Os cursos GT e AJ são formados, em sua maioria, de atividades que são feitas individualmente pelo aluno e que não requerem a participação do professor ou mesmo a interação com outros participantes do curso. A produção de conhecimento fica a cargo da interatividade aluno-curso. Essa observação nos leva não apenas a discutir as aplicações de teorias como a behaviorista e a construtivista na construção de conhecimento, como ainda a questionar se essas perspectivas podem coexistir quando se fala em letramento digital.
Segundo Baker (2010) e Gee (2010), o próprio entendimento de letramento é influenciado por perspectivas diversas se considerarmos, como exemplo, a aquisição do letramento, as características contextuais ou mesmo a forma de se avaliar as habilidades de letramento. Para Gee (2010), há uma mescla de trabalhos sobre cognição que lidam com a mente e a aprendizagem e contemplam abordagens socioculturais de linguagem, letramento e tecnologia22. Além disso, salienta que existem níveis de letramento tanto para o que ele chama de “letramento tradicional”, aquele que diz respeito à leitura e à escrita, como para o letramento digital, que diz respeito à habilidade de não apenas participar de práticas mediadas pelo computador e por outros dispositivos eletrônicos, mas também de construir sentidos e filtrar informações com criticidade. Nas duas formas de letramento mencionadas pelo autor, a ascensão a um patamar melhor para o sucesso no mundo moderno está ligada ao papel da linguagem “acadêmica”, entendida por Gee (2012, p 418-419) como as formas de linguagem usadas na pesquisa, no pensamento empírico e na argumentação lógica23 para o letramento tradicional, e como as formas de linguagem usadas em comunidades especializadas dedicadas às habilidades tecnológicas e raciocínio24. Ou seja, ainda que haja letramento, seja ele tradicional ou digital, há também uma gradação entre eles, que permite o posicionamento do sujeito nesses níveis, o qual será melhor quanto maior for a habilidade de linguagem.
Siemens e Tittenberger (2009) discutem as constantes pressões envolvidas na educação, salientando que a educação sempre teve um papel que envolve tanto a “tradição” como a “emergência”. A tradição diz respeito à influência e à transformação da sociedade numa tentativa de se atingir ideais mais altos e conta com diversos autores, como Piaget, Illich e Freire, por exemplo, na luta por fazer a educação mais acessível e mais justa. Vygostsky e Wenger também enfatizam a importância do contexto cultural e da comunidade na educação, entre outros teóricos e ativistas que procuram a reforma da educação.
22 Dentre eles, chama atenção para movimentos interuisciplinares surgiuos nas últimas uécauas, como o New Literacy Studies, o Situational Cognition Studies, o The New Literacy Studies e o The New Media Studies.
23(…) the forms of language useu in research, empirical reasoning anu logical argumentation.
A emergência, por sua vez, diz respeito às novas tendências ou aos ajustes que são feitos às nossas abordagens educacionais para influenciar os aprendizes. Ao procurar entender nossos alunos, procuramos também usar a “sua língua” e aprendemos a usar suas ferramentas, como blogs e wikis, por exemplo, numa tentativa de aproximação com os aprendizes. Ao fazer isso, deslocamos a função original da ferramenta, que seria o da diversão, para a escola. Partilhamos do pensamento de Siemens e Tittenberger (2009), que reforça a importância de que o uso dessas ferramentas seja feito a partir de uma reflexão sobre o meio educacional. Sem essa reflexão, corre-se o risco do insucesso, uma vez que o aluno pode não aceitar que uma atividade educacional seja realizada no que deveria ser seu contexto usado para diversão ou comunicação com seus pares.
A mudança da perspectiva behaviorista de aprendizagem foi o centro das atenções nas décadas finais do século XX. Antes do advento dos computadores, a ideia da mecanização do aprendizado foi foco de experiências (McKENNA e CONRADI, 2010). Uma instrução programada envolvia uma análise behaviorista de um conjunto de habilidades desejadas. Era decidido de que forma a instrução deveria ser formatada e a sequência de conteúdo. A instrução era focada no produto e a monitoração do progresso do aluno era feita por meio de um movimento que ia da atividade muito controlada até a prática independente das habilidades. Quando os computadores chegaram por volta dos anos 80, a tecnologia foi perfeita para a produção de software behaviorista que focava as habilidades de letramento básicas, pois a tecnologia era off-line e simples. Com a chegada da Internet, porém, o ambiente ficou mais propício a atividades mais complexas que levam uma variedade de formatos (McKENNA e CONRADI, 2010).
Anderson e Dron (2011) fazem referência ao que chamam de CB (modelo Cognitivista-behaviorista, ou Cognitive-Behaviorist model). Os autores enfatizam que as noções behavioristas foram especialmente importantes para o treinamento, em oposição aos programas educacionais. Segundo os autores, o cognitivismo surgiu em vista da necessidade de se observar como a motivação e as barreiras mentais poderiam ser associadas ao comportamento. O cognitivismo também é associado a um maior conhecimento das funções do cérebro, em especial quando esse conhecimento é
relacionado a modelos computacionais para descrever e testar a aprendizagem e o pensamento.
