Pesquisador (P). 1 - Senhor Moisés Mbambi, qual é a sua história?
Moisés Mbambi (M.Mb) - A minha história não é longa. É uma história normal, e
comum, a todos os africanos com a minha idade. Vivi uma parte da idade no tempo colonial, e a independência quando veio, já tinha os meus 35 anos. Claro, que tenho uma boa parte de vida no tempo colonial e outra parte na pós-independência. Portanto, é uma história comum, enfim, igual, a qualquer outro africano nestas condições.
(P). 2 - Como disse, tem uma boa parte de história no tempo colonial. Pode nos contar um pouco?
(M.Mb) - Nasci a cerca de 80 quilómetros da cidade do Bié, e a 40 da Vila de Katabola
onde está a Missão Católica de Katabola, ou Missão Católica de Nova Sintra, como se chamava no tempo colonial.
A Vila de Katabola chamava-se Vila Nova Sintra, e a Missão de Katabola chamava-se Missão Católica de Nova Sintra. Portanto, nasci num kimbo, o meu pai era Catequista Geral da Igreja Católica. Estive no Kimbo até aos 6 anos, e depois fui à missão. Lá na Missão, fiquei uns 3 anos, depois fui ao Seminário de Silva Porto, que se chamava Missão do Sagrado Coração de Jesus. Silva Porto é a atual cidade do Bié, que ultimamente chamam-lhe de Kuito, mas quem conheceu antes, lhe chama de Bié. Portanto, Kuito é um riacho que circundava a área norte da cidade. Mesmo em umbundu, se designa: va Vyé, quer dizer, os portugueses parece que tinham dificuldades em pronunciar Vyé, e então preferiram Bié.
(P). 3 - Então saiu do kimbo aos 6 anos de idade. A sua infância, como foi?
(M.Mb) - Os meus pais eram agricultores. O meu pai tinha funções religiosas, e toda
gente, inclusive os próprios sobas, também eram agricultores. Portanto, qualquer munícipe, qualquer cidadão, portanto, a base de subsistência era a agricultura.
(M.Mb) - Eu, na minha categoria era assimilado. Os que pagavam imposto indígena
eram outros, os indivíduos que não tinham estudo. No sentido lexical, indígena é todo aquele que é natural de um local, mas neste sentido pejorativo, o indígena era aquele africano que não tinha estudo.
(P). 5 - Durante a sua juventude já havia despertado para a luta contra o colonialismo português?
(M.Mb) - Isto é um sentimento natural. Todos os colonizados têm um sentimento
natural de se verem livres do colonialismo.
(P). 6 - Chegou a fazer parte de algum movimento independentista?
(M.Mb) - Não, esses movimentos aconteciam nas outras cidades. Cidades como
Luanda. Na missão não havia esses antagonismos entre colonizador e colonizado. O ambiente era normal, quando fui ao seminário, o ambiente era fechado, padres, colegas…
(P). 7- Mas nunca chegou a manifestar nenhuma insurreição visível contra o regime colonial?
(M.Mb) - Naquele tempo não havia esses tipos de manifestações. Você não sabia que
existiu uma polícia política, a PIDE? Mas, a gente só se apercebe disso, quando têm mais ou menos 17 ou 18 anos, mas o que devia fazer?
(P). 8 – Então, nunca chegou a ser intimidado ou perseguido na sua juventude?
(M.Mb) - Só sei dizer que fui perseguido assim silenciosamente, porque tinha feito uma
queixa contra o Director da PIDE ao Governador Geral de Angola.
Pelos estudos que eu tinha, eu tinha estudado a Constituição Portuguesa, a Constituição Política Portuguesa, mas estando em Benguela, descobri, que havia indivíduos da PIDE que me perseguiam, por isso fiz um requerimento ao Governador Geral de Angola em conformidade, e confidencial, meti no correio, e etc. E… só sei dizer, que a partir de mais ou menos uma semana depois, a PIDE deixou de andar atrás de mim.
(P). 9 - Nesta altura tinha mais ou menos quantos anos?
(M.Mb) - Eu tinha nesta altura os meus trinta e tal anos… Quer dizer a PIDE perseguia
todo mundo…
(P). 10 – Em que período sofreu estas perseguições?
