Durante anos, meu amor pelas ruínas me levou ao ódio pela arquitetura. Eu queria ser um anarquiteto de desengenharias. (Leminski. Anseios Crípticos. 1986, p.121)
Toda arquitetura é definitivamente necessária, mas também arbitrária; funcional, mas também retórica. Seus signos indiciários deixam, em seu contato, traços que guiam a conduta. (Viñao Frago e Escolano, 2001, p. 39)
No projeto da cidade da década de 1990, o discurso de enaltecimento do seu “mobiliário urbano” foi um dos aspectos que mais predominou. Vários campos responsáveis por divulgar tais mobiliários, como os da mídia, do turismo ou o da política privilegiaram sempre suas relações com o campo da arquitetura. Alguns políticos que ocuparam cargos centrais na direção da cidade, como por exemplo o de prefeito, capitalizaram a seu favor, justamente o fato de terem se formado em Arquitetura e Urbanismo. Exaltava-se que esta formação daria a eles, portanto, condições, mais do que a outros, de planejarem eficientemente os rumos da cidade. Assim, embora as vozes estabelecidas que reforçam o projeto curitibano e que se utilizam da arquitetura como propaganda para Curitiba, não sejam, necessariamente, as de arquitetos, as obras por eles construídas são diariamente enaltecidas para os seus moradores como um aspecto fundamental de seu caráter modelar.
Para divulgar esse mobiliário, folders, propagandas e reportagens de jornal apresentam os pontos turísticos da cidade ressaltando monumentos fantásticos como: a Ópera de Arame, a Pedreira Paulo Leminski (parece ter sido, o poeta, institucionalizado?), os Bosques e Parques e, mais recentemente, o Museu Oscar Niemeyer. As propagandas de TV, sobre Curitiba, sempre que possível, trazem como imagem de fundo um destes monumentos. Os símbolos paranistas encontram-se inscritos nas calçadas e em construções. Uma imagem-síntese tanto do referido mobiliário quanto da forma de divulgação dessas imagens, pode ser encontrada na
folha que foi entregue junto com a bandeja de alimentos de uma grande empresa internacional de fast food, nos meses próximos ao aniversário da cidade, de alguns anos atrás:
Fonte: Lanchonete de Fast Food da Cidade
Considerando alguns desses espaços curitibanos, não se deixou de perguntar até que ponto a arquitetura de uma cidade pode carregar memórias, contradições e possibilidades. Assim, até que ponto o que se aprende como ser humano, além do belíssimo desenvolvimento que se tem na interação com outros seres humanos, (lembrando um pouco de Vygotsky), não se dá também, na relação com o espaço e com a forma com que ele está constituído, desta vez, lembrando de Viñao Frago e Escolano (2001) e de suas idéias de que a cidade é um currículo a ser apreendido? Então, como os seres humanos se constituem coletivamente na relação com estes espaços?
Pode-se questionar por que se enaltece na folha da lanchonete acima reproduzida, alguns equipamentos urbanos e não outros? Cita-se o “Bosque do Papa”, nele – diz a folha – “há casas de troncos de madeira, que pertenceram aos imigrantes poloneses do fim do século XIX”; a Praça do Japão na qual “a estátua de Buda demonstra o respeito da cidade por essa cultura oriental”; e ainda a imagem da reprodução da Igreja de São Miguel Arcanjo, que abriga um museu. “Fica no Memorial Ucraniano, construído em 1995 para festejar o centenário da imigração ucraniana”. A reportagem fala, ainda, do Memorial Árabe, na Praça Gibran Khalil, da estufa inspirada nos Palácios de Cristal de Londres, “que fica no Jardim Botânico Fanchette Rischbieter, inaugurado em 1991”, entre outros equipamentos que a seu tempo serão analisados.
