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H VORDAN STILTE MOBILSELSKAPENE SEG TIL WINBACK - FORBUDET SOM REGULERING ?83

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8. DISKUSJON

8.1 H VORDAN STILTE MOBILSELSKAPENE SEG TIL WINBACK - FORBUDET SOM REGULERING ?83

No caso das Minas da Panasqueira, a reivindicação por melhores condições de trabalho está quase presente desde o início. A Panasqueira é um universo muito próprio e a sua história resulta num longo e confuso novelo de factos e de manobras onde os homens que furavam as entranhas da terra e acabavam com os pulmões repletos de pó, com uma verdadeira doença laboral, eram os que mais perdiam. Uma multinacional, perante a qual o próprio Salazar tinha alguma dificuldade em impor condições, operava a seu bel-prazer na zona Sul dos concelhos da Covilhã e do Fundão. O volfrâmio, material utilizado na indústria e na produção de ferro e aço tem aqui uma das principais jazidas a nível mundial. Para o arrancar à terra a multinacional “Beralt In & Wolfram” contrata homens da região que entram para a mina muito jovens e acabam sem forças a meio da vida.

O principal problema, a Silicose. Uma doença causada pela continuada exposição ao pó libertado na extracção do minério. A falta de condições de higiene e segurança leva a que milhares de trabalhadores acabem, como contava António Paulouro: “com os pulmões cheios de pó e a cuspirem sangue”. A juntar a todo este drama humano, os salários baixos e a falta de apoio social.

Fernando Paulouro, autor do livro “A Guerra da Mina e os mineiros da Panasqueira”, que reúne testemunhos de operários, sindicalistas e reportagens do “Jornal do Fundão”, para além de um vasto conjunto de informações sobre o número de trabalhadores nos períodos áureos da laboração desta empresa e os dividendos que a mesma recolhe descreve esse mundo. Paulouro, que sempre acompanhou de perto, com trabalhos para o jornal, os mineiros conta que: “As minas eram um universo próprio. Havia uma repressão muito grande e uma empresa ainda maior, ao ponto de ter a polícia comprada. A GNR trabalhava dentro da mina, para a mina. Os representantes sindicais eram bastante reprimidos. O jornal deu visibilidade ao problema da silicose. O grande problema é que a mina e as companhias de seguros, num mundo perverso, discutiam as coisas de tal forma que os trabalhadores afectados pela silicose quando iam às juntas médicas e aos hospitais, tentava-se alijar a questão dizendo que aquilo era tuberculose. Foi uma discussão que matou muitos mineiros à fome. Para dar uma ideia de que isto era um cenário brutal e dantesco colocávamos as mulheres de negro nas aldeias da corda do Zêzere. O romance do António Castanheira. É a história de um mineiro que não deixa cair o cadáver de um colega seu. É um herói improvável de uma história que

112 acaba com a mina a dar-lhe dez tostões pela sua solidariedade e humanidade. Esse artigo é escrito quando o Castanheira morre de silicose no Fundão depois de estar na miséria sem receber nada porque diziam que ele tinha tuberculose. A censura não deixou publicar numa primeira fase, mas quando o homem morre, foi mesmo publicado à revelia da censura.”173

Figura 15 – O “Jornal do Fundão” acompanhou de perto as maiores paralisações

É todo este conjunto de problemas que começam a ganhar forma logo na edição número 17 do “Jornal do Fundão”, em 19 de Maio de 1946, com um texto intitulado “Milhares de trabalhadores das minas pedem protecção ao Governo”. No artigo pedia-se uma solução para os trabalhadores que estavam agora sem possibilidades de laborar na mina. A pedido dos ingleses, pouco antes do fim da II Guerra Mundial, Salazar acaba por suspender o envio de volfrâmio para a Alemanha e para os países que apoiavam Hitler. Com essa medida, a Beralt In suspende os trabalhos e encerra a mina temporariamente, mandando para casa sem qualquer tipo de forma de sobrevivência, milhares de pessoas. O jornal volta ao tema meses depois, a 29 de Setembro de 1946.

