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Ao ler os “Rascunhos”, pode-se perceber três características dessa fase do pensamento freudiano. A primeira está relacionada ao fato de o autor ainda retomar a linguagem da hereditariedade para compreender alguns casos clínicos. Outra característica foi Freud tratar a depressão e a melancolia como fenômenos diferentes: a depressão era vista como um sintoma da neurose, muitas vezes ainda considerada uma neurose de angústia, e a melancolia, uma afecção. A terceira característica é a interpretação da melancolia ligada ao acúmulo de energia psíquica, que nessa época ainda não era denominada libido.

Torna-se evidente, pela análise desses “Rascunhos”, que a intenção principal de Freud nessa época era compreender a neurose. Numa carta enviada a Fliess, incluída no “Rascunho 18”, ele reconhece que ainda existem lacunas a respeito das neuroses e de como elas são adquiridas, mas que já está se aproximando de um ponto de vista abrangente e de alguns critérios gerais para abordar o tema. Diz que conhece três mecanismos: 1) transformações do afeto (histeria de conversão), 2) deslocamento do afeto (obsessões) e 3) troca de afeto (neurose de angústia e melancolia). Ao apresentar esses mecanismos mais uma vez, percebe-se que a depressão (incluída nesse momento como sintoma da neurose de angústia) e a melancolia não passavam desapercebidas para Freud.

No entanto, é no “Rascunho G” que Freud trata diretamente da melancolia24. Ele enviou a Fliess nessa ocasião uma elaborada tentativa de explicar a melancolia numa linguagem neurológica, mas, reconhecendo não ser essa tentativa frutífera, envia um outro manuscrito (“Notas III”), datado de 31 de maio de 1897 (1950 [1897]), com uma explicação mais psicológica, na qual, pela primeira vez, Freud aborda o tema da melancolia em relação ao luto. Nesse manuscrito, ele diz que os impulsos hostis contra os pais, isto é, o desejo de que eles morram, é um elemento integrante da neurose que costuma ser recalcado por ocasião da doença ou morte deles, embora comumente se torne consciente através de idéias obsessivas e também apareçam nos delírios de perseguição típicos da paranóia. Assim, quando isso ocorre, isto é, quando esses impulsos são recalcados, “constitui manifestação de luto uma pessoa acusar-se da morte deles” (ibid., p. 305). Diz também que este mecanismo “se conhece como melancolia” (idem).

Este manuscrito (“Notas III”) merece destaque porque, como informa o editor inglês “incidentalmente” é o trecho no qual Freud antecipa pela primeira vez o complexo de Édipo. No que se refere à melancolia, observa-se que a forma de pensar uma relação entre luto e melancolia aqui iniciada, foi deixada de lado por Freud até ele escrever o

24É interessante perceber que mesmo estando no “Rascunho G” (1950 [1897]) o primeiro momento em

que o psicanalista apresenta uma compreensão formal da melancolia, esse texto não tem merecido a atenção dos estudiosos da depressão na psicanálise. Exceção entre os autores consultados é a posição de Peres (2003), que considera importante retomar esses escritos, uma vez que neles estão contidas questões atuais, como as relações entre angústia e a depressão e os limites entre o somático e o psíquico.

artigo de 1917, da mesma forma que a incipiente relação entre esses mecanismos e o complexo de Édipo só foi efetivada em 1923, no artigo “O ego e o id”.

O editor inglês destaca que, nesse período - e mesmo posteriormente, como acontece por exemplo em “Psicologia de grupo e análise do ego” (1921), um texto escrito depois de “Luto e melancolia”, no qual Freud comenta que um outro exemplo de introjeção de objeto é fornecido pela análise da melancolia - ele emprega habitualmente a expressão melancolia para condições que hoje se descreveriam como depressão. Por diversas vezes nessa época não mantém a distinção original apresentada anteriormente, que considera a depressão um sintoma de neurose e a melancolia um quadro clínico, muitas vezes tratando-as como sinônimos. Um bom exemplo disso pode ser visto no “Rascunho N”, no qual a “Nota III” está incluída; nela Freud trata dos motivos para a construção dos sintomas afirmando que também existe uma libido inconsciente, e que, portanto, “parece que o recalcamento dos impulsos produz não angústia, mas talvez depressão - melancolia. Desse modo, as melancolias estão relacionadas com a neurose obsessiva” (1950 [1897], p. 307).

O raciocínio descrito nessa passagem seguia a linha de pensamento apresentada por Freud no “Rascunho E”, no qual trata da origem da angústia considerando que ela surge por transformação a partir da tensão sexual acumulada, tese que foi mantida pelo autor até quase o fim de sua vida (1950 [1894]b, p. 237). Nesse manuscrito, mais uma vez, Freud confirma que o desenvolvimento de sua teoria sempre esteve, de alguma forma, associado ao conhecimento da melancolia - depressão.

É no “Rascunho E” que Freud desenvolve a tese sexual da origem da angústia.25 Ele afirma que a origem da angústia não deve ser buscada na esfera psíquica, mas deve estar radicada na esfera física. Assim, procurou estabelecer uma relação entre um fator físico-sexual que produzisse angústia. Após analisar alguns casos em que percebia a angústia originando-se de uma causa sexual, deu-se conta de que em outros casos essa relação só poderia ser realizada de modo teórico. O ponto comum de ligação que encontrou entre os casos em que podia estabelecer uma relação entre a angústia e a vida sexual, e os outros casos em que isto não era possível, era a abstinência sexual. Mas, só

25 O editor diz em nota, na p. 238, que possivelmente essa foi a primeira vez que se encontrou o uso do termo libido registrado na obra de Freud.

depois de constatar que até as mulheres frígidas estão sujeitas a angústia após o coito interrompido é que reformula o problema, considerando-o talvez, consequência de uma acumulação física de excitação.

