6. DISCUSSING THEORETICAL PERSPECTIVES
6.1. Knowledge-intensive work vis-à-vis middle-class self-biographers
Embora a temática escolhida para ser tratada nesse tópico seja a Educação escolar, iniciaremos conceituando a Educação de forma geral, para depois nos atermos às questões relacionadas especificamente à instituição escola. Sabemos que entender a Educação em sua multiplicidade de significados é uma tarefa difícil, por se tratar de uma temática que perpassa várias áreas do conhecimento como a Filosofia, a História, a Sociologia, a Psicologia entre outras. No entanto, mesmo que a Educação tenha vários sentidos e significados, percebemos que todas têm em comum as questões referentes ao homem e à sua existência. Para evitar reducionismos em relação ao tema é importante conceituá-lo e, para isso, recorremos à conceituação de Libâneo (1998), que nos esclarece essa multiplicidade de significados e os vários seguimentos por ela responsáveis.
Quando as pessoas dizem: “os pais educam os filhos’, ‘fulano não tem Educação’, ‘a escola educa para a vida’, ‘a Educação é a mola do progresso’, tem-se aí o sentido mais corrente de Educação: uma série de ações visando á adaptação do comportamento dos indivíduos e grupos a determinadas exigências do contexto social. Este contexto pode ser a família, a escola, a Igreja, a fábrica e outros segmentos sociais. A ação educadora seria, pois, a
transmissão às crianças, aos jovens e adultos, de princípios, valores, costumes, ideias, normas sociais, regras de vida, às quais precisam ser adaptados, ajustados. Educa-se para que os indivíduos repitam os comportamentos sociais esperados pelos adultos, de modo que se formem à imagem e semelhança da sociedade em que vivem e crescem. (LIBÂNEO, 1998, p. 65)
Dessa forma, podemos inferir que a Educação seja, então, a relação de colaboração dos homens entre si para se apropriarem das produções materiais e culturais já elaboradas e construírem outras novas que possam levar em frente o processo de construção da existência humana.
Outro aspecto importante é que, subjacentes a todos os sentidos e significados de Educação, temos as teorias educacionais que trazem implícita ou explicitamente um projeto de homem e de sociedade. Nesse sentido, entendemos como a melhor opção a concepção histórico-social do homem, por apoiar-se no movimento de construção dos próprios homens em um processo contínuo. Libâneo (1998), ao escrever sobre as várias concepções de Educação, define a concepção histórico-social como a que supera a consideração de natureza humana, de significado metafísico-abstrato, e propõe-se a considerar o homem definido pela sua “condição humana” histórico-social. Assim, os homens caracterizam-se como sujeitos do processo de se construírem, todos relacionados entre si e em mútua comunicação para se apropriarem dos produtos da ação dos antepassados e para levarem avante sua tarefa existencial (LIBÂNEO, 1998, p. 66-75).
Para entender o papel da escola, parece-nos também importante saber diferenciar os conhecimentos cotidiano, científico e escolar e é o que tentaremos fazer, uma vez que, esclarecidos, esses conceitos nos possibilitarão discernir o que se espera ser de competência da Educação escolar.
Primeiramente, devemos entender que o conhecimento é um ato do sujeito que capta e apreende a significação da realidade. Assim, a significação da realidade é dada pela atividade do sujeito que a modifica e transforma, em vista de um sentido, de um direcionamento que o torna importante para a realização de sua existência, ou seja, o agir dos homens constrói a própria História, que torna seus atos plenos de significados. Por isso, o agir histórico dos homens está relacionado à produção da própria vida material. Segundo Marx e Engels, os homens começam a distinguir-se dos animais tão logo começam a produzir seus meios de vida e, ao
produzir seus meios de vida, os homens produzem, indiretamente, a própria vida material.
Para Marx, a diferença entre o homem e o animal está na capacidade humana de projetar mentalmente, antes de executar, sem que isso seja caracterizado pela separação entre a teoria e a prática, pois o homem, ser social e histórico, constrói sua existência no dia a dia, na sua ação sobre a natureza. Assim, a condição humana define a Educação do homem que constrói continuamente a realidade e a si próprio, fazendo parte da História. Essa Educação tem como sentido a aprendizagem de conceitos e de valores que variam de acordo com o contexto em questão. Portanto, a Educação é a maneira pela qual cada sociedade cria/recria ou transforma seus homens. E, para isso, conta com os vários conhecimentos: cotidiano, científico, escolar entre outros.
