6. Ekel oversikt over omfanget av skilsmisser i første ekte s kap
6.5 Framskriving av skilsmisseintensiteter
Deus deixou o médico, deu a sabedoria pra ele podê curá as pessoas. Mas às veis a pessoa precisa que num é no corpo pra depois curá o corpo. Se eu vê que num consigo ajudá uma pessoa só com reza, eu mando ela procurá o médico e peço pra voltar depois e contar como foi# (ENTREVISTA COM D. MARIETA RESENDE, 14/09/2014).
Perguntei ainda como elas veem os médicos hoje, algumas indicaram que os médicos estão muito preocupados com eles mesmos, seus ganhos, soberba, e apenas duas os veem como bons.
Foi perguntado se existe para as benzedeiras diferença entre tratamento médico e o realizado pelo (a) benzedeiro (a), todas admitiram tal diferença, não havendo equiparação por elas em relação a sua prática e a da medicina formal.
Em média, as benzedeiras atendem por semana 20 a 25 pessoas entre bebês, crianças, adultos e idosos, não havendo indicações de tal prática ser aplicada a jovens, seja por sua natural descrença, seja por sua rebeldia. Mesmo quando provocadas em relação às drogas, elas afirmaram que a reza não pode ajudar muito os jovens viciados. Mas duas reconheceram que ajudaram adultos alcoólatras. A benzedeira que atende menos pessoas por semana, atende três pessoas, a que atende mais, atende em média 90 pessoas por semana.
Sobre a pergunta se atendem mais mulheres ou homens, algumas disseram não atenderem homens adultos, apenas crianças de ambos os sexos; cinco disseram atender ambos sem problema e outra mencionou preferir o atendimento apenas às mulheres. Nesse caso, parece que ajudar, atender logo é o que mais permeia a prática das benzedeiras, conforme o depoimento abaixo:
Aqui se chega gente, eu procuro atendê na hora. Às veis desligo a panela e venho, notras meu marido tá aqui, ele ajuda. Atendo muita gente no ruim menino, aí é só benzê que melhora. Teve uma veis um menino na hora de benzê desmaiô. Benzi, dei um chá ai ele melhorô. Outra veis foi uma menina novinha que tinha medo de tudo, benzi e nunca mais vi, dicerto sarô o medo né. Eu num tenho medo di nada não, enquanto eu tivé as força de Deus tudo vai dá certo né (ENTREVISTA COM D. ADELICIA BENEDITA, 02/09/2014). Para D. Adelícia, que atende homens e mulheres adultos, é essencial estar disponível quando é procurada, pois tem males que não podem passar da hora segundo ela, se não, depois são difíceis de extirpar.
Desse modo encerra-se mais uma parte da análise dos dados aqui proposta, relacionada ao tema saúde-doença-benzeção. Entende-se que tal análise constitui um breve recorte do conjunto desta tese, a qual perscruta alguns dos muitos mistérios
(forças cotidianas, mas inconscientes) e hierofanias, do mundo das benzedeiras. Assim, esta pesquisa busca relacionar tais mistérios às condições de sedimentação da prática da benzeção. Entende-se que os resultados apontados indicam práticas rituais diretamente situadas no campo da tradição, crença popular, rituais primitivos e cura, poder das rezas, com especial atenção à evocação das forças da natureza.
Cada doença é um homem: furúnculos e inchaços, coceiras e cascas, vermelhidão e tosse, definhamento e escrófulos, pressão na bexiga e dores de estômago também. Assim que conseguimos capturar a alma da doença, que é um homem, matamos a doença, que é um homem; seu corpo desaparece dentro de nós (LÉVI-STRAUSS, 1995, p. 192).
Sem a captura do real agente provocador da doença é inútil para Lévi-Strauss (1995) atacar apenas os sintomas. Dentro do que fora proposto analisar no capítulo como um todo, buscou-se situar a prática das benzedeiras dentro do viés da medicina popular, de modo a perceber de que maneira esse campo propicia uma legitimação da prática da benzeção e favorece sua sedimentação social no mundo hodierno como em outras épocas. A religião, dentro do contexto das relações de saúde e doença, trata de questão simbólica, mais que medicinal ou biológica.
Depois de ter buscado nas vertentes cultural, religiosa e neste capítulo a vertente medicinal, cujos resultados parecem ter apontado para o fato de que são mesmo esses três fatores os responsáveis pela acomodação social da figura das benzedeiras e suas prática dentro do cotidiano hodierno, bem como de ter exposto o material coletado em campo na forma de perguntas e resultados, a partir das respostas dadas pelas entrevistadas, entende-se como igualmente importante perceber, como o tema ganha repercussão dentro do campo das ciências das religiões, dado que uma vez investigado o escopo desta tese, por meio das três hipóteses ora descritas, importa agora considerar quais são os pontos desta pesquisa que realmente dizem respeito e interessam às ciências das religiões, e como tais ciências podem contribuir para aclarar o que foi aqui pesquisado e descrito.
Como último tópico da tese, tenciona-se investigar dentro do universo simbólico das benzedeiras, a relação entre religião, na vertente religiosidade, magia, na vertente ação rápida e cura, na vertente das representações da mulher na condição e imaginário da bruxa medieval, uma vez que aquelas que se dedicavam à arte da cura, nem sempre eram bem vistas no meio sociocultural.
4.4 A relação entre religião, magia e cura no universo das benzedeiras
As religiões, de modo geral, até se tornarem oficiais e institucionalizadas, descenderam de um longo processo de construção oral, histórica, social, cultural e rural. Toda religião possui sempre algo de bucólico, de original, nostálgico e paradisíaco. Os mitos de criação e desenvolvimento do homem no mundo remetem a essa perspectiva, e fazem, em todos os casos, emergir o homem como ser criado e pecador, ou seja, um sujeito em sua causalidade (sem o total controle do mundo).
Limitado, o ser humano encontra dificuldades inúmeras de se sobrepor como centro da criação, dominar as forças da natureza a seu favor e ainda manter o equilíbrio entre sua permanência no mundo e a permanência do mundo. Tal feito coloca o homem em uma condição de pecado original, em que, desde sua origem no mundo, a condição decaída o faz rastejar por perdão e aceitação de si nesse mesmo mundo que o rodeia e o amedronta.
4.4.1 A benzedeira a partir da construção bibliográfica de Rivière30
Segundo aponta Rivière (2013), a realidade que se encontra fora do homem, ou seja, do mundo, emergem forças assustadoras que, constantemente, o ameaçam. A magia está no ar, nas plantas, no mar e na terra. São monstros ameaçadores que querem devorar e eliminar a vida do homem na terra, caso esse não consiga ter o controle de tal magia. Acreditar que está envolto em um sistema de proteção divina parece ser a conditio iniciai de permanência psicológica no mundo, conforme denota Lévi-Strauss a seguir:
A eficácia da magia implica a crença na magia, que se apresenta sob três aspectos complementares: primeiro, a crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas; depois, a do doente de que ele trata ou da vítima que ele persegue, no poder do próprio feiticeiro; e, finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam continuamente uma espécie de campo de gravitação no interior do qual se situam as relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça (LÉVI-STRAUSS, 1995, p. 182).
De todo modo, Lévi-Strauss aponta que é a crença, a responsável pela validação de todo o processo encabeçado pelo feiticeiro, do benzedeiro, do xamã. De mesmo modo, Riviére (2013, p. 150) entende que essa magia seria uma forma
30 Vale ressaltar que neste livro, para além dos conceitos e das teorias, o autor aborda as principais correntes