5. Result and Discussion
5.3 Comparison between Angular and React solutions
No texto “ Na morte de Raul Brandão” — da Revista Castriana, nº 1, — Ferreira de Castro escreveu com admiração e afeto sobre o amigo, que o chama de “ […] o maior escritor português contemporâneo e um dos maiores da Europa.” (Castro, 2002:106). O autor reconhece que os temas de Brandão influenciaram a juventude da época, devido aos:
[…] rebotalhos humanos de que se alimentava o génio soturno de Raul Brandão: as suas velhas, os seus derrotados, com as suas aspirações, fracassos com as suas ambições roedoras, os seus ódios, as suas ternuras- todas essa estarrecedora galeria de ex-homens, de ex-mulheres. (Castro, 2002: 109)
O caminho dessa amizade é evocado pelo pesquisador Ricardo António Alves que comenta: “ Castro tinha 23 anos quando escreveu pela primeira vez sobre Brandão – que se ia nos 55. O texto entusiasta que referimos deu-lhes ensejo de estabelecerem um relacionamento de amizade em Lisboa.” (Alves,2002:132). Apesar de Castro não desejar conhecer o autor de Húmus, devido a possíveis deceções69 e idealizações, esses sentimentos não impediram as afinidades acontecerem, pois, “ […] Jorge de Sena se referiu ao autor de O Doido e A morte como “uma das mais portuguesas fontes em que Ferreira de Castro bebeu o que será depois o seu humanitarismo populista.” (SENA, Jorge, 1981: 210 apud Alves, 2002:124).
No livro 100 Cartas a Ferreira de Castro, de Ricardo António Alves, a primeira carta que abre esta obra é de Raul Brandão. Foi escrita em Nespereira, Guimarães, no ano de 1922, a carta é de agradecimento e consideração para o autor de A curva da estrada, que diz: “Muito obrigado pelo artigo que escreveu a meu respeito no último número da «A Hora» […] São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me […]”. (Alves, 2007:7)
Vê-se o diálogo entre os dois autores, em As Ilhas Desconhecidas e Pequenos
Mundos e Velhas Civilizações, quando Castro como viajante contemporâneo, da década de trinta, escreve a crônica sobre as ilhas da Madeira e dos Açores. As prosas de viagem
69 “ […] Eu não conheço Raul Brandão. E desejo não conhecê-lo: — alguma mesquinharia de Raul Brandão
homem poderia manchar a transcendência de Raul Brandão pensador. Mas…Suponho-o um solitário: — A cismar ante a junção do Douro com o Atlântico. ” (CASTRO, 1921: 32,38 apud ALVES, 2007: 8 e 9)
68 de Castro e de Brandão são dois olhares ímpares de diferentes realidades que se encontram em alguns pontos e se repelem em outros. As narrativas estão plenas de policromia, atração pela natureza, especialmente pelo mar e pelas árvores. Ideias libertárias, angústia gerada pela morte e pela solidão; o ser estrangeiro dentro do próprio País; poesia e evocação de outros autores da literatura e filosofia, política e etnografia.
O texto de As Ilhas Desconhecidas foi gerado em forma de diário, com as datas e os lugares apontados e com o efeito na escrita de ter sido realizado em dias consecutivos. A escrita também tem o tom de ensaio, pois o autor escreve experimentando e articula os conhecimentos nas descrições das paisagens naturais e na crítica à organização da sociedade que visitou. O texto é também relato de viagem, pois utiliza o jornalismo literário e tem como principal mote a viagem às ilhas.
Algumas dessas características também estão presentes na narrativa de Castro. O autor utiliza para suas observações o formato da crônica jornalística-literária. Nas crónicas de Castro não se encontram vestígios de textos semelhantes a diários, com as marcações das datas e lugares ou a escrita sendo produzida em dias consecutivos.
