A pesquisa se baseou, para este capítulo, em análises de textos que abrangem a crítica literária sobre cada um dos livros do autor Ferreira de Castro com o objetivo de verificar os temas mais debatidos sobre eles. Pretende-se realizar: 1- Resumo sobre cada artigo; 2- Os temas mais utilizados na abordagem da crítica; 3- As relações entre os pontos de vistas; 4- A originalidade atribuída à análise das obras.
Com a saída de Ferreira de Castro, em 1934, do jornal português O Século, devido ao ambiente de censura, o autor contribuiu com suas reportagens para o jornal brasileiro A Noite, empreendendo dessa forma a peregrinação pelo mundo. Nesse jornal há artigos de crítica literária de alguns romances do autor, fotografias das suas viagens pelo mundo, cartas de homenagem, propagandas dos seus livros que estavam à venda, entrevistas sobre diversos assuntos culturais que o envolveram.
O periódico A Noite está disponível na Hemeroteca Digital do Brasil, do ano de 1910 a 1969. Porém para esta pesquisa realça-se o período de 1938 a 1945, pois foi neste intervalo que o autor de O instinto supremo esteve em viagem a serviço do jornal, e escreveu suas crônicas para o vespertino, como consta em sua biografia25. Todavia, foram encontradas em A Noite, crônicas do escritor, desde 193526, um ano depois de desistir do jornalismo em Portugal.
25 cf. ALVES, Ricardo António. (s/d). Ferreira de Castro-Catálogo do Museu. Sintra: Câmara Municipal de
Sintra, 41 p.
26 CASTRO, Ferreira de. (1935). Sentinellas do Mediterrâneo – O moderno panorama de Tanger e Gibraltar.
Jornal A Noite. Rio de Janeiro, nº 8.378, 23 de Março, 1 p. e 3 p. Disponível em:
40 E para complementar sobre este período inquieto na vida profissional do escritor, segundo Manuel José Matos Nunes, numa troca de cartas entre Castro e Mário Dionísio, Castro afirmou que: “ […] já tornei público várias vezes, eu não escreverei nada expressamente para a imprensa portuguesa enquanto houver censura. Esta decisão vem desde 1936.” (Castro, 1951, Espólio de Mário Dionísio, Casa da Achada, Dos-2-13-doc5- 001/002 apud Nunes, 2016:29-30). Inicia-se, desta forma, a colaboração com o periódico brasileiro, especialmente, sobre sua itinerância do ano de 1939.
Encontra-se, no princípio desta pesquisa no jornal, uma pequena nota da
Associated Press de Lisboa, do ano de 1939, que informa aos leitores sobre a viagem de Ferreira de Castro pelo mundo e a possível produção de um livro27. E no dia seguinte, o jornal publicou nova nota, na primeira página, com a declaração do autor, pela United
Press, em Lisboa, sobre o início do seu périplo28.
Nesta nota, o autor de A Experiência idealiza um possível itinerário de sete meses, a começar pela Grécia, depois Ásia, Ilhas da Oceânia e no final América. Declara o seu grande interesse literário por essas regiões e finaliza o discurso, demonstrando o seu estado de ânimo, descontente e temeroso com a situação em que a humanidade se encontrava e que talvez não fosse mais possível adiar para uma outra época a sua volta ao mundo.
Grande parte das crônicas de Castro, que estão no periódico, possuem fotos, algumas têm uma pequena introdução escrita - que não foram assinadas - e outras estão na capa do jornal, em letras grandes29, supõe-se o grande interesse do público na época por notícias internacionais e exóticas.
Tanger e Gibraltar, e as dificuldades que os brasileiros viviam, devido à falta de leis que os protegessem. Foi neste ano que o autor viajou pelo Mediterrâneo e escreveu algumas crônicas que deram origem ao primeiro livro de viagem Pequenos Mundos e Velhas Civilizações.
27 Ferreira de Castro vai fazer uma viagem à volta do mundo. (1939). Jornal A Noite. Rio de Janeiro. 23 de
Abril, nº 9.771. 6 p. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/348970_03/63101 [consultado em 20.01.2017].
