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Wage setting, monetary policy and employment in a flexible exchange rate regime

Sharing the Burden of Adjustment

Chart 11 Wage setting, monetary policy and employment in a flexible exchange rate regime

Numa referência direta ao filme de Tizuka Yamazaki, Parahyba Mulher-

Macho (1983), Jomard Muniz de Britto, ao intitular um de seus filmes de Parahyba Masculina Feminina Neutra não apenas parodiava esta obra de

projeção nacional, ele também brincava e questionava as representações e estereótipos em torno da paraibana e do paraibano. Representações construídas pelas páginas dos cordéis, pelas xilogravuras, pela literatura regionalista e cantadas nos forrós, xotes e baiões.

O verso ―Paraíba, masculina, muié macho, sim sinhô‖, da música

Paraíba263, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, produziu e difundiu uma das

263 Este baião foi composto em 1950 por encomenda pelo então candidato a senador pela

imagens mais recorrentes referentes à mulher paraibana, a de mulher-macho, como também reafirmava a masculinidade do nordestino, em particular, do paraibano. Com certeza, devido a projeção dessa música, esses versos foram tomados como referência por Tizuka Yamazaki e, consequentemente, por Jomard Muniz de Bitto.

A partir dessas representações expressas pela música do ―Rei do Baião‖, a Paraíba, mesmo feminina, tratada como uma mulher pequenina, seria um estado por excelência masculino, ou melhor, com predicados masculinos. Esses atributos também seriam centrais para a construção do nativo dessa região, o nordestino. Nessas representações se entrelaçam região e gênero. Segundo Durval Muniz,

o tipo regional do nordestino foi elaborado por toda uma produção discursiva do começo do século XX; esta construiu-o como uma figura masculina, forte, valente, viril, descendente direta dos antigos grandes patriarcas – responsáveis pela conquista e colonização da região. A nordestinidade se relaciona diretamente, portanto, com a masculinidade, compondo uma identidade regional que implica uma identidade de gênero. Ser nordestino é ser ―macho‖264.

Nesse sentido, neste tipo humano não haveria lugar para valores femininos. Estes últimos, inerentes à mulher, seriam subjugados, assim como quem os carregam. Essas representações são perpassadas pela ideia de que só ao homem seria inerente a capacidade de sobreviver a uma região tão dura e uma vida penosa quanto à região Nordeste.

Essas construções sociais acabam por criar um modelo tradicional do que representaria o ―homem de verdade‖, o homem nordestino, ao qual os corpos masculinos e femininos teriam que se sujeitar. Esse homem seria capaz de tornar novamente viril a região em contextos de crises e invasão de

abraço pra ti pequenina‖. Quando de seu lançamento em meio à disputa eleitoral, a música foi acusada pelos adversários de José Pereira Lira de ser ofensiva à mulher paraibana por trazer no refrão ―muié macho‖.

Ver:

http://www.museuluizgonzaga.com.br/index.php?cont=noticias_inc.php&categ=luiz&temp=65 Acesso em: 19/04/2012.

264 ALBUQUERQUE, JUNIOR. Durval Muniz. CEBALLOS, Rodrigo. Trilhas Urbanas,

armadilhas humanas: a construção de territórios de prazer e de dor na violência da homossexualidade masculina no Nordeste brasileiro dos anos 1970 e 1980. In: SANTOS, R.; GARCIA W. (Orgs.). A escrita de adé: perspectivas teóricas dos estudos gays e lésbicos no Brasil. São Paulo: Xamã; NCC/SUNY, 2002, p. 136.

―interesses e valores estranhos‖265. Os valores que constroem esses modelos

criam e reproduzem uma lógica naturalista de dominação masculina, a qual Daniel Weizer-Lang vai analisar como parte do processo na construção das formas de se fazer homem. Segundo o autor:

o duplo paradigma naturalista que, por um lado, define a superioridade masculina em relação às mulheres, e, por outro, rege o que deve ser a sexualidade masculina resulta na produção de uma norma política andro-centrada e homófoba que nos diz o que deve ser o homem de verdade, o homem normal. Este, homem viril no modo de se apresentar e em suas práticas – portanto não efeminado –, ativo, dominante, pode aspirar aos privilégios de gênero. Os outros, os que se distinguem por uma razão ou outra, por causa de sua aparência ou de seus gostos sexuais ―pelos‖ homens, representam uma forma de insubimissão ao gênero, à opinião de sexo, e são simbolicamente excluídos do grupo dos homens por pertencer aos ―outros‖, o grupo dos dominados/as, formado pelas mulheres, pelas crianças e por todas as pessoas que não os homens normais266.

A (des)construção e crítica empreendida pelo superoitismo na Paraíba a essa dominação masculina presente na história e na cultura do estado passava pela abordagem desses valores dominantes por meio das narrativas fílmicas. Ao tematizarem o universo masculino, os filmes desmitificavam as práticas e representações dominantes, bem como evidenciaram as brechas e outras maneiras de ser homem.

