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FRONT END OF MARITIME INNOVATION

In document Simulation and design (sider 191-200)

Innovative Conceptualisation Through Sense Stimulation in Co-lab Development

FRONT END OF MARITIME INNOVATION

Neste capítulo, pretende-se abordar a imigração açoriana para o Brasil e sua trajetória na inserção de novos moradores num contingente de povoamento e urbanização de Santa Catarina. Em especial, analisa-se a criação de freguesias, como é o caso da apresentação de Florianópolis, a fim de posicionar a concepção de traços culturais vindos dos Açores.

Na abordagem sobre as origens das rendeiras da Lagoa da Conceição, torna- se imprescindível relembrar um pouco da história dos açorianos. As ilhas açorianas foram descobertas no século XV pelos portugueses. Nesta época, os meios de transportes e, mais especificamente, as embarcações, paulatinamente, se tornavam motivos de descontentamento dos moradores das ilhas pela dificuldade de locomoção e pelo tempo que se perdia nas trajetórias. Além disso, a distribuição bastante desigual de bens propiciava diferenças sócio-econômicas que prejudicavam muitos açorianos.

O sonho de grande parte dos moradores das ilhas açorianas era possuir um pedaço de terra e poder cultivá-la, já que:

O sistema econômico português não favorecia a abertura de manufaturas. Então, emprego na indústria não existia. Assim, principalmente em época de crise na agricultura, havia um excedente de mão de obra que via na emigração uma saída para a ruína em

que se encontrava.19

19 FLORES, Maria Bernadete Ramos. Povoadores da fronteira: os casais açorianos rumo ao sul do

Há controvérsias na literatura açoriana sobre a emigração de sua população. Alguns argumentam que a ordem econômica, o solo vulcânico, o crescimento demográfico, entre outros fatores, refletiram apenas nas crises de alimentação, perpetuadas no século XVI nos Açores. Outros acreditam que estes fatores provocaram a emigração da população para o Brasil e outras localidades.

A precisão de povoar o sul do país e a necessidade constante dos açorianos emigrarem fez com que houvesse interesse das autoridades portuguesas em trazê- los para o Brasil.

Uma provisão Régia, de 08 de agosto de 1746, anunciava: El Rei Nosso Senhor atendendo às representações dos moradores das Ilhas dos Açores, que lhe têm pedido, mande tirar d’elas o número de casais, que for servido, e transportá-los à América, donde resultará às ditas Ilhas grande alívio em não padecer os seus moradores reduzidos aos males, que traz consigo a indigência em que vivem, e ao Brasil um grande benefício em fornecer de cultores alguma parte dos vastos domínios do dito Estado: foi servido fazer mercê aos casais das ditas Ilhas que se quiserem estabelecer no Brasil de lhes facilitar o transporte e estabelecendo, mandando transportar às custas de sua Real Fazenda não só por mar mas também por terra

até aos sítios, que lhe destinarem para as suas habitações.20

As indagações sobre as razões que levaram a Coroa Portuguesa a enviar os casais açorianos para o Brasil, incorporando várias correntes migratórias, ainda fazem parte das diversas discussões e reflexões acerca das políticas de territorialização. Em algumas argumentações, afirma-se que a ocupação de terras brasileiras era mais necessária que a emigração açoriana. Em outras, acredita-se que, por questões econômicas e políticas, as Ilhas Açorianas foram sendo

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esvaziadas, ficando apenas os monopolizadores de terras e os que tinham carreiras diplomáticas de comércio exterior.

Afirma-se ainda que também havia aqueles que consideravam que no Brasil haveria melhores condições de vida, o que lhes permitiria a realização do sonho de enriquecimento:

...se os açorianos partiram para Santa Catarina em 1748, foi porque as condições de vida aqui eram muito adversas. Todavia, na época, a miragem brasileira tem alguma influência. Por quê? Porque entre uma grande chusma de necessitados nós vamos encontrar gente que do ponto de vista social e econômico não tinha necessidade de partir. Vemos alguns remediados, alguns nobres, burocratas, entre aspas, que se sentem atraídos pela miragem brasileira da riqueza e

do bem-estar.21

Acredita-se que muitas promessas foram feitas para que os açorianos se dispusessem a emigrar para terras desconhecidas e a passar por uma longa viagem que, de certa forma, era arriscada.

