3. Presisering av problemstillinger ......0......0
4.6 Ektefelles fødselsnummer
Mesmo respeitando as especificidades de cada cultura e de cada forma religiosa, observa-se que a ligação com o sagrado, no processo de adoecimento e morte, percorre todas elas. São castigos, punições, ações dos demônios ou de maus espíritos, sinal de cólera divina em função dos pecados do homem, entre outras representações que relacionam vida, saúde e morte (NUNES, 1983).
O homem em sua vulnerabilidade às manifestações dos deuses ou dos inimigos busca proteger-se. Diversos rituais, amuletos, entre outros procedimentos, são acionados pelo indivíduo ou por seu médico-sacerdote, de modo que a vida humana nada tem de segurança e proteção diante do agigantamento do universo ou mesmo das catástrofes naturais do seu planeta (SCLIAR, 1996).
Nesse contexto, como salvar o ser humano, como curá-lo em casos em que a própria medicina não sabe o caminho? Onde começa e onde termina a cura? A cura é cura só do corpo ou de uma integralidade? Como superar toda essa fragilidade humana dando ao homem certa segurança e certeza do amanhã, ou mesmo do hoje? Ao longo dos séculos não faltaram respostas, não somente otimistas, a essas e outras questões. A medicina, ao que tudo indica, inicia-se com a apropriação das terapias e procedimentos de cura populares que parecem prolongar a vida do homem, mas, sobremaneira, que alimentam hoje um mercado bilionário de medicamentos sintéticos. Não obstante, dentro das relações de saúde, doença e religião, o homem sempre busca uma força a mais, algo metafísico, ou seja, além das condições
humanamente possíveis, quando se trata de prolongar sua vida diante da morte iminente. "A intervenção em muitos casos de doenças, feita por feiticeiros ou xamãs com ervas e procedimentos cirúrgicos rudimentares# (INOCÊNCIO, 2007, p. 01).
As experiências do doente representam o aspecto menos importante do sistema, a não ser pelo fato de um doente tratado com sucesso por um xamã ficar especialmente bem situado para tornar-se ele mesmo xamã, como se vê, ainda hoje, na psicanálise. Seja como for, vimos que o xamã não é completamente desprovido de conhecimentos positivos e de técnicas experimentais, que podem explicar em parte o seu sucesso (LÉVI-STRAUSS, 1995, p. 195).
Nesse caso, o sucesso da cura é primeiro psíquico. Não se trata, portanto, apenas de orações e performances, mas de um conjunto de tradições, atos, que garantam o processo de cura. Mas não se trata também, apenas de promover o processo da cura, é necessário performatizar, marcar isso, promover um espetáculo que marque o momento da intervenção. Analisando o conceito exposto por Lévi- Strauss, nota-se isso nas práticas das benzedeiras, nos ramos que usam, as orações, gestos, chás e emplastos. Em outro trecho, Lévi-Strauss explica que:
Ao curar um doente, o xamã oferece um espetáculo ao seu auditório. Que espetáculo? Correndo o risco de generalizar apressadamente algumas observações, diríamos que o espetáculo em questão é sempre uma repetição, por parte do xamã, do "chamado#, isto é, da crise inicial que lhe trouxe a revelação de sua condição. Mas não devemos nos deixar enganar pela palavra espetáculo, pois o xamã não reproduz ou encena simplesmente determinados acontecimentos, ele os revive efetivamente, em toda a sua vivacidade, originalidade e violência (LÉVI-STRAUSS, 1995, p. 196).
