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vurdering av datakvaliteten

3. Presisering av problemstillinger ......0......0

4.4 vurdering av datakvaliteten

Dentro do que fora tratado de maneira interpretativa na antropologia de Rombach (1977) e sinalizado em Lévi-Strauss (1995), pode-se perceber que assim como a medicina oficial, a medicina popular pode ser caracterizada como uma parte da estrutura a que pertence a ordem religiosa, de modo que se pode elencar algumas razões para tal fim.

Inicialmente, noto que se trata de um fenômeno, conforme se demonstrou, presente em toda a história do Brasil e de Goiás; amalgamou-se no tempo, as religiões ditas oficiais ou hegemônicas de tratamento e cura, ao advento do protestantismo e da modernidade, de modo que a benzeção não sofrera grandes alterações, senão breves acréscimos, sobremaneira do catolicismo em sua estrutura.

A segunda razão é o fato de que, enquanto prática curativa, o rito da benzeção obedece a parâmetros bastante específicos, que vão desde a recepção na casa da benzedeira da pessoa que a procura, até os questionamentos feitos pela benzedeira, passando pelos ramos, chás, rezas e demais fenômenos.

Em terceiro, pode-se apontar que a benzedeira é uma figura comum, totalmente inserida em seu cotidiano e no cotidiano das cidades, e, ao mesmo tempo, é um ponto referencial, um norte, uma figura sacerdotal, um imago mundi (ELIADE, 2002) representando a libertação de males, ou antes, uma conselheira e acolhedora. Em quarto lugar, as benzedeiras entrevistadas são a expressão da cultura popular local, pois encerram em seus ritos e símbolos a crença de que é possível por um fim aos problemas do cotidiano, alterar o percurso do tempo, dar novos significados à vida. Mesmo que para isso, estejam em um cotidiano comum, onde seu espaço de benzeção é sua própria casa, de modo que a benzedeira faz parte de uma estrutura urbana e as pessoas sabem quem elas são e onde moram, ou seja, são pessoas comuns.

O quinto fator a ser apontado situa-se na condição de ser a benzeção como uma forma de catolicismo popular, sobremaneira, nas rezas utilizadas, estão presentes as bênçãos, os pais-nossos, as ave-marias, bem como toda sorte de ordenamentos contra os males que afligem o cotidiano. Nesse sentido, pode-se

pensar que religião popular "é a parte subalterna de um trabalho simbólico e político no setor religioso# (BRANDÃO, 1986, p. 298). No conjunto tratado, afirma Rombach:

A religião se reduz, aqui, a %visão de mundo& e permanece, finalmente, como assunto privado. Esses assuntos privados são pensados e apresentados na pluralidade. [...]. Nos diferentes terrenos %religião& é uma coisa diferente para cada um, não se trata primária e elementarmente de dizer a qual religião se pertence, mas sim, o que a religião significa afinal (ROMBACH, 1977, s.p.). Pode-se inferir, dentro do contexto citado, que na sociedade estrutural pensada por Rombach, o indivíduo ou benzedeira no caso, é emanador da religião, e das manifestações religiosas; também no caso das benzedeiras, são manifestações tipificadas na estrutura humana e, portanto, comuns ao campo ou ordem da religião.

Conclui a esse respeito Da Matta que:

[...] em vez de termos a sociedade contida no indivíduo, temos o oposto: o indivíduo contido e imerso em sociedade. É essa vertente que corresponde à noção de pessoa como a entidade capaz de remeter ao todo, e não mais à unidade, e ainda como o elemento básico através do qual se cristalizam relações essenciais do universo social (DA MATTA, 1979, 172-173).

A benzedeira é esse indivíduo imerso na sociedade que a cerca, pois e ela mesma que o produz e que influencia seu meio. Na visão de Oliveira (1984), mesmo quando vistas como marginais, as benzedeiras pertencem ao contexto de quem as marginaliza. "Por lidarem com a cura de pessoas, eles lidam com relações sociais dentro e fora da comunidade onde moram# (OLIVEIRA, 1984, p. 60).

Nesse processo de concreação, a benzedeira se autoproduz (autogênese), de modo que, mesmo que não faça nenhum esforço intencional para tal fim, tal concreação acontece quase que instantaneamente, dentro da lógica social. Desse modo, assim como a cultura e a religião popular, a medicina popular é uma chave de promoção da permanência das benzedeiras dentro da ordem social constituída.

Para Oliveira:

Não são os profissionais populares de cura que definem ou afirmam politicamente, em sociedade, o que eles mesmos são e o que eles fazem. Aliás, eles não estão preocupados em fazer isto. Eles produzem seu oficio. Vivem-no na sua convicção e plenitude. Constroem a sua história no estreito espaço em que podem fazê-lo. A sua identidade é vivida dentro da sua cultura, e, mais particularmente, da sua categoria profissional, mas é afirmada politicamente de fora ( OLIVEIRA, 1985b, p. 63).

Assim, o processo de socialização das práticas religiosas das benzedeiras pode ser visto como totalmente integrado à realidade social onde estiver constituída,

embora partilhem de uma imensa gama de outras práticas religiosas, culturais, católicas e médicas, sejam essas alternativas (caseiras/populares) ou não (formais).

Novamente para Oliveira:

Passado o confronto popular-formal, perdas e ganhos passam a ser computados de ambos os lados. Começam a ser recriados os diversos cruzamentos e redefinições de cura do mundo popular. Estes são caracterizados por gradações. Este é o momento, então, em que novas identidades políticas começam a ser delineadas, tanto para o mundo popular, quanto para o formal. Porque a construção e a reconstrução destas identidades se dão nestas relações de desafio (OLIVEIRA, 1985b, p. 67).

No que afirmou Oliveira, mesmo que para o Estado, tais práticas sejam desprovidas de legitimidade, elas estão estabelecidas culturalmente. Não é dever, nem poder do Estado, mesmo nas crises no sistema previdenciário, fomentar a adoção de práticas de medicina popular, nem as sufocar ou perseguir. Nesse contexto, benzedeiras entrevistadas declararam que não sofreram perseguição externa seja religiosa ou política, de modo que se sentem livres para exercer seu dom.

Para Oliveira:

Um modelo alternativo de medicina deve ser popular. Não apenas no tocante ao conteúdo de suas práticas voltadas à cura com ervas, por exemplo. Mas, sobretudo, deve nascer dentro da cultura popular, como resposta às suas doenças e sofrimentos (OLIVEIRA, 1985b, p. 67).

Desse modo, a medicina popular é vista como um patrimônio sociopolítico dentro do contexto da ordem religiosa, cultural e médica, de modo que, ao passar à conclusão deste tópico, entende-se ter sido possível lançar luz sobre a questão da benzeção, enquanto parte significativa da estrutura proposta por Rombach (1977).

Enquanto parte do todo, a medicina popular tem seu valor, pelo fato de estar sedimentada, e indica um caminho de investigação sobre os fenômenos de acomodação e assimilação26 das benzedeiras, em meio ao caos urbano. Nesse caso,

medicina popular e alternativa se funde no cotidiano simbólico das práticas das benzedeiras, sendo uma tipificação de um trabalho especializado porém não burocrático (WEBER, 1999), conforme se tenciona tratar a seguir.

26 O termo assimilação designa um fenômeno social pelo qual indivíduos e grupos de indivíduos diferentes aceitam