Na melancolia a “perda desconhecida” resultará num trabalho de elaboração semelhante ao do luto, e da mesma forma que este, haverá uma inibição (melancólica), com a diferença de que não é possível observar o que tanto absorve o melancólico.
Em termos teóricos o “trabalho de melancolia” merece destaque pois, para Freud, a perturbação do melancólico oferece uma visão a respeito da constituição do ego humano. Ele percebeu isto quando observou que a analogia com o luto impunha uma contradição: um paciente melancólico sofre uma perda relativa a um objeto, mas, o modo como ele relata sua experiência, “aponta para uma perda relativa a seu ego” (ibid., p. 253). Diante desse impasse ele se afasta da experiência da pessoa e concentra esforços para traduzir essa patologia em termos metapsicológicos.
Na época em que desenvolvia esses temas Freud, apoiado na primeira tópica, realçava os aspectos inconscientes da melancolia em oposição à consciência do processo de luto. No entanto, deixa transparecer a insuficiência dessa teoria para compreender a melancolia quando lança mão do conceito de identificação narcísica para justificar o deslocamento da libido do objeto para o ego. No artigo de 1917, observa-se com clareza que Freud buscou o apoio nos temas desenvolvidos no texto sobre o narcisismo (1914b). Mais tarde, quando propõe uma nova tópica (1923) e aproxima a melancolia do complexo de Édipo e pulsão de morte, Freud explicita o quanto para ele as análises para esclarecer o trabalho de melancolia em 1917 eram iniciais.
Segundo Freud, a insatisfação com o ego constitui a característica mais marcante do quadro melancólico. Isso é observado pelo fato de uma parte do ego se colocar contra a outra, julgando-a criticamente e tomando-a como seu objeto.31 No entanto, como isso ainda é obscuro, ele explica o quadro clínico melancólico dizendo que as auto- recriminações são críticas feitas a um objeto amado que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente, por isso o paciente não fica envergonhado com os próprios “queixumes” - no fundo essas auto-recriminações se referem a outra pessoa. Inexiste no paciente melancólico atitudes de humildade e submissão pois, na realidade,
31 Já nessa época Freud observa que esse agente crítico (definido em 1923 como superego) que se separa do ego se torna independente em outras ocasiões levando-o a pensar que possa ser distinguido do ego.
está se referindo a um objeto perdido quando ataca a si mesmo e se autodegrada. Impossibilitado de perceber o quanto denigre a sua própria pessoa, o melancólico apresenta, de maneira oposta ao que seria esperado, sentimentos de arrogância, manifestados em atitudes de cobrança e exigência para com as pessoas, dando a impressão de que se sente desconsiderado e de que foi tratado com injustiça.
A reconstrução desse processo é realizada em termos metapsicológicos. Assim, em algum momento, é feita uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular. Por alguma razão, que pode ser uma desconsideração real ou um desapontamento com essa pessoa, a relação objetal é destroçada e o resultado não é o “normal”, o esperado, isto é, a retirada da libido desse objeto e um deslocamento da mesma para outro objeto. Para isso, algumas condições estiveram presentes: a presença de uma forte fixação no objeto amado e a percepção de que a catexia objetal provou ter pouca resistência e foi liquidada. A libido livre, ao invés de ser deslocada para outro objeto, foi retirada para o próprio ego e empregada para estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado. Como conseqüência disso, o ego passa, a partir desse momento, a ser julgado como se fosse um objeto, mais precisamente aquele objeto que foi abandonado. A perda objetal se transforma numa perda do ego, e o conflito que existia entre o ego e a pessoa amada se transforma em uma separação entre a atividade crítica do ego e o ego alterado pela identificação com o objeto.
Para explicar esse processo, Freud, em concordância com Otto Rank, apresenta a seguinte hipótese: a contradição entre a intensidade da fixação no objeto e a pouca resistência da catexia objetal significa que “a escolha objetal é efetuada numa base narcisista, de modo que a catexia objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode retroceder para o narcisismo” (1917 [1915], p. 255). É importante lembrar que, quando há uma identificação narcisista, a catexia objetal é abandonada. Como resultado, a identificação narcisista com o objeto se torna um substituto da catexia erótica e, por isso, apesar do conflito com a pessoa amada, o melancólico não precisa renunciar à relação amorosa. Dessa forma, a tendência para se adoecer de melancolia reside na predominância da
escolha objetal de tipo narcisista.32 Sendo assim, acredita que é possível incluir na caracterização da melancolia a “regressão da catexia objetal para a fase oral ainda narcisista da libido” (1917 [1915], p. 255).