Das variadas conotações sobre a emigração açoriana para Santa Catarina, se percebe que as exigências políticas e diplomáticas sempre são salientadas, independentemente da linha historiográfica que se utiliza. Na maioria das obras publicadas sobre os processos migratórios, se observa uma focalização nas questões que explicam os motivos de saída do país de origem e as oportunidades que se apresentavam no país de destino; este é um método tradicional de pesquisa. No entanto, com a apresentação dos estudos culturais, visualiza-se um quadro um

21 CARUSO, Mariléia M. Leal; CARUSO, Raimundo. Mares e Longínquos Povos dos Açores. 3ªed.

pouco distinto, que tenta perceber novas abordagens que privilegiam o homem e suas circunstâncias no assentamento e depois deste.22

Conhecer um pouco mais sobre os motivos que levaram os açorianos a emigrarem para o Estado de Santa Catarina não é a preocupação deste estudo, ficando explícita apenas a necessidade de contextualizar a chegada e o assentamento destes imigrantes. Sendo assim, busca-se elucidar melhor a abordagem sobre o processo tradicional que se formou após a imigração, fazendo- se necessário, para tanto, retomar algumas circunstâncias que se apresentaram antes do assentamento dos açorianos na Ilha de Santa Catarina.

Na Provisão Régia de 1747, foram estabelecidas instruções detalhadas e sistematizadas sobre como as autoridades, agindo sob o comando do código de conduta moral e política, deveriam organizar e controlar os casais que chegavam.

Desenha, inclusive o traçado urbano das vilas e lugares. Determina as atenções para com a distribuição e fornecimento de dinheiro, alimentos, ferramentas, apetrechos para o trabalho, etc. como seria uma ocupação organizada do espaço, arruamentos, traçados e

outras questões pertinentes, as pessoas transportadas, que

deveriam ser jovens, produtivas, reprodutivas e especializadas em alguma profissão, sendo artífices. Mandava cuidar do culto católico, fixando o tamanho das igrejas e vilas, com capacidade para abrigar

sessenta casais.23 2 222 “ “EExxppeeccttaattiivvaass,, aassppiirraaççõõeess,, ssoonnhhooss,, ddeessaalleennttooss ee rreessiissttêênncciiaass ccuullttuurraaiiss ccoollooccaaddaass nnoo c coottiiddiiaannoo eennooeennffrreennttaammeennttooddooddiiaa--aa--ddiiaattoorrnnaarraamm--ssee,,aassssiimm,,oobbjjeettoossddee iinnvveessttiiggaaççããoo,, ccoomm h hiissttóórriiaass ddee vviiddaa ccoonnssttiittuuiinnddoo--ssee eemm eexxeemmppllooss eemmbblleemmááttiiccoossddaa eeppooppééiiaa ddrraammááttiiccaa eemm qquuee s seemmpprreesseeccoonnssttiittuuiiuuooaattooddeeaabbaannddoonnaarrooccoonnhheecciiddooeeooffaammiilliiaarreemmpprroollddooddeessccoonnhheecciiddooee d daa ssoolliiddããoo nnoo aalléémm--mmaarr..”” MMEENNEEZZEESS,, LLeennáá MMeeddeeiirrooss ddee.. JJoovveennss PPoorrttuugguueesseess:: HHiissttóórriiaass ddee T Trraabbaallhhoo,,HHiissttóórriiaassddeeSSuucceessssooss,,HHiissttóórriiaassddeeFFrraaccaassssooss..IInn::GGOOMMEESS,,AAnnggeellaaddeeCCaassttrroo((oorrgg..)).. H HiissttóórriiaassddeeIImmiiggrraanntteesseeddeeIImmiiggrraaççããoonnooRRiiooddeeJJaanneeiirroo..RRiiooddeeJJaanneeiirroo::77LLeettrraass,,22000000..pp..116666.. 23PEREIRA, Nereu do Vale. Contributo Açoriano para Construção do Mosaico Cultural Catarinense.

As condições vislumbradas no momento do assentamento dos casais no Brasil não eram tão promissoras quanto eles imaginavam. Nas abordagens elaboradas sobre os açorianos em Santa Catarina, verifica-se uma certa “imagem negativa” quando se fala da caracterização desses imigrantes: “pessoas ligadas ao meio rural e pesqueiro com a criação de uma imagem de indolente, atrasado e analfabeto”.24No entanto:

Não se deve contudo ignorar, que alguns grupos de casais açorianos, levados pelo abandono, pelo isolamento geográfico e o não cumprimento de todas as promessas da Corte, feitas através da provisão régia de 1747, aliás, diga-se de passagem, que isto também aconteceu com grupos de colonizadores alemães e italianos, não puderam acompanhar o desenvolvimento e progresso que tiveram as demais áreas do Brasil Sul. Alguns ficaram mais pobres do que eram

nos Açores. Nem mesmo escola lhes foi oportunizada!25

O processo de assentamento e de crescimento, conforme descrito, sobretudo nas localidades rurais, determinou alguns traços visualizados nas famílias descendentes de açorianos. As oportunidades de trabalho e de posição social acarretaram as distinções sócio-econômicas e culturais. Assim, faz-se necessária uma reflexão acerca das próprias diversidades encontradas no processo de colonização que bifurcavam, em princípio, sob duas vertentes: uma que se referia às pessoas assentadas no meio urbano; e outra referente às pessoas que tinham menos instruções e recursos, sendo posicionadas nos meios rural e interiorano.26

24Ibidem. p.66. 25Ibidem. p.67.