Desse modo, define a neurose de angústia como uma neurose de represamento, conseqüência de uma acumulação de tensão sexual física, da mesma natureza da histeria portanto, conseqüência do fato de uma descarga ter sido evitada. Diante disso, o que provoca a angústia? Freud postula que, “visto que absolutamente nenhuma angústia está contida no que é acumulado, a situação se define dizendo-se que a angústia surge por transformação a partir da tensão sexual acumulada” (1950 [1894]b, p. 237). E assim chegamos ao ponto em que Freud busca apoio no seu modo de compreender a melancolia para esclarecer esse ponto, mostrando que ele não era, de modo algum, indiferente ao tema:

Aqui se pode intercalar algum conhecimento que nesse meio tempo se obteve acerca do mecanismo da melancolia. Com freqüência muito especial verifica-se que os melancólicos são anestésicos. Não têm necessidade de relação sexual (e não têm a sensação correlata). Mas têm um grande anseio pelo amor em sua forma psíquica – uma tensão erótica psíquica, poder-se-ia dizer. (idem)

A seqüência dessa passagem acaba, portanto, confirmando que Freud, nessa época, fazia uma distinção entre depressão (neurose de angústia) e melancolia, mesmo que, como mostramos anteriormente, algumas vezes ainda se referisse a esses fenômenos como sinônimos. Também demonstra que ele buscava uma etiologia para a melancolia que pudesse ser associada à sua teoria da sexualidade. Afirma Freud:

Nos casos em que esta se acumula e permanece insatisfeita, desenvolve-se a melancolia. Aqui, pois, poderíamos ter a contrapartida da neurose de angústia. Onde se acumula tensão sexual física - neurose de angústia. Onde se acumula tensão sexual psíquica - melancolia (idem).

Retornando ao “Rascunho G”, pode-se ver como Freud, desde muito cedo, via a melancolia como um problema que escapava às explicações teóricas que vinha

desenvolvendo. Também pode-se observar que, ao tentar explicar esse impasse clínico- teórico que emergia de sua prática sempre tangenciou o que viria, mais tarde, a desenvolver em “Luto e melancolia” e, finalmente, apresentar em “O Ego e o id”. Apesar de o psicanalista tratar nesse texto de temas que foram abandonados na elaboração posterior da teoria da melancolia - como, por exemplo, a correlação entre melancolia e anestesia sexual, mastubarção e neurastenia, hereditariedade e angústia, que permitiram a ele propor a hipótese de que a “melancolia consiste em luto por perda da libido” (1950 [1895]a, p. 247) - neste texto ele já apresenta algumas idéias que serão mais tarde reelaboradas de modo definitivo. Como exemplo podemos citar a passagem que aborda o luto e a vida pulsional: “o afeto correspondente à melancolia é o luto - ou seja, o desejo de recuperar algo que foi perdido. Assim, na melancolia, deve tratar-se de uma perda - uma perda na vida pulsional” (idem).

Melancolia e depressão foram pontos nebulosos para Freud, até mesmo depois de ele ter definido como portadoras de uma “disposição patológica” (em “Luto e melancolia”) aquelas pessoas que não podiam elaborar a perda de um objeto de amor. Quando recorre a essa compreensão, Freud mostra perceber as nuances sintomáticas e clínicas que estão relacionadas aos quadros depressivos, embora não possa ainda, como ele mesmo afirma, esclarecer todos os aspectos envolvidos. Por essa razão ele adota, mesmo em seus escritos posteriores, uma atitude cuidadosa ao referir-se à melancolia e alerta que suas conclusões, deveriam ser consideradas apenas passos na pesquisa desse fenômeno.

Fica evidente em toda a obra de Freud que o tema melancolia/depressão encontra- se em aberto, tanto no sentido teórico como no sentido clínico; no entanto, seu texto de 1917 se tornou referência para o estudo da depressão. Qual foi, então, a grande contribuição de Freud? A analogia proposta por ele entre luto e melancolia possibilitou pensar uma predisposição orgânica para a melancolia, abrindo um caminho para a distinção entre uma depressão clínica-orgânica e uma depressão psicológica. Esse foi o ponto de atração para a psiquiatria. Recentemente, os autores dessa área atestam a genialidade de Freud por, já naquela época, vislumbrar que a depressão podia ter sua origem em uma causa orgânica. Do ponto de vista psicológico, pode-se dizer que a insistência de Freud em entender a depressão como um sintoma de neurose (primeiro de

angústia e depois narcísica), ligada, portanto, ao desenvolvimento sexual-pulsional, suas principais teses teóricas, impossibilitou ao autor compreender a depressão como um fenômeno realmente especial da clínica psicanalítica. A oposição entre etiologia orgânica e psíquica, gerada por suas afirmações ganhou espaço e facilitou a reificação da oposição corpo e mente, contribuindo para o que o organicismo e ou o psicologismo se alternassem historicamente como fatores etiológicos do fenômeno depressivo,26 o que tornou o diálogo entre as áreas da psicologia e da psiquiatria quase inviável.