5. TEORI OG EMPIRI
5.2 B ERTRAND - KONKURRANSE MED DIFFERENSIERTE PRODUKTER
“O ‘Jornal do Fundão’ é uma referência do jornalismo português e faz parte do nosso património cívico de luta pela liberdade. Essa luta encontrou nele uma voz livre e corajosa, que esteve sempre presente nos combates pela democracia. Fiel a essa vocação de liberdade.”139 Jorge Sampaio, então Presidente da República Portuguesa falava assim do papel que este jornal regional desempenhou na luta contra o salazarismo.
De facto, esta foi, como já referimos, uma das publicações que mais sofreu nas mãos da ditadura. Quem o lembra também é Cândido de Azevedo, quando diz que “a suspensão do Jornal do Fundão foi uma das mais rigorosas adoptadas pelo regime contra um órgão de imprensa, ao longo dos 48 anos de ditadura.”140
A suspensão do jornal acabou por ocorrer a 23 de Maio de 1965, uma data que se tornou histórica, não só para o “Jornal do Fundão”, mas também, em nosso entender, para o jornalismo português. Na edição desse dia, o jornal publicava pela primeira vez um suplemento cultural intitulado “Argumentos”, anexo esse que nunca mais voltaria a ser publicado. Este novo complemento do “JF” era dirigido por Alexandre Pinheiro Torres que tinha então sido convidado para orientar as páginas culturais.
A Sociedade Portuguesa de Autores revelou por aqueles dias os nomes dos vencedores dos Grandes Prémios Literários. Contudo, um deles foi atribuído a Luandino Vieira, que estava entretanto detido no campo de concentração do Tarrafal por ser militante do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), acusado de conspirar contra o Estado. A censura não tardou a silenciar todos aqueles que ousassem publicar alguma coisa relacionada com esta distinção, para além de ter assaltado a Sociedade Portuguesa de Autores e encerrado todas as actividades desta.
Contudo, o “Jornal do Fundão” publica, na página 5 do “Argumentos”, a negro, a seguinte notícia: “Isabel da Nóbrega, Luandino Vieira e Armando Castro obtiveram, respectivamente, o Prémio Camilo Castelo Branco (Romance), Grande Prémio de Novela e Grande Prémio de Ensaio. A Armando Castro o prémio foi-lhe atribuído pelo ensaio A Evolução Económica de Portugal (Vols. I e II), a Luandino Vieira, pelo seu livro, Luuanda e Isabel da Nóbrega foi premiada pelo romance Viver com os outros. Os prémios têm o valor de 50 000$00, cada.
139
In: Jornal do Fundão; edição n.º 984, de 23 de Maio de 1965, página 5.
140
AZEVEDO, Cândido de; “A Censura de Salazar e Marcelo Caetano – Imprensa, Teatro, Cinema,
81 Figura 5 – Excerto do Suplemento “Argumentos”, que levou à suspensão do jornal
Luandino Vieira tem 29 anos de idade, nasceu em Vila Nova de Ourém, na Metrópole, tendo ido bastante novo para Angola. Começou a sua actividade literária em
O Estudante, órgão dos alunos do Liceu de Luanda. De 1957 a 1960 aparece integrado
82 da Sociedade Cultural de Angola. Aí se encontram poemas, contos e ilustrações com a sua assinatura. Em 1960 publica o seu livro de estreia A Cidade e a Infância, tendo publicado depois Duas histórias de pequenos burgueses (1961) e Luuanda (1964), que lhe valeu agora o Grande Prémio. Aquando da aparição do livro, o organizador desta página pronunciou-se no Diário de Lisboa da seguinte maneira: “Três histórias que são […] três obras-primas do nosso conto contemporâneo, e a enorme e imprevista revelação de um escritor de sensibilidade excepcional e de notável capacidade de criação dum estilo… É n’A Estória do Ladrão e do Papagaio, que desde já considero digna de figurar sem desdouro ao lado das melhores de José Cardoso Pires de Jogos de
Azar, ou das melhores de Manuel da Fonseca de O Fogo e as Cinzas (e que maior
elogio poderia eu fazer-lhe?) é nessa ‘estória’ que Luandino Vieira nos dá prova das suas extraordinárias possibilidades.”141
Uma ousadia que vai ficar cara ao jornal. Fernando Paulouro descreve o episódio da seguinte forma: “Esse facto desencadearia a ira dos mastins do salazarismo e do próprio chefe do Governo: o ‘Jornal do Fundão’ é suspenso por seis meses (e depois do seu reaparecimento, obrigado a provas de página na Censura de Lisboa), os números dessa edição apreendidos pela PIDE, demitido o delegado distrital da censura (tenente Manuel Dias Catana), que visara as provas do jornal.