O conhecimento cotidiano tem como objeto a vida humana no coletivo, ou seja, o conhecimento da própria vida humana que é uma convivência e não a vida isolada de cada um. Dessa forma, o conhecimento cotidiano é uma experiência coletiva, é um conhecimento que leva em conta o elemento da intencionalidade e significação da práxis humana e essa intencionalidade está presente no sujeito de forma habitual e informal. Assim sendo, a raiz do conhecimento cotidiano está no ato de o homem se fazer, ou seja, enquanto constrói seu espaço humano, também confere significado a esse espaço.
O conhecimento científico é produzido originalmente pelos cientistas e se manifesta na escola ou, pelo menos, deveria manifestar-se nessa instituição; no entanto se diferencia do conhecimento escolar, pois, segundo Cicillini (2002), o conhecimento escolar toma suas características peculiares de seus dois elementos definidores: a práxis escolar e a integração com as formas do conhecimento cotidiano e do conhecimento científico, o que nos permite inferir que o conhecimento escolar não possa ser confundido com o conhecimento científico, que ele tenha seu próprio espaço no processo de formação do homem. Assim, para essa autora, “Além das características próprias de sua produção no ambiente de sala de aula, o conhecimento escolar também é produto de interação com outras formas de conhecimento produzidas em diferentes instâncias” (CICILLINI, 2002, p. 39).
Considerando essa interação com outras formas de conhecimento, especificamente com os conhecimentos cotidiano e o científico, podemos dizer que todo conhecimento escolar é sempre um conhecimento novo, visto que, na relação ensinante/aprendente, há sempre uma ressignificação de seus elementos constituintes. Ele é uma prática que envolve o professor e o aluno como sujeitos no processo de ensino-aprendizagem, uma vez que esse processo implica a existência de um ensinante e de um aprendente. Portanto, o conhecimento escolar tem como elementos constituintes a práxis, o conhecimento cotidiano e o conhecimento científico, entre outros.
É necessário ter claro o papel do conhecimento escolar na sociedade, uma vez que entendemos que o conhecimento escolar desempenha um papel importante e específico na Educação geral do homem; partimos do pressuposto de que a Educação escolar não pode ser confundida com a Educação total do ser humano, que deve ser assumida pelas várias instituições e/ou segmentos existentes na sociedade; a escola é apenas uma dessas instituições, ela não é a vida nem uma sociedade em miniatura: está inserida na vida, mas não é a vida, da mesma forma que está inserida na sociedade, mas não pode ser confundida com a sociedade.
Mas convém insistir, ainda, que o educativo não se reduz ao escolar. A Educação é um fenômeno social inerente à constituição do homem e da sociedade, integrante, portanto, da vida social, econômica, política, cultural. Trata-se, pois, de um processo global entranhado na prática social, compreendendo processos formativos que ocorrem numa variedade de instituições e atividades (sociais, políticas, econômicas, religiosas, culturais, legais, familiares, escolares), nas quais os indivíduos estão envolvidos de modo necessário e inevitável, pelo simples fato de existirem socialmente (LIBÂNEO, 1998, p. 90).
Embora faça parte da vida e da sociedade, a escola tem suas especificidades que, no entanto, têm-se dissipado diante de tantas atribuições colocadas a cargo dessa instituição (assistência social, psicológica, assumir o que seria de responsabilidade da família, entre outras). Em meio a tantas atribuições, nós, profissionais da Educação, ficamos perdidos e, muitas vezes, não conseguimos discernir o que é essencial do que é acessório e/ou periférico em relação ao papel da escola; pior ainda, muitas vezes atuamos de forma irresponsável, ao não cumprirmos o que deveria ser de nossa competência.
Diante dessa realidade, devemos nos questionar: a escola pode e consegue fazer tudo? No período de Graduação com uma visão ainda ingênua da realidade escolar, acreditávamos que sim, que, como profissional da Educação deveríamos incorporar tudo e dar conta de todas as incumbências: ser professora, incluindo também o papel de mãe, de assistente social e outros mais. Mas, com o tempo, fomos percebendo que essa situação de sobrecarga da escola nos leva a uma angústia muito grande, pois diante de tantas expectativas, não conseguimos cumprir nenhuma dessas atribuições, além de estarmos sempre em déficit, visto ser humanamente impossível desempenhar bem todos esses papéis.
