Detaljanalyse 8. og 28. november
8 Vurdering av tiltak
“A articulação de um discurso argumentativo supõe sempre dois movimentos: um de desconstrução e outro de construção, visando a uma
transformação. “
Helena Nagamine Brandão (1998)
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Este capítulo tem como objetivo apresentar, de forma sucinta, algumas dos principais estudos teóricos e metodológicos que dizem respeito ao estudo da argumentação e que podem contribuir, seja para a análise dos dados desta tese, seja para o ensino da leitura e da escrita de textos opinativos.
Em primeiro lugar, destacamos o caráter fortemente argumentativo que têm os artigos de opinião. Ao tratarem de questões polêmicas, sobre as quais não existe uma verdade absoluta ou uma resposta única, os artigos de opinião trazem temas atuais e de interesse geral que permitem diferentes posicionamentos. Essas diferentes posições para serem socialmente validadas dependem da argumentação, ou seja, da capacidade de o agente produtor dar sustentação à idéia que está defendendo, seja por meio de fatos, dados, provas, razões, evidências, etc. Uma leitura crítica desses textos, portanto, exige por parte do leitor capacidades de linguagem que revelem os argumentos apresentados pelo texto, bem como identifiquem os argumentos falaciosos, ou seja, inválidos ou falsos.
Dentro do conjunto dos estudos referentes à argumentação, destacamos a abordagem filosófica de Tolmin (1558/1993), o enfoque estrutural de Adam (1992), mas privilegiamos o enfoque enunciativo- discursivo da argumentação (Chartrand, 1995; Golder, 1996; Dolz,1995a, 1995b, Dolz e Pasquier, 1993) e a relação dessas abordagens com o ISD.
O enfoque enunciativo-discursivo da argumentação procura relacionar a situação de produção da argumentação à construção do texto argumentativo, o que nos permite afirmar a existência de uma variedade de textos argumentativos. Segundo Golder (1996) o tratamento que o locutor dá à situação de produção se traduz no texto por meio da escolha de certas unidades lingüísticas que acabam por caracterizar esse discurso.
Trata-se, portanto, associar o esquema textual da argumentação às suas coerções contextuais. Nessa perspectiva, apresentamos o conceito de argumentação inspirado em Golder (1996), que nos serviu de base: “construção por parte do locutor de uma representação discursiva, de uma
esquematização cujo objetivo é a modificação da representação que o interlocutor faz do tema abordado”.
Podemos afirmar que, embora cada texto argumentativo tenha um contexto de produção imediato sempre único, há algumas características contextuais gerais que caracterizam a produção desse tipo de texto [Machado (2000), Souza (2003), Golder (1996)] e que resultam em um conjunto de unidades lingüísticas constantes. Essas características podem ser assim explicitadas:
a) Existência de uma situação social controversa, que gera um tema admissível e passível de ser discutido dentro do sistema de valores dos interlocutores. Desta forma, não se coloca em discussão um tema que o interlocutor não o reconheça como polêmico, como possível e socialmente autorizado para ser discutido, Por exemplo, não se escolhe como tema a ser discutido a alimentação à base de carne de vaca na Índia, onde esse animal é considerado sagrado.
b) Existência de crenças contrárias ou posições possíveis de serem flexibilizadas. É possível se discutir o consumo de carne de vaca em uma situação em que estão presentes vegetarianos e não vegetarianos, mas não na Índia.
c) Existência de locutor e interlocutor que se engajem na polêmica. Por parte do locutor, a crença de que é possível convencer o interlocutor. Por parte do interlocutor, é preciso haver abertura para se engajar na discussão e, até quem sabe, fazer com que o próprio locutor altere sua posição.
Analogamente, podemos dizer que são as características da situação de produção que fazem com que o locutor escolha um gênero argumentativo dentro dos diferentes gêneros argumentativos que existem e se posicione explícita ou implicitamente diante de um tema controverso.
Também é interessante observar que a relação entre locutor e interlocutor, na argumentação, não é mecânica. Ela é dinâmica e sofre a influência das representações que os interlocutores têm das relações sociais que mantêm entre si, gerando efeitos na forma e no conteúdo dos argumentos. Nesse sentido, Golder(1996) destaca que a relação social entre locutor e destinatário pode ser simétrica ou não, o que pode marcar maior
necessidade de negociação e de modalização em relação às idéias que se defende ou não.
