PART II – THE MORAL ENTANGLEMENT OF WATER
CHAPTER 6: WATER IN AND OUT OF PLACE
O homem gosta não só de ouvir, mas também de contar histórias. A vontade de querer narrar o que nos rodeia e o que acontece à nossa volta é incontrolável. Por isso, as narrativas ocupam um papel relevante na natureza humana. Entretanto, ela é a principal maneira pela qual entendemos as coisas, quer ao pensar nas nossas vidas como uma progressão que conduz a algum lugar, quer ao dizer a nós mesmos o que está a acontecer no mundo175. Por isso, a
narrativa é sinónimo de vida; a ausência dela, a morte176.
As histórias a que nos referimos são aquelas capazes de contemplar ouvintes e leitores. Como diz Todorov “é história no sentido em que evoca uma certa realidade, acontecimentos que teriam ocorrido, personagens que, deste ponto de vista, se confundem com os da vida real”. Ainda o mesmo autor afirma, e com toda razão que “a história é uma abstração pois ela é sempre percebida e narrada por alguém, não existe «em si»177”. No âmbito da ficção toda
história ganha normalmente a designação de narrativa. E como se sabe, a narrativa não corresponde só à necessidade ou vontade de contar, mas a capacidade de entreter, de transferir o prazer da história. A narrativa traz sobretudo o prazer do discurso178. Evitamos, aqui, levar
em consideração a origem das narrativas de tradição oral bem como do seu apogeu entre as diferentes formas179.
O vocábulo “narrativa” começou a ser amplamente utilizado na segunda metade do século XX. Em voga da crítica formalista russa, quando o vocábulo “narração” já perdia a sua significação clássica; era empregada genericamente com o sentido de “narrativa” ou de “arte
173 Claude Lévi-Strauss. Mito e realidade, trad. António Marques Bessa. Lisboa: Edições 70, 1978, p. 24. 174 Tzvetan Todorov. Teoria da Literatura, textos dos formalistas russos, trad. Isabel Pascoal. Lisboa:
Edições 70, Vol. I, 1965, p. 22.
175 Jonathan Culler. Teoria literária: uma introdução, p. 84.
176 Cf. Tzvetan Todorov. Poética da prosa, trad. Maria de Santa Cruz. Lisboa: Edições 70, 1971, p. 89. 177 Vd., Tzvetan Todorov. “As categorias da narrativa”, in Análise estrutural da narrativa, trad. Maria
Barbosa Pinto e Milton José Pinto. Rio de Janeiro: Vozes, 4.ª ed., 1971, p. 211.
178 Maria Alzira Seixo. “Romance narrativa e texto” in Categorias da narrativa. Lisboa: Arcádia, 3.ª ed.,
1979, p. 15. Acrescento nosso. Cf. ainda Jerome Bruner. Actos de significado: para uma psicologia
cultural, trad. Vanda Prazeres, rev. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1997, pp. 51-68.
de narrar”180. Mas há que ter em conta que narração e narrativa estão ambas muito associadas
à história.
No campo da narratologia, o termo “narrativa” é fortemente polissémica181. Para esse
estudo, entenda-se aqui o vocábulo narrativa como o ato de relatar um determinado acontecimento fictício182; ou ainda como a representação dum acontecimento. Nesta
perspetiva, a narrativa literária associa-se a um relato ou a representação dum acontecimento.
convenhamos em chamar narrativa a todo o discurso que nos dá a evocar um mundo concebido como real, material e espiritual, situado num espaço determinado, num tempo determinado, refleticdo a maioria das vezes num espírito determinado que, ao invés da poesia, pode ser o de uma ou de várias personagens tanto quanto o do narrador183.
Entretanto, as narrativas existentes, sejam orais ou escritas, são inumeráveis. Diz Roland Barthes:
inumeráveis são as narrativas do mundo. Há em primeiro lugar uma variedade prodigiosa de géneros, distribuídos entre substâncias diferentes, como se toda matéria fosse boa para que homem lhe confiasse suas narrativas: a narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substâncias; está presente no mito, na lenda, na fábula, no conto, na novela, na epopeia, na história, na tragédia, no drama, na comédia, na pantomima, na pintura, no vitral, no cinema, nas histórias em quadrinhos, no fait divers, na conversação184.