(M.Mb) - Era mais ou menos nas vésperas dos ventos da independência. Eu devia ter
mais ou menos trinta e quarto anos. Ia por algum lado, e um indivíduo branco seguia- me, e ia para outro, o mesmo indivíduo. Como eu já sabia que eles perseguiam os intelectuais africanos, e eu na altura já tinha o último ano do liceu, e eles não gostavam de ver pretos com estudos, prontos, consideravam-me como uma pessoa que tinha de ser vigiada. Não gostei daquilo, e fiz um requerimento. Mas, o Governador Geral não me respondeu. Só sei dizer que depois de fazer a carta, duas semanas depois nunca mais vi alguém a perseguir-me, então eu entendi, que tinha sido a resposta a minha carta. Na carta invoquei um artigo da Constituição Política Portuguesa daquele tempo, sobre a minha dignidade e liberdade, enquanto cidadão português que estava ameaçada. É que naquele tempo, o governo português obrigava todo africano a considerar-se português, e tanto mais, que Angola, era chamada província ultramarina portuguesa, quer dizer, que todo o preto daqui, devia considerar-se português. E eu até, quando fiz essa queixa ao Governado Geral de Angola, que era Rebocho Vaz, que foi até militar, no tempo colonial, no requerimento eu digo, eu como cidadão português, não admito… e tal, e etc.
(P). 11 - Em relação aos seus estudos, o que nos tem a dizer?
(M.Mb) - Eu fiz até à 3ª classe na Missão Católica de Nova Sintra, depois fui ao
Seminário do Sagrado Coração de Jesus de Silva Porto, atual Bié, onde fiz à 4ª, o 1º e o 2º ano. Mas depois senti-me mal, e pedi ao Diretor do Seminário que me autorizasse ir à consulta. A cidade de Silva Porto ficava a 18 quilómetros do Seminário, e o padre autorizou-me. Mas não fui alertado, que dois dias depois, viria o médico a buscar os alunos doentes, para consultá-los, e trazê-los outra vez. O médico vinha, e eu não estive presente, e os outros foram. Portanto, fui a pé, até a cidade de Silva Porto, que ficava a cerca de 18 quilómetros. Quando regressei o Padre Horácio, que era vice-
diretor, que ultimamente foi pároco de Benguela, ficou furioso comigo, nem sequer me deixou explicar-lhe o que aconteceu, e dai expulsou-me do Seminário. Mas lá havia outro padre, que era muito amigo do meu pai, que tomou nota do meu caso, mas não me disse nada, e depois de dois meses, recebi um aviso, através do meu pai, a dizer que eu devia ir à escola Teófilo Duarte do Kwima, a 75 quilómetros de Nova Lisboa, para tirar o Curso de Professores do Magistério Rudimentar Teófilo Duarte.
Durante os três anos que frequentei o magistério, fiquei aprovado com 16 valores. Éramos só dois aprovados com distinção. Eu e o meu amigo de Kamabatela, isto nos anos entre 1952 e 1955, e até naquela altura, o ensino primário liceal do ultramar, era dirigido por uma entidade que se designava Inspetor Superior do Ensino do Ultramar, e era liderada, pelo Doutor Ferreira Rosa. Depois de ler as minhas provas, disse aos outros membros do júri: - olha, Moisés Mbambi vai ser a futura glória das letras portuguesas em África. Mas, claro, a profecia dele não se concretizou. Eu não sou nada a glória das letras luso - angolanas. Ele já era um idoso de 60 e tal anos, e percorria todas as possessões portuguesas.
Depois disso, devia ensinar nas missões católicas de Nova Sintra, que na altura o seu director era outro, então nomeou-me para a Missão da Ganda que fica a 25 quilómetros do kimbo onde eu tinha nascido. Posto lá, o diretor da missão era holandês e queria, que ficássemos também com os alunos no campo quando cultivavam, praticando a agricultura. O padre parece que entendia, que o professor também devia pegar nos instrumentos e trabalhar com os alunos, e eu nunca aceitei isso, e houve um desentendimento, e então, acabei por não ensinar naquela escola.
