O ritual iniciático deste viajante aconteceu, em terras brasileiras, na pele do imigrante que vivenciou os deslumbramentos e os perigos da selva, o trabalho árduo, a generosidade do povo oprimido. Essa terra moldou-lhe a personalidade e acrescentou novos conhecimentos ao adolescente Ferreira de Castro. Nelly Novaes Coelho afirma isso ao dizer que “ […] o Brasil foi o fator fundamental no encontro definitivo do escritor com sua própria arte de ficcionista”. (Coelho, 2007:205). Local onde edita o seu primeiro livro, impresso em fascículos Criminoso por Ambição (1916). Publica a peça Alma Lusitana (1916), em folhetim Rugas Sociais (1918), e a peça do romance O Rapto (1918), foi
48 encenada no Teatro-Bar Paraense. Trabalhou como jornalista e colaborador no semanário
Portugal e no Jornal dos Novos. O conhecimento literário em formação foi a riqueza que Castrou trouxe, em 1919, para sua terra natal.
O romancista viajou para o Brasil, em 1911, apenas com a instrução primária. Os sofrimentos por que passou foram seus mestres humanistas, que o recompensou com dois livros emblemáticos da sua carreira, Emigrantes (1928) e A Selva (1930). A curiosidade cultural de Ferreira de Castro, o autodidatismo aliado à genialidade, à força de trabalho e às suas experiências sociais, levaram-no a ultrapassar os limites impostos a um imigrante, como também ao viajante português, do século XX. Castro confirma o primeiro caso ao dizer que:
[…] Eu sou um autodidacta. Não posso mesmo dizer que estudei no que isto significa de disciplina, pois tudo quanto aprendi, desde as línguas que me permitissem conhecer o espírito de outros povos, até à sociologia e à filosofia, que tanto me interessam, o fiz sem esforço, impelido mais por uma grande curiosidade e por intuição do que por força de vontade; e, graças a isso, todas as minhas incursões no mundo do conhecimento humano foram agradáveis em vez de penosas. (Brasil, 1961: 29)
Como viajante português, vê-se nas crônicas estudadas nos capítulos anteriores, que o autor fazia pesquisa bibliográfica sobre os países visitados, frequentava os museus, interagia com o povo. Essas ações demonstram, que como escritor e viajante, experimentou a realidade social de cada lugar para produzir uma narrativa significativa baseada nos testemunhos. O trabalho jornalístico de Castro ultrapassou os limites de prestar somente informações. O escritor contribuiu para a elevação do conhecimento sobre àqueles locais e suas comunidades, tendo em vista à publicação das crónicas de viagem em jornal e posteriormente em livro.
As realidades sociais que Ferreira de Castro presenciou nos périplos, aprofundaram a sua humanidade, sugere-se que os ideais do cronista não se tornaram diferentes dos do protagonista Alberto do romance A Selva. Quando a personagem, já desenvolvida na parte final do romance, não deseja mais acusar nenhum homem nem a si mesmo de seus desacertos, devidos aos sofrimentos que todos padecem49.