Aliás, Golder destaca a existência de duas operações lógico-discursivas fundamentais que permitem a construção do texto argumentativo, que também nos parece bastante adequada: a justificação e a negociação. Segundo a autora, a justificação é a operação pela qual o locutor fornece razões que sustentam a posição defendida. É por meio dessa operação que é possível a construção de uma rede de argumentos interconectados.
Já a negociação é uma operação lógico-discursiva que exige bastante destreza por parte do enunciador, uma vez que se trata de operação bastante complexa. É a negociação que contribui para que o discurso argumentativo seja ou não aceito, uma vez que ela dá lugar ao interlocutor e permite o surgimento de contradiscursos. O enunciador antecipa o que o interlocutor possa usar na defesa de uma posição diferente. Do ponto de vista lingüístico- discursivo, há unidades lingüísticas que tornam possível a tarefa de negociação, seja por meio das modalizações, seja por meio da mudança da responsabilidade enunciativa. Podemos, ainda, nos referir a formas mais complexas de negociação, como a ironia e o subentendido, que permitem ao locutor assumir um determinado posicionamento que coloca o interlocutor numa situação constrangedora e ou ridicularizada.
Machado (2000) analisa textos pertencentes ao gênero e publicados na Folha de S. Paulo e mostra o predomínio das seqüências argumentativas, que aparecem justapostas umas às outras, cujos argumentos vão fundamentando conclusões parciais que se tornam argumentos para a conclusão global. Segundo a autora, isso caracteriza o que se pode chamar de uma recursividade argumentativa, indicando que o produtor toma o objeto em discussão como sendo controverso, considerando que há destinatários que não compartilham de suas opiniões.
As operações de justificação e de negociação próprias da argumentação nos remetem ao caráter dialógico dos textos. Numa perspectiva bakhtiniana (Bakhtin, 1953/1997:316) o dialogismo é constitutivo de qualquer enunciado, e não apenas nos argumentativos: “O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados, aos quais está vinculado no interior de uma dada esfera comum da comunicação verbal. O enunciado deve ser
considerado acima de tudo como uma resposta a enunciados anteriores dentro de uma dada esfera”. Segundo Maingueneau (1998:42) o termo dialogismo, na análise do discurso, após Bakhtin, refere-se “à dimensão profundamente interativa da linguagem, oral ou escrita (...) Mas Bakhtin emprega também dialogismo no sentido de intertextualidade.” Genette (1982:8), por sua vez, pontua que a intertextualidade supõe a presença de um texto em um outro, seja por meio de citação direta, citação indireta, alusão, entre outros.
Nesse sentido, os artigos de opinião podem ser vistos como diálogo com o pensamento do outro, para transformar ou sedimentar representações, uma vez que a justificação das afirmações demonstra a preocupação do produtor em responder previamente uma possível questão do destinatário sobre a pertinência e a validade da afirmação, assim como a negociação está relacionada ao fato de que o produtor prevê possíveis refutações/discordâncias dos destinatários ou possíveis conclusões contrárias às que ele quer construir. Além disso, a refutação, que também pode aparecer em textos argumentativos, dá ao texto um caráter heterogêneo, e lingüisticamente, isso se manifesta por meio de marcadores refutativos, quais sejam: verbos de dizer (refutar, discordar), locuções metalingüísticas (é mentira, é falso, não é verdade), lexemas (erro, engano), negação polêmica e organizadores argumentativos: mas, entretanto, por outro lado, apesar de, etc.
A argumentação constitui e é constituída pela contradição, o que marca sua dimensão polifônica. Segundo Brandão (1998: 90): “a dimensão polifônica da argumentação mostra, dessa forma, a sua face contraditória, ao verificarmos que, ao mesmo tempo em que está voltada para o outro, em que o discurso se modela com as imagens e presunções que o locutor tem do outro, em que o discurso se constrói também vinculado à formação ideológica desse outro, o percurso argumentativo está marcado paradoxalmente por uma anulação do discurso do outro, visando à afirmação do mesmo e do único.“ É como se fosse um jogo em que o locutor precisa vencer, pelos argumentos, o outro a quem se dirige.
Uma vez caracterizados, de forma geral, os artigos de opinião, concluímos a apresentação teórica desta pesquisa e na seqüência apresentaremos os aspectos metodológicos que a compõe.