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A oralidade e a escrita possuem particularidades distintas. Enquanto a primeira se confina, naturalmente, à voz, a segunda apega-se à grafia como seu suporte de realização. Embora se verifique a passagem de textos orais à escrita, é necessário ter em consideração que esta última não é uma voz registada. Por outro lado, a voz não é um som privado de registo135.

E a transposição da oralidade à escrita vem cada vez mais enfermando os textos de natureza oral136.

No entanto, para que se apontem, não contraditoriamente, as particularidades específicas dos textos orais e dos textos escritos é necessário que se tenha em conta as características axiais tanto da oralidade como da escrita.

São diversas as elucidações sobre a origem da oralidade e da escrita. Porém, não mergulhamos nas achegas míticas que as envolvem. Procura-se, antes, descrever as particularidades essenciais de ambas, a fim de que se possa destacar, de maneira mais precisa, os seus respetivos traços.

Diferentemente da escrita, a oralidade remete-nos diretamente para a voz, ou seja, para aquilo que é falado. Neste âmbito, porém, o suporte de transmissão passa pelo som que culmina na fala137. Por causa disso, a voz possui um modo de existência específico, valendo-se

do poder mágico da palavra138.

135 Paul Zumthor. Introdução à poesia oral, p. 70.

136 Nuno Júdice. “A transmissão do conto”, in Estudos de Literatura Oral (ELO), n.º 1. Faro: Centro de

Estudo Ataíde de Oliveira, 1995, p. 119.

137 Charles Malamoud tem toda razão quando afirma que os sons precedem as palavras; vide Charles

Malamoud. “A voz e o sagrado”, in Grande Atlas das Literaturas. s/l: Página Editora, 2000, p. 79. Isto significa que na oralidade há uma espécie de hierarquia, onde tudo tem início no som ou pronúncia; (som – palavra – frase).

Segundo Emílio Bonvini, na oralidade, o suporte material é a proferição, que exige uma educação prévia da voz para que ela seja clara, sem erros139. Procedimentos gramaticais e

lexicais servem para pontuar o discurso, ritmar a mensagem, facilitando a memorização e a atratividade do interlocutor140.

Seria impossível apontar as características todas que dizem respeito à oralidade. Mas sabe-se que ela é caracterizada, normalmente, por um lado, por um estilo de linguagem mais familiar, facultando uma manifestação natural141; por outro lado, pela utilização harmónica de

refrões, repetições, assonâncias, paralelismos, e pela exploração sistemática de elementos adequados.

Visto que os textos orais se põem ao serviço da memória, apoiam-se na força evocadora da repetição sucessiva de uma mesma frase, ritmada ao mesmo tempo pelo número constante de sílabas e pela estruturação melódica dos tons, o que facilita a memorização dos textos da tradição oral. Entretanto, estes textos mais velam do que revelam, por isto convidam a partilhar entre o auditório a procura do sentido, tendo, por isso, uma estrutura de tipo dialógico. Por outro lado, os textos da literatura oral não estão, como a escrita, limitados a uma elite; que tende a desvalorizar aqueles textos de registo oral tais como os provérbios, as canções, as adivinhas, as fábulas e outros textos desta natureza142.

Tierno Bokar afirma que:

a escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram143.

Essa assertiva incontestável demonstra a dependência da escrita em relação à oralidade. É nesta que assenta o conhecimento latente. Portanto, sem a voz e a fala não pode haver sinais harmónicos que dariam sustento aos sinais gráficos. Por este facto, a escrita constitui a fotografia do saber. Em outras palavras, é a sombra do corpo da oralidade. Entretanto, sem esta, a primeira não tem uma plena realização. Assim sendo, a oralidade é o elemento primário, e a escrita, o secundário. Todavia, “o que acontece na escrita é a plena manifestação de algo que está num estado virtual, algo de nascente e incoativo, na fala viva, a saber, a separação da significação relativamente ao evento”, diz Paul Ricoeur144.

139 Emílio Bonvini. “Textos orais e textura oral”, in A tradição oral, trad. Ana Elisa Ribeiro e Fernanda

Mourão Queiroz. Belo Horizonte: FALE/UFMG, s/d, p. 7.

140 Ibidem.

141 Essa naturalidade que é uma forma particular da oralidade não significa uma liberdade diante da

manifestação linguística. Há regras estabelecidas que devem, no entanto, ser tidas em conta para que a comunicação surta o efeito desejado.

142 Vide, por exemplo, Jean Vansina. “A tradição oral e sua metodologia”, in História Geral de África –

Metodologia e pré-história de África, pp. 139-140.

143 Amadou Hampâté Bâ. “A tradição viva”, in História Geral de África: Metodologia e pré-história de

África. Brasília: Publicações Europa-América, vol. I, 2.ª ed., 2010, p. 167.

Alargando o horizonte, António Fonseca afirma “entenda-se a oralidade como a associação da palavra dita ao gesto, à mímica, às onomatopeias, ao canto, à dança, à participação dos presentes e ao uso de outras técnicas, num tempo, num espaço e em circunstâncias determinadas”145. A que ter em conta que o processo de transcrição da literatura

oral tem feito que ela perca muito a sua essência oral; conforme descreve Fonseca. Mas isso não significa que a escrita tenha menos valor do que a oralidade. Aquela pode salvar a instância do discurso porque o que ela efetivamente fixa não é o evento da fala, mas o dito da fala. Assim sendo, a escrita possibilitou a continuidade da tradição literária e aumentou a unidade e a integridade das obras literárias146. A escrita também se organiza de modo diferente do que

na oralidade. Assim sendo, a escrita realiza-se sob forma de grafia.

Atestam-se maior ausências de redundâncias, repetições e da estrutura mnemónica do discurso. Exige-se um maior rigor a nível frásico, não dando espaço a interrupções de frases. As pausas, as mímicas e os gestos que acompanham normalmente a dição deverão ser explicitados ou descritos. Entretanto, esta é imbuída do aspeto normativo que transforma o suporte material grafia em ortografia.

Porém, há que salientar o facto de que a escrita se tornou um meio ao serviço da sociedade para distinguir os civilizados (que usam a escrita) dos incivilizados (que não usam a escrita). Desta maneira, a escrita vai ganhando hegemonia perante a oralidade.