PART II – THE MORAL ENTANGLEMENT OF WATER
CHAPTER 7: CONCLUSION
A presença do narrador é uma etiqueta destinada a assinalar a «narrativa» no sistema da prosa literária208. Não há dúvidas de que ele é a primeira noção, ou seja, o princípio de
qualquer narrativa. Mas, desde que proceda de acordo com a estrutura regular da ordem da
205 Carlos Reis e Ana Cristina Lopes. Dicionário de Narratologia, s.v. “estrutura”, p. 140.
206 Lev Vygotski apud Tzvetan Todorov. “As categorias da narrativa literária”, in Análise estrutural da
narrativa, trad. Maria Zélia Barbosa Pinto. Rio de Janeiro: Vozes, 4.ª ed., 1971, pp. 232-233.
207 Etienne Wolff, apud Massaud Moisés. Dicionário de termos literários, s.v. “estrutura”, p. 177. 208 Yuri Tynianov. “Da evolução literária”, in Teoria da literatura: textos dos formalistas russos, trad.
narrativa. Assim sendo, a narrativa pode ser, normalmente identificada, como tal, devido a hierarquia arquitextual que ela exige para que haja o real cumprimento dos factos. Pode-se dizer, que dentro dessa hierarquia o narrador é o cabeça de lista, ou seja, é o elemento fundamental das categorias da narrativa.
“O narrador”, diz Tzvetan Todorov, “é o sujeito da enunciação que revela os acontecimentos todos. É ele que nos faz ver a ação pelos olhos de tal ou tal personagem, ou mesmo por seus próprios olhos, sem que lhe seja por isto necessário aparecer em cena”209.
Cabe aqui falar de uma particularidade específica de narrador, pois no domínio dos textos orais, atendendo a realidade das narrativas, o indivíduo que conta a história pode ser uma entidade presente num determinado espaço ou um ser de papel. A passagem dos textos orais aos escritos levou à mudança da perceção de narrador, transformando-o numa entidade fixa no espaço textual escrito. Fazendo, porém, que o narrador fosse uma entidade fixa, isto é, uma voz que se localiza apenas dentro do texto. O que leva absolutamente à perda da assistência e faculta o surgimento dos leitores. Mas, não é de nosso interesse discutir estas transformações todas. Entretanto, o cuidado assenta na em apresentação do que se espera de um narrador de fábulas de tradição oral. E, como se sabe, nas narrativas de tradição oral mais do que a história, a forma como ela é apresentada é onde reside toda a sua mística210.
Ora, no âmbito puramente oral, as narrativas são, normalmente, contadas por uma pessoa em volta de uma assistência que recebe, entende e participa das narrativas. Esse papel não cabe, porém, a qualquer pessoa. Tomam a dianteira na narração das histórias os mais velhos, tidos como os mais experientes e sábios, ou então um iniciado, ou seja, indivíduo que aprendeu bem as narrativas, também designado “contador de histórias”, em Portugal e em Angola. Os vocábulos “griot” e “doma” são utilizados, geralmente, em algumas partes de África, como por exemplo no Mali211. Estes atualizadores distinguem-se do narrador, pois
teoricamente, este é uma instância da narrativa ou entidade fictícia de papel.
O contador de histórias e o griot são ambas pessoas disciplinadas e fazem plenamente uso da palavra. Detêm artifícios convincentes para que a assistência não duvide dos factos apresentados. Entretanto, são homens treinados para transmitir as narrativas, incluindo as fábulas, deixadas pelos ancestrais. Por isso, dominam os códigos todos que a oralidade exige, o que os faculta ter o domínio e a arte de manejar, corretamente, a fala. Entretanto, isso é uma diferença entre Portugal e Angola, no primeiro os contadores de histórias podem ser, normalmente, homens como mulheres. Mas em Angola, os contadores de histórias, devido as tradições falocêntricas, são homens. A voz da mulher angolana ainda está silenciada em público.
O contador de história ao expor os acontecimentos essenciais da fábula organiza,
209 Tzvetan Todorov. “As categorias da narrativa literária”, in Análise estrutural da narrativa, in Seleção
de Ensaios da Revista Communications: Análise estrutural da narrativa, n.º 1, trad. Maria Zélia Barbosa
Pinto. Rio de Janeiro: Vozes, 4.ª ed., 1971, pág. 245. Acrescento nosso.
210 Lourenço Joaquim Rosário. A narrativa africana de expressão oral transcrita em português, p. 228. 211 Amadou Hampaté Bâ. “A tradição viva”, in História Geral de África: Metodologia e pré-história de
primeiramente, os seus elementos em sequências regulares. Maneja a palavra para chamar a atenção de todos, pois é com a sua destreza que a assistência tende a ficar atenta ou a dormir. A narrativa tende, muitas vezes, a ser interrompida para que seja aclarada uma situação, ou reforçar uma informação esquecida. Há, pois, uma interação com o público.
A repetição, também, é um elemento importante, pois permite que as informações sejam plenamente apreendidas. As inquirições que fazem parte do ato narrativo são de facto necessários, porque é deste jeito que os recetores têm o privilégio de participar todas as vezes que for necessário. O atualizador transmite, pois, de forma ativa os conhecimentos; entretanto, estas transmissões de narrativas são tidas como escolas, onde o objetivo se acentua maioritariamente na instrução e não na diversão.
Levando em conta o grau de entendimento da assistência, o contador de histórias desenvolve o simbolismo que facilita a compreensão do seu auditório. Entretanto, cada um compreende o sentido da mensagem segundo a sua capacidade. Por ser uma prática que envolve uma transmissão ativa, o conhecimento da tradição oral encarna-se na totalidade do ser. As ferramentas do ofício, as palavras, materializam-se na alma dos ouvintes, o que obriga a viver segundo cada palavra e cada gesto. Esta caraterística essencial aos textos orais, tem vindo a desaparecer nos tempos modernos, em que os textos vão seguindo cada vez o padrão estabelecido pela escrita. Deste modo, o narrador confunde-se, muitas vezes, de forma pragmática, na escrita, com o autor, entidade fixa. Esta realidade comprova-se nas narrativas de tradição oral portuguesa e angolana.
Portanto, o narrador é um elemento indispensável para a arquitetura narrativa da fábula de tradição oral, enquanto entidade fictícia responsável pela distribuição de todos os elementos textuais da fábula. Este costuma a ser heterodiegético, na terminologia genettiana, isto é, não se confunde com nenhuma personagem212. Todavia, outras categorias são
importantes para que se complete a estrutura geral da fábula de tradição oral, como a personagem.