Seria legítimo, portanto, que se pensasse mais detidamente no campo da arquitetura e na sua relação com a cidade. Tendo como objeto de estudo a produção do espaço, segundo Mukarovsky (in Sutil, 1991, p. 241), a arquitetura, ao organizá-lo, arranja-o em relação ao
homem na sua totalidade, ou seja, com todos os comportamentos físicos e psíquicos de que este homem é capaz e de que o edifício pode vir a ser cenário. Assim, a arquitetura, quando concebe a cidade, não a concebe como tendo uma “história congelada” (Sutil, 1991, p. 241), mas como um repertório constantemente reatualizado. A linguagem arquitetônica influencia a vida cotidiana da cidade e carrega de símbolos o imaginário da população, podendo, inclusive, representar o poder, a ascensão ou o desejo de se parecer uma classe superior. (Sutil, 1991, p. 241)
Sobre o uso que as obras arquitetônicas podem ter na vida da cidade, Sutil, ao investigar cidades e países (a exemplo, a Viena dos Liberais e a França de Mitterrand) percebe o quanto a arquitetura pode ser utilizada como iconografia de uma ideologia manipuladora do imaginário. Neste sentido, explica:
as formas arquitetônicas nunca serão um reflexo passivo da sociedade, pois então para condições sociais idênticas, teria-se sempre a mesma arquitetura. Ao contrário, ela influencia e é influenciada pela maneira de viver, pela realidade, pela cultura e pelos grupos sociais que a utilizam, e se os homens fazem sua história em meio ao espaço onde vivem, trabalham, tecem relações e constituem famílias; como, então, ignorar a questão da semantização e dessemantização de determinado local e sua ação no imaginário desses homens? (Sutil, 1991, p. 255, grifos nossos) Desta forma, ao se olhar as datas das construções dos equipamentos urbanos curitibanos apontados pela reprodução da imagem acima exposta, percebe-se o alto índice de construções da década de 1990. Na compreensão do projeto da cidade deste período é possível entender que, juntamente com a divulgação de uma determinada história da cidade, foram construídos verdadeiros monumentos que parecem confirmá-la ou que, ao serem construídos, também contaram parte desta história. Assim, realizaram-se diversos parques e bosques que procuraram aliar a idéia de preocupação com o meio ambiente (discutido por nós posteriormente) à idéia da cidade como capital harmônica das etnias (leia-se de determinadas etnias). As pessoas poderiam ir ao parque para o lazer (uma vez que se divulgou a idéia de que urbanistas-arquitetos-prefeitos pensavam no homem acima de tudo) e aliar qualidade de vida ao conhecimento das tradições da cidade e da memória de seu povo. A memória valorizada na década de 1990 é então, a memória de algumas etnias86.
86 Um autor que também destaca a questão da memória curitibana é Oliveira (2000). A referir-se ao aspecto cultural defendido pela segunda gestão de Lerner à frente da Prefeitura, destaca: “Aspecto curioso em toda essa política era sua faceta étnica. Não é preciso muito esforço para se perceber que o essencial da política de patrimônio histórico e de promoção de atividades culturais se remetia recorrentemente a uma parcela específica da memória e da cultura imigrante. Essa parte era aquela de origem européia, notadamente daquela onde se originou a elite dirigente do período. Claro que a celebração dos valores alemães, poloneses e italianos – os mais privilegiados pela política vigente – também fazia parte, indiretamente, do projeto de ‘modernização’ urbana, pela associação recorrentemente feita na cultura nacional entre progresso e imigração européia”. (Oliveira, 2000, p.56, grifos nossos).
Aqui percebe-se claramente a relação entre tempo-espaço-sujeito. A invisibilidade do negro pode ser apreendida tanto nos livros de história (e nas pesquisas de alguns historiadores) quanto na organização dos espaços da cidade (negros não têm parques e portais representativos) e tais aspectos ajudam na construção da identidade do cidadão curitibano. Segundo Almeida, professor de História da Universidade Federal do Paraná:
A mudança, ou a readequação da identidade, acontece num dado momento ‘em que o poder público ou os intelectuais sentem necessidade de construir uma identidade’, explica. E, como é de se prever, por surgir de forma deliberada, as identidades passam por um processo de seleção. É por isso que entre os símbolos da cidade e suas etnias - o portal italiano e o relógio alemão, por exemplo - não se encontra o portal da população africana. ‘A memória paranaense, curitibana em particular, parece ter uma certa implicância com esse elemento’. (in Idéias, 2005, p.23, grifos nossos)
E, como a escola trata essas questões? A pesquisa de Moraes e Souza (1999) destaca que na década de 1990, continuou-se a propagar a invisibilidade do negro. O texto da coleção didática Lições Curitibanas, ao apresentar os portais da cidade (monumentos colocados na entrada de alguns bairros, com estética que lembra determinadas etnias), silencia quanto à participação do grupo negro na formação do curitibano:
Os portais sempre fizeram parte da história de Curitiba, mantendo viva a memória da cidade.