49 O não julgamento da humanidade revela em sua escrita o sentimento fraterno, a compaixão de se reconhecer no lugar do Outro. Castro faz uma reflexão sobre esses temas em A volta ao mundo e revela que::
Se é, pois, certo que quando se trilha o mundo se captam incontáveis tristezas, é certo, também, que se colhem as mais confortantes esperanças e se fica, espiritualmente, mais rico, com uma visão mais vasta e mais profunda do Homem e do abrigo que ele ocupa no Universo. Isto não é a felicidade, porque as viagens, como se sabe, só dão, geralmente, felicidade antes de as iniciarmos, mas isto é muito importante na vida de cada qual. Alguns dos homens que, senhores da força, maiores catástrofes têm infligidos à Humanidade, são homens que não conhecem os outros povos, homens que, metidos em limitado âmbito, vêem tudo através de curtos horizontes. O sentido de humanidade é substituído, nele, por um violento sentido rácico. Ao contrário, quando se conhece os habitantes do nosso planeta, cria-se uma maior simpatia universal, uma simpatia que, mais do que pelas qualidades de cada povo, é feita pelos condicionalismos, pelas dores, pelas fragilidades comuns a todos. (Castro, 1986: 303, VM, vol. III)
Esse humanismo do autor nasce no Brasil, passa por Portugal e transborda em partes da Europa, África e Médio Oriente, retorna ao seu País e presencia, quase no final da sua vida, em 1974, a liberdade chegar para os portugueses com o fim da ditadura militar. A benevolência direcionada aos homens que emana do jornalista em suas crônicas, une-se naturalmente, ao desejo de esperança num Mundo justo para todos, recordada pelo autor no final da sua viagem:
Queríamos, como a personagem de um livro nosso, como a maioria da Humanidade, viver muito, muito, para voltarmos a contemplar o mundo depois da sua nova aurora, o mundo que nós sabemos que virá um dia, um mundo sem as injustiças e sem muitas das dores que os homens têm sofrido até agora.” (Castro, 1986:305, VM, vol. III)
Este desejo carrega o reflexo da utopia, sentimento talvez fracassado na visão realista dos problemas sociais, como salienta o sociólogo Zygmunt Bauman: “Muitas pessoas não tratam seriamente propostas utópicas. Mesmo que saibamos como fazer o mundo melhor, o grande enigma é se há recursos e força suficientes para poder fazê-lo.”50
Apesar de ter presenciado a desumanidade em vários locais que visitou, o autor de A curva da estrada, imprime na maioria das suas crónicas a ideia utópica da mudança
50 OLIVEIRA, Dennis. (2009). Zygmunt Bauman: utopia, modernidade líquida e progresso. Revista Prosa
Verso e Arte, on line. Disponível em: http://www.revistaprosaversoearte.com/zygmunt-bauman-utopia-
50 e da esperança na humanidade, como na visita ao Bornéu. O autor comenta que “[…] perante esta selva imensa e trágica, vizinha das nossas próprias janelas, as melancolias colhidas lutam com as esperanças que criamos – com as esperanças que todos nós precisamos de ter, apesar de tudo.” (Castro, 1986:209, VM, vol. II).Mas talvez seja esta esperança o motor que empurra o homem a atingir metas impensáveis nos planos coletivos e individuais, apesar das alterações de significado que as lutas adquirem com o passar do tempo.
Os temas sociais que refletem nos textos de viagem revelam a expressão literária realista do autor, segundo Óscar Lopes comenta, “ […] Ferreira de Castro foi o primeiro grande romancista português deste século que se determinou por problemas objectivos e não apenas por impulsos íntimos”. (LOPES, Óscar: s.d: 498 -504 apud Alves, 2007:207)
Seus temas se aproximam das preocupações sociais do movimento Neorrealista, mas Mário Dionísio justificou que “Ferreira de Castro não é um neo-realista. O seu conceito do mundo e da vida e, consequentemente, do romance não é o mesmo que informa, indispensavelmente, a visão do mundo, da vida, do romance, de um neo- realista.” (DIONÍSIO, Mário:1947:302-307 apud ALVES,2007:115). Castro é um viajante que observa e relata o seu tempo, sugere que os esquecidos pelas camadas privilegiadas da sociedade não sejam olvidados na história, oferecendo-lhes a sua voz de cronista.
Aponta-se o fragmento da carta do historiador António José Saraiva como uma justificação sobre essas características que Castro emana, o autor diz que: “ […] a característica mais saliente dos seus livros é agarrar a realidade dissipando a cortina das palavras. Ora essa realidade que os seus livros dão, ou provém de uma experiência pessoal (A Selva), ou de grandes qualidades de observador (A Lã e a Neve) ”. (Alves, 2007:170). É a mistura das experiências íntimas com a qualidade de interpretar os factos ao se por no lugar do Outro.
Em busca de um conceito para essa forma de ver o mundo pelos olhos de Castro, destaca-se o texto do investigador Ricardo António Alves que comenta sobre o realismo social presente nos textos de Ferreira de Castro. O pesquisador afirma que Castro foi influenciado pela doutrina anarquista51.
