9. AVSLUTNING
9.2 F ORSLAG TIL VIDERE FORSKNING
Os muitos casos de actuação do jornal que está na base deste estudo demonstram, em nosso entender, a capacidade de mobilização de cidadãos, políticos, técnicos e demais estruturas sociais, com vista à realização de obras, à alteração de situações quotidianas e à mudança da sociedade. Contudo, neste rol de exemplos, e outros tantos ficam por descrever, existe um caso invulgar, o do Regadio da Cova da Beira.
Esta obra, cuja base foi lançada na Assembleia da República por um deputado eleito pelo círculo de Castelo Branco, em Junho de 1950, ainda hoje, passados mais de 50 anos, não está totalmente concluída. A escolha deste caso, para além da óbvia demora de execução e do contraste nítido com as restantes “batalhas” do jornal, serve também para mostrar, em certa medida, a importância efectiva que as notícias têm e a sua capacidade de recordar as necessidades e as aspirações de uma comunidade. Com toda a certeza que a história, bastante longa, do regadio, teria conhecido outro desfecho, não fosse o “Jornal do Fundão” ter feito, também da realização deste projecto, uma bandeira. A persistência do jornal em ir lembrando ao longo dos anos, décadas, a necessidade de uma construção desta natureza na região, acabou por dar os seus resultados.
Um outro factor, que não poderia ser deixado de lado, é o da publicação de livros como complemento de temas que o jornal trata nas suas páginas. Para além da temática das Minas da Panasqueira, do império de extracção do volfrâmio e das parcas condições de trabalho com baixos salários, também as Jornadas da Beira Interior e o Regadio da Cova da Beira foram assuntos que algumas das pessoas ligadas ao corpo redactorial desta publicação, trataram em livros, editados ou apoiados pelo “Jornal do Fundão”. No caso concreto do Regadio da Cova da Beira, António Paulouro publicou em 1991 “Crónica das Águas que Passam”. Uma colectânea de textos publicados no jornal, ao longo de várias décadas, que abordam a importância do regadio. Desde políticos, a engenheiros, académicos e agricultores, todos dão o seu contributo para que esta obra se torne uma realidade e explicam a sua necessidade.
123 Como foi dito, a ideia do regadio surge nas páginas do jornal a 9 de Julho de 1950.183 Na edição 209 um grande título ocupa a primeira página “Setenta milhões de metros cúbicos de água armazenados na Serra da Estrela poderão irrigar dez mil hectares de terra na Cova da Beira”. O texto é uma quase transcrição integral da intervenção de Araújo Correia, engenheiro e deputado na Assembleia da República. Este apontava dois objectivos principais para o aproveitamento hidrográfico da água que se reunia na Estrela, quer através da chuva, quer pela neve. Segundo o engenheiro civil, para além da rega dos dez mil hectares de terras, desde o concelho do Sabugal até ao concelho do Fundão, haveria ainda a capacidade de produzir energia eléctrica em duas barragens, a da Candeira e a de Asse-Dasse. O custo estimado da obra em 1950 era de pouco mais de 45 mil contos, cerca de 225 mil euros.
O regadio viria a revelar-se uma obra tortuosa cuja história, nos arriscamos a dizer, fez correr muita “tinta” e pouca água. O jornal acabou, durante as décadas de 50 e 60, do século XX, por servir de espaço de reflexão para esta empreitada. A espaços temporais foram aparecendo nas suas páginas textos de opinião, estudos e alguns pareceres técnicos que reportavam para o assunto. Muitas das vezes, o jornal conseguia prolongar por um mês ou mais a discussão, através de cartas e respostas a um artigo ou uma notícia sobre o regadio. Mas passado isso, o tema voltava a ficar “arquivado”.
As próprias obras só arrancam com a chegada de Marcelo Caetano ao poder. Em 1969, instalam-se no Fundão as brigadas de trabalho de topografia e de estudos agrários. Equipas que vão fazer as primeiras prospecções sobre uma obra que tem um novo impulso com Duarte Simões e com o Grupo de Trabalho da Cova da Beira e também, em 1973, com o Plano Geral do Aproveitamento Hidroagrícola da Cova da Beira.
Contudo, a história do “Jornal do Fundão” acompanha também os episódios e avanços e recuos de uma obra que ainda hoje não está totalmente finalizada e cuja sua concretização inicial, com o aproveitamento eléctrico, nunca irá ser feita. O jornal serviu, em nossa perspectiva, mais uma vez, como grande impulsionador deste tema, mas também, como dinamizador do debate necessário sobre esta obra e plataforma de congregação de vontades para pressionar os poderes e organismos responsáveis pela obra. Pensamos que serviu assim para o efeito que fala Pedro Coelho quando diz que:
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Também já em 1937, um relatório da então Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola apontava para a construção de um sistema de rega na Cova da Beira com a capacidade imediata de irrigação de seis mil hectares de terreno.
124 “os meios de comunicação social poderiam ser instrumentos de ampliação do debate e discussão racionais, os veículos de progressão social.”184
Figura 22 – O regadio era tema de manchete já em 1950
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COELHO, Pedro; A TV de Proximidade e os Novos Desafios do Espaço Público; Colecção Media e Jornalismo; Livros Horizonte; ; Lisboa; 2005; página 229.
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