Muitos deles registram a presença dos imigrantes europeus e asiáticos que aqui encontraram aconchego e que, com suas tradições, contribuíram para a formação de um verdadeiro mosaico de hábitos, costumes, valores e crenças.
Isso faz uma Curitiba diferente. É a cidade homenageando de maneira significativa italianos, alemães, poloneses, ucranianos, japoneses e tantas outras etnias que constituem seu povo.
Assim, os portais são uma forma de demonstrar gratidão e reconhecimento àqueles que ajudaram a transformar a Curitiba de ontem na metrópole de hoje. (Lições
Curitibanas 4ª série, in Moraes e Souza, 1999, p. 13).
Sobre os parques e sua imagem seria necessário, inclusive, que se investigasse a relação entre limpeza (o parque limpo, verde, com qualidade de vida) e o suposto traço vindo com o imigrante (correto, trabalhador, próspero, civilizado). Outra investigação poderia se ater na exuberância destes monumentos, que parecem procurar contar e sublinhar uma história de sucesso (soluções inovadoras, respeito ao meio ambiente). Nestes locais há ainda uma suposta homenagem aos índios quando são colocados nomes indígenas aos parques que transmitem a memória da cultura imigrante, como é o caso do “Parque Tingui” que divulga a memória ucraniana, ou o Tanguá. Mas a cultura indígena propriamente dita, aparece pouco, ou quase nada. Encontram-se em alguns parques e bosques, ainda, símbolos paranistas.
Existem por toda parte da cidade, também, pinturas do curitibano Potty Lazzarotto – pintor que foi um expoente nacional em seu campo – que contam a história dos tropeiros, o
trabalho do negro, do índio e do imigrante, na década de 40, mas que, na década de 1990, terminam por “oficializar” os símbolos da cidade que se quis formar na ocasião: ilustrações do “Ligeirinho” (o melhor meio de transporte coletivo do pais!), e outros monumentos construídos no período (Ópera de Arame, Jardim Botânico etc). Tais inscrições no tecido da urbe começam a incomodar pesquisadores, moradores da cidade que argumentam que tais inscrições parecem se distanciar sobremaneira da realidade e alguns intelectuais passaram a considerar Potty como uma espécie de “Pintor do Rei”.
Ainda na crítica a esta Curitiba dos mobiliários urbanos sedutores, mas, que pouco expressam o cotidiano da maioria dos moradores, existem diversas pesquisas87. Navolar (2006), por exemplo, ao estudar a preservação do patrimônio em Curitiba e a arquitetura dele resultante de 1965 a 2000 percebeu que a preservação esteve diretamente vinculada ao Planejamento Urbano da cidade. Desta forma descobriu que, se por um lado a cidade teve seus conjuntos arquitetônicos preservados sem o trauma dos tombamentos, por outro, esta vinculação demonstrou-se grosseira, no trato das unidades isoladas. Isto porque o principal instrumento legal utilizado para a preservação das unidades isoladas, foi a possibilidade da transferência do “Potencial Construtivo”, depois de restauradas privilegiando aquelas unidades com maior volume deste potencial, independentemente do grau de importância histórica ou arquitetônica para a história da cidade. Ainda segundo o autor além de estimular esta falsa preservação, o Poder Público Municipal também constrói nos parques da cidade, réplicas da arquitetura produzida em outros tempos e lugares da cidade, pelos imigrantes principalmente italianos, ucranianos, alemães, poloneses e japoneses.
A coleção de livros Lições Curitibanas também explora questões relacionadas à preservação histórica. Fica nítido que o campo da arquitetura entra no currículo escolar em meados da década de 1990. Um bom exemplo deste novo conteúdo apresenta-se no texto:
Lição Curitibana: arquitetura de outrora...herança de agora, de Musciati. O texto assim inicia:
O espaço curitibano, desde o século passado, foi sendo ocupado por imigrantes que deixaram marcas profundas nos costumes, nas construções, as quais apresentaram os mais diversos estilos arquitetônicos. (Lições Curitibanas, 3ª série, vol. 2, 1994-95, p. 376).