51 Para saber mais sobre este tema consulte o livro de Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo:
51 Já tivemos oportunidade de abordar, em vários locais e ocasiões, a forte influência que o anarquismo, como doutrina sócio-política e como ética, teve em Ferreira de Castro, sendo Piotr Kropótkin (1842 – 1921) a referência principal. […] foi apologista de uma sociedade integralmente livre e justa, baseada na equidade e no amor, apontando a deficiente organização social contemporânea, estribada no particularismo, no nacionalismo, na sede do lucro e na autoridade do estado, como factores disfuncionais que atiram as populações para a miséria e a escravidão. (Alves, 2011:57)
O tema do anarquismo estará mais acentuado na sua fase no jornalismo como corrobora a investigadora Ana Cristina Leitão M. de Carvalho:
É a época dos seus primeiros contactos com as organizações anarcossindicalistas, bem vivas na sociedade portuguesa. Em 1921, o jovem de Ossela já participava, tal como Vitorino Nemésio, que o relata no In Memoriam de Ferreira de Castro (1976), na greve dos trabalhadores dos jornais. Os seus escritos aproximavam-no da “juventude literária inconformista da época” (Salema, 1974:22,23), onde firmou as amizades vitalícias, assentes na comunhão de posições éticas e na intransigência face à “situação” política: Jaime Brasil, Assis Esperança, Roberto Nobre, os artistas Bernardo Marques e Julião Quintinha.” (Carvalho, 2015:71)
O jornalismo foi um dos meios que Castro pôde influenciar as pessoas com as suas ideias libertárias e como jornalista-viajante empenhou-se em ir à busca de conhecimento sobre a humanidade e não deixou de investigar os casos políticos da época como salienta Ricardo António Alves:
[…] Ferreira de Castro era, em 1931, n´O Século, o responsável – o editor, como hoje se diria da área internacional do diário. Enviado a Espanha, faz cobertura do conturbado início da II República, entre 15 de Julho e 13 de Agosto de 1931, remetendo matéria, inclusive por via telefónica, quando a actualidade a isso obrigava, a partir de Madrid, Sevilha e Barcelona. […]
Castro foi o que se poderia designar um repórter de guerra, pois dum estado de guerra se tratou, envolvendo, por um lado, o exército comandado pelo general Ruiz Trillo – utilizando armamento pesado e inclusive a aviação – e, por outro, os grevistas anarquistas e comunistas que haviam decretado a greve geral […]” (Alves, 2007: 31 e 35)
Compreende-se que o viajante também foi universal ao discutir e tornar público os problemas sociais de alguns países, como fez inicialmente sobre o trabalho escravo no seringal do Brasil. Traçando um rascunho dentro das crónicas sobre a não existência de fronteiras fixas quando se trata de guerras, revoluções, misturas de cultura. Expressando
52 nos textos a liberdade por que a Humanidade batalha, vista numa linha temporal através da história dos povos e conquistada apenas em alguns momentos.
Castro revela-se, ainda mais nas viagens, como um ser Universal no sentido de pertencer solidariamente a todas as sociedades de forma geral. E em manifestar características de um ser Cosmopolita, que considera o Mundo como sua pátria. Nisso o pesquisador Vítor Martins comenta que o autor era:
[…] um universalista, a quem as fronteiras demarcavam somente o espaço e não a sua mente, Ferreira de Castro não se prenderia ao Portugal, que, apesar de tudo, denomina de seu, uma vez que o seu universalismo lhe provoca uma sede de conhecimento de todo o mundo. […] (Martins, 1998:66).