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113 No editorial intitulado “A desesperada situação dos mineiros” expõe a falta de rendimentos, a fuga de homens para Espanha, mas também algumas soluções para que estes fiquem na região, como por exemplo, a sua ocupação na construção de estradas, nas captações de água ou na pavimentação de ruas.

Mas passadas as convulsões próprias do período a laboração da mina é retomada e novamente surgem os problemas. A questão fundamental estava na falta de apoio social aos mineiros. Isto porque, efectivamente existia uma doença laboral, a silicose, que não era reconhecida pelo Estado, nem pelas companhias de seguros. Os mineiros acabavam por morrer de “tuberculose”, sem direito a um subsídio ou qualquer outro tipo de rendimento. O Jornal foi noticiando com letras gordas a situação que parecia inalterável. “A Beralt continua por maus caminhos”, “Eles continuam a cuspir sangue” ou “Requiem para homens que morrem cedo” são alguns dos títulos alusivos a este facto. No livro de Paulouro pode ler-se que “Mais do que um centro industrial, as Minas da Panasqueira, que a Beralt Tin & Wolfram explora, com largo proveito económico desde 1928, são um feudo, uma coutada reservada da exploração estrangeira. (…) As feridas da mina ainda não cicatrizaram: são visíveis, com nitidez, por toda a corda de aldeias do Zêzere – as aldeias de viúvas – onde o negro das mulheres significa muitas vezes uma fatalidade chamada silicose. (…) As circunstâncias políticas que fizeram da Beralt a grande empresa multinacional estão profundamente ligadas à sorte dessas aldeias vestidas de luto, marcadas pela brutalidade da silicose e, mais tarde, quando os camponeses-mineiros (e os outros) aprenderam o salto da fronteira à procura de pão e dignidade, povoadas pelo silêncio da emigração.”174

Figura 16 – As “aldeias de negro”

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PAULOURO; Fernando; Daniel Reis; A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira; Edições A Regra do Jogo; 1979; Lisboa; página 81.

114 O papel do jornal, neste âmbito, passa por descrever toda a situação, apresentar soluções e exemplos e não deixar cair no esquecimento e na comodidade do regime, um drama humano e social que decorria em terras da Beira Interior. A luta para que a silicose fosse reconhecida como uma doença laboral passou pelas páginas desta publicação. A contribuição do “Jornal do Fundão” foi de uma relevância assinalável para que tal viesse a acontecer.

Foram muitos os episódios que contribuíram para isso mesmo. Em Março de 1965, pouco tempo antes do jornal ser suspenso por seis meses, António Paulouro publica, sem ordem da Comissão de Censura de Castelo Branco, o “Romance de António Castanheira”. Um relato frio de mais um episódio em que a falta de segurança nas minas leva à morte de um trabalhador que procedia com um colega à abertura de um túnel de ventilação. Contudo, António Castanheira, que sobreviveu a custo ao trágico acidente, segura o corpo do seu colega, durante horas, no cimo de uma chaminé com vários metros de altura. A mina, uma grande multinacional, assinala esse acto heróico dando a António Castanheira um prémio monetário de alguns tostões. Este mesmo trabalhador acabará silicótico, a mendigar nas ruas do Fundão, sem apoio da empresa ou do Estado, até à sua morte, altura em que o fundador do “Jornal do Fundão” publica o seu “romance”. Esta acção é vista por trabalhadores como um acto de extrema relevância e coragem do jornal, mas é entendida pelo regime como um acto de ousadia que meses mais tarde vai ser pago.

