PART II – THE MORAL ENTANGLEMENT OF WATER
CHAPTER 5: PERCEPTIONS AND PRACTICES OF CLEANLINESS
A literatura de tradição oral recobre uma grande variedade de textos, todos com a sua especificidade. Embora a tentativa de sistematização, ou seja, de ordenação destes textos não seja estável existe a preocupação em fazer a tipologia dos respetivos géneros, atividade não recente. Muitos autores já trataram deste pormenor. Assim sendo, teve-se o cuidado de observar o que já foi feito neste sentido, tanto na literatura oral angolana bem como na portuguesa.
Vários pesquisadores apresentam diversas propostas tipológicas de textos orais. Porém, outros preferem não se achegar a esta problemática. Por exemplo Manuel Viegas Guerreiro não se atreveu a apresentar uma classificação dos géneros da literatura popular portuguesa155.
Todavia, tal como a literatura escrita, também a literatura oral deve ter a sua própria categorização. Tendo como base os chamados índices populares156 e conscientes do desacordo
inevitáveis devido à vasta diversidade de géneros.
Desde logo, os géneros orais são em número finito ou infinito? Neste âmbito há problemas a aclarar. Por um lado, não há concordância sobre a especificação da generalidade da literatura oral, seja em Portugal, em Angola ou noutro país. Por outro lado, verifica-se que enquanto uns preferem o termo “géneros”157 outros consideram melhor designá-los por “tipos”
e “formas de textos”; como é o caso do Américo de Oliveira158. Segundo este autor “a nossa
classificação de géneros literários – preferimos apelidá-los de formas de texto – da literatura
154 Jean Cuisenie. “Literatura oral e criação literária”, in Grande atlas das literaturas. S/l, Página Editora,
2000, p. 109.
155 Cf., por exemplo M. Viegas Guerreiro. Para a história da literatura popular portuguesa, 1983; idem.
Guia de recolha de literatura popular, 1976.
156 Cf. Jean Vansina. “A tradição oral e sua metodologia”, in História Geral da África I: Metodologia e
pré-história da África, p. 143.
157 Vide Alexandre Parafita. A comunicação e a literatura popular A comunicação e a literatura popular.
Lisboa: 1999, pp. 81-82; Hermann Baussinger. Formen der volkspoesie. Berlim: Edich Schmidt Verlag, 1968, pp. 6-7; Michèle Simonsen. O conto popular, trad. Luís Cláudio de Castro e Sousa. São Paulo: Martins Fontes, 1987, pp. 5-7.
158 Vide, Ana Margarida Laranjeira Viegas. Contributos da leitura recreativa e da escrita criativa para o
processo de ensino-aprendizagem de português língua estrangeira, Braga: Universidade do Minho,
tradicional angolana de transmissão oral159. Assim, este autor escusa-se a nomear a variedade
de textos orais angolanos por géneros, preferindo a expressão “formas de texto”. Todavia, em nosso entender, o vocábulo “género” usado na tipologização dos textos escritos, é o mais conveniente para denominar também as diversas manifestações de textos de tradição oral, de acordo com as suas marcas idiossincráticas e temáticas. Ou seja, entendemos por “género” um tipo de texto com um conjunto de traços secundários entre os caracteres formais, registos temáticos e seus usos sociais possíveis. Cabe ainda ao género definir a especificidade de cada espécie textual, exibindo seus pormenores e as formas de organização específica que demarcam com nitidez as várias facetas da manifestação da literatura, seja ela de natureza oral ou escrita.
Algo que a expressão “formas de texto” apontada por Américo de Oliveira, não parece considerar.
Cada espécie de texto oral denomina um género da literatura de tradição oral, pois, assim sendo, é por meio do género que se consegue identificar e reconhecer os textos orais.
