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VILLAGE INTERVIEWS REPORTS IV Name of village: Mijale

O sucesso do Novo Jornalismo e da imprensa ilustrada e o crescimento dos fluxos de informação em todo o mundo, potenciado quer pelas agências de notícias quer pelos dispositivos tecnológicos, como os cabos telegráficos

submarinos, o telégrafo e o telefone, geraram transformações na forma como a imprensa se apresentava. Se nos anos vinte do século XIX os jornais norte-americanos, normalmente, tinham quatro ou seis páginas, no início dos anos oitenta alguns jornais já tinham doze ou catorze páginas (como o World) e no final do século atingiam-se as 48 páginas ou mesmo mais, volume idêntico ao dos jornais actuais (Emery e Emery, 1978: 175 e ss.). Por outro lado, algumas das características do Novo Jornalismo, como a promoção de “cruzadas sociais” e o culto da linguagem acessível, foram importadas por outros tipos de imprensa, como as revistas ilustradas, como se observa na McClure’s, na American

Magazine e na Pilgrim’s Progress no início do século XX.

É de ter em atenção que embora o Novo Jornalismo tenha contribuído para as mudanças que se verificaram no jornalismo norte-americano e mundial no final do século XIX, a imprensa noticiosa popular norte-americana já

existente (Sun, Herald, Tribune) e outros jornais noticiosos, como The New York Times, ofereceram resistência à deriva sensacionalista do Novo Jornalismo dos jornais de Pulitzer e Hearst. Assim, foi, gradualmente, emergindo nos Estados Unidos uma imprensa que, embora mantendo o seu cariz noticioso e o respeito por várias das mudanças introduzidas pelo Novo Jornalismo, como a atenção ao design, aos títulos e às ilustrações (fotografias e desenhos), a diversidade de conteúdos e a diversidade de géneros jornalísticos, evoluiu para um modelo jornalístico “de qualidade”. Aliás, o próprio Pulitzer, no início do século XX, reorientou editorialmente os seus jornais para uma linha de maior sobriedade e “qualidade”.

Por contraposição ao Novo Jornalismo, emotivo e que tudo promovia à condição de insólito ou sensacional, os jornais e revistas “de qualidade” procuravam apelar à razão, oferecendo uma informação mais rigorosa, “objectiva” e profunda, por vezes analítica, mais sóbria no grafismo, mais voltada para o público do que para o privado (ou seja, orientada para o interesse público e não para o interesse do público) e mais devotada à exploração estrutural dos grandes temas da política, da economia, da sociedade e das relações internacionais do que à superficial menção a crimes, escândalos e a outros actos singulares e acções desviantes (Schudson, 1978: 88-120). O modelo do New York Times consubstancia o espírito da imprensa noticiosa generalista “de qualidade”, que acabaria por ser aquela que vingaria com mais força na sociedade norte-americana.

The New York Times foi fundado em 1851 por Henry J. Raymond. Com a morte deste, em 1869, o diário entrou numa

curva descendente, agudizada pela concorrência dos restantes jornais noticiosos (como o Herald e o Tribune) e, nas duas últimas décadas de Oitocentos, também pela emergência da imprensa sensacionalista de Pulitzer, Hearst e outros. Porém, em 1896 o jornal foi adquirido por Adolph Ochs, com o apoio de um grupo de investidores liderado pelo milionário J. P. Morgn. Ochs reorganizou o jornal e propôs-se explorar, com sentido comercial e lucrativo, um segmento de mercado negligenciado pela deriva sensacionalista da restante imprensa: o segmento interclassista dos grupos alta ou medianamente alfabetizados e cultos da população. Estas pessoas, que não se reviam na imprensa

sensacionalista, queriam ressuscitar o debate sobre as questões estruturantes de organização da sociedade nas páginas dos jornais (o jornal como fórum cívico, de acordo com Emery e Emery, 1978: 239) e exigiam uma informação generalista (política, economia, negócios, internacional, desporto...) mas factual, rigorosa e independente, de “interesse público geral”, fornecida num jornal com design agradável e apelativo, embora sóbrio. O seu lema, ainda hoje

estampado na primeira página do New York Times, foi publicar “All news that’s fit to print”.