A postura do jornal passa depois para a publicação das mulheres de negro. As aldeias dizimadas pela silicose pintam um retrato que ainda hoje faz parte da identidade colectiva da região. Em 7 de Março de 1971, o jornal dava conta disso mesmo com a reportagem “Aldeias de Silicose – Aldeias de Viúvas”. Num texto de primeira página dizia: “Falar de silicose é, geralmente assacar culpas a uma empresa estrangeira, a métodos obsoletos que aumentam os riscos de trabalho. A fórmula, simplista, pode tranquilizar a consciência de alguns, mas está longe de ser verdadeira.”175

Mas o jornal há-de continuar a sua luta e, a título de exemplo disso mesmo, entre Março e Maio de 1971 publica semanalmente reportagens e que falam dos problemas causados pela laboração na mina, notícias que exigem medidas e o reconhecimento da silicose. “Silicose ou tuberculose – a discussão que mata os mineiros à fome”, “Silicose uma sombra de muitas vidas” ou “Silicose, combate em três frentes” são títulos

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115 exemplificativos desses trabalhos. A juntar a tudo isto, números e estudos técnicos e académicos sobre o problema. Na edição 1268, de 2 de Maio de 1971, o jornal avança com uma notícia baseada em dados oficiais das juntas médicas, das freguesias e das paróquias, para dizer que “75 mil portugueses estavam sujeitos, em 1962, aos perigos das poeiras da sílica”. A notícia explica que “este é um drama de proporções gigantescas, que escorre na miséria e luto de muitas aldeias e vilas. E mesmo cidades. Porque a silicose não afecta só os mineiros. Operários de fábricas de cerâmica, pedreiros, britadores, calceteiros e outros, estão expostos também ao mesmo risco.”176 O problema acaba por ser aceite e começa a ser verdadeiramente resolvido depois do 25 de Abril.

Mas a democracia apresenta um novo ciclo laboral na mina e novos problemas. Agora, com a possibilidade de associação, com o direito à greve, a Panasqueira e o “Jornal do Fundão” voltam a escrever uma página na história da imprensa operária portuguesa. Corria o ano de 1981 e os trabalhadores clamavam por melhores condições salariais. A Beralt Tin, agora controlada pelo império Oppenheimer, através da sub-

holding Charter Consolidated, tinha apresentado lucros bastante avultados, mas ainda

assim, não quer avançar com aumentos salariais. Instala-se um clima de tensão e de greve no couto mineiro. Passam várias semanas sobre a luta entre a multinacional e os trabalhadores. Semanas que são acompanhadas pelo jornal, com notícias e reportagens que pedem a presença de políticos e mediadores para o problema. Ninguém se mostra disponível para ouvir os mineiros, a não ser a publicação que vai dando eco dos acontecimentos. Passam um mês, dois e os mineiros continuam sem salários, mas a mina começa também a ter prejuízos, uma vez que se encontra encerrada. Apenas na 13ª semana de luta, uma Comissão Parlamentar da Assembleia da República, constituída por deputados de todos os partidos com presença no hemiciclo, se desloca à Panasqueira para se inteirar do problema. A 7 de Agosto de 1981, 14 semanas depois, o “Jornal do Fundão” avança com a novidade: “Vitória dos mineiros”. A notícia de primeira página diz que “os mineiros das Minas da Panasqueira voltaram ao trabalho. Depois de 14 semanas de greve, a Comissão Intersindical e a Beralt chegaram a um acordo, considerado pela Comissão «uma grande vitória».”177

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In: Jornal do Fundão; edição n.º 1268, de 2 de Maio de 1971, página 1.

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116 Figura 18 – Uma greve que durou 14 semanas, mas que acabou por dar razão aos mineiros

Mas aquilo que parece ser uma grande vitória para os trabalhadores acaba por ser também o reconhecimento do papel e do contributo do jornal. Uma reconhecimento que António Lopes, dirigente sindical dos mineiros traduz numa moção aprovada por unanimidade, pelos trabalhadores, que faz referência ao jornal: “queremos fazer uma menção especial ao “Jornal do Fundão” que nesta como em todas as lutas tem dedicado do melhor do seu espaço aos mineiros, assumindo-se como um jornal regional que luta pelos interesses dessa mesma região.”178 As lutas e as reivindicações dos trabalhadores das minas continuam ainda hoje a ser acompanhadas de perto pelo jornal.

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