Todavia, no âmbito da oralidade, verifica-se que em cada sociedade apresenta uma variação canónica da tipologia textual de tradição oral, que não é estática, isto é, tendem a evoluir no tempo160. Assim entendido, os géneros da literatura oral servem claramente para
identificar os diferentes tipos ou espécies de textos, atendendo às suas estruturas, quer externas quer internas. Textos estes que são uma via de acesso capital para a cultura de um grupo, para os seus modos de perceção, de representação e de pensamento, em suma, que ajudam a definir a identidade cultural. Consequentemente, constitui para inúmeras sociedades, particularmente em territórios africanos, a única documentação histórica161.
Até ao momento, não se conhece uma delimitação concludente e consensual dos géneros da literatura de tradição oral162. E das propostas até então conhecidas, umas tendem
a ser mais abrangente (incluindo uma boa parte dos géneros), em contrapartida, outras são mais restritas (excluindo certos géneros). Contudo, essa variação é verificada, muitas vezes, pelo facto de que cada sociedade apresentar a sua própria divisão e aceitação dos géneros da literatura oral. Desta maneira, a realidade dos géneros na literatura oral angolana diverge a de Portugal.
No entanto, atendendo a nossa abordagem levou-se em consideração os géneros das duas literaturas. Procurar-se-á situar como se encontram sistematizados os géneros da literatura de tradição oral angolana e portuguesa; embora sem que se precise mergulhar profundamente nos porquês de tais classificações.
159 Américo de Oliveira. O papel da criança na literatura tradicional angolana de transmissão oral, p.40. 160 Joseph Ki-Zerbo. História da África Negra, trad. Américo de Carvalho. Mem Martins: Publicações
Europa- América, 3.ª ed., 1999, vol. I, p. 21.
161 Georges Thines e Agnés Lempereur. Dicionário geral das Ciências Humanas, trad. Artur Morão. Braga:
Edições 70, Lisboa, 1984, s.v. “”, p. 554.
162 Esse, talvez, seja um verdadeiro motivo para levar os pesquisadores a (re)pensar, seriamente, numa
teorização das manifestações naturais da literatura oral. Para que certos pormenores que até então parecem desconcertados sejam, provavelmente, acertados. É de todo evidente, que os textos orais estão confinados à cultura de cada povo, mas uma teoria sobre essa literatura seria benéfica a fim de tentar apurar as idiossincrasias da oralidade a nível de toda a literatura desta natureza para que seja possível estabelecer uma hierarquia genérica universal no âmbito da literatura oral.
Segundo Alexandre Parafita, citando o alemão Hermann Bausinger, afirma que a literatura popular portuguesa163, especialmente, a transmontana é organizada em três grupos
de géneros: Formas e jogos verbais, Formas dramáticas e musicais e Formas narrativas164.
Entretanto, nesta última forma a fábula não é tida em consideração. Pelo que tudo indica, ela confina-se a área do conto popular, sob a designação de contos de animais. Portanto, eis arrumação dos géneros da literatura de tradição oral portuguesa:
Tabela 3: Géneros da literatura de tradição oral portuguesa
Não fugindo, totalmente, a hierarquia acima apresentada, Américo Oliveira, pesquisador que nos últimos anos vem se dedicando ao estudo da literatura de tradição oral angolana165, apresenta uma sistematização genérica dos textos da literatura oral angolana166.
163 Para o conhecimento das individualidades que tanto fizeram para o conhecimento e crescimento da
literatura popular portuguesa, vide Manuel Viegas Guerreiro. Para a história da literatura popular
portuguesa, pp. 70-90.
164 Vide Alexandre Parafita e Isaura N. Fernandes. Os provérbios e a cultura popular, pp. 45-60, para
verificar as amostras que representam cada género apresentado.
165 Para um conhecimento sobre as entidades que participaram ativamente no estudo da literatura
angolana de tradição oral, vide António Fonseca, Contos de antologia (reflexões, contos e provérbios), p. 74; e José Francisco Valente. Paisagem africana (uma tribo angolana no seu fabulário), Instituto de Investigação Científica de Angola, Luanda, 1973.