28 Ferreira de Castro e sua viagem ao redor do mundo – Declarações do escritor português ao partir. (1939)
Jornal A Noite. Rio de Janeiro. 24 de Abril. 1 p. Disponível em:
http://memoria.bn.br/DOCREADER/348970_03/63128 [consultado em 20.01.2017]
29 CASTRO, Ferreira de. (1939). Volta ao Mundo através da Trágica Mesopotâmia. Jornal A Noite. Rio de
Janeiro. 31 de Julho, nº 9.868. 1 p. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/348970_03/65714 [consultado em 31.01.2017]
41 A primeira recolha de texto crítico foi a publicação do artigo “Pequenos Mundos e Velhas Civilizações – Um primoroso livro de viagens de Ferreira de Castro30”, de autor desconhecido, de 3 de março de 1939, no jornal do Rio de Janeiro, A Noite. O artigo é uma apresentação sobre a 1ª edição do livro Pequenos Mundos e Velhas Civilizações e do que trata a obra, está na segunda página do jornal, disposto em duas colunas e com uma foto de Castro. Nele, o autor - que não assina o texto - exalta a linguagem usada na obra: “ […] sempre vibrante e sempre vestindo sentidos profundos de sentimento ou de observação31”. Sobre a narração: “ […] de entendimento delicado dos povos e das paisagens32”. Adjetiva todos os lugares visitados por Castro e não se esquece de exaltar as ilustrações e os artistas evolvidos na conceção da obra. No final elogia o livro como um: “[…] esplendor literário, uma verdadeira riqueza de arte gráfica […] interpretação lúcida e generosa das terras e dos povos visitados33”. É uma resenha sobre a recetividade da obra no meio intelectual depois que passaram dois anos da sua publicação.
O segundo artigo encontrado no jornal, desta mesma época, é do escritor João de Barros, está na segunda página, com a data de 31 de dezembro de 1939, disposto em duas colunas, enviado de Lisboa para o vespertino. No artigo “ Oriente e Ocidente – Ferreira de Castro e a América do Norte”34, Barros disserta sobre a volta de Ferreira de Castro da sua viagem pelo mundo e o seu olhar de viajante culto sobre esses dois lados do globo.
O poeta do Canto de Prometeu explica sobre o que o autor apreciou da sua visita à “ pátria de Roosevelt”, estabelecendo relações com alguns questionamentos das características gerais da América, conhecidas pelo senso comum, e que poderiam ser estimulantes para um viajante sem sensibilidade.
João de Barros afirma que: “ […] E qual seria o motivo da entusiástica e logo justificada admiração? O avanço material, a organização confortável da existência, a riqueza prodigiosa, o ímpeto construtivo, a energia realizadora dos americanos? […]35”, em seguida, expressa o que mais aguçou os sentidos de Ferreira de Castro, pois ele
30 Pequenos Mundos e Velhas Civilizações – Um primoroso livro de viagens de Ferreira de Castro. (1939)
Jornal A Noite. Rio de Janeiro. 3 de Março. 2 p. Disponível em:
http://memoria.bn.br/DOCREADER/348970_03/61805 [consultado em 31.01.2017]
31 Idem. 32 Idem. 33 Idem.
34 BARROS, João de. (1939). Oriente e Ocidente – Ferreira de Castro e a América do Norte. Jornal A Noite.
Rio de Janeiro. Dezembro. 2 p. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/348970_03/69515 [consultado em 02.02.2017]
42 observou tudo aquilo, mas, “ O que, todavia, o deixou deslumbrado e seduzido foi a límpida fraternidade dessa grei laboriosa, em que os homens, nunca descem abaixo da sua condição espiritualmente humana […].36”
João de Barros ao falar de Castro o chama de “ O evocador das misérias e lutas sociais […] o psicólogo subtil dos corações em transe […]37”. E completa ao dizer que sua arte é “ […] clara nos seus propósitos de mais puro, intenso e vasto ideal humano. Daí, o universalismo que a eleva, e que a tornou acessível a públicos de numerosos e longínquos países […].38”
A originalidade deste artigo está no olhar humanizado que o poeta lança para a obra do cronista e também demonstra que Castro foi um viajante diferente dos outros ao citar como o autor de A Selva sentiu a cultura americana, diferenciando-se dos viajantes que criam um estereótipo. João de Barros como os outros pesquisadores unem-se no ponto de vista que exprime as qualidades de Ferreira de Castro ser universal.