Hoje, acreditamos que a escola não pode nem consegue fazer tudo. Então, não podemos nos sentir responsáveis pelo universo dos homens, mesmo porque essa responsabilidade é da sociedade como um todo com a atuação de suas inúmeras instituições e/ou segmentos. Por ser a escola apenas uma dessas instituições, ela precisa ter claro qual deve ser seu papel diante da formação do homem, tendo em vista que tem condições de ajudar a formar a personalidade, colocando o sujeito em situação de aprendizagem. A nosso ver, esse deve ser o papel da escola, mesmo porque não temos competência para tudo e, por isso, devemos saber o que é nosso (da escola), para fazê-lo bem e com competência.
Nessa perspectiva, a aprendizagem é uma forma fundamental para o homem se construir a partir da relação com o outro, considerado-se sujeito sócio-histórico que traz consigo múltiplas manifestações do passado e do presente. Assim, a aprendizagem é marcada pela intencionalidade, definidora de objetivos, e pela significação, determinada pela própria compreensão do homem e de seu papel na construção existencial do mundo.
Entendemos que promover um espaço de aprendizagem para o aluno — de apropriação cultural da produção humana dos que vieram antes dele e produzir conhecimentos novos — seria a principal competência da escola. Nesse sentido, o ambiente escolar deve possibilitar aos alunos uma aprendizagem relevante que se apóie nas experiências e nos saberes que o aluno adquire paulatinamente, em contato com o mundo real e com seus partícipes. Segundo Estrela (1992), devemos manter a direção da Educação escolar no sentido de preservar o enfoque educativo que se exprime pela aprendizagem dos sujeitos humanos na sua vida. Entretanto, essa aprendizagem assume na perspectiva escolar uma característica própria ao
especificar seu foco escolar e suas ligações imediatas com o conhecimento escolar: “o indivíduo numa situação específica de ensino-aprendizagem” (ESTRELA, 1992, p. 15-16). Assim, nesse processo de ensino-aprendizagem, a ação conjunta dos sujeitos professor-aluno produzirá um novo conhecimento (conhecimento escolar).
Dessa forma, entendemos a aprendizagem como ponto central da construção do sujeito e que o período de aprendizagem não se encerra com o período escolar; os homens permanecem permanentemente aprendendo e ensinando uns aos outros. No entanto, mesmo sabendo que as situações de aprendizagem aconteçam em todos os espaços sociais, entendemos que a escola tem um papel importante nesse processo, que é cumprido por uma aprendizagem específica voltada aos saberes científicos, culturais e técnicos e também aos valores sociais da vida e da convivência cotidianas. Desse modo, os conhecimentos propiciados pela Educação Escolar devem servir como parte importante e significativa da aprendizagem do aluno.
Portanto, é preciso reconhecer a importância de se valorizar a aprendizagem que se faz mediante a relação consciente do homem com o mundo pela sua ação ativa e pelo seu reconhecimento como sendo produtor histórico e social. Nessa perspectiva, no âmbito do conhecimento escolar, a busca de formas orientadoras e facilitadoras da reconstrução criadora do conhecimento abre espaço para que o estudante se faça sujeito agente do processo de conhecimento, como criador e como autor do produto do estudar, e recupere sua identidade. Para isso faz-se necessário compreender o indivíduo como um aprendiz que constrói seu conhecimento a partir da integração e cooperação com a sociedade e o mundo do qual faz parte.
A respeito do papel da escola na contemporaneidade, percebemos que, no centro de qualquer teoria do desenvolvimento ou da aprendizagem, está contida, implícita ou explicitamente, uma definição de homem e de sociedade, o que, por sua vez, determina a abordagem adotada, o tratamento metodológico a ser seguido e as técnicas aplicadas na Educação escolar. Percebemos, ainda, que a escola, na sociedade em que vivemos, não tem condições de assumir a responsabilidade de ser a única produtora de conhecimento e igualmente ser a sustentação de todos os problemas sociais, pois corre o risco de perder o foco, quando assume outras funções que não a sua que é o saber escolar.
Se a escola conseguir discernir o que é de sua competência e o fizer bem, já estará contribuído em muito para uma sociedade menos excludente e mais humana. Sendo assim, a escola não tem como obrigação primeira a formação do homem tomada de forma geral e abrangente, visto ser essa a função da sociedade, mas ela deve participar desse projeto, pois o saber escolar é necessário para formar o sujeito.
Tendo em conta as considerações em torno da Educação e da escola, trataremos, na próxima seção, de como se dá relação trabalho/Educação no sistema capitalista e a visão de alguns autores com referência a essa temática.