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A VSTAND TIL BÅDE STIGMATISERTE RØYKERE OG « STREIT » MIDDELKLASSE

7. EN SYMBOLSK SNUOPERASJON

7.1 A VSTAND TIL BÅDE STIGMATISERTE RØYKERE OG « STREIT » MIDDELKLASSE

Esta constituição do termo “sujeito desidentificado” para falar do indígena, do negro brasileiro, da diáspora e do africano, foi um insight surgido ao final da análise dos capítulos constitutivos do seriado “Nova África” ao perceber o tratamento estético dado a apresentadora Dina Adão, suas roupas e edições de seus vídeos em comparação aos seus companheiros de trabalho e aliando isso a tradicional abordagem dada ao negro e aos africanos nos meios de comunicação audiovisuais, o que não foi diferente no programa analisado. Percebemos a não cidadania dos sujeitos e sua falta de identidade, se são todos africanos, não são nacionais, não são tribais, e não sendo tribais não tem identidade. São sujeitos em processo constante de “transculturação”, conforme preconiza Hall (2003, p. 31). E como nasce esta negação da identidade? Este imaginário15 constituído que não vê este sujeito a partir de suas identidades?

15 Os diversos conceitos que cercam os estudos do imaginário são baseados em um pensamento complexo,

flexível e pluralista, que incorpora a contradição e a ambivalência. Antropologicamente pode se considerado, entre outras definições, como o conjunto de imagens que constituem a relação simbólica do homem com o mundo.

Todo este processo sócio histórico que vimos até o momento, tem por objetivo proporcionar uma visão ampliada da conformação da sociedade brasileira, dos elementos privilegiados e dos vilipendiados em sua conjuntura. Esta conjunção de fatores nos possibilitará a visão dos grupos de poder que se refletem nos grupos de poder da mídia tupiniquim. Ao longo dos anos de consolidação da televisão no Brasil observamos um processo de assepsia humana em ação. Os profissionais que migraram do rádio, ao contrário do que diz o senso comum, não foram automaticamente aproveitados no novo meio. Estudos mostram, que houve uma seleção identitária no processo inicial de formação do homem de televisão, este, deveria compartilhar de hábitos e costumes associados ao modelo de televisão “familiar” imaginado para o Brasil, caso contrário seria, quando utilizado, utilizado para o grotesco. Bergamo (apud RIBEIRO; SACRAMENTO; ROXO, 2010, p. 68) nos apresenta esta dicotomia originada no complexo processo identitário brasileiro:

Os caminhos seguidos pela televisão brasileira nos anos 1960 são quase incompreensíveis se não levarmos em conta esse conflito gerado pela desigualdade entre origens sociais e posições ocupadas por esses profissionais. Mesmo a memória da televisão constituída a partir da segunda metade dos anos 1970 é, em grande medida, uma expressão desse conflito, uma vez que ele gerou relatos que são, antes de qualquer coisa, reproduções da desigualdade social e cultural que havia entre esses profissionais, portanto reproduções da desigualdade estrutural entre as origens e as posições sociais ocupadas por eles.

É certo que esta exclusão do sujeito desidentificado do meio televisivo, está profundamente associada à exclusão do mesmo elemento das camadas altas e médias da sociedade. A cultura negra estaria associado ao popular, de baixa qualidade, carregada de misticismos e signos, inferiorizada para uma elite que se quer europeia, como vimos, historicamente imitadora, macaqueando os costumes do estrangeiro branco. Neste sentido, convencionou-se chamar de cultura popular brasileira, todas as manifestações identitárias oriundas dos guetos, das culturas não centrais. E de alta cultura aquilo oriundo dos países centrais, das ex-metrópoles colonizadoras. “O principal componente na cultura europeia é precisamente o que torna essa cultura hegemônica tanto na Europa quanto fora dela: a ideia da identidade europeia como sendo superior em comparação com todos os povos e culturas não europeus”. (SAID, 1990, p. 19).