Vê-se a importância cultural que as obras de Castro tiveram para o século XX, pois na carta LV, do livro 100 Cartas a Ferreira de Castro, 2007, de Ricardo António Alves, João de Barros, em 1949, cita o recebimento do segundo volume do livro Pequenos
Mundos e Velhas Civilizações e sobre a nova edição de A Selva diz:
[…] Não imagina você, meu Amigo, a alegria que me traz a publicação das suas obras completas, tão bem apresentadas e ilustradas, embora, claro está, ainda mais luxo e perfeição merecessem. Mas, em Portugal, o que você conseguiu é notável, e é um gosto ler as suas obras assim impressas e com a colaboração de artistas de valor […] Já estou relendo o 2º volume de «Pequenos Mundos», e logo se lhe seguirá «A Selva». Nunca me cansa relê-lo. A cada nova leitura descubro belezas, que nem sempre a primeira leitura me deixou apreciar. (Alves, 2007: 137)
A relevância dada pelos autores contemporâneos completa-se com esta nota no jornal A Noite sobre: “ «A Volta ao Mundo» de Ferreira de Castro – Uma edição de artística feitura gráfica e de tiragem limitada”39, de 23 de março de 1943, com uma foto do autor numa coluna que não está assinada. Descrevem sobre o luxo da encadernação e do envolvimento de vários artistas na obra, os países que ele visitou, a “ visão de rara
36 Idem. 37 Idem. 38 Idem.
39“A Volta ao Mundo” de Ferreira de Castro – Uma edição de artística feitura gráfica e de tiragem limitada.
(1943).Jornal A Noite. Rio de Janeiro. Março. 3 p. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/348970_04/19837 [consultado em 02.02.2017].
43 beleza e de estranha dramaticidade” do autor, ressalta as “ […] narrativas e análises de todos os aspectos mais significativos da civilização universal […] o escritor assinala com o senso, a erudição e o vigor literário que lhe são peculiares […].”40 E no final do texto alerta: “Devido ao seu alto custo, o monumental álbum terá tiragem limitada às assinaturas, o que lhe empresta ainda maior valia, pois rapidamente se tornará raridade bibliográfica.”41
Encontra-se o que seja talvez uma das últimas críticas no periódico A Noite, na coluna “Viagem ao Redor do Mundo – De Ferreira de Castro”42, de 5 de novembro de 1945, com uma foto do autor e o texto não contém assinatura. Sobre o livro o autor expressa que é “ […] uma realização esplêndida, em que se conjugam as altas qualidades de observação e de estilo do autor, sendo ao mesmo tempo um primor de arte gráfica através dos desenhos e fotografias que a ilustram […]”43. Este artigo trata sobre a temática da Segunda Guerra Mundial, com clareza, associando-a à viagem que o cronista realizou. Este texto, além das duas obras de Castro, é uma prova documental sobre um viajante que viu a Europa antes e durante o conflito e constatou suas mazelas.
Castro aumentou o prestígio histórico dos seus textos ao realizar a volta ao mundo quando este passava por várias mudanças. O autor do jornal diz: “ […] Sobrevinda a guerra, estava ele na etapa final de seu cruzeiro, literário, o que lhe facultou ainda a possibilidade de algumas observações diretas do início das hostilidades em alguns pontos pelos quais passava.”44 Pode destacar-se neste texto a sua originalidade de vincular a viagem ao tempo da guerra. Sobre o escritor de Eternidade a coluna ressalta como: “ […] Observador atilado, homem experimentado nas lides de imprensa e conhecedor dos mais íntimos aspectos da política internacional, suas crônicas são flagrantes vivacíssimos […]”45. No final o autor confirma que “Tais crônicas, inicialmente publicadas em A NOITE, constituem precioso documentário universal […]. Reputado, desde o seu
40 Idem. 41 Idem.
42 Viagem ao Redor do Mundo – De Ferreira de Castro. (1935). Jornal A Noite. Nª 12.101. 5 de Novembro.
Rio de Janeiro 3 p. Disponível em:
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=348970_04&pasta=ano%20194&pesq=ferreira% 20de%20castro [consultado em 9.4.2018]
43 Idem. 44 Idem. 45 Idem.
44 aparecimento, uma obra monumental, de divulgação […] confirmou a opinião da crítica por um êxito raramente atingindo em qualquer tempo, por trabalhos do gênero.”46
Parte das análises das duas obras de viagem de Ferreira de Castro estão expostas em vários artigos de revistas e alguns temas desses textos permeiam um país visitado pelo autor. Devido a relevância destes textos, a pesquisa destacou desses artigos aqueles que tratam de temas diferentes, inusitados. Como por exemplo, o do ano de 1994, do músico e escritor, José Duarte, “Castro em Manhattan”, do livro Jazzé e Outras Músicas o autor narra sobre a visita do cronista e seu primeiro contato com o movimento Jazz, ao dizer que “Castro foi testemunha do jazz em pleno coração de Manhattan […] um jazz onde o ritmo, as massas sonoras, a expressividade instrumental, eram elementos duma explosão musical madura e poderosa.” (Duarte, 1994: 45). Visto isso na crónica sobre os Estados Unidos, que é o último país a ser visitado pelo jornalista. Além do cronista ouvir o som do jazz nas ruas também o ouve no comboio em direção a Chicago, assim como também na diversidade da noite no Harlém.