Entende-se sobre as notas de viagem de Brandão que se apresentam como uma pintura de um quadro impressionista. Pois a escrita interpreta da natureza, além das cores, luz: “ Luz cinzenta, luz doirada – transparência azul boiando cheia de cintilações ao longe […]” (Brandão,2011: 15). Da experiência onírica: “Asbtracção e sonho. Porque neste amanhecer perpétuo a gente sonha mais do que vê. Divaga. […]” (Brandão,2011:.22). Do lado político e universal: “Toda civilização é um produto de dor. Para manter a vida artificial, sem a qual não podemos passar, é preciso que muitos sofram.” (Brandão, 2011:38). A marca da sinestesia, mistura de sensações diferentes: “ Um hálito azul…Mais claridade estremecendo - esta primeira luz delicada e viva, quando acorda a terra e acorda o mar com o céu todo doirado e virgem […]”. (Brandão,2011:15)
E por fim, a face de etnógrafo do autor de O pobre de pedir ao anotar comportamentos dos ilhéus quando diz que, “Os homens são estátuas por concluir, as frases, rudimentares. Mas fisionomias e palavras exprimem outra vida que quer falar e não pode, outra vida que não compreendo…Diz-se avezada por habituada […].” (Brandão, 2011:34)
Na crónica “Madeira e Açores”, de Ferreira de Castro, as observações do autor demonstram a inquietude de viver a experiência que a paisagem oferece. Castro descreve
69 a paisagem sobre a ilha e fala sobre o mar poeticamente como Brandão. O cronista diz: “Aqui, o mar está mais perto; ouve-se a sua eterna canção mesmo quando a entoa baixinho.” (Castro1986:182, PMVC, vol. II)
Também é político e universal quando aponta que: “ O drama humano não cessa, contudo, ante as galas da natureza, aqui como noutras partes”. (Castro, 1986:185,PMVC, vol. II). O autor sente as cores e a luz dos cenários: “ […] em frente do Atlântico, onde o sol agoniza, dando à terra todos as cores do arco-íris.” (Castro,1986:182,PMVC, vol. II). E deixa o olhar de etnógrafo marcado na crônica quando declara que:
A verdadeira essência psíquica do indígena não se apreende pela palavra, nem mesmo na hora íntima das confidências. Temos de capturá-la em algo inconsciente que acompanha raciocínios e manifestações comuns a todos os homens. (Castro, 1986:191,PMVC, vol. II)
A apreensão da prosa do autor de A Lã e a Neve está em dois pontos importantes. O primeiro é a sensação do escritor querer ir sempre mais profundo na paisagem: “ Mas o maior, o mais sortílego encanto reside no interior da ilha. É nas faldas e nas ingremidades das suas montanhas que a Madeira nos deslumbra, perenemente.” (Castro,1986:183,PMVC,vol. II). O segundo é visitar, observar e anotar detalhadamente o trabalho feito por homens e mulheres que estão à margem da sociedade (o humanismo social) uma das marcas nos textos de Castro.
Em Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, Castro critica e descreve a resignação dos povos explorados da ilha da Madeira, como observa-se neste trecho:
[…] as mulheres e até crianças gastam os olhos, durante horas sem conta, a bordar os linhos, para ganhar ao fim do dia alguns míseros tostões. Os homens, de cabeça enfiada num barrete camacheiro, no tronco uma camisa e um colete desabotoado, as calças arregaçadas, os pés nus ou metidos numas velhas «botas chãs», amanham a terra de sol-nado a sol- posto. […]
Anos sobre anos, estes humildes camponeses – os «vilões», como ainda lhes chamam na Madeira – passam resignados e adaptados ao seu destino. Parece que aceitam tudo quanto pautou a sua vida durante séculos. Um deles, ouvindo-nos discordar das viagens em rede, pelo contraste que apresentam entre o comodismo do individuo deitado e os que os transportam, comentou, referindo-se aos últimos:
- Se todos pensassem assim, como iam viver esses pobrezinhos de Cristo? (Castro,1986:188,PMVC, vol. II)
70 O que se destaca nas Ilhas Desconhecidas é a intenção da procura de Brandão descrita neste fragmento: “[…] O que procuro, pela última vez na minha vida, não é o panorama – é a exaltação da vida livre.” (Brandão, 2011:104). E essa “exaltação da vida livre” sugere que passe por dois pontos importantes na narrativa. O primeiro é a viagem do olhar que Brandão realiza nas suas observações sobre a paisagem: “ […] em todos os tons do azul que me entram pelos olhos, o azul-ferrete das hortenses – o azul que enche a terra e nunca mais acaba e que é talvez o verdadeiro céu dos Açores.” (Brandão, 2011:87). O segundo ponto é a luz. Sugere-se que a luz seja o modo pela qual o autor sinta-se introspetivo e expresse suas sensações sobre a paisagem da ilha. Como o escritor se refere nestes trechos:
Mas também a luz valoriza a paisagem, a luz que torna a paisagem delicada, pálida, um pouco triste e sem nervos. O carácter de todo este verde, sempre verde, que adormece molhado, é a mansidão e a serenidade”. (Brandão,2011:80).
É uma luz que me acaricia, uma série de cinzentos que entram uns nos outros e desmaiam, apanham não sei que claridade e ficam absorto e quietos, ou criam nova vida e recomeçam uma gama de tons que faziam o desespero dum pintor, porque a paisagem a esta luz extraordinária ganha sombras, variedade e frescura que os pincéis não sabem reproduzir…”. (Brandão, 2011:152)
Há algumas diferenças nas vozes dos dois narradores com relação à forma que narram. Raul Brandão incita primeiro ao afeto, a intimidade, a introspeção e abstração na viagem. E com este livro faz um convite ao leitor para conhecer as ilhas, e o seduz através da arte poética. Castro utiliza no texto descrições detalhadas, objetiva, o discurso se aproxima da escrita jornalística, a intenção é informar sobre o panorama da ilha e os seus habitantes.