“A reputação do diário ergueu-se sobre a sua fidelidade ao “facto”, a que objectivamente se reconhece “interesse geral”, não por se basear na experiência humana individual, como ocorria com a imprensa popular, mas sim por referir-se à experiência colectiva de toda a comunidade. O modelo informativo que defende o

New York Times faz derivar a sua rectidão e rigor da exaltação que faz dos “factos” com que constrói a

actualidade e do equilíbrio estilístico.” (García González, 1999: 98)

Schudson (1978: 106-120; 117) explica que o êxito do New York Times, jornal que ainda hoje é um símbolo não só de Nova Iorque (basta relembrar a Times Tower, em Times Square) mas, igualmente, do jornalismo mundial, também resultou do estabelecimento de uma espécie de fronteira simbólica, cívica e moral, entre a “qualidade” jornalística, que apela à razão, e o sensacionalismo, que apela à emoção. Uma segunda fronteira simbólica, decorrente da primeira, teria sido traçada socialmente entre os consumidores envergonhados da imprensa popular, em muitos casos desejosos de se identificarem com as classes mais elevadas, e os consumidores orgulhosos e distintos da imprensa “de qualidade”. “Não se trata, portanto, de o diário se dirigir à elite social, mas aos grupos, da mais variada extracção social, que se sentem melhor integrados dentro da comunidade” (García González, 1999: 98). Uma outra circunstância assegurou o êxito do

New York Times: este jornal não hesitou em baixar o preço para um cêntimo para competir com a imprensa popular,

pois, como previu Ochs, muitas pessoas compravam os jornais sensacionalistas não por se identificarem com eles, mas sim por serem baratos (Schudson, 1978: 115).

Grosso modo, em jeito de conclusão pode dizer-se que a primeira geração da penny press contribuiu, simultaneamente, para a aparição da segunda geração da penny press (modelo de Pulitzer e Hearst – o “primeiro” Novo Jornalismo) e da “imprensa informativa de qualidade” (modelo The New York Times), embora esta última também tenha sido contagiada pelos jornais políticos e económicos e pelo Novo Jornalismo e ambas tenham sofrido influências da imprensa ilustrada. Conclui-se, assim, que a história do jornalismo é acumulativa e que os diferentes modelos jornalísticos que foram surgindo ao longo da história não tiveram (nem têm) fronteiras rígidas: houve sempre, tal como acontece hoje em dia, uma interacção entre as diversas formas de encarar o jornalismo, especialmente visível na imprensa generalista, que foi aquela que mais aproveitou coisas dos diferentes modelos.

Uma outra conclusão pode ser tirada: a partir do século XIX, com a diversificação da oferta de jornais, começa a notar- se mais vincadamente a segmentação do mercado. As pessoas, como clientes, adquiriam as publicações que mais as satisfaziam. Esta tendência, aliás, não é mais do que o desenvolvimento de uma força que resulta, por um lado, do facto de as pessoas serem diferentes, preferindo os produtos que vão mais ao encontro das suas necessidades, expectativas e motivações; por outro lado, resulta também da diversificação da oferta, sustentada pelo capital, pelo risco, pela competição e pela iniciativa privada. Por isso,, não faz, nem nunca fez, muito sentido falar-se de sociedade de massas, se por sociedade de massas se entender que as pessoas formam “uma massa”. Podemos falar de meios massivos de difusão de mensagens, mas, enquanto receptores, as pessoas são pessoas, entidades individuais, que não reagem, nem nunca reagiram, amorfamente, da mesma maneira, às mensagens mediáticas. Não excluímos, é certo, a possibilidade de determinados segmentos da população terem as mesmas reacções pontuais às mesmas mensagens,

compartilharem pontualmente entendimentos, motivações, expectativas gerais, atitudes, mas este facto não permite falar, a nosso ver, de “