Outro artigo que se destaca pelo tema é o “Ferreira de Castro na “Cidade de Lilipute””, de Ricardo António Alves, em 1998. A originalidade encontrada no texto sobre Macau e a China encontra-se o enfoque novo que é o envolvimento do cronista com a Ecologia. Devido a forma de Castro em exaltar o meio ambiente, como afirma Ricardo António Alves que “ Castro foi também um ecologista avant la lettre. O seu enlevo do mundo vegetal, não ficou atrás do interesse com que se debruçou sobre a condição humana”. (Alves, 1998:8)
Sobre o livro de viagem de Ferreira de Castro, Ricardo António Alves descreve que: “ […] A Volta ao Mundo (1940-1944) – permanece como o mais significativo deste século num género com tradições centenárias na literatura portuguesa.” (Alves, 1998:8). E completa que “A viagem ocupa um lugar importante na sua obra, incluindo a romanesca. Em algumas das suas ficções, as principais personagens partem ou regressam, experiências que, em muitos casos, é crucial na narrativa”. (Alves, 1998: 9)
Nos anos mais próximo da atualidade encontra-se o artigo de Maria de Fátima Santos, intitulado de “Ferreira de Castro, um viajante português na Europa (1929-1935).
45 As narrativas de viagem47”. Publicado na Revista Castriana, nº 2. Semelhante aos periódicos vistos anteriormente, a autora destaca as características do cronista e disserta sobre alguns países. É um artigo académico cuja originalidade é refletir expressamente sobre Outro europeu que Castro encontra pelo caminho. A autora afirma que: “ […] Ferreira de Castro apresenta-nos um “Outro” europeu que nalguns casos, pouco diverge do europeu português.” (Santos, 2004:59)
A autora procura desta forma analisar “ […] a perspectiva do escritor sobre o “homem” que encontra ao longo das suas viagens […] ”. (Santos, 2004: 60). Trata de temas diversos para o pouco espaço que comporta um artigo, mas resume com clareza alguns traços dos países que Castro visitou e seu olhar sobre cada um deles.
Encontra-se na Revista Castriana, nº5, o artigo da autora Ivone Bastos Ferreira, “Ferreira de Castro um vagamundo que Andorra enfeitiçou”, onde a pesquisadora relata apenas as características desta viagem realizada pelo autor e os costumes que o jornalista apresentou das comunidades daquele país. O dado novo que a autora insere é deixar expresso, claramente, as palavras: Literatura de Viagem nas narrações de Castro, ainda não vistas nos outros artigos, apesar de todos dissertarem sobre este tema sem se expressarem por esses termos.
Com relação ao cronista é uníssono o que os autores dizem e lembrado nesse artigo pela autora Ivone B. Ferreira que: “ Autodidacta, Ferreira de Castro busca o conhecimento profundo da alma humana e da sua ligação ao espaço existencial, integrado numa quase divindade cósmica.” (Ferreira, 2012:112). E sobre a conceção da viagem de Castro, salienta que:
[…] dedica todos os seus órgãos dos sentidos, carregando-os com o espantoso olhar da descoberta poética, histórica, filosófica, ou simplesmente emotiva e, em segundo lugar, ela é a posterior (re)escrita, fiel à infidelidade da memória humana. […] toda a escrita é reconstrução memorialística e/ou criativa e/ou objectiva nos limites do verosímil, logo, o expressionismo humanista castriano faz da viagem a corporalização do ser humano em demanda das origens e, consequentemente, de si próprio. (Ferreira, 2012:112)
E sobre o modo de Castro ser viajante, a autora comenta que: “Em nenhum ponto, o discurso deste viandante se auto-intitula de estrita obediência ao real observado, antes
47 SANTOS, Maria de Fátima. (2004). Ferreira de Castro, um viajante português na Europa (1929-1935). As
narrativas de viagem. Revista Castriana. Ossela: Centro de Estudos sobre Ferreira de Castro e a sua geração. Nº2, pp.57-75.