À retaliação desencadeada contra o ‘Jornal do Fundão’ faltava-lhe base legal no próprio universo jurídico da ditadura. Daí que os Serviços da Censura (Presidência da República) tenham argumentado que “esse jornal foi autorizado apenas como ‘Regionalista’ e não cabem neste âmbito quaisquer suplementos ou páginas literárias.”142 Para além desta explicação, também Cândido de Azevedo explica que “como o censor se recusou a negar que a tinha autorizado, a direcção da Censura tomou como pretexto a publicação de uma notícia, naquela mesma edição do jornal, sobre o «Cinquentenário do Seminário do Fundão», uma notícia que pelo seu carácter totalmente inócuo – limitava-se a recordar a data e a dar o programa das comemorações –, não tinha sido de facto apresentada à censura, o que acontecia com alguma frequência com notícias do género daquela, quer no Jornal do Fundão quer em muitos outros jornais. A Direcção da censura, porém, aproveitou-se desse pretexto para levantar um
141
In: Jornal do Fundão; Edição n.º 984, de 23 de Maio de 1965, página 5 do suplemento “Argumentos”.
142
83 processo ao jornal, que culminaria na suspensão por seis meses do Jornal do
Fundão.”143
Todo o processo foi bastante conturbado para o jornal que esteve parado durante meio ano. Contudo, o seu regresso não foi pacífico.
Para exemplificar, “a censura prévia, no que à imprensa dizia respeito, era exercida por um corpo de funcionários do Estado, organizados em Comissões de Censura a nível de Lisboa, Porto e Coimbra, sendo os restantes distribuídos por delegações que abrangiam todos os distritos do país.”144 Ora, também o “Jornal do
Fundão” era revisto em Castelo Branco. Isto até 23 de Maio de 1965. Quando regressa,
a 28 de Novembro do mesmo ano, o jornal passa a ser revisto em Lisboa. Um ponto que vai trazer dificuldades acrescidas para o jornal. As provas eram enviadas de comboio para Lisboa e depois apresentadas no gabinete de censura onde eram vistas. Através de telefone, Vasco Granja, colaborador do jornal transmitia à redacção, no Fundão, o resultado dos cortes. Para além disso, António Paulouro viu-se subitamente manietado pela mesquinhez do regime. Na época, todos os jornais estavam obrigados a possuírem uma caução que servisse para custear gastos associados à sua suspensão ou encerramento. A quantia que estava atribuída ao jornal antes de Maio de 1965 era de oito mil escudos. Depois de todo este processo, a quantia exigida passou a ser de 200 mil escudos. Paulouro recorreu à banca para tentar encontrar financiamento para o seu jornal, mas a censura desempenhou outros dos seus papéis “tendo inclusivamente exercido influência junto de vários bancos para que não emprestassem esse dinheiro ao jornal. Valeu na ocasião ao Jornal do Fundão o Conde da Covilhã, por intermédio do Banco Borges.”145
O jornal passou assim a ser um dos mais vigiados e tudo era passível de ser retirado. Desde as crónicas sobre televisão, até ao texto de um correspondente que dizia que as ruas da sua freguesia necessitavam de ser alcatroadas. Tudo era suprimido, inclusivamente a informação de que o jornal era revisto em Lisboa. Fernando Paulouro acrescenta também que: “o jornal, submetido a partir de então, ao carimbo e ao lápis azul de Lisboa, depressa perdeu as ilusões: a censura mutilava e cortava qualquer veleidade crítica.”
143
AZEVEDO, Cândido de; “A Censura de Salazar e Marcelo Caetano – Imprensa, Teatro, Cinema,
Televisão, Radiodifusão, Livro”, Editorial Caminho; página 451.
144
Idem; página 70.
145
84 Figura 6 – Anos mais tarde, Luandino Vieira visita o “Jornal do Fundão”
Portugal era um País obrigado a viver de joelhos, brutalmente amputado na sua capacidade de pensar, falar e imaginar. José Cardoso Pires caracterizou a censura como “uma polícia do espírito” que nos fazia viver num “país alienado”.
Se visualizarmos os textos que a censura cortou ao “Jornal do Fundão” (ou “suspendeu” ou carimbou como “demorado”), encontramos de tudo um pouco, desde as crónicas de José Saramago, por exemplo, a poemas inéditos (Natália Correia e tantos outros), até capítulos de um romance de Vergílio Martinho, “O Relógio de Cuco”, cuja publicação se iniciou no “& etc…”. Mas também inúmeros textos de Artur Portela, Arnaldo Saraiva, Nuno Teixeira Neves ou Júlio Moreira. Nuno de Bragança, que assinava a “crónica internacional” foi proibido, Rolão Preto viu impedidos artigos sobre Cristo ou os Partidos Políticos.
A realidade era, para os censores, toda ela matéria de delito comum, restando apenas farrapos do quotidiano para os leitores adivinharem. Desde o imediato local (falta de água, necessidade de uma Escola Técnica no Fundão), à pequena informação técnica (televisão a cores em Madrid), tudo fica suspenso do contacto com os
85 leitores”146. Só em Setembro de 1968, com a chegada de Marcelo Caetano ao poder é que todas estas exigências foram revistas.