Cidade dos Homens, de Jomard Muniz, constrói uma espécie de visão

sobre a cidade de João Pessoa, sugerindo que esta seria marcada por uma cultura do masculino. O filme constrói essa ideia de cidade a partir de imagens com a presença massiva de homens nos mais diversos espaços; muitos homens. Mas não lança uma visão apenas observativa e que revela essa presença dos homens nos espaços da cidade como natural, pelo contrário, lança um olhar analítico e que procura desvendar esse comportamento. É a representação, justamente, de uma cultura do homem na rua, ocupando os espaços públicos, os trabalhos da rua, a vivência entre eles e os espaços culturalmente construídos como espaços masculinos ou predominantemente

265 ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz. Nordestino: uma invenção do falo – uma história

do gênero masculino (Nordeste – 1920/1940). Maceió: Edições Catavento, 2003, p. 163.

266 WEIZER-LANG, Daniel. Os homens e o masculino numa perspectiva de relações sociais de

sexo. In: SANTOS, R.; GARCIA W. (Orgs.). A escrita de adé: perspectivas teóricas dos estudos gays e lésbicos no Brasil. São Paulo: Xamã; NCC/SUNY, 2002, p. 121.

masculinos, como a própria rua, o bar, a praça, os clubes – espaços estes que excluiriam as mulheres.

O filme capta rostos e corpos dos mais diversos tipos, como se procurasse o típico homem paraibano, movimento que remontaria outros períodos e políticas, como o início do século XX, que buscou entre praianos, brejeiros e sertanejos o representante da masculinidade nordestina267. O filme

sugere uma representação desse homem paraibano como um sujeito diverso. O filme percorre praças e vias públicas, espaços privilegiados para a reunião desses homens, além do canteiro de obras do Espaço Cultural da cidade, uma colônia de pescadores, teatro, universidade, o Bar do Camões, conhecido reduto boêmio à época. Lugares que, na análise de Daniel Weizer-Lang, ―ao abrigo do olhar das mulheres, se constrói, se gera e regenera o masculino, seus atributos e seus privilégios de gênero‖268.

267 ALBUQUERQUE JUNIOR. Op. Cit. 268 WEIZER-LANG, Daniel. Op. Cit., p. 117.

Figuras 57 a 63 – Frames de Cidade dos Homens.

A defesa dessa masculinidade que marca a ideia de homem nordestino ainda é desvendada ao passo que a personagem feminina Anayde Beiriz é abordada. Jomard Muniz desconstrói diversas das representações em torno dessa mulher, desde parodiando a representação da ―mulher-macho‖ a qual a

personagem é associada no título do filme de Tizuka Yamazaki, até as visões mais críticas em torno da personagem, que a concebem como uma mulher libertina e causadora da desonra dos homens. E a defesa da honra é central para a constituição do homem nordestino. Segundo Durval Muniz:

outro tema constante no discurso regionalista ao traçar as características do nordestino é o do valor que este confere à honra pessoal, em nome da qual é legítimo até que mate. A honra não podia ser atacada nem por outro homem, nem por sua mulher. Um homem sem honra não existia mais, era considerado um pária na sociedade269. P 196

Dentre as representações da Anayde Beiriz que Jomard Muniz retoma em Esperando João, está aquela que carrega a culpa que lhe foi historicamente imposta pelos episódios de 1930, como o assassinato de João Pessoa pelo seu namorado, João Dantas, que cometera esse ato em defesa da própria honra, depois que este teve a casa invadida e fotos íntimas suas com Anayde Beiriz divulgadas pelos partidários de João Pessoa.

Essas representações construídas no decorrer dos anos, e que agitaram os debates no início da década de 1980, colocavam-na num lugar de destaque sobre esses episódios, muito mais que na época dos próprios acontecimentos, quando as questões partidárias e econômicas tiveram um peso maior no desenrolar da ―Revolução de 1930‖ e a imagem de Anayde Beiriz mal figurava nas reportagens da época270.

Em Esperando João, essa representação é evidenciada por imagens de uma Anayde Beiriz ―aprisionada‖ atrás de grandes de uma residência e de figurino e gestualística comedidas. Essa Anayde representaria um corpo que, por romper com comportamentos, se comporia como inadequado ao meio, um corpo entre a moral social e as questões existenciais. Bem como a retomada de trechos de poemas da poetiza dentro da narração do filme que, ao ser ressignificados pelo filme, representariam a culpa imposta sobre a personagem histórica: a mulher que feriu a honra daqueles homens, a própria honra da mulher paraibana e a honra da cidade.

269 ALBUQUERQUE JUNIOR. Op. Cit., p. 196. 270 SILVA, Alômia. Op. Cit., p. 30-31.