Porém, no âmbito das narrativas de tradição oral, ultrapassa-se o ato de relatar, descrever ou representar os acontecimentos. Elas são tidas como verdadeiros reservatórios de valores culturais de uma comunidade185, embora se verifique que o advento da modernidade
tende a enfraquecer ou mesmo a apagar estes valores. É por meio da narrativa que é realizada a veiculação daqueles, sejam eles: educacionais, sociais, político-religiosos, culturais, económicos ou estéticos particularmente em espaços regionais. «As narrativas são as mais
180 Massaud Moisés. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 12.ª ed., 2013, s.v. “narração”, p.
324.
181 Cf. por exemplo, Olegário Paz e António Moniz, Dicionário breve de termos literários. Lisboa: Editorial
Presença, 1997, p. 146; e Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes. Dicionário de Narratologia. Coimbra: Almedina, 5.ª ed., 2000, s.v. “narrativa”, pp. 270-274.
182 Vide, Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes. Dicionário de Narratologia, s.v. “narrativa”, p. 262 e Nicole
Everaert-Desmedt. Semiótica da narrativa, trad. Alice Maria Frias. Coimbra: Almedina, 1984, p. 3.
183 Maurice-Jean Lefebve. Estrutura do discurso da poesia e da narrativa, trad. José Carlos Seabra Pereira.
Coimbra: Almedina, 1980, p. 170.
184 Roland Barthes. “Introdução à análise estrutural da narrativa”, in Análise estrutural da narrativa, trad.
Maria Zélia Barbosa Pinto. Rio de Janeiro: Vozes, 4.ª ed., 1976, p. 19.
185 Lourenço Joaquim da Costa Rosário. A narrativa africana de expressão oral: transcrita em português,
importantes engrenagens na transmissão desses valores»186, afirma Lourenço Rosário. Em
conformidade com isto, verifica-se o grau de importância que as narrativas adquirem nas sociedades orais. Nelas encontram-se estampadas os ensinamentos, os padrões que devem ser respeitados para uma boa convivência social. Assim sendo, a narrativa de tradição oral representa a sabedoria, a vida moral e o caráter social que tem de passar sempre de geração em geração, cabendo aos mais experientes a responsabilidade de transmitir este testemunho. Portanto, pode afirmar-se, que as narrativas são geradoras e formadoras de um tipo particular de homem.
A tradição é geralmente definida como um testemunho transmitido de forma verbal de uma geração para outra187. Por esta razão, as narrativas são consideradas tradicionais porque
transitam sempre de uma época para outra, na maioria das vezes de forma oral. Entretanto, no domínio da oralidade, as narrativas têm a função de transmitir conhecimentos, livrar o homem da ignorância, além do mais, oferecer fontes importantes para o conhecimento da história, do pensamento coletivo e das estruturas sociais, da língua. Desta maneira, elas servem para o aprimoramento da habilidade oral, o que faculta consideravelmente o aprendizado da língua materna.
É impossível coletar todas as narrativas de uma literatura oral, mas é indubitável que elas compreendem a maioria das mensagens históricas conscientes. E, diferentemente dos outros géneros, as narrativas de tradição oral têm uma forma livre, ou seja, mutável. Em outras palavras, elas não estão fixas a um protótipo. Podem facilmente sofrer remodelações, reajustes de episódios, ampliação das descrições, acrescento de palavras. Entretanto, o atualizador do texto oral ao tomar a palavra tem uma grande liberdade para efetuar numerosas combinações e transformações, desde que não comprometa o sentido lógico das mesmas.
o vocábulo “narrativa” de tradição oral cobre os contos populares, a fábula, a lenda, o mito e a epopeia. Está última encontra-se presente apenas em pouquíssimas literaturas orais188.
Atendendo, porém, a cerne do objeto de estudo selecionado, abordam-se aqui os aspetos gerais e particulares apenas da fábula, elemento essencial no âmbito desta dissertação.