Não pretendemos nos alongar discutindo a binaridade de alta e baixa cultura, porém, consideramos a cultura popular como um espaço de contenção das fronteiras e de resistência de um determinado grupo, uma forma de manutenção e/ou memorização de seu núcleo original. Ainda que híbridos e resultantes de uma mistura étnica de diferentes origens, o

posicionamento político-ideológico, seus traços físicos e cor da pele, compõem signos de localização e identificação social, proporcionarão ao outro uma percepção de seu predominante racial, este te enquadrará numa das três “raças” de origem mitológica do brasileiro.

Importante observar, que compartilhamos da constatação da não cientificidade da categoria “raça”, e que existem enormes diferenças biológicas num mesmo grupo conceituado como da mesma raça. Porém, consideramos que “raça” é um construto político-social. Raça é uma construção política europeia para legitimar a dominação e subjugação de outros povos considerados diferentes, ou como prefere Stuart Hall (2006, p. 66), “é uma categoria discursiva em torno da qual se organiza um sistema de poder socioeconômico, de exploração e exclusão, ou seja, o racismo”. Assim, teremos este grupo originário de indígenas e dos africanos escravizados, buscando, a partir da exclusão social, reconstruir vínculos identificatórios, reconstruindo a tradição perdida ou metamorfoseando-a em forma de tradição comunitária, por exemplo, participando de grupos religiosos culturais supostamente de origens africanas, como o candomblé, como forma de fugir da desidentificação.

Esta reconstrução diaspórica da identidade por estes sujeitos ou grupos comunitários desidentificados é parte do processo de resistência sociocultural deste mesmo sujeito ou grupo, frente às imposições que o sistema burguês lhe imputa. Esta mobilização proporcionará a construção e/ou alinhamento a determinada ideologia que confortará mente e espírito para suportar as pasteurizações impostas pelas ideologias eurocêntricas neoliberais da atualidade e, proporcionará a percepção de reação a opressão e a não paralisia do ser.

Importante observar, que aqui tratamos da desidentificação do sujeito no espectro da comunicação, porém, a invisibilidade deste sujeito negro e indígena brasileiro perpassa os mais amplos espaços sociopolíticos, caso dos partidos políticos, onde, mesmo nos partidos que manifestam interesse em construir bases populares, os negros têm pouca expressão. Existirá sempre o papel do negro representante, aquela figura notória, exemplo da raça, representante oficial da diversidade dos partidos em caso de dúvida quanto diversidade racial interna, porém, dificilmente os partidos seriam aprovados em análises elementares tais como: quantas lideranças negras são formadas para a ascensão partidária e as candidaturas políticas, quantos negros se tornam dirigentes partidários ou candidatos e qual o total de recursos que os partidos destinam para viabilizar suas candidaturas, aí veremos o sujeito desidentificado reaparecer com força.

Pois todas as aparências de neutralidade ideológica só podem agravar nossos problemas quando a necessidade da ideologia é inevitável, como acontece hoje e deverá continuar no futuro previsível. Na verdade, inevitável enquanto continuar sendo necessário “vencer os conflitos” que continuam a surgir dos interesses inconciliáveis das forças hegemônicas alternativas que se enfrentam na nossa atual ordem social de dominação e subordinação estrutural. (MESZÁROS, 2012, p. 13).

Em busca deste espaço social negado, ou mesmo de construção de uma tradição, que serão rompidas as fronteiras culturais negras e haverá uma reaproximação dos laços interatlânticos entre africanos e seus descendentes. Guerreiro (2010) chamará a isso de terceira diáspora16, estes fluxos e refluxos identitários em busca de uma tradição. “África é o significante, a metáfora, para aquela dimensão de nossa sociedade e história que foi maciçamente suprimida, sistematicamente desonrada e incessantemente negada e isso, apesar de tudo o que ocorreu permanece assim” (HALL, 2006, p. 40).