26 Sobre esta questão, o Professor Nereu do Vale Pereira faz um apanhado de colocações que

diferenciam as pessoas assentadas: “quando se analisa todo o processo açoriano no Brasil Meridional, deve-se, de pronto, buscar duas formas diferentes de enfoques. Uma que se refira a vida urbana, que contava com pessoas letradas, intelectualizadas, como por exemplo as cidades de Florianópolis e Porto Alegre, e a do mundo rural interiorano, que não contou com pessoas instruídas ou de lideranças expressivas, e que na prática apresentaram fraco desenvolvimento”. Ibidem. p.66.

No mesmo sentido, averigua-se que as condições dos açorianos instalados em Florianópolis também causaram uma distinção entre as áreas rural e urbana, favorecendo algumas desigualdades e privilegiamentos. Sobre a tradição geracional de fazer renda de bilros, partir-se-á da abordagem de assentamento dos açorianos no meio rural, uma vez que se verificou que sua inserção geográfica condiz com o assentamento dos casais na época da colonização da Lagoa da Conceição.

Sobre essa dicotomia rural-urbano, que também acarretou em algumas continuidades do processo das tradições, afirma-se que:

Enquanto o açoriano urbano, especialmente nas cidades de Desterro, Laguna e São Francisco do Sul, puderam acompanhar o desenvolvimento mundial e evoluíram culturalmente, pois tinham escolas, comunicação, imprensa e contatos à disposição, os

interioranos e rurícolas ficaram isolados e analfabetos,

desprotegidos, desamparados politicamente, e à margem da visão do mundo e da cultura. Perderam a visão, sua memória histórica,

inclusive de suas origens, e os horizontes do universal.27

Sobre essas diferenciações, pode-se dizer que a Lagoa da Conceição, pelo seu posicionamento geográfico, deveria ser descrita como área rural, apesar de ser um espaço litorâneo, pois possuía uma descrição voltada para aspectos de agricultura e pesca. Assim:

A colonização na Lagoa da Conceição teve início em 1750 com a fundação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa. Os seus moradores, segundo Várzea (1985), cultivavam roças predominantemente de mandioca, seguidas de cana, amendoim, milho e café; dedicavam-se à pesca; construíam suas casas de pau-

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a-pique barreado à mão; engenhos de farinha e moendas de cana;

criavam animais e extraíam cal em caieiras ou casqueiras.28

Das idéias descritas sobre a formação das comunidades, que se divide entre um posicionamento urbano e rural, foram apresentadas algumas vertentes que se mostram preconceituosas quanto à questão do “desenvolvimento cultural” entre essas áreas, que, contudo, foram alocadas para ilustrar como se direcionaram as famílias em relação às suas posses e ao seu grau de instrução. Cabe ressaltar que não se caracteriza um posicionamento, mas uma demonstração de diferenças sociais dentro do grupo étnico. Assim:

A perspectiva de uma colonização planejada, pela Metrópole, com distribuição eqüitativa de terras e bens, nunca se cumpriu. O resultado foi a formação de uma diferenciação social interna em que grupos de prestígio, portadores de títulos de nobreza, acabaram privilegiados na distribuição de terras, seja na extensão ou na localização.29

As diferenças encontradas no perfil das famílias parecem ter configurado também um estereótipo que serve, nesse contexto, para dimensionar o isolamento vivido pela comunidade que habitava a Lagoa da Conceição em seus diversos recantos. Evidencia-se, assim, que alguns elementos do processo das tradições30, tais como a confecção de rendas, as festas e folguedos populares, o mito das bruxas e os festejos religiosos, formaram um legado cultural.

28 KUHNEN, Ariane. Lagoa da Conceição: meio ambiente e modos de vida em transformação.

Florianópolis, SC: Cidade Futura, 2002. p.29-30.

29

LACERDA, Eugenio Pascele. O Atlântico Açoriano: Uma Antropologia dos Contextos globais e Locais da Açorianidade. Tese de Doutorado em Antropologia Social, UFSC - Florianópolis, 2003. p.132.

30 Sobre esse processo tradicional, Eugenio Pascele Lacerda, em sua Tese de Doutorado, faz um

apanhado de alguns autores que abordam a questão da tradição “enquanto um modelo consciente de modos de vida passados que as pessoas usam na construção de sua identidade”. Dessa concepção, o que se utiliza na reflexão das tradições mantidas na Lagoa é a seleção de traços no presente que, com o conteúdo de alguns elementos do passado, vão sendo redefinidos e (re)significados em cada geração. Ibidem. p.157.

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