O texto prossegue trazendo ilustrações belíssimas como as da igreja mais antiga da cidade (com “altar-mor folheado a ouro”); da Casa Hauer (arquitetura alemã); do Castelo do
87 Foram analisadas teses e dissertações desde 1987 a partir do site da CAPES e com as palavras chave “Arquitetura /Cidade/Curitiba”. Descobriu-se 47 teses e dissertações. Foram eliminadas as com assuntos específicos (ex: aço na construção, iluminação em salas, etc); as em que os resumos não traziam os dados necessários e as em que o recorte temporal não era compatível com esta tese.
Batel (réplica de um castelo francês com arquitetura típica do renascimento), entre outras, e finda argumentando:
Por meio da preservação e da restauração, Curitiba registra a memória daqueles que construíram a cidade. Preserva também o trabalho das diferentes nacionalidades que vieram para somar esforços e tornar nossa capital mais bela. (Lições Curitibanas, 3ª série, vol. 2, 1994-95, p.377).
Por meio do destaque de determinadas construções históricas o texto demonstra qual seria o período que o campo da arquitetura estaria privilegiando para contar sobre o início da história da cidade e a partir de quais atores sociais, no caso aqui, os imigrantes.
Nesta mesma direção, outro texto conta a história do começo do bairro Umbará, farto de imagens de casas de imigrantes italianos, explicando, inicialmente, sobre os problemas que as carroças de colonos precisavam enfrentar em dia de chuva (“um bará só”, termo que deu origem ao nome do bairro); prossegue falando do quanto valia a pena transpassar as ruas de lama para se chegar à capela do Padre Pietro Cabbalcchini, “pastor do pequeno rebanho, cuja fé desafiava o caminhar no lamaçal para encontrar a bênção especial que curava as dores, acalmava os nervos, acalentava a alma” (Lições Curitibanas, 3ª série, vol. 2, 1994-95, p. 562). E, embora o texto lembre que o bairro tinha suas raízes no caboclo, no italiano e no polonês, e para além de reforçar a religião católica constrói a figura do imigrante trabalhador: “Gente humilde, mas muito valente quando se tratava de arregaçar as mangas e trabalhar unida em prol de uma causa justa”. (p.563)
Dudeque (2001) estudou – a partir do ponto de vista da arquitetura e do Urbanismo – o processo de construção de auto-imagem da cidade através do tempo e buscou compreender os momentos privilegiados da interação entre a arquitetura, a cultura e a política. Concluiu que as referências à natureza circundante e as construções em madeira serviram à tentativa de criar obras com uma identidade arquitetônica para Curitiba.
Grande parte das pesquisas, quando fazem a crítica à arquitetura curitibana apontam que ela é usada pela política da cidade para atrair investimentos na fase atual do capitalismo. Sánchez (2001), utilizando-se de referenciais como os de Bourdieu e de Milton Santos afirma que, nesta fase o capitalismo, por ser impulsionado por lógicas e estratégias em escala mundial, produz novos espaços potencializadores de eficiência econômica. Segundo o discurso da modernização e seus padrões internacionais hegemônicos, as cidades que conseguem superar crises adequando a fluidez do dinheiro e da informação, transformam-se, segundo a autora, em tecnópolis e desfrutam do status de “modelo”. São modernas tecnologicamente e na infra-estrutura e prometem o título de “cidade harmoniosa” com alta “qualidade de vida” e “renovada vida cultural e artística”. Estas ou algumas destas qualidades
combinadas tornariam a cidade uma “cidade sustentável”. Assim, as cidades, para ganhar status internacional e “um lugar no novo mapa do mundo”, produzem discursos e imagens adequadas e passam, então, a ser “produto”, “marca” transparente, simplificada e genérica. A autora analisa, então, o caso de Curitiba como uma das cidades que mais tem investido em
city marketing. A logomarca curitibana estaria sempre associada à idéia de inovação, de poder visionário e criativo atribuído a seus quadros técnicos e, sobretudo, ao arquiteto-urbanista Jaime Lerner88, a quem se atribui reputação quase mitológica: “tudo que o Jaime toca não vira ouro, vira qualidade de vida” (Isto É, 08/04/1992 in Sánchez, 2001, p.158). A intensa divulgação de Curitiba como “Capital Ecológica” seria um slogan que proporcionaria alta competitividade e se relacionaria com a construção de espaços emblemáticos:
Um certo número de governos locais vem investindo expressivos recursos em projetos de revitalização de áreas, em operações urbanísticas de renovação ambiental ou em obras de arquitetura espetacular, instrumentos na construção da imagem de cidade que está se renovando dentro de um projeto de ‘desenvolvimento sustentável’. São as vitrines que revelam pontos luminosos da cidade, muitas vezes construídos especialmente para esse fim. (Sánchez, 2001, p.162, grifos nossos) Nas cidades que aspiram a ser globais, se por um lado a imagem arquitetônica é eloqüente, monumental e apresenta signos de celebração do poder (de grandes corporações, sedes de bancos, companhias telefônicas), por outro promete recuperar a identidade local, em nome de um diálogo com a cidade existente. Mas, infelizmente o que se assiste, segundo Sanchez (2001, p.165), é justamente o “surgimento de paisagens urbanas com resultados repetitivos que, surpreendentemente, provocam a sensação de descolagem com a identidade do lugar”. A autora também comenta que as imagens das cidades procuram enfatizar a importância da diversidade cultural, com políticas de “revitalização de bairros étnicos”, incorporadas a estratégias de desenvolvimento de turismo. Os planos de revitalização forjam uma nova harmonia dos vínculos sociais, muitas vezes com uma lógica autoritária. A pasteurização da cultura evidenciada nos programas de renovação urbana promove uma “ordem branca da cultura”. A autora cita Cohen segundo o qual:
há uma iconografia oficial do multiculturalismo inscrita num mapa narrativo de modernidade, progresso e regeneração urbana no qual a presença do pobre, do
88
Outra autora que remete o sucesso urbanístico-arquitetural a Jaime Lerner é Dias (2005). Para ela a “Arquitetura do Desejo” se deu a partir da inserção da cidade de Curitiba na ordem discursiva mercantilista e remete tal inserção à Jaime Lerner, que, ascendendo ao poder público alterou a imagem e a identidade da cidade, num período de cerca de 40 anos, iniciados em meados de 1960. A autora afirma que tal fato trouxe benefícios tanto para a cidade - que se projetou internacionalmente e passou a ser referência urbanística - quanto para o seu idealizador e gestor, o arquiteto Jaime Lerner que, após a última gestão pública, ascendeu à presidência do conceituado órgão internacional denominado União Internacional de Arquitetos (UIA), com plataforma num programa internacional para cidades, cuja referência e inspiração é a cidade de Curitiba. Mas, se tal projeção evidenciou o sucesso do novo modelo urbanístico, silenciou, segundo a autora, a necessidade dos moradores dessa nova cidade de se inserirem em novos modos de subjetivação.
desempregado, do velho, do criminoso, e mesmo de qualquer um que não combine com a imagem dominante do empreendedor economicamente ativo, é efetivamente varrida para fora do quadro. (Cohen in Sánchez, 2001, p. 170)
A confirmar o exposto acima basta lembrar que das duas pessoas que aparecem, na imagem do papel da bandeja do fast food, uma delas caminha pela cidade com o seu cachorrinho. Mas, outra imagem poderia sintetizar melhor a questão: quando a coleção Lições
Curitibanas mostra o sistema de transporte urbano da cidade (o sistema exportado até para Nova Iorque!) procura trabalhar a idéia de que ele é tão bom que deve ser usado por todos, indistintamente. A imagem a seguir, portanto, ao demonstrar que até a classe média usa o transporte (vê-se isso pela vestimenta do usuário do transporte coletivo), constrói uma representação do curitibano como passageiro civilizado e trabalhador e, exclui de tal representação - na contra-face - todos aqueles explicitados por Cohen.
Fonte: Lições Curitibanas, 2ª série, volume 1, p.138, 139
3.2 PASSANDO O TRAÇO E DEFININDO O TIME: PARTILHA DESIGUAL DO