166 A sistematização dos géneros da literatura oral angolana não é todo modo claro e sustentável.
Entretanto, embora não nos dediquemos a discutir isto amplamente, mas pode verificar-se que várias são as achegas que se tenta dar a arrumação dos géneros dos textos de tradição oral angolana.
Literatura de tradição oral portuguesa Géneros literários da tradição oral
Formas e jogos verbais Formas dramáticas e
musicais
Formas narrativas
Provérbios Teatro popular Conto popular
Ditos populares Quadras e poesia popular Lenda
Apodos ou motejos Cancioneiro Mito
Adivinha Romanceiro e excelências
Lengalengas Rimas de jogos Trocadilhos e trava-línguas Réplicas populares Orações Rezas ou responsos
Fórmulas de superstições e de mezinhas ou esconjuros
Agouros ou profecias Pragas ou maldições Galanteios ou piropos Orações com escárnio Pregões
Pulhas
Testamentos ou papeladas
Fazem parte desta a narrativa, os provérbios, a adivinha, a canção, a oração e a varia, cada género apresenta a sua especificidade.
Na narrativa englobam-se todo tipo de texto narrativo em prosa, exceto a anedota, historieta. Concluímos que se encontra aqui incluída a fábula, pois o autor evita fazer especificações das narrativas pertencentes a literatura de tradição oral angolana.
No que diz respeito aos provérbios, fazem parte desta seção forma de texto que englobam categorias como as de dito, rifão. Na adivinha estão presentes todo o tipo de texto que encerra um problema a ser resolvido pelos interpelados, assuma a forma de pergunta e resposta, nem sempre fixas. Normalmente, elas podem ser simples ou compostas.
A Canção é um género que engloba todo tipo de texto que assume, de forma direta ou indireta, a forma poética, normalmente acompanhado de melodia. E como o nome indica esse tipo de texto manifesta-se pelo canto de várias modalidades. No domínio da Oração verificam- se toda modalidade de texto em prosa ou poesia, expressando um pedido, agradecimentos a seres divin(izad)os).
Por último, insere-se na área da varia (as historietas, os motejos ou desdéns, passatempos infantis, ritos e vozes de animais167.
São apenas estes géneros que existem na literatura oral angolana e portuguesa? É arriscado responder que sim. Pois “o trabalho do conhecimento procura alcançar uma verdade aproximativa, não uma verdade absoluta”168. Deste modo, pelo que tudo indica no âmbito da
oralidade, não se chega a conhecer na totalidade os géneros desta literatura. São várias as suas manifestações, fazendo as discussões continuarem sobre as muitas fórmulas que não foram, até então, devidamente aclaradas.
Todo o género se funda em uma representação de um texto oral. Mas, há que ter em conta que existe uma relação entre a variedade de géneros. Ou seja, muitos textos interligam- se facilmente noutros, tornando possível que num único texto, por exemplo, se manifeste mais do que um género. O que cria, às vezes, dificuldades para definir claramente os textos orais. Mas, apesar da miscigenação entre estes textos, os géneros que se encontram confinados à literatura oral devem ser submetidos à uma explicação de uma teoria coerente; caso inverso, poderemos ficar prisoneiros de preconceitos transmitidos de século para século.
No que concerne aos géneros da literatura oral observa-se que uns são mais conservadores do que outros. Isto é, muitos raramente variam ou sofrem mutação, pois apresentam uma estrutura muito definida, fixa como por exemplo a canção, os provérbios e as adivinhas. Contrariamente, o espaço narrativo aparenta ter maior liberdade, pois tende a flexionar-se com bastante facilidade. Cada pessoa tem a capacidade fazer as modificações que achar convenientes à medida que lhe é dada a palavra para expor a narrativa. E pode ser um conto tradicional, uma lenda, um mito ou mesmo uma fábula. Tratar-se-á, seguidamente, da estrutura narrativa desta última, isto é, os aspetos gerais que a constituem.
167 Américo de Oliveira. O papel da criança na literatura tradicional angolana de transmissão oral, pp.
40-42.