O universalismo de Castro também está presente na fraternidade e união de todos os povos. Quando o autor percebe que a dor para sobreviver é sentida nas pequenas aldeias e nas sociedades modernas nos grandes países. Como também, quando o escritor se põe no lugar no Outro, como se destaca a crônica sobre a “A Birmânia”. Ao descrever as técnicas da extração da borracha feita pelos rubber-tapper, o seringueiro oriental, o cronista conta que:
Os rubber-tappers, pele escura, um colar no pescoço, tronco nu e calções desde o umbigo até o nascimento das pernas, regressam da sua faina. Miss Berta serve-nos de intérprete e eles explicam-nos, humildemente, o que já sabemos e, às nossas perguntas, evocam a sua miserável existência com a resignação que lhes carreia um milenário fatalismo. Ignoram a nossa vida, vêm-nos em turista, e falam sempre com o ar tímido de quem se encontra convencido de que ao senhor branco não interessa o que eles dizem. Nós estamos comovidíssimos. A memória ressuscita o passado, a odisseia do fim da infância, a marca de alma que ficou para toda a vida, e, depois não sabemos porque estranha associação de sentimentos, parece que o bosque cheira a eternidade, a essa murta que há no cemitério de aldeia onde repoisa o ser amado; parece que no sol que traspassa as árvores há a luz de muitos instantes já idos e de outros que hão-de vir um dia, no perene fluir da vida, da vida onde tudo é, simultaneamente, valiosos e inútil. (Castro,1986:121, VM, vol. II)
Este sentimento que surge em Castro de ter encontrado, tão distante do Brasil, sofrimento semelhante ao que viveu e o presenciou novamente, marca a forma como Castro viajou e conheceu os países. Denunciando as desigualdades sociais. Símbolo também das características do universalismo, cuja mentalidade abrange todos os indivíduos sem preconceitos nacionalistas, como justifica o pesquisador Vítor Martins:
53 […] Na verdade, imbuído de uma preocupação de justiça humana e social, Ferreira de Castro no meio de um mundo injusto, feito só para os happy few, observa que a pátria, seja ela qual e onde for, é como que uma instituição que se serve dos seus filhos para sua defesa militar e que vive das contribuições monetárias que lhes retira, sem que haja moeda de troca para todos eles. (Martins, 1998:67)
Nota-se na sua escrita de viagem como o autor demonstra ser fraternal com todos ao observar a cultura do Outro. O viajante escreveu sobre as excentricidades dos povos, dialogou com os nativos, manifestou curiosidade em conhecer a história antiga e a nova, da construção das cidades visitadas. Respeitou os rituais das etnias, anotou o folclore dos povos e seus heróis — mesmo que sejam famosos bandidos —. Em muitos casos sentiu- se imbuído de dor e a relatou ao ver cenas de extrema miséria humana. Apesar de ver o mal não se deixou contaminar ou turvar o olhar.
Essas características do ser universal podem também apontar para uma identidade cosmopolita presente em sua forma de viajar. Observa-se, primeiramente, a ideia de cosmopolitismo que o autor imprime no texto ao reparar nas metrópoles, nos polos económicos, ou nas cidades que são centros culturais, tendo o mar como o principal símbolo de ligação e criação dessa identidade cosmopolita. Em Singapura o autor vê:
“Porta do Extremo Oriente” chamam a esta cidade e, efectivamente, estreita porta, a ligar dois oceanos, ela é. O seu porto, em tempo de boa paz, enche-se, diariamente, de dezenas e dezenas de navios que chegam ou partem para a Índia, Arábia e Europa; para o Sião, Indochina, China, Japão e Rússia; para a Malásia e Australásia, para todos os arquipélagos da Oceânia. Há grandes Transpacíficos e transatlânticos, que se dirigem à América e ao Canada, à Itália, à França e à Inglaterra; que contornam a costa de África ou metem ao Panamá e botam até o Brasil e à Argentina; e há-nos pequenos, que enfiam pelos rios de Samatra e do Bornéu e lá andam, no coração das florestas, semanas inteiras. Como do centro de uma roda partem raios em todas as direcções, da ilha de Singapura parte barcos para todos os pontos do mundo. (Castro,1986:162, vol. II)
Sobre Xangai:
Porto franco, cidade livre, vieram gentes de todas as partes, ansiosas de dinheiro. Britânicos, gauleses, americanos, judeus, russos foragidos à revolução comunista […] Xangai tornou-se cidade tão cosmopolita como o Cairo e, na febre do outro mais cínica ainda do que o Cairo. (Castro, 1986: 95, VM, vol. III)
54 Multidão cosmopolita cruza, durante algumas horas, a Avenida Arriaga e desaparece depois; no dia seguinte arribam outras figuras, sempre figuras novas, que o meio pequeno destaca, dando-lhes o domínio das ruas. (Castro, 1986: 181, PMVC, vol. II)
O Cosmopolitismo nesses fragmentos manifesta o significado de “cidade- mundo”, com o seu multiculturalismo, os seus indivíduos em trânsito com intenções de realizar comércio e/ou turismo. Como se nessas cidades não houvesse fronteiras fixas que dificultassem o acesso das pessoas, conforme o pesquisador Gilberto Velho afirma que “[…] A cosmopolis pode ser uma indicação de um mundo sem fronteiras, de características universalistas.”52
Já a identidade de cosmopolita, presente em Ferreira de Castro, passeia entre o viajante internacional culto, jornalista e o escritor renomado de romances, que ainda possui ligações com seu espaço europeu e com a aldeia em Ossela, em Portugal. Mas que faz parte e experimenta o multiculturalismo dos locais que visita, fala outras línguas, interpreta culturas, aprende com os nativos e não exclui nenhum grupo étnico.
O cosmopolita também pode ser um indivíduo que está em trânsito. E nesta conceção, sugere-se, segundo Gilberto Velho declara que:
[…] Ser cosmopolita, remetendo à dimensão dos indivíduos, daria a estes acessos a mais e diferentes códigos, culturais, estilo de vida, visões de mundo, etc. É importante insistir que isso pode ser obtido de várias maneiras. O comerciante que viaja pelo mundo, o aventureiro que transita por diversos continentes, o diplomata, os marujos são protótipos dos indivíduos que, em princípio, apresentam potencial para desenvolver uma perspectiva menos localista. Mas, por outro lado, a viagem não tem um efeito mágico que transforma os indivíduos, dissolvendo a sua socialização e anulando valores, crenças, preconceitos, gostos, anteriormente constituídos através de participação em sua cultura e meio de origem.53
O cronista não mostra em sua forma de viajar preocupação em promover algum valor universal do seu cosmopolitismo. Ferreira de Castro revela como o homem é nas suas faces negativas e positivas, e por fim, demonstra solidariedade para com todos. O
52 VELHO, Gilberto. (2010). Metrópole, cosmopolitismo e mediação. Horizontes Antropológicos. vol. 16,
nº33, Porto Alegre, Junho, Brasil. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104- 71832010000100002&script=sci_arttext [consultado em 10-06-2017]
55 escritor está mais próximo da fundamentação dos direitos humanos54 em todos os países, do que da busca por princípios subjetivos ou teológicos. E mais próximo da liberdade do ser como assinala no artigo “Cosmopolitismo e a miopia humanista”, ao dizer que:
À pergunta sobre a sua origem, Diógenes famosamente respondeu “Sou um Kosmopolites”. Essa resposta assinalou não apenas seu desdém pelas leis e convenções locais, mas também sua convicção de que a natureza humana em geral e a razão humana em particular transcendem todas as formas de comunidade e suas leis concomitantes. (Suransky e Hunneman, 2012:149)
Interessa também nesta pesquisa, demonstrar que o viajante ultrapassou seus limites ao analisar além dessas capacidades encontradas em sua escrita de viagem, a forma etnográfica de viajar. Com a curiosidade cultural sobre os povos e paisagens, que se aproxima do trabalho de campo do etnógrafo.
A narrativa feita através da recolha de dados, de forma distanciada sobre as etnias, confere a Ferreira de Castro esse estado. Apesar de não possuir nenhuma formação científica ou de não viajar com a intenção específica de trabalhar observando os costumes de algumas etnias ou grupos urbanos para produzir artigos científicos semelhantes aos etnógrafos.
Todavia, o escritor observa o Outro (o nativo ou aquele que se integrou em outras culturas) convive por algum momento com eles — não há no texto marcas de quanto tempo permanece com alguns grupos —. O autor anota as diferenças e as semelhanças das culturas, as primeiras impressões, ler cartas, biografias, conversa com alguns pesquisadores dos locais. Trabalho semelhante ao que o escritor Alves Redol realizava para construir seus romances com anotações, observação, conversas, dedicação de um momento para conviver com os trabalhadores. Como por exemplo para a construção do livro Gaibéus, em 1939, entre outras obras emblemáticas.
Esse modo de pesquisa para compor um romance, ensaio, relato de viagem, entre outras formas textuais que couberem a descrição cultural com abordagem ao entrevistado, assemelha-se às ações da área científica da etnografia. Como afirmam Dalmolin e
54 ONU. O que são os direitos humanos? Disponível em: https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/
[consultado em 23.06.2017]. “Os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros. Todos merecem estes direitos, sem discriminação. O Direito Internacional dos Direitos Humanos estabelece as obrigações dos governos de agirem de determinadas maneiras ou de se absterem de certos atos, a fim de promover e proteger os direitos humanos e as liberdades de grupos ou indivíduos.”
56 Vasconcellos, no artigo, “A construção metodológica do campo: etnografia, criatividade e sensibilidade na investigação” onde a autora afirma que: “Originariamente desenvolvida no estudo de sociedades de pequena escala, a etnografia tem como fundamento o "contato,