O princípio de Freud a respeito de como conduzir um estudo em psicanálise é claro. Para ele, “a melhor maneira de compreender a psicanálise ainda é traçar sua origem e evolução” (Freud 1923 [1922], p. 253). Estendendo esse princípio para os conceitos desenvolvidos e patologias estudadas por Freud, pode-se analisar o modo como ele tratou o tema da depressão e da melancolia ao longo de sua obra. A opção por esse caminho não visa apenas traçar um percurso histórico do desenvolvimento da psicanálise freudiana no que diz respeito ao tema da melancolia, embora isso tenha, em si mesmo, sua importância. A idéia é mostrar, por meio desse recurso, como Freud sempre esteve envolvido com esse tema, mas não pôde dar atenção a essa patologia em função de seu objetivo de comprovar as teses da primeira tópica, relacionadas ao inconsciente reprimido. Somente quando atestou a insuficiência desse modelo para tratar as neuroses narcísicas e traumáticas, Freud pôde finalmente abrir-se para outro modo de explicação. Usar um caminho histórico permite observar a veia investigativa e pesquisadora de Freud, teórico e clínico que não se abalava com os obstáculos encontrados durante suas pesquisas e muito menos ocultava dos leitores as dificuldades empíricas e teóricas nas quais esbarrava.
Mas, a principal razão para adotar esse procedimento nesse trabalho está ligada ao fato de que por ele é possível mostrar como a depressão, ao contrário do que se possa pensar, era uma patologia comum nos tempos de Freud,21 talvez tanto quanto as neuroses
histéricas. Se ele não lhe deu a devida atenção e nem se ocupou em diferenciá-la das neuroses, isso foi por realmente não ter interesse ou porque, as características da
21 Desde o momento em que o diagnóstico e conseqüente aumento do número de casos de depressão se tornou uma realidade para o meio médico-psicológico, tem havido uma tendência a se considerar essa patologia decorrência do estilo de vida de nossa época, inclusive como argumento para justificar o fato de Freud não a ter colocado entre as patologias clínicas psicológicas como fêz com a neurose e psicose. Há também críticas de autoresdirigidas aos laboratórios fabricantes de drogas antidepressivas acusando-os de estarem, de certo modo, patrocinando esta “era depressiva”. Uma revisão da obra de Freud mostra que não há como sustentar esse raciocínio. A depressão ocupou e preocupou Freud como muitos psicanalistas depois dele desde o final do século XIX. E, como mostrarei adiante, para Winnicott não faz sentido entender a depressão como uma doença de uma época, porque os aspectos etiológicos significativos para a condição de se deprimir, seja como capacidade ou no sentido patológico, estão relacionados a um tipo de experiência humana que foi e é comum a todas as pessoas em todas as épocas – a saber, o relacionamento entre o bebê e a mãe, ou quem dele cuida. Para esse autor, o que precisa ser considerado são as circunstâncias gerais e as influências pessoais e circunstanciais as quais essa díade está submetida.
depressão dificultaram sua compreensão do problema. Sustentada nesse estudo histórico, foi possível verificar que a depressão (melancolia) constituiu o ponto teórico mais frágil da teoria freudiana, apesar de o desenvolvimento dessa teoria ser parte importante para o enriquecimento da teoria do ego.
De certo modo encontro eco para a afirmação da fragilidade da teoria freudiana da depressão quando vejo que Eagle (1984), ao analisar o crescente interesse pelas teorias das relações objetais (nas quais Winnicott é incluído de modo inadequado), afirma que isto em parte se deu devido a preocupação com as chamadas condições bordelines e as desordens de personalidade narcísica ainda não completamente compreendidas. Barron e Wolitzky, apresentam idéias semelhantes as de Eagle, quando analisam a “insatisfação” dos psicólogos e psicanalistas americanos com a “teoria freudiana tradicional, particularmente a metapsicologia” (Barron et al.1992, p. 392).
