PART II. CHAPTER 2: THEORETICAL FRAMEWORK
2.2. W AREHOUSING . L EAN W AREHOUSING
2.2.1. Warehouse Management
A primeira coisa que chama a atenção nas respostas aos questionários é o eco do discurso publicitário acerca da EAD, em que a facilidade de adaptação dos cursos é reforçada, pois um curso nesse formato é visto como sendo de fácil adaptação, uma vez que o aluno sempre poderá fazê-lo quando melhor lhe convier. No discurso publicitário, as dificuldades encontradas por alunos da EAD, como a necessidade de disciplina e de disposição para fazer as tarefas, são mencionadas em algum momento. A principal razão pela qual um usuário não se lembra desses inconvenientes é que os profissionais da publicidade trabalham com afinco na produção da peça publicitária que, segundo Campos (1987, p. 27), "oculta e revela, em seu aparato retórico, várias formas de representação social, estruturando-as de forma persuasiva e sedutora". Nestes excertos, a EAD aparece como solução para problemas enfrentados por alunos em seu dia a dia (grifos nossos).
Excerto 1:
E1: Aspectos positivos: o aluno nao perde tempo se deslocando p o local da instituição.
Ele pode assistir às aulas no conforto da sua casa e quando ele quiser. Excerto 2:
E2: Eu acho que os aspectos positives sao a flexibilidade de tempo,
Excerto 3:
E3: Positivos: facilidade de acesso nos horarios convenientes ao aluno; possibilidade de estudar mesmo estando em viagens, finais de semana
ou horários alternativos; possibilidade de direcionar o estudo para os aspectos de maior interesse do aluno; autonomia.
Excerto 4:
E11: The positive aspect is that you have classes anywhere and anytime you want.
Excerto 5:
E16: No time spent commuting; • No additional travel costs;
• Continue working at your current job while you take classes;
• Your learning options are not constrained by your geographic
location;
• You can learn at your own pace and study at your convenience
Podemos ver nesses excertos dificuldades como o deslocamento nas grandes cidades (a maioria dos entrevistados era de São Paulo, capital) e a falta de tempo para se frequentar uma escola. A flexibilidade do tempo e do espaço e a autonomia para adaptar os estudos ao dia a dia de cada um são reforçadas. A própria apresentação— e propaganda— do curso focal encontrada no site da instituição de ensino estudada reforçava:
Se você não dispõe de tempo para fazer um curso presencial, temos a alternativa perfeita para você. Nossos cursos online são personalizados, dinâmicos, interativos e oferecem a flexibilidade e comodidade que você procura. (http://www.XXX.org.br/online.htm . Acesso em 04/01/2011)
Se compararmos os excertos acima aos anúncios de cursos online, dentre eles a página da internet de onde foi retirada a citação, veremos que a aparente diminuição
das distâncias geográficas (o aluno não perde tempo se deslocando/ no conforto da sua casa/ No time spent commuting/ you have classes anywhere/ are not constrained by your geographic location) e a possibilidade de se fazer um curso que se adapte às necessidades do aprendiz (direcionar o estudo para os aspectos de maior interesse do aluno; autonomia /anytime you want/ You can learn at your own pace and study at your convenience) é recorrente. Ao falar sobre as características positivas dos cursos online, os alunos ressoam a voz do discurso publicitário e a voz do senso comum. Se o discurso dominante é aquele que diz que a EAD é conveniente porque é adequada aos nossos horários, quem é que irá discordar desse fato?
Kellner (1995) destaca que os anúncios publicitários constroem o equivalente a mitos, pois eles normalmente resolvem contradições sociais, fornecem modelos indentitários e celebram a ordem social vigente. Essa noção construída de mito é que parece ser reforçada na mídia e na própria apresentação do curso ao se falar sobre a EAD como a aprendizagem envolvente que vai até o aluno no momento que ele mais precisa e lhe fornece aquele produto desejável: o conhecimento.
Assim, a ideia da modalidade da EAD como a solução aos problemas de falta de tempo e espaço é reforçada. Vê-se, porém, que são apenas a distância espacial e a temporal que são lembradas, mas não a interativa, que é mencionada por Tori (2010). Tal ausência provoca um efeito de que a interação e a interatividade não são importantes para o sucesso do estudante. Apaga-se a figura do professor/ tutor e ainda a necessidade de se pensar em ações de aprendizagem que reforcem a interatividade. Com isso, o curso online é visto como uma maneira “mágica” de se produzir conhecimento, com um modelo que seria igual para todos e ao mesmo tempo possível de abarcar as diferentes necessidades de alunos distintos.
Mais ainda, a EAD também é apresentada como uma possibilidade de se fazer um curso “sob medida” (possibilidade de direcionar o estudo para os aspectos de maior interesse do aluno; autonomia), ecoando os discursos do aprendizado de línguas dirigido e de negócios. O aprendiz resolveria, assim, as dificuldades encontradas nos cursos de inglês presenciais e com mais alunos. A heterogeneidade dos participantes do curso seria apagada por essa possibilidade de se estudar como se quer, no horário e da maneira conveniente para o aluno. Tem-se a impressão de que todo conteúdo
serviria para qualquer aluno, ao mesmo tempo em que seria focado em necessidades individuais, o que é contraditório.
O excerto 3 traz para pauta algumas dificuldades encontradas pelas pessoas do meio empresarial ao tentar estudar a língua inglesa, como as constantes viagens (surgiria, então, a possibilidade de estudar mesmo o aluno estando em viagens, finais de semana ou horários alternativos). No instituto de línguas focal, esse era um problema recorrente para os alunos dos cursos regulares. Cada vez mais os funcionários de empresas eram requisitados para realizar viagens ou mesmo para horas extras, o que ocasionava um número alto de faltas e uma consequente queda no rendimento. Esse fato nos remete a outro discurso recorrente nas entrevistas, o discurso empresarial.