A perspectiva construtivista, por sua vez, tem uma trajetória paralela à da behaviorista. Enquanto na abordagem behaviorista de aprendizagem existe o controle de designer, na construtivista o controle vem do aprendiz. A behaviorista enfatiza a habilidade e tem um objetivo central, enquanto a construtivista enfatiza as estratégias usadas na solução de problemas. O tipo de resultado obtido pela abordagem behaviorista é sempre previsível, enquanto o da construtivista pode ser divergente, uma vez que depende das estratégias de cada aluno. Por fim, a abordagem behaviorista prevê a decomposição de tarefas que vão das mais complexas para as mais simples, enquanto a abordagem construtivista tem uma visão mais holística das atividades, que são vistas como um todo.
Isso não quer dizer que as duas não possam ser usadas em diferentes momentos da aprendizagem, como defendido por McKenna e Conradi (2010) e mencionado por Baker (2010). Assim, existiria uma integração entre tecnologia e letramento como um sistema de andaimes (scaffolding, numa alusão aos diferentes níveis de conhecimento usados por Vygostsky) que partiria de atividades com um fundo mais behaviorista até a construtivista, com um engajamento autêntico em atividades de leitura e escrita.
Segundo Siemens e Tittenberger (2009), as falhas da abordagem behaviorista ficaram mais evidentes quando as pesquisas construtivistas e cognitivistas se aprofundaram nos processos de aprendizagem. Na verdade, há contribuições de várias linhas das perspectivas além da behaviorista e construtivista, como a semiótica, a cognitiva e a sociocultural (BAKER, 2010). A semiótica (KALANTZIZ, COPE & CLOONAN, 2010, por exemplo) defende que o texto sempre foi algo “multimodal” e que as tecnologias multimídias apenas reiteram a necessidade de se definir o letramento em termos de múltiplos sistemas de signos. Por sua vez, a perspectiva cognitivista defende que os novos letramentos requerem novas habilidades cognitivas e meta- cognitivas que não eram consideradas pela educação tradicional. Pesquisadores como Lawless, Schrader e Mayall (2007), por exemplo, revelam que o conhecimento de
mundo auxiliou os usuários de hipertexto a não serem lineares em suas pesquisas por informações na rede e que estes geralmente permaneciam mais tempo engajados com atividades online, enquanto Coiro e Dobler (2007) perceberam que os leitores na rede se utilizam de complexos aspectos de conhecimento de mundo, inferência e metacognição. A ideia de letramento muda assim como a cultura muda, segundo os sociocognitivistas. Letramento no mundo digital diz respeito não apenas a ler a palavra escrita, mas também a usar eficientemente a Internet para uma gama de propósitos (GEE, 2010; CHANDLER-OLCOTT & MAHAR, 2010; MIKULECKLY, 2010) e até mesmo de participar do desenvolvimento de identidades que os fazem ter acesso a outros grupos com as mesmas afinidades, como é o caso do uso dos animês por jovens (ITO, 2007).
Siemens (2005a, 2005b) sugere um modelo de aprendizagem numa era definida pelas redes: o conectivismo. Segundo essa visão, o conhecimento e a cognição são distribuídos por meio de redes e tecnologia. Nesse sentido, a aprendizagem é o processo de conectar, crescer e navegar essas redes25 (SIEMENS e TITTENBERGER, 2009, p.11). Ela tem três níveis: o neural, o conceitual e o externo. O neural diz respeito às conexões neurais que são feitas a partir de estímulos e experiências vividas. Apesar de o conhecimento e o aprendizado acontecerem em diferentes pontos do cérebro, ainda assim as conexões neurais auxiliam a promovê-los. O nível conceitual acontece dentro de um campo de conhecimento que também tem uma estrutura de rede. O externo, por sua vez, é auxiliado pelas tecnologias participativas, que levam a conexões de todos para todos, de indivíduos que se relacionam com especialistas, aumentando cada vez mais as informações de diferentes contextos.
Essas conexões feitas em diferentes níveis levam a uma construção de conhecimento muito mais ágil e interligada, o que gera outras maneiras de se construir significado. O conhecimento está distribuído por essas redes que incluem pessoas e objetos cada vez mais interligados e suscetíveis a pressões globais, sociais, políticas e tecnológicas que influenciam o futuro da educação, mudando o processo de saber— epistemologia --- para o ser— ontologia. Se o currículo anteriormente era focado em
elementos de conhecimentos, no momento atual ele foca as qualidades e atributos dos aprendizes (SIEMENS e TITTENBERGER, 2009). A função do professor passa a ser, então, de orientar a construção dessas novas redes de conhecimento que os alunos formam. Acreditamos que essa função faça mais sentido no contexto de educação atual uma vez que o acesso à informação é facilitado pelas redes. O professor pode, então, enfocar na construção de outras habilidades por seus alunos.