Fiz um levantamento dos momentos em que os termos depressão e melancolia aparecem ao longo da obra de Freud. Essa tarefa se mostrou de grande valor, na medida em que me permitiu entender como Freud tratou este tema, mas, em especial, porque confirmou que a teoria metapsicológica desenvolvida em “Luto e melancolia” para explicar os estados melancólicos desempenhou um importante papel para o desenvolvimento do pensamento de Freud e para sua teorização final. Fica claro também que, devido a essa particularidade, a preocupação de Freud com a melancolia adquiriu um sentido muito mais teórico do que clínico. A necessidade de explicar esse fenômeno superou a necessidade de verificar a aplicabilidade terapêutica real dessa teoria e, por essa razão, Freud encerra o “capítulo melancolia” com a sensação de que pouco ainda se podia fazer pelos pacientes melancólicos.
Esse levantamento também permitiu observar a evolução do pensamento do autor no que diz respeito à depressão. Inicialmente, Freud usava os termos depressão e melancolia para designar um simples sintoma, e ainda estava fortemente influenciado pelo pensamento psiquiátrico de sua época. Desse uso genérico e comum ele vai gradativamente especificando e incorporando a melancolia em sua teoria até escrever o texto de 1917, quando passa a tratá-la como um quadro clínico específico. A depressão, no entanto, permanece como um sintoma. Finalmente, em 1923, no texto “O Ego e o id”,
chega à formulação final, na qual estabelece uma relação entre a melancolia, o complexo de Édipo e a pulsão de morte.
Contudo, por mais que tenha avançado em suas descobertas em relação à melancolia, Freud não ficou satisfeito com a compreensão que empreendeu desse quadro clínico. Na Conferência 31, “A dissecção da personalidade psíquica” (1933[1932]), mais uma vez afirma a dificuldade de tratar com a melancolia, que para ele ainda representava nessa altura de seus estudos uma “doença, de cujas causas e de cujo mecanismo conhecemos quase nada” (ibid., p. 66). Ele permanece salientando que “o aspecto mais evidente” dessa patologia se refere à severidade, até mesmo crueldade, do superego para com o ego. Perceber o deslocamento da libido do objeto de amor perdido para o ego da pessoa via introjeção permanecia a grande descoberta, com a diferença que agora ele havia renomeado como superego o que no texto de 1917 incipientemente tratava por ideal de ego.
Em um estudo que busca desconstruir a idéia clássica de um adoecer psíquico baseado em um relacionamento a três - “o andarilho na cama da mãe” - para propor, ao contrário, que o paradigma do adoecer está situado no “bebê no colo da mãe”,22 não deixa de ser interessante verificar que a primeira vez que o termo depressão aparece na obra de Freud foi se referindo exatamente a um caso que envolvia uma mãe com dificuldades para cuidar de seu bebê. Em um artigo de 1892, “Um caso de cura pelo hipnotismo”, Freud relata a história de uma paciente que estava deprimida por não conseguir amamentar seu segundo bebê recém-nascido, tornando-se isso possível somente após sofrer uma intervenção por sugestão hipnótica realizada por ele. Essa situação já havia ocorrido na época do nascimento do primeiro filho e pela impossibilidade de a mãe amamentar esse bebê, este precisou ser alimentado por uma ama-de-leite. Freud comenta que, na ocasião da primeira maternagem, a mãe possuía pouco leite e sentia muita dor ao tentar amamentar seu bebê. Também perdeu o apetite e seu sono ficou alterado. Quando o bebê foi dado a uma ama-de-leite, o psicanalista diz que “todos os problemas da mãe desapareceram” (Freud 1892-93, p. 160).
Segundo Freud, por ocasião do nascimento do segundo bebê, os esforços da mãe para amamentar o filho foram ainda menos bem-sucedidos, provocando sintomas ainda
mais desagradáveis. A paciente vomitava o que comia, seu sono era agitado e ela ficou “deprimida com sua incapacidade” (idem). Foi nesse momento que a terapêutica hipnótica foi pensada e indicada pelos dois médicos da família. Após o tratamento, sem que soubesse como, a paciente foi capaz de amamentar seu bebê. Mas, quando o terceiro filho nasceu, o mesmo problema reapareceu e novamente Freud foi chamado a intervir.
