar ilegalmente tem multas caríssimas e aí a lenha sobe e o parque cerâmico não se preparou, não fez reflorestamento, não organizou o cerrado; alguns tiravam o capital da empresa pra comprar café e depois não devolvia e a empresa ruía. Com essa questão da lenha o preço da telha fica mais caro, porque eu não comprava lenha, eu ganhava ou comprava a um preço muito barato, então chega aqui a SATIPEL que é um grupo internacional e coloca para os empresários que não iam mais vender lenha para o parque cerâmico porque não interessava economicamente. Começa se então a pensar em usar os subprodutos da madeira (serragem, cavaco) como combustível de queima. (HUENDER, 2009)
A questão do meio ambiente, das leis trabalhistas e a dificuldade de extração de barro, diminuiu bastante o nº de indústrias, o desemprego foi grande aqui na nossa região, chegou a atingir muito o comércio carmelitano. Agora na realidade, na minha concepção muitas das vezes a falta de capacidade do empresário contribui, porque eles ficam assim acomodados [...] algumas não conseguiram acompanhar o processo de mudança, ela ficou parada no tempo. (ANTÔNIO, 25/06/09)
Os trabalhadores relatam, ainda, que não bastassem todos esses problemas (as barreiras se esgotaram, por isso a argila tem que ser buscada nos municípios vizinhos; meio ambiente; passivo trabalhista; falta lenha; o transporte que também