O bispo de Silva Porto, portanto, no Bié, apercebendo-se disso, mandou-me para a Missão Católica do Andulo, e estive na Missão católica do Andulo durante mais ou menos dois anos. Mas um dia aconteceu um incidente: um aluno que não sabia resolver um problema de matemática, dei-lhe com uma cacetada, e foi queixar-me ao padre, e ele expulsou-me da Missão. Mas os outros batiam! E o bispo então mandou- me para a Missão Católica General Machado em Camacupa. O diretor era um antigo dirigente de um seminário onde tinha estudado, e já me conhecia. Então fui ensinando, ensinando. Lá estava tudo a correr muito bem, entretanto, veio um cunhado do padre
de Portugal para estar lá na Missão. O cunhado estava desempregado em Portugal, e veio com a mulher dele. E então, um dia, esse cunhado foi fazer queixa ao padre, não sei sobre o quê… mas parece que era sobre a agricultura, porque os alunos diziam que eu sabia ensinar melhor as questões de podar às árvores, do que o tal branco, que era cunhado do padre, então ele sentiu-se inferiorizado, e foi se queixar no cunhado dele, que era o padre António Álvaro Soares. O padre, depois disso, nem me ouviu, expulsou- me da missão, mas isso tudo, eram atitudes do colonialismo. O branco falou e outro branco era cunhado dele, já nem ouve o preto dizer o que é que há, então me expulsou. Isto era mesmo colonialismo!
(P). 12 – Acha que isto era subjugação?
(M.Mb) - Sim, isto era mesmo atitude do colonialismo. (P). 13 – Depois desta expulsão o que fez?
(M.Mb) - E então sai dali, e já não fui ter mais com o Bispo, porque, se eu fosse ter com
o Bispo, ia mandar-me para outra missão, então fui à casa da minha tia no Huambo, e comecei a trabalhar como amanuense numa carpintaria: os carpinteiros traziam tábuas e tal, e as medidas, e eu calculava o volume da madeira numa máquina de calcular. Entretanto, depois de uns dois meses, o branco me disse: - você não sabe fazer as coisas como eu queria, portanto, fica demitido. Sai, e então apanhei um comboio até ao Lobito, e no Lobito, comecei a trabalhar numa fábrica de madeira, e o tal gerente de lá, gostou muito do meu trabalho; da maneira como eu calculava o volume da madeira, e essas coisas todas, e até me louvava e tudo. E o outro expulsou-me, porque pude-me aperceber, que apareceu um familiar dele, que queria emprego, então expulsou-me a pretexto de que não sabia fazer o trabalho.
Num dia desses, eu ia passeando pela cidade do Lobito, cruzo com um amigo que trabalhava nos Caminhos de Ferro. E pergunta:
- Então não és professor? - Não! Aconteceu-me isso e tal…
- Então vais começar a trabalhar aqui. Eu vou lhe mostrar um Inspetor dos Caminhos de Ferro, o Brás. O inspetor Brás, todos lhe chamam o pai dos pretos. Você diga o que és, as suas habilitações, ele vai lhe arranjar um emprego nos Caminhos de Ferro.
Dito e feito, isto em 1959. Alguns pensam que todos os brancos eram maus no tempo colonial, mas não é isso! Assim como hoje em dia há pretos bandidos, há pretos bons… E então, esse inspector Brás, que já devia ter os seus 80 anos, respondeu-me amavelmente. e disse-me: - está bem! Olha, vem no dia tal fazer o exame de admissão para os Caminhos de Ferro de Benguela.
Então no dia aprazado fui lá, supus que era o único, afinal já havia um grupo selecionado que iam fazer exames, e eram todos pretos, não vi lá nenhum branco ou mulato. Então fizemos a prova, e foi excelente. Entrei a ganhar 1900 angolares, que naquela altura era muito dinheiro, nunca tinha ganhado aquele valor. Como professor ganhava 500 angolares, e isso já era muito dinheiro para mim, e 1900 angolares, então, era uma fortuna.
Um dia desses, um amigo meu, que já é falecido, infelizmente faleceu por ocasião do surgimento dos movimentos, daquelas rivalidades entre os movimentos, telefona-me e diz-me: - Epa, eu vi, num papel no Centro de Recrutamento Militar de Benguela, o teu nome. O teu nome está na lista dos que devem ir à tropa, isto em 1960. E vocês vão como compelidos, portanto, como aqueles indivíduos que não se apresentaram nos centros de recrutamento para se alistarem, e agora, a polícia secreta, que o governo tinha, naquela altura para ver quem são os jovens que se alistaram, quem não se alistou, chegou a ponto de me descobrir. E eu, então, fui chamado como compelido - e a maior parte eram compelidos! E então trabalhei, 1959, 1960, e em 1961, em Fevereiro deste mesmo ano, tive de ir à Escola Militar de Nova Lisboa para tirar o Curso de Sargentos Milicianos. Fiquei na tropa durante cinco anos, e depois passei à disponibilidade, e depois, é quando vim até ao Lubango, isto em 1965.
(P). 14 – Então ficou cinco anos ao serviço militar colonial e nunca participou em nenhum combate?