Freud tratou esse caso como uma histérique d’occasion, sem relacionar esses mal-estares da mãe à situação da amamentação.23 A compreensão desse caso é orientada pelo conhecimento psiquiátrico daquela época e por seus estudos sobre a histeria. Isto fica claro quando Freud tenta recompor uma possível disposição hereditária da paciente ao mencionar que esta tem um irmão que sofreu uma neurastenia. Não havendo dados que comprovassem a hereditariedade, prossegue na tese da histeria. Frente à bem- sucedida intervenção hipnótica, Freud passa a explicar o mecanismo psíquico do distúrbio dessa paciente, mas admite não ter ainda informação sobre o assunto e, por isso, se diz “forçado” a deduzir o que aconteceu. Ao desenvolver essa explicação, trata a depressão como um sintoma relacionado à hereditariedade e diferente da melancolia.
Na série de documentos “Rascunhos” e nas cartas trocadas com Fliess (1950 [1892-1899]) Freud aborda diversas vezes o tema da melancolia e da depressão, ainda indistintamente. Ver que este fenômeno aparece como objeto de preocupação de Freud em um momento tão inicial de sua elaboração teórica confirma a idéia de que ele sempre esteve envolvido com essa problemática, e que a melancolia, como veremos, representou um importante tema para o desenvolvimento da teoria psicanalítica. Mesmo sabendo que esse material não foi produzido por Freud para ser tratado como uma expressão de seu pensamento, optei por analisar esses escritos porque há neles idéias relativas ao tema que foram de alguma maneira mantidas e desenvolvidas posteriormente pelo psicanalista. Reafirmo que acompanhar o modo como se desenrolou o envolvimento do autor com os temas melancolia e depressão esclarece dois pontos: o modo de pensar e teorizar de Freud bem como o lugar e importância que este distúrbio ocupou em sua teoria.
23 Diferentemente de Freud, Winnicott avalia que a variação da capacidade de amamentação das mães está ligada a dois aspectos. O primeiro, relacionado à própria mãe, destaca a importância de se considerar a psicologia desta (amadurecimento emocional e capacidade de identificação materna), sua própria história e o estado físico de seus seios e mamilos. O segundo, está relacionado ao bebê em si e diz respeito à capacidade deste para iniciar uma vida instintiva em termos de alimentação no seio. Havendo do ponto de vista do bebê alguma dificuldade, é importante considerar a experiência do nascimento para o bebê? (1988, p. 171).
A análise desses rascunhos permite constatar algumas características de Freud ao denvolver a teoria psicanalítica, como por exemplo, a de mudar suas hipóteses e teses à medida que avançava em seus estudos e compreendia que as explicações anteriores não lhe eram satisfatórias. Seu espírito científico, somado à sua perseverança em buscar inscrever a psicanálise no seio das ciências, diferente, portanto, da filosofia e da religião, garantiram a ele a condição de ser um crítico de suas próprias idéias. Também pode-se observar a evolução do pensamento freudiano no modo de tratar a depressão. De modo geral, já nessa época ele reconhecia diferentes intensidades do estado deprimido, mas, como considerava a depressão um sintoma, a distinção entre os quadros de depressão baseava-se na intensidade da crise depressiva. Por isso, reservou a denominação “melancolia” para os quadros mais intensos de depressão.
De modo particular, fica evidente que, inicialmente, por estar procurando confirmar a etiologia sexual das neuroses, Freud tendia a buscar explicação para todos os modos de adoecer nessa fonte teórica. Essa foi a razão de ele ter definido a depressão, que nessa época era vista apenas como um sintoma da neurose de angústia, como conseqüência de um represamento da energia sexual. Enquanto isso, defendia a idéia de que a melancolia deveria ser vista como conseqüência da tensão psíquica acumulada. Somente mais tarde, após o desenvolvimento do tema do narcisismo, Freud incluiu a melancolia entre as neuroses narcísicas, reconhecendo, para tanto, a contribuição de Abraham, que destacou o envolvimento de aspectos orais e sádicos na depressão.