É notório na prosa de Brandão a existência de mais fluxo de consciência, por motivo do género usado e da utilização da linguagem poética. A perceção do autor é por meio da divagação e depois do referencial. Brandão divaga como num sonho e Castro descreve informações para o leitor de forma analítica (sentimental e satírica em poucos momentos).
A concentração de elementos etnográficos nos dois livros se afirma com um ponto comum entre os dois autores. Sobre As Ilhas Desconhecidas o pesquisador Gustavo Rubim afirma que, “A narrativa de Brandão constitui, por sua vez e como é bem sabido, um dos textos maiores da etnografia açoriana, se bem que escrito por quem não era
71 etnógrafo nem antropólogo de formação ou profissão.” (Rubim, s.d:109). E destaca ainda que: “[…] As Ilhas Desconhecidas não são um mero álbum de curiosidades etnográficas esparsas, mas um projecto ambicioso, uma asserção do poder gnosiológico da escrita literária, uma afirmação da literatura como experiência de saber.” (Rubim,s.d:110)
Vê-se em Brandão a forma etnográfica ao descrever os dados, em especial, quando fala do Corvo. Foi o local também escolhido por Castro para lembrar com mais afinco do autor de Os Pescadores e da falta de necessidade de falar sobre a ilha, devido Brandão ter esgotado todas as possibilidades70. Sobre o Corvo, Brandão anota as caraterísticas geográficas, a economia, os costumes sobre a mulher-esposa, a fala dos homens, o tempo, a solidão e o silêncio. Descreve as casas, ruas, destaca os traços dos ilhéus e o que sentiu diante da presença deles conforme descrito a seguir:
Vou-me habituando a ficar com a porta aberta. […] Também vou com os pastores e os lavradores sentar-me no Outeiro, onde está a Câmara, o Espírito Santo e a cadeia vazia (agora mora lá uma vaca), e ouço-os de roda nas banquetas tomando resoluções sobre a lavoura e a terra. Aí se juntam de manhã antes de partirem para o Fojo ou à tarde quando recolhem. Sinto-me pequeno ao pé do António da Ana, de barba curta e grisalha, do Santareno, que parece um apóstolo, do Joaquim Valadão, do Manuel Tomás, do sapateiro a arrastar a perna, dos velhos baleeiros de pêra e barrete às ricas na cabeça, todos duma grave compostura – fisionomias de santos ou pedintes, onde há qualquer coisa de empedrado. (Brandão, 2011:33,34)
O que há de semelhantes nos autores nestas observações do Corvo é a crítica social sobre o povo que foi esquecido e a paisagem solitária. Castro e Brandão buscam conhecimento nas viagens, narram experiências ao irem ao encontro do desconhecido. Os dois viajantes convergem no desejo de conhecer o que há além das “linhas do horizonte”. Enquanto essa linha para Castro é aquilo que o autor enxerga fisicamente no horizonte entre o céu e o mar, com o sentido de que a vida só começa sempre para além daquela linha. A metáfora de ir à busca de algo. Para Brandão essa “linha do horizonte” é a luz que lhe fornece o conhecimento, a iluminação para a vida e os pensamentos, como o autor afirma:
[….] a luz delicada dos Açores, o céu dos Açores carregado de humidade e forrado de nuvens que um pintor imitaria na tela com pequenos toques horizontes cor de chumbo, carregando-os e amontoando-os cada vez mais até a linha do horizonte. E é esta luz que me acompanha e nunca mais me
72 larga, a mim que vivo de luz límpida, e que acordo todas as manhãs com o pensamento na luz… […] (Brandão, 2011:19).
Contudo o que Brandão mostrou de diferente nas descrições das ilhas pode-se dizer que foi o uso da linguagem poética com muita ênfase na prosa. Sugere-se que o autor quis captar a delicadeza do real através do espanto que a poesia causa. Conforme salienta o escritor Michel Onfray:
O mundo resiste, contudo, às tentativas de ser traduzido em palavras. O discurso poético permite, sem dúvida, uma aproximação mais subtil, e também mais volátil. Quanto mais imagens e sinestesias, mais o epicentro do real aparece, mas também, mais frágil, delicado e evanescente se revela. (Onfray, 2009:112)
E Brandão registou a efemeridade poética da paisagem e suas belezas naturais. Concorda-se com a união dos destinos literários desses dois viajantes e de suas afinidades, como afirma Ricardo António Alves que, “Aproximou-os a literatura; aproximou-os uma tristeza imensa e inconformada perante a sua própria finitude e a daqueles que amavam. […] duas personagens que carregavam o fardo de existir […]”. (Alves, 2002:132)