De outro modo, não há registros recentes de que uma pessoa frequente ou procure uma religião por ser isso, uma imposição moral. Embora se saiba que as religiões estão fortemente alicerçadas em uma doutrina moral explicita ou implícita, não chega a ser ao leigo uma imposição pertencer a um determinado segmento. Não obstante, a sociedade contemporânea parece ainda estremecer quando alguém afirma categoricamente que Deus não existe, ou que está morto, que não se crê Nele. Nesse sentido, busca-se uma religião sempre por algo que se queira encontrar ou construir a partir dela, ou seja, uma busca de bem-estar, desejo de paz, esperança, salvação, felicidade, recondução moral, alívio ao sofrimento, à dor, medo da morte, progresso, sucesso, vaidade, prosperidade nos negócios e diversos outros
motivos em que a relação religião e saúde esteja sempre presente. A religião parece ser uma fornecedora de sentido existencial (holismo ou saúde total do ser):
Pelo lado do médico, o sentimento de impotência frente aos casos em que não consegue sanar a doença, frustração diante do diagnóstico e prognóstico, resignação frente às evidências científicas, revolta diante da impossibilidade de cura entre outros sentimentos, podem emergir (INOCÊNCIO, 2007, p. 02).
A busca pela cura é ou deve ser imediata e em todos os locais em que essa possa ser alcançada. "A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha, quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente# (SCLIAR, 1996, p. 18). Obter uma cura de forma rápida garante não só bem-estar, mas barra a doença que pode evoluir em alguns casos para a morte, seja a doença física ou espiritual, conforme a crença do doente.
O que se tem desde a Antiguidade até nossos dias é a necessidade de exorcizar os maus espíritos que de alguma forma provocam a doença e o sofrimento. Convocar os bons espíritos para que se reinstale a saúde, significa um apelo ao sobrenatural e é, portanto, considerá-la como obra de Deuses ou demônios (INOCÊNCIO, 2007, p. 02).
Ainda olhando a questão da doença pelo viés antroposocial, cita-se Laplantine (1988, p. 213) professor titular de etnologia da Universidade de Lyon II e tem como linhas de pesquisas: antropologia médica, antropologia das religiões, que a função médica desvinculada da função religiosa assume autonomia relativa em determinado momento e, depois, total desvinculação. Tanto é, que a medicina sob a forma (residual) religiosa, não é percebida pelos que curam e nem pelos que são curados, portanto, os médicos se dizem praticantes de uma ciência neutra e objetiva, embora não reconheçam que situam sua prática a partir de seu sistema de crenças, o que até certa medida, equipara sua prática com a das benzedeiras.
Segundo Ribeiro (1985, p. 70) a medicina sempre esteve subordinada a influências cósmicas, assim como outros campos. A natureza pode fornecer elementos e recursos medicinais e com isso as pessoas procuram "abrandar seus males através dos mais amplos recursos#.
A verdadeira Medicina se separa da falsa, ou mágica, ou mitológica, ou sacerdotal, pseudomedicina, da mesma forma que a doença real deve ser distinguida da doença imaginária [...]. O advento da Medicina consiste na desmistificação dessa parte do Mal que, na antimedicina, mitologizava a doença (LAPLANTINE, 1988, p. 215).
Conforme citei em Laplantine, uma retrospectiva histórica no campo da saúde nos leva a perceber que o processo saúde/doença sempre foi acompanhado de crenças e rituais, os mais diversos, ligados a questões transcendentes, e ao sobrenatural. O homem primitivo atribuía a doença pessoal e coletiva ao castigo dos deuses, em decorrência de alguma má conduta ou possível ofensa a esses (INOCÊNCIO, 2007, p. 30).
O entendimento do que foi até aqui exposto revela, portanto, que o ato de curar ou o fato de alguém ser considerado curado, reside, diretamente, no campo das crenças individuais e coletivas, visto que na questão de saúde, a pessoa poderá seguir certa dieta, tomar alguns medicamentos, chás ou emulsões.
Desta feita, dar sentido à vida parece ser atributo, não só das ciências sociais e médicas, mas também da religião em suas mais variadas formas, dado que a necessidade de ambas é própria da condição humana. Desse modo, a figura das benzedeiras faz o que nem a medicina formal, na pessoa dos médicos, quase sempre pode: dar esperança quando essa parece não mais existir, e isso talvez garanta ou contribua para seu perduro hodierno.
Assim, ao abordar a relação entre benzedeiras, benzeções e medicina popular, pode-se entrever que ambas estão inseridas em nosso cotidiano e sociocultural, desde há muito tempo, de modo que as práticas que desenvolvem, proporcionam sua quase natural sedimentação, conforme se vai expor abaixo.