• No results found

Research Context

In document Simulation and design (sider 31-68)

Cada mitologia é, no fundo, uma classificação, mas que haure seus princípios das crenças religiosas

e não das noções científicas. (Mauss e Durkheim in Mauss, 2005, p. 448)

A história da cidade de Curitiba geralmente é contada a partir de sua gênese e é usual, na maior parte das vezes, que se comece contando sobre uma “lenda” que parece significar para os curitibanos, como uma espécie de seu “mito fundador”. Rui Wachowicz27, por exemplo, em seu livro “História do Paraná” (a 7ª Ed. é de 1995), no capítulo intitulado de 1980), artigos mais preocupados com a “História do Paraná” e de Curitiba de modo geral e, com o passar dos anos, ocorre uma diversidade de temáticas específicas (casamentos de imigrantes na cidade e no estado, população evangélica e menonita na cidade, escravidão, comunidade judaica em Curitiba, mulheres curitibanas, povos eslavos no Paraná, eleições no Paraná, índios, negros, salários, custo de vida etc).

26 Wachowicz nasceu em Itaiópolis, Santa Catarina, em 1939. Cursou a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na Universidade Federal do Paraná, graduando-se em Geografia e História, em 1961. Na década de 70 fez especializações em história. Na mesma época, foi professor da UFPR e da Universidade Católica do Paraná. Ingressou na Academia Paranaense de Letras em meados dos anos 90, assumindo a coordenação da revista da academia, sendo também responsável pela criação da Semana de Estudos de História do Paraná e pelo lançamento de importantes publicações na área. fonte dos dados:Internet: www.bemparana.com.br.

27 Ressalta-se que se optou por analisar esse livro por trazer especificamente o tema em estudo e por ser uma obra a que o autor oferece “aos colegas de magistério”. Trata-se, portanto, de um livro didático que serviria, segundo o historiador, “tanto a aprendizagem dos alunos como na preparação das aulas dos professores”.

“Origens de Curitiba”, ao descrever a região do Primeiro Planalto (ou Planalto de Curitiba) em meados do século XVII, comenta que nesta época o local já contava com uma série de núcleos de garimpeiros provisoriamente instalados, com sua população esparsa habitando choças cobertas com folhas de palmeira. Vasculhavam os riachos, à procura de pequenas pepitas de ouro e conviviam no “sertão bravio” com os índios Tingüi, pertencentes à nação tupi-guarani. Esse grupo instalou-se em um local chamado de “Vilinha”, às margens do rio Atuba, mas mudou sua sede, segundo supôs Wachowicz, “provavelmente por se tratar de uma região muito úmida” (1995, p.62). A história da mudança do local onde Curitiba se edificou definitivamente é que contém essa espécie de “Mito Fundador”. Nas palavras do autor:

Conta também uma antiga lenda que todas as manhãs, na capela do local, a imagem de Nossa Senhora da Luz, que ali se venerava, estava com o olhar voltado para o lado onde queria que se erigisse sua igreja definitiva. Isto é fruto, naturalmente, da imaginação de seus crédulos habitantes. (...)

A lenda continua narrando que para ter sempre uma boa amizade com os indígenas, os povoadores convidaram o cacique de uma tribo tingüi, que habitava a região, para indicar-lhes o local mais apropriado. Este cacique aceitou o convite e, depois de procurar demoradamente um bom lugar, fincou uma vara no chão, dizendo: Core- etuba, isto é, muito pinhão, aqui. Desta expressão do cacique tingüi surgiria o nome da futura capital dos paranaenses. (p.62)

Sobre essas informações, o historiador escreve:

É verdade que não se encontram documentos históricos que comprovem a veracidade destas informações; entretanto, como é uma tradição que não se contradiz com a verdade que conhecemos sobre o assunto, completa-se com os fatos reais ocorridos. Desta forma pode ser considerada como verdadeira (Wachowicz, 1995, p.62).

Analisando outros materiais28 (mais próximos aos discursos oficiais), nota-se também, o destaque dado à lenda cujo relato muitas vezes é associado à reprodução da pintura de Theodoro de Bona (reconhecido artista paranaense). Na coleção didática Lições Curitibanas, a versão da lenda apresenta uma pequena diferença na narrativa: “Como o lugar era habitado pelos índios tingüis, os colonizadores pediram ao cacique que indicasse o lugar mais adequado para a construção do povoado” (Lições Curitibanas, 3ªs, vol. 1, p. 239). A seguir, a reprodução da referida pintura (que consta no livro didático) é apresentada, e a de um chargista (Thiago Rechia29, veiculada em edição especial da revista Idéias30). Tanto a pintura de 1948, que é veiculada pelo currículo escolar oficial da década de 90, quanto a charge de 2001, demonstram que tal lenda ainda faz parte do imaginário curitibano.

28 Materiais que circulam pela cidade e que divulgam a história, a memória, os espaços da cidade (os espaços turísticos). Trata-se de materiais mais próximos de reforçar um Discurso Oficial da cidade do que levantar questionamentos sobre eles. Materiais utilizados: Fernandes, (2007); Fenianos (2003); Lições Curitibanas (1994); Curitiba em Dados, 2004.

29 Cartunista Curitibano bastante destacado pela análise do cotidiano da cidade.

30 Edição Especial da Revista Idéias em comemoração ao aniversário de 312 anos da Cidade e que veiculou artigos com opiniões diversas sobre a cidade. Seu editor é Fábio Campana.

Theodoro De Bona – Cacique Tindiqüera indica o local da fundação de Curitiba31

Thiago Rechia in Revista Idéias n.20, 2005, edição especial, p.38

Desta forma, há um reforço “à tradição” quando se conta a lenda (mesmo no caso de contá-la com um sentido irônico como fez o chargista). Talvez fosse possível, no entanto, pensar mais sobre ela e sobre o que ela representa. Se for considerada como uma espécie de “mito fundador”, seria preciso entender, antes, um pouco mais detidamente, sobre a questão

31 I

dos “mitos”. Sobre eles, o sociólogo alemão Norbert Elias, em entrevista concedida, adverte32:

Os homens efetivamente precisam de mitos, mas não para comandar sua vida social. Isso não funciona com mitos. Estou profundamente convencido de que os homens conviveriam mais facilmente sem mitos. Os mitos, parece-me, acabam sempre por se vingar (p. 48).

E assegura:

Não se deveria nem iludir a si próprio nem aos outros com mitos. Acho muito seriamente que vivemos numa verdadeira floresta de mitologias, e que nesse momento uma de nossas missões essenciais é nos livrarmos delas. A grande limpeza da primavera, eis o que é preciso que aconteça (p.48).

Exercitando, então, as lições de Elias, faz-se necessário analisar a mensagem passada pelo mito fundador curitibano: quem funda a cidade é a Igreja (Nossa Senhora indicando o caminho) em comunhão com brancos e índios. Ainda sobre os mitos, Mauss (2005) argumenta que não basta torná-los compreensíveis, mostrando as idéias que lhe são subjacentes ou antecedentes. Não há dúvida, para o autor, que este passo da pesquisa é o primeiro a ser feito e que seria tolo censurar um trabalho pelo fato de ter começado por aí. Mas segundo o autor: “Cumpre ainda redescobrir quer os sentimentos sociais, quer as estruturas sociais de que estes fatos constituem expressão, de que estes mitos são apenas as representações, de que estes ritos nada são exceto os gestos” (p.2005, p.385). Neste sentido, seria preciso entender a época a que o mito se refere: de tensões entre o colonizador que chega e o índio que defende sua terra, seu espaço; entre atores da Igreja que querem impor suas crenças e religião (obviamente também, e talvez acima de tudo, com interesses econômicos e políticos envolvidos na “catequese” que não podem ser desconsiderados) e os índios escravizados. Contar o mito da união pacífica seria, em última instância, então, tudo o que não ocorria na prática e o que se almejava que de fato acontecesse. Porém, desenterrar tal mito depois de séculos, perpetuá-lo, ou mesmo (re)inventá-lo da forma acentuada com que se fez, também teve intenções profundas. No próximo capítulo será apresentado como um movimento chamado “Paranista” realizou tais invenções de sorte a privilegiar alguns elementos da formação do povo paranaense (como o índio, por exemplo) em detrimento de outros.

Na versão escolar parece haver uma possibilidade maior para que se problematize o mito (quem escreveu poderia ter tido essa intenção?), uma vez que deixa claro, ao menos que,

32 Entrevista concedida por Elias a van Voss e van Stolk. Quando os entrevistadores perguntam a Norbert Elias se ele considerava toda ideologia como mitologia ele responde que sim e lembra de um capítulo de um de seus livros sobre sociologia, chamado: “O sociólogo como caçador de mitos”. Entrevista in: Norbert Elias por ele mesmo (2001).

como a direção que a Igreja apontava como ideal, localizava-se em região habitada pelos índios, pediu-se que o índio indicasse a melhor escolha. Mas, de qualquer forma ainda, é uma versão asséptica deste período histórico.

Sobre esta relação “pacífica” entre os atores deste período histórico aparecem algumas Histórias do Paraná e de Curitiba que se esforçam por reforçá-la. Quando o historiador Wachowicz (1995, p. 63) fala dos índios em Curitiba, comenta:

A participação dos índios no surgimento de Curitiba deve ser real, porque é o único argumento que explica as boas relações que sempre existiram entre brancos portugueses e os indígenas, na região. (...).

Uma harmonia entre esses dois grupos humanos não existiu, por exemplo, em São Pulo, vila esta que foi atacada várias vezes pelo indígena hostil.

Embora na parte referente ao indígena na conformação paranaense Wachowicz descreva as tensões e guerras entre brancos e índios e principalmente entre tribos33 e também evidencie a situação de escravidão a que os índios eram submetidos, na relação entre índios e Igreja a impressão que se tem é a de que tal relação não é problematizada. O trecho a seguir, sobre o século XIX, pode ilustrar a questão: “Estes índios [xokléng] colocavam de sobressalto as populações de Guaratuba, São José dos Pinhais, Rio Negro e outros núcleos, além das tropas que demandavam ao Rio Grande do Sul. A fim de atrair estes indígenas e catequizá-los, foi criado, em 1876, o aldeamento de São Tomas de Papanduva” (Wachowicz, 1995, p.17).

Sobre a relação entre jesuítas, índios e brancos (principalmente bandeirantes que caçavam índios para escravizar) no início do processo de colonização do Paraná (especialmente no século XVII), são necessários estudos detalhados, pois, caso se olhe a história generalista (a tradicional História de Curitiba e do Paraná), pode haver parcialidade na leitura dos fatos. Quanto a isso, por exemplo, no capítulo intitulado por Wachowicz: “As reduções indo-cristãs em Guairá”, há um tom benevolente para com os jesuítas. Quando o pesquisador descreve “As Reduções” (na seqüência aparece também uma ilustração pedagógica de como funcionava simetricamente a aldeia), explica:

A coragem, a fé inquebrantável e um dinamismo invulgar dos padres rapidamente semearam, no vasto território das reduções, grande número destes aldeamentos, os quais chegaram à soma de treze, situados nas margens dos principais rios, como o Piquiri, Ivaí, Paranapaenma, Tibagi e Iguaçu.

Esta obra de catequese e de civilização dos padres da Companhia não tem paralelo de comparação com qualquer outra em prol da civilização, tal é o vulto e a amplitude desta. Em poucos anos, conseguiram estes intrépidos missionários aldear mais de cem mil índios; e o mais importante é que os jesuítas conseguiram fazer

33

Sobre a relação conflituosa entre os índios em defesa de brancos, um exemplo: “Os índios freqüentemente perturbavam os fazendeiros das regiões de Guarapuava e Palmas. Em represália, foram atacados pelos índios chefiados pelo cacique Viri (1856)”. (Wachowicz, p. 15); ou, “O governo da província enviou um destacamento para a região, mas o Barão de Antonina resolveu enfrentar o problema de forma pacífica. Doou então a fazenda de São Jerônimo ao governo imperial, a fim de que nela fosse organizado um aldeamento para os kaingangue” (Wachowicz , p.15).

penetrar no ânimo dos indígenas os sentimentos de trabalho sistemático e disciplinado, o que até então ninguém havia realizado. (1995, p.28)

Da mesma forma, a relação entre índios, brancos e Igreja aparece na proposta curricular oficial de Curitiba, da década de 90, numa versão histórica “desinfetada” ou, ao menos, pouco problematizadora. Ao falar sobre a colonização do Brasil, pelos portugueses, um trecho do livro ilustra isso: “[os portugueses] Trouxeram, também as leis, a maneira de governar e a religião, logo ensinada aos índios pelos padres da Igreja Católica” (Lições

Curitibanas, 3ª série, vol.1, p. 178).

Uma outra análise da relação entre Índios e Igreja pode ser encontrada, também, em um campo diferente do histórico, o literário. Paulo Leminski34, um grande escritor e poeta curitibano, traz, neste sentido, um contraponto interessante. Leminski (1986), ao se referir ao período áureo das Missões Jesuíticas no Sul do país, de 1610-1768, comenta que “o missionário jesuíta foi o mais qualificado agente do colonialismo europeu, no terreno cultural e espiritual” (1986, p. 24). E acrescenta:

No geometrismo urbanístico que uniformizava as Missões (ruas retas, casas simetricamente dispostas, praças padronizadas), os jesuítas buscavam acumular riquezas e salvar as almas dos índios, fazendo dos guerreiros do sertão sacristãos devotos e candidatos ao céu. Para transformar um bugre bravio em índio “missioneiro”, o jesuíta tinha que, primeiro, extrair-lhe a alma. Quer dizer, demolir sua cultura. A fé em suas crenças. Seus ritos. Suas danças sexuais. Seus cantos mágicos. O prestígio dos seus pajés. Da brutalidade com que executavam a tarefa, dá testemunho o teatro catequético de Anchieta, valorizado nas escolas como o primeiro vagido da literatura brasileira.

Em seus autos em tupi, Anchieta aniquila as crenças tradicionais dos índios, lançando ridículo sobre os pajés e suas práticas. Quando não simplesmente coloca coros de índios dizendo ‘Jogo fora a lei dos meus pais, só acredito no que os padres ensinam, etc’, num exercício de violência cultural de fazer inveja aos mais zelosos braços direitos de Hitler.

E ainda:

Atingidos mortalmente no coração da sua cultura, os índios reduzidos do Sul vegetavam, com um grande vazio dentro e uma alma postiça, no severo pesadelo geométrico das reduções com nomes de santos católicos e jesuítas: São Luiz, São Borja, Santo Inácio, São Miguel, todas iguais. (...) O índio das Missões nada mais tinha de seu. Tudo o jesuíta tirou para colocar em seu lugar valores abstratos, trazidos de outra série cultural, a civilização branca e cristã da Idade Média européia. (Leminski, 1986, p. 25)

É possível perceber-se, pelo que foi visto até aqui, que existem várias possibilidades de leitura para a história do nascimento da cidade, das quais, parece que os discursos oficiais da cidade optam por apenas uma das possíveis. Vejamos a seguir outros pontos intrincados da história da cidade.

34 Sobre este poeta e escritor, há opiniões contraditórias sobre sua relação com a cidade. Seria ele, para alguns, um crítico que com o tempo foi “institucionalizado” pela cidade.

1.2 HISTÓRIA SEM TROPEÇOS: TENSÕES ENTRE PROSPERIDADE E POBREZA NA

In document Simulation and design (sider 31-68)