46 somos preparados para uma descrição subjetivamente centrada nas impressões […]”. (Ferreira, 2012:115).
Já no artigo do escritor, Gonçalo Pereira Rosa, do ano de 2015, “O “Furo” de Ferreira de Castro na Terra dos Sinn Fein”, trata-se de uma parte do trabalho jornalístico importante que Castro fez a serviço d´O Século, ao entrevistar o político, Éamon de Valera, em Dublin. O país vivia em guerra e Éamon de Valera lutava pela sua independência. O jornalista Gonçalo Pereira narra que:
Em 1930, embarcou para os Açores e decidira então viajar pela Irlanda, iniciando ali um conjunto de viagens pelos territórios esquecidos da Europa e Norte de África, que lhe permitiram escrever artigos e recolher notas para Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, editado em fascículos em 1937. (Pereira, 2015:97)
Retribuindo a confiança de João Pereira da Rosa, Ferreira de Castro cedeu o protagonismo do seu “furo” em Dublin a “O Século”. (…) A peça foi acompanhada de uma curiosa caricatura não assinada e constituiu uma das últimas deslocações de Ferreira de Castro ao serviço do jornal. (Pereira, 2015:101)
A crônica sobre a Irlanda em A Volta ao Mundo narra aspetos do povo, os costumes, os monumentos e a guerra pela independência e as semelhanças que há entre este País e Portugal. É um documento histórico de como estava a Irlanda, no século XX. Há uma pequena parte dessa entrevista, com o discurso expresso de De Valera. Noutra parte Castro realça a presença de seu interlocutor e cria uma imagem sobre a figura do político, quando diz:
A voz de De Valera é calma, lenta e sombria. Estamos a falar há duas horas. Lá fora chove. Através dos vidros das janelas chega até nós a melancolia que o tempo dá a Dublin. O chefe republicano levanta-se e começa a andar connosco dum lado para o outro do salão.
Edmundo de Valera é um homem alto, muito seco e com uns óculos sobre o nariz. Agora, caminhando ao nosso lado, parece mais esguio ainda. Este temível inimigo da Inglaterra é, de todos os irlandeses que temos visto, aquele que, fisicamente, mais se parece com um inglês. […] A certa altura, o caudilho irlandês diz-nos:
- Simpatizo com o seu país, porque ele amou sempre a independência e, sendo pequeno, lutou contra os grandes. Nisso Portugal parece-se com a Irlanda… (Castro, 1986: 169, 170, VM, vol. I)
E, para finalizar esta análise de alguns textos críticos sobre os livros de viagem de Castro, destaca-se uma declaração negativa expressa na carta do escritor português João
47 da Silva Correia48, no ano de 1937, que escreveu sobre suas impressões do livro Pequenos
Mundos e Velhas Civilizações. O autor apesar de enaltecer o romancista que foi Castro, sente-se “desgostoso” com as descrições encontradas no livro sobre Andorra. João Correia explica que:
[…] mas, senhor Ferreira de Castro – ia eu dizendo – que pena não ter V.Ex.ª aproveitado o cenário grandíloquo para entremear o efeito descritivo com o grande efeito psíquico da narrativa! Porque discordo radicalmente de não sei que crítico que escreveu que “Pequenos Mundos” devia ser, até agora, a melhor produção de V.Ex.ª […] Não é uma censura, e muito menos uma crítica. Sei onde tenho a cabeça. Mas confesso que fiquei desgostado de não ler o livro que não brotou, mas podia ter brotado, da pena gigantesca de romancista, de Ferreira de Castro. E não estarão de acordo, as minhas considerações, com qualquer espécie de colóquio íntimo que terá travado V.Ex.ª de si para consigo? (Alves, 2007:79 e 80)
Constatou-se nos textos críticos, dos anos de 1937 a 2015, sobre os livros de viagens de Ferreira de Castro, no que concerne à originalidade: inicia-se com o olhar humanizado de Castro em sentir o povo americano; a vinculação dos textos de viagens ao contexto da Segunda Guerra Mundial; o testemunho sobre o jazz na América e termina com a evocação da ecologia em suas obras, a reflexão sobre o Outro europeu, e a junção do tema Literatura de Viagem a obra do autor. A maioria dos pesquisadores confirma nas suas opiniões a sensibilidade e a humanidade de Castro e a importância que Pequenos
Mundos e Velhas Civilizações e A Volta ao Mundo têm para a literatura portuguesa.