Esta desidentificação do sujeito, tem responsabilidade direta com promoção da barbárie impetrada por agentes do Estado nas comunidades e corpos de sujeitos desidentificados, e a mídia é responsável direta por secundar este processo de violação desta maioria minorizada e manutenção do alarmante índice de violência vivenciado no Brasil do século XXI , de raízes históricas.

Os projetos neoliberais que pleiteiam o Estado mínimo são volumosos e prevê, também, a redução da maioridade penal (oficialização do Estado penitenciário e extermínio da juventude negra), promoção do fundamentalismo religioso, aniquilamento das tradicionais religiões de matrizes africanas, propostas de políticas homofóbicas, e recrudescimento da ação de grupos extermínio/ milícias.

Importante rememorar indicadores como os que trazem o Mapa da violência 2014, onde aponta que na região do entorno do Distrito Federal do total de jovens de 15 a 29 anos mortos, 88% são negros. E que entre 1980 e 2012, a taxa de homens mortos passou de 21,2 para 54,3 por 100 mil habitantes. Ainda, segundo o Mapa da Violência, 100 a cada 100 mil jovens com idade produtiva entre 19 e 26 anos morreram de forma violenta no Brasil em 2012. Nesta construção teórica sobre a desidentificação do sujeito brasileiro, visitamos Darcy Ribeiro (1991, p.11) e sua teoria do Brasil;

16 Terceira diáspora é o deslocamento de signos - ícones, modos, músicas, filmes, livros - provocado pelo circuito de

comunicação de diáspora negra. Potencializado pela globalização eletrônica e pela web, coloca em conexão os repertórios culturais de cidades atlânticas. Uma primeira diáspora pela via da escravidão ocorreu, na história moderna, com os deslocamentos do tráfico atlântico; uma segunda diáspora se dá pela via das migrações como a de jamaicanos e nigerianos para Londres; de cubanos para Nova York; de angolanos para Lisboa e Brasil. Esses desocamentos redesenharam a ambiência cultural do mundo atlântico. Pós-contemporâneas, as culturas negras vivem um processo de recriação cultural diverso e cosmopolita baseado na troca de informações entre repertórios artísticos, comportamentais e ideológicos. A terceira diáspora é uma teia de referências do mundo negro; cita a extraordinária riqueza deflagrada pela diáspora africana e o vigor de sua produção cultural. Textos, sons, imagens navegam e se (des)conectam num oceano de signos.

O que me interessa agora, essencialmente, é contribuir para que se instrumente o brasileiro comum com um discurso mais realista e mais convincente sobre o Brasil, a fim de motivá-lo e capacitá-lo a atuar de forma mais urgente e mais eficaz na transformação da nossa sociedade. Este discurso, para ser eficiente, deve ser rigorosamente objetivo, mas deve ser, também, lucidamente participante e comprometido frente aos interesses em choque que afetam os destinos nacionais e populares.

Enfim, os veículos de comunicação no Brasil, TVs, rádios, jornais, revistas, etc. Reproduzem estereótipos solidamente arraigados na mentalidade nacional. Estes sujeitos desidentificados são impedidos de se verem refletidos de forma positiva no espelho da mídia, e quando apresentados, sua imagem ganha contornos construídos pelo imaginário do preconceito racial, reforçando imagens distorcidas e estereotipadas de nossa realidade.

É este sujeito desidentificado – onde políticas públicas não percebem sua existência e no particular ele é percebido e indesejado, rejeição refletida no ideal de televisão familiar desenvolvida no Brasil – que idealizará em sua “família de santo”, a reconstrução de sua identidade e seu posicionamento no mundo (COSTA E LIMA, 2003). E ainda que raça e etnicidade sejam construtos ideológicos, político-sociais, é este sujeito que enxergará na nova TV pública brasileira um alento para suas demandas de visibilidade. É ele e a gente de sua raça que anseiam por novas Áfricas e novos Brasis.

CAPÍTULO 03