Em resumo, a melancolia toma emprestado alguns de seus traços do luto, e outros, são emprestados do processo de regressão, como por exemplo a escolha objetal narcisista. Na melancolia, no entanto, além da perda por morte, desconsideração, desprezo ou desapontamento, a relação com o objeto é complicada pelo conflito decorrente da ambivalência, que é ou constitucional, isto é, um elemento de toda relação amorosa formada por esse ego, ou então provém das experiências que envolveram a ameaça da perda do objeto. Em conseqüência de as causas excitantes da melancolia serem mais amplas que no luto e não ocasionada apenas pela perda real ou morte do objeto, inúmeras lutas isoladas são travadas em torno do objeto, nas quais amor e ódio se digladiam: um procura separar a libido do objeto; o outro, defender essa posição da libido contra o assédio. A localização dessas lutas isoladas é atribuída ao sistema inconsciente. Assim, de maneira diferente do que ocorre no luto, no qual os processos inconscientes encontram o caminho para a consciência, na melancolia um certo número de causas (ou de combinações delas) bloqueia o caminho do inconsciente para o consciente. Freud adverte que o conflito devido à ambivalência não deve ser desprezado como precondição da melancolia. A esse respeito, afirma:
a ambivalência constitucional pertence por natureza ao reprimido; as experiências traumáticas em relação ao objeto podem ter ativado outro material reprimido. Assim, tudo que tem a ver com essas lutas devidas à ambivalência permanece retirado da consciência, até que o resultado característico da melancolia se fixe. (1917 [1915], p. 262)
O resultado da melancolia consiste em a catexia libidinal ameaçada abandonar o objeto e recuar “ao local do ego de onde tinha provindo” (idem). Dessa forma, se o amor se refugia no ego ele escapa da extinção. Esse processo é denominado por Freud de
32 Embora alerte que essa idéia ainda não havia sido confirmada pela observação e que considera o material empírico no qual fundamentou esse estudo insuficiente, essa noção continua presente na obra de Freud, mesmo após suas elaborações tardias sobre a melancolia.
regressão. Assim, após essa regressão da libido, esse conflito pode tornar-se consciente e ser representado como um conflito entre uma parte do ego e o agente crítico. Seguindo esse rumo, teríamos um luto normal. Mas, no trabalho da melancolia, a consciência reconhece uma parte que não é essencial - e nem sequer é uma parte à qual possamos atribuir o mérito de ter contribuído para o término da doença. O que acontece então? Freud acredita que “o ego se degrada e se enfurece contra si mesmo”. No entanto, precisa assumir a limitação de suas explicações quando diz: “compreendemos tão pouco quanto o paciente a que isso pode levar e como pode modificar-se” (idem).
Um modo de resolver o problema do ego voltar-se contra si mesmo foi atribuir essa função à parte inconsciente do trabalho de melancolia. Do mesmo modo que o luto leva o ego a desistir do objeto, declarando-o morto e incentivando o ego a viver, na melancolia, cada luta isolada da ambivalência distende a fixação da libido ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo matando-o. O processo inconsciente que promove a melancolia pode terminar ou porque a fúria se dissipou ou pelo fato de o objeto ter sido abandonado. No entanto, Freud assume também que ainda não é possível afirmar qual das duas possibilidades mencionadas é regular ou mais usual para levar a melancolia ao fim, e muito menos saber como o fim do trabalho de melancolia influenciará o curso do caso. Para Freud, se o amor pelo objeto não pode ser renunciado, mesmo quando o próprio objeto já foi renunciado, e o sentimento de amor se refugiar numa identificação narcisista, então o ódio entrará em ação nesse objeto substitutivo, abusando, degradando, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. Dessa maneira, é possível compreender que ocorra a autotortura na melancolia como uma satisfação das tendências ao sadismo e ao ódio relacionadas a um objeto, retornando ao próprio eu do indivíduo. Em ambas as desordens, é possível aos pacientes - de modo indireto, pela autopunição - vingar-se do objeto original e torturar o ente amado por meio de sua doença (melancolia), utilizada como meio de evitar expressar sua hostilidade para com ele.
Como a pessoa que ocasionou a desordem emocional do paciente - e na qual a doença se centraliza - em geral se encontra em seu ambiente imediato, a catexia erótica do melancólico (em relação ao objeto) sofre dupla vicissitude: parte retrocede à identificação e a outra parte, sob a influência do conflito ambivalente, é levada de volta à etapa do sadismo (a que se acha mais próxima do conflito). Segundo Freud, esse sadismo
soluciona o enigma da tendência ao suicídio por parte dos melancólicos. Assim, a análise da melancolia mostra, em relação ao suicídio, que o ego só pode se matar se, devido ao retorno da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um objeto (dirigir contra si a hostilidade relacionada a um objeto), fato que representa a reação original desse ego aos objetos do mundo externo.