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Sense-stimulation of Central Human Capabilities

In document Simulation and design (sider 176-180)

Innovative Conceptualisation Through Sense Stimulation in Co-lab Development

6.3 Sense-stimulation of Central Human Capabilities

Até aqui viu-se que diversos atores curitibanos (historiadores, arquitetos, literatos, artistas entre outros) selecionaram determinados fatos para perpetuar a memória da cidade e que tal seleção influencia e é influenciada por diversas construções nos espaços da cidade. Mas é preciso ainda saber como esta produção da memória e de história se relaciona com o cotidiano da cidade e suas questões de funcionamento. Ao se planejar ruas, parques, equipamentos sociais, ao se definir onde cada curitibano vai morar, existiriam critérios e princípios que regeriam tal organização? No caso de Curitiba, tais princípios teriam relação com a memória e história da cidade? Quais os argumentos dos atores oficiais da cidade, sobre sua organização? Que atores sociais seriam os responsáveis por estabelecer tais critérios, princípios, para além dos sempre apontados pelo discurso oficial (arquitetos, urbanistas, políticos pensando de forma técnica a cidade para o cidadão)?

3.2.1 A limpeza do “tapete”: argumentos dos establishments sobre a organização do espaço da cidade

É claro que comunidade tem que ser ouvida, mas há que se respeitar a bagagem do técnico. (Cássio Taniguchi, 1989,

Diretor do IPPUC89)

Pode-se começar pelo mais óbvio para qualquer curitibano e também pelo mais complexo: o urbanismo e o fato de todo curitibano dever se considerar um urbanista. Tanto é assim, que no final de uma das revistas de um instituto importantíssimo para a história da cidade (analisado na seqüência) aparece abaixo do título “O planejador do futuro”90, quatro desenhos de crianças. Os desenhos dos supostos planejadores-mirins são, na verdade, reproduções de “soluções” do Projeto Curitibano dos últimos tempos: um Centro de Educação Integral, um portal, um caminhão de lixo e um ônibus biarticulado. Assim, a mensagem que se quer construir é a de que o planejador seria, em primeiro lugar, formado desde criança; em segundo, seria, então, e na melhor das hipóteses, aquele que entende o “espírito” já implantado da cidade. Precisa-se compreender melhor o fato então, do porquê de, nas cidades de modo geral, e, no caso de Curitiba, com suas peculiaridades, os curitibanos aceitarem – ao menos aparentemente – tão passivamente que outros pensem a cidade por eles, ou que se produza poucos espaços para a participação popular. Algumas pistas já se delineiam, no caso de Curitiba. Há a idéia perpetuada de que é o técnico quem detém o conhecimento científico necessário para pensar a cidade. Para se compreender essa questão, também pode-se começar, observando como o tema é tratado a partir do campo educacional. Aponta-se abaixo um trecho do livro didático de Curitiba em que se demonstra ao pequeno cidadão que ele deve compreender que existem pessoas que bem planejam a cidade e que a eles basta conhecer, valorizar e respeitar as obras produzidas:

O planejamento de uma cidade – serviços, transporte, moradia, educação, saúde e lazer – deve ser elaborado com um único objetivo: o usuário.

É para o bem-estar das pessoas que uma cidade deve estar voltada. Curitiba é assim: preocupada com seu povo.

Percorrendo os caminhos de ontem e de hoje, a população tem a oportunidade de conhecer e de valorizar os espaços que ocupa.

O cidadão curitibano deve sentir-se parte da cidade. Deve ter a consciência de reconhecer e de respeitar a obra daqueles que a construíram e de, ao mesmo

89 Coleção Memória da Curitiba Urbana/ IPPUC, 1990, p.57. Em outro trecho: “Todo técnico tem que saber disto: não se jogam fora 20 ou 25 anos de estudo em nome de uma população que tem conhecimento, mas não a ponto de poder opinar se na drenagem o tubo tem que ter um metro ou 0,40 m de diâmetro. Ora, este assunto depende de leis físicas, matemáticas e não apenas da vontade popular. O povo opina politicamente, tudo bem, mas não do ponto de vista técnico”. (Taniguchi in Memória da Curitiba Urbana 3, 1990, p. 58).

tempo, sentir-se responsável por ela. ( Lições Curitibanas, 3 série, vol 1, 1994, p. 134, negritos nossos)

Diversos outros exemplos podem ser encontrados ainda na coleção Lições

Curitibanas: por diversas vezes pede-se que a criança crie novas idéias, soluções, desenhos, mas, anteriormente, os “modelos” já estão apontados. Não há a possibilidade de a criança conhecer outras formas, de outros tempos e espaços, de outros grupos sociais, de outras culturas que não as tradicionalmente apontadas. Outro exemplo:

Fonte: Lições Curitibanas, 3ª série, volume 1, p.130

A idéia de que todo curitibano deveria ser um “urbanista” se restringiria, portanto, a que todo cidadão se interessasse por respeitar, copiar, repetir as idéias dos técnicos da cidade. Desta forma, veio se propagando a idéia, ao longo das últimas décadas, de que área do urbanismo é uma das principais áreas responsáveis pelo status que Curitiba adquiriu. A importância desse novo campo é tão grande que a história da cidade se confunde – no discurso oficial – com a história do próprio urbanismo e qualquer material publicitário da cidade traz (ou ao menos trazia na década de 1990), a marca de um instituto criado em meados dos anos 1960 para planejar a cidade. Tal importância evidencia-se na coleção

Memória da Curitiba Urbana, produzida por este instituto91 que, pretendendo “contar a

91 Tal coleção produzida a partir de 1989, tendo Cássio Taniguchi como Diretor-Presidente, apresentava, ao menos nos seus primeiros sete livros, depoimentos das pessoas que pensaram Curitiba: muitos engenheiros e

história da evolução urbana da cidade”, traz, na quase totalidade das vezes, a voz de arquitetos, urbanistas, políticos e prefeitos.

Além da divulgação desta idéia se dar insistentemente pela voz do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), pelos prefeitos e materiais escolares oficiais, há, inusitadamente, outros atores e formas de divulgação. Um exemplo disso foi demonstrado por Santos (1995) que apresenta em sua pesquisa imagens de aparadores de copos de cerveja, que circulavam pelos bares da cidade na época do aniversário dos seus 300 anos, com trechos que contavam, pela voz do empresariado (Cerveja Brahma), a história “urbana” da cidade92.

Outra produção do instituto que deixa claro a relação entre história da cidade e história do urbanismo (leia-se na maior parte das vezes a história do próprio instituto) é o livro

Curitiba em Dados 2004. No item denominado Aspectos Históricos, conta-se a história da cidade a partir de anos e fatos selecionados como importantes e, como já mencionado anteriormente, dá a sensação de que a abertura de ruas e a inauguração de equipamentos públicos, por exemplo, são elementos de destaque maior do que acontecimentos envolvendo os curitibanos e suas vidas coletivas. É possível compreender a evolução da cidade, neste livro, também a partir das imagens e fotografias ali expostas. As primeiras imagens mostram uma Curitiba que continha casas e muito verde; depois, casas e prédios; e em seguida, uma Curitiba totalmente urbana e cheia de arranha-céus. Na década de 1970 muitas páginas dedicadas ao transporte público, fechamento da Rua XV, criação do Parque Barigüi; passa-se rapidamente pela década de 1980 e aporta-se na década de 90, com mais de o dobro de páginas dedicadas a mostrar muitos parques e bosques, imagens da Escola de Tempo Integral de Curitiba, os Faróis do Saber, as Ruas da Cidadania etc. Parece que a urbanização da Curitiba de Primeiro Mundo começa na década de 70 e indiscutivelmente – pelas imagens - costura-se definitivamente na década de 90.

engenheiras (de obras, elétrico, civil), jornalistas, ex-prefeitos, professor de economia, arquitetos e arquitetas, advogados e advogadas; e apenas uma bibliotecária, um artista plástico, um pedagoga/socióloga, uma antropóloga. Em 1992, a partir do oitavo livro, a coleção passa a apresentar os programas e projetos implantados em Curitiba sendo o primeiro “Escola de Urbanismo Ecológico”.

92 O texto de dois aparadores: “Planejamento Urbano. Com a industrialização iniciada pela erva-mate e a emancipação política do Paraná Curitiba se torna a cidade do Planejamento Urbano. O primeiro plano foi feito pelo Francês Pierre Taulois (lê-se Toloá), em 1855. Os anos se passam, os imigrantes chegam e surge a necessidade de uma nova estrutura. Em 1943, o também francês Alfred Agache executa o Plano Agache, criando as grandes avenidas e o Centro Cívico. E, em 1965, Curitiba ganha um novo plano, base para a revolução urbana ocorrida nos anos 70”. E o outro: “A revolução curitibana. No início dos anos 70, o grande plano urbano de 1965 sai do papel e Curitiba se transforma: Nasce o Ônibus Expresso e suas vias exclusivas. A Cidade Industrial é construída. Cria-se a Fundação Cultural de Curitiba. As áreas verdes aumentam e a Rua XV vira uma rua para pedestres. Desde então Curitiba não se descuidou, chegando aos seus 300 anos iluminada pelos ideais de um planejamento urbano bem estruturado e pela benção de sua padroeira, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais”. O slogan da frente dos aparadores era: “Cidade que tem memória é cidade que faz história” e trazia tanto a logo- marca da cerveja quanto da Prefeitura (slogan dos 300 anos de aniversário da cidade). (in Almeida, 1995).

Admitindo que um livro que é justamente elaborado pelo órgão responsável pelo Planejamento Urbano de Curitiba, conte a história da cidade desta forma, é compreensível. É preciso, então, trazer outro exemplo de como esta História Oficial da cidade e do Urbanismo circula pela cidade e fora dela. O livro intitulado As cidades que dão certo: experiências

inovadoras na administração pública brasileira, de Rubens Figueiredo e Bolívar Lamounier, demonstra como “o incremento da cidade a partir do bom planejamento de seus prefeitos”, pode dar certo. O livro fala da experiência de oito cidades: Curitiba e Campo Mourão (PR); Joinville (SC); Belo Horizonte (MG); Campinas, Bauru, Osasco e São Paulo (SP). A idéia do livro é a de mostrar as cidades que são exemplo de criatividade, pois, criam um “novo relacionamento com a iniciativa privada” (p.13) e envolvem a comunidade na busca de soluções alternativas para elevar o bem estar dos cidadãos. O autor do prefácio anuncia: “Saudações dos Estados Unidos da América” e inicia orientando os governos a com se tornarem empreendedores: precisam promover a concorrência, valorizar resultados, ganhar dinheiro (ao invés de gastá-lo), descentralizar a autoridade por meio da gestão participativa, optar por “mecanismos de mercado” ao invés de “mecanismos burocráticos” e catalisar os setores público, privado e voluntário para solucionar os problemas comunitários. (Gaebler in Figueiredo e Lamounier, 1996, p.10)

É neste contexto, portanto, que os autores do livro (Figueiredo e Lamounier) comentarão a experiência curitibana:

Num país formado por uma colcha de retalhos mal costurada de problemas sociais, a cidade de Curitiba, (...) é o maior exemplo de que quando o poder público se faz presente, as coisas podem dar certo, mesmo num país pobre. Por trás de uma cidade jovem, dinâmica e relativamente bem resolvida, existe uma administração pública consciente que trabalha com os recursos de que dispõe e propõe soluções criativas para um emaranhado de problemas urbanísticos, que já se tornaram referência até no exterior. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p.25, grifos nossos) Neste sentido, lembram o quanto o Fórum da Organização das Nações Unidas (ONU) tem apontado seguidamente os feitos de Curitiba e da importância da cidade ter, inclusive, exportado suas soluções para o transporte público “para a Meca do capitalismo: Nova Iorque”. Assim, localizam Curitiba na relação com o Brasil e o Mundo: “Mas Curitiba não está à parte do Brasil. Pelo contrário, ela é fruto do próprio crescimento desordenado do país nas últimas décadas”. (p.25). Comentam, então, das conseqüências causadas pela urbanização principalmente nos grandes centros:

As capitais dos estados mais industrializados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte, notadamente com mais infra-estrutura, foram o principal alvo dos retirantes. Curitiba não ficou de fora. Em pouco mais de 20 anos, sua população mais que duplicou atingindo os atuais um milhão e 390 mil habitantes. (p.26)

Sobre esse fluxo migratório comentam que foi “considerado por muitos historiadores como um dos maiores movimentos internos de populações, em menor espaço de tempo, que se tem notícia no mundo”. (p.26) Enquanto os graves problemas advindos da urbanização se materializavam nas grandes cidades, “Curitiba começava a viver o seu primeiro ciclo industrial ordenado” (p.26), criando, em 1975, a Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Atribuem tal tentativa de mudar a economia do município, a Lerner:

Na mesma época em que o crescimento de Curitiba começou a se acelerar, no princípio dos anos 70, um engenheiro e arquiteto sem muito jeito para a política assumiu pela primeira vez o cargo de prefeito municipal, apontado pelo regime militar que não previa voto direto em eleições para Prefeituras de capitais. Tratava- se de Jaime Lerner, um nome que passaria a se confundir com a própria história da tricentenária Curitiba nos 25 anos que se sucederam. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p.28, negritos nossos)

Sobre o sucesso da cidade, o atribuem tanto à continuidade política: “Além disso, [Lerner] sugeriu o seu sucessor em 1975, o engenheiro Saul Raiz, e ajudou a eleger em 1992 o atual prefeito, o arquiteto Rafael Greca de Macedo, também do PDT” (p.27), quanto ao planejamento racional dos administradores arquitetos ou urbanistas:

Lerner alterou profundamente o perfil sócio-econômico de Curitiba. Fez intervenções no ritmo de crescimento da cidade, orientando o fluxo populacional para as regiões mais bem servidas de aparelhos públicos. E conseguiu, com a continuidade administrativa, o que parecia impossível: fazer de uma cidade com vocação para metrópole um lugar aprazível para viver. (...) Mas para chegar a esse estágio, os administradores de Curitiba gastaram horas em suas pranchetas, desenhando um modelo de cidade ideal. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p. 28, grifos nossos)

Tanto sobre a primeira idéia de “orientação do fluxo populacional” para lugares com equipamentos públicos, quanto a segunda que traz a insistência em uma cidade produzida a partir de determinados grupos de curitibanos (arquitetos, urbanistas e engenheiros), serão analisadas críticas contundentes a esse respeito, adiante. Os autores enfatizam ainda o Plano Agache; o IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) local em que, segundo eles, nesses trinta anos, “se criaram especialistas do urbanismo como Jaime Lerner, Saul Raiz e Rafael Greca, entre outros” (p.31); e produzem a idéia de que Lerner teria sido precursor na idéia de preservação do meio ambiente nas cidades, sendo “uma proposta

visionária que se antecipou à tomada de consciência ecológica, em escala mundial, que só

aconteceu com a Conferência de Estocolmo, na Suécia, em 1972”. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p.31, grifos nossos)

Sobre as soluções que os prefeitos deram ao problema da migração constante para a cidade, comentam:

Uma das áreas de ocupação mais antigas de Curitiba, a Vila Pinto, só teve a sua situação resolvida há poucos anos. Trata-se de uma das maiores chagas encravada numa das entradas da cidade, escondida por placas de out-door, próxima da estação rodoviária, também inaugurada no começo dos anos 70. A Vila Pinto, hoje, é um bairro que até pensa em trocar de nome, mas no passado era uma ferida incômoda para a elite curitibana. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p.32, grifos nossos)

Sobre esta favela, tanto o discurso não alterou a realidade, que seu nome continua o mesmo e os problemas sociais agravaram-se gritantemente, mas, mesmo assim os autores insistem:

Para sanar este problema e evitar que outras ocupações acontecessem em áreas tão próximas do centro da cidade, o Plano Diretor do IPPUC imaginou um novo desenho para Curitiba, que apontasse o crescimento da cidade para próximo das áreas escolhidas para o seu desenvolvimento industrial e que ao mesmo tempo interligasse todas as regiões afastadas da capital paranaense, para ninguém achar que mora longe do centro e ao mesmo tempo se sinta próximo de casa. É importante salientar que não se tratou de jogar a sujeira para debaixo do tapete. Neste caso, levar a favela para a periferia. A idéia era conduzir as populações migrantes, sem recursos para se estabelecer com dignidade, para áreas legalizadas, fazendo loteamentos populares que tentaram se antecipar à especulação imobiliária, dotados com infra-estrutura urbana e todos os aparelhos sociais disponíveis no município. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p.32, grifos nossos)

O texto explicativo do sucesso curitibano destaca ainda a estrutura viária da cidade, as suas áreas verdes, os programas de reciclagem de lixo, transporte coletivo (“barato e eficiente”), sempre se referindo a todos os lugares, como tendo “os dedos dos engenheiros e arquitetos que desenharam e desenham Curitiba”. (p.43). Explicam ainda sobre os programas de saúde da prefeitura e os educacionais: os Faróis do Saber, a coleção de livros Lições

Curitibanas. Finalizam atribuindo o sucesso da cidade à continuidade política e apontam que todas as obras realizadas seguem a mesma filosofia de ocupação urbana e conceito de administração pública, qual seja: “A do respeito ao cidadão, cliente e dono de todos os serviços públicos mantidos pela Prefeitura de Curitiba”. (Figueiredo e Lamounier, 1996, p.50, grifos nossos)

Ficou claro desse tipo de discurso sobre a cidade que a história contada é linear e ascendente e que a partir de princípios economicistas o discurso procura contrapor uma cidade de sucesso a um país de fracasso. Assim, os problemas da cidade são iguais aos de qualquer outra cidade, ou contados como coisas do passado. Já o sucesso é atribuído à continuidade política e aos técnicos, mas, destaca-se a figura de Lerner como um político visionário, precursor, inclusive, das questões ambientais mundiais.

3.2.2 Organizando quem fica em cima e quem fica embaixo do “tapete”: “nós” e os “carentes”

Neste trecho mais pobre – conhecido como Terra Santa III – pude perceber que algumas casas foram construídas como palafitas!

Manguetown em Curitiba, na cidade dos ‘bosques dos irmãos Grimm’, vidro fume, aço, acrílico e petit-pavet. (...) Imaginei de pronto uma cena surrealista: eu adentrando,

com meus sapatos enlameados por ‘Terra Santa’ numa dessas animadas reuniões matutinas de arquitetos na ‘sala redonda’ do Ipucc, a ‘Sorbone do Juvevê’, onde se desenrolam animados debates sobre a ‘arquitetura moderna de Curitiba’, ‘arquitetura eclética do século XIX’ etc.

Invadindo repentinamente a pequena sala circular e faço a pergunta: vocês conhecem a arquitetura

de palafitas de Vila Terra Santa? (...) (Souza, 2002, p. s/n)

Curitiba, como visto anteriormente, teve diversos movimentos migratórios, dentre eles, e, mais próximo do recorte temporal dessa tese, pode-se ressaltar o ocorrido na década de 1960. Qual foi a solução dada por Curitiba a essas pessoas que chegavam? Como adequaram os planos urbanos da cidade aos novos curitibanos? A cidade, em meados da década de 1960, construiu um plano com o objetivo de modernizá-la para que se desenvolvesse economicamente. Chamou-se Plano Preliminar de Urbanismo (PPU) e, dentre um conjunto de procedimentos, previa a construção de duas grandes avenidas chamadas de eixos estruturais (o nordeste-sudoeste e o leste-oeste, sendo que este último sofria uma interrupção quando encontrava a BR-116) que organizariam de forma integrada três aspectos: o sistema viário (ruas, avenidas etc), o transporte coletivo e o uso do solo (moradia, comércio, lazer).

Os responsáveis pelo PPU mapearam os moradores da cidade e definiram o perfil destas populações para justificar tecnicamente a localização de tais avenidas. A esse respeito, Rosário de Souza (2001)93 fez uma análise cuidadosa demonstrando o quanto a organização espacial de uma cidade relaciona-se com a forma com que se concebe os seus habitantes constatando que, no caso de Curitiba, o perfil traçado pelos urbanistas relacionava-se, entre outras coisas, com o próprio referencial teórico que utilizavam, qual seja, o modernista. Segundo o pesquisador, tais referenciais davam ênfase à técnica mais do que à política e com o seu discurso universalista e utópico (de que redefinindo espaços se superaria as contradições sociais sem mesmo transformar o modo de produção e muito menos alterar o regime de

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propriedade privada) colocavam-se como autoridades acima dos conflitos da sociedade. (Rosário de Souza, 2001). Desta forma, quando os urbanistas modernistas determinavam o tipo de equipamento, sua função e localização no espaço urbano segundo as "necessidades" dos diferentes habitantes e em relação às necessidades “naturais” da cidade – como objetos pré-dados – na verdade estavam classificando a população e, na maior parte das vezes, o faziam a partir da idéia de “carências coletivas".

Assim o perfil da população, traçado pelos urbanistas, evidenciou que a origem da maioria dos seus migrantes era o sul do Brasil (descendentes de europeus e com melhores condições de vida). Mas, Rosário de Souza chamou a atenção para o fato de que a base de dados utilizada para compor este perfil foi o cadastro do TRE o que significa que analfabetos, não-eleitores e re-imigrados, ou seja, os pobres, estavam excluídos desta representação. O pesquisador lembra, ainda, que a idéia de “maioria” foi fundamental, pois permitiu classificar “os outros” como minoria não relevante, invisível, para o planejamento.

Segundo este pesquisador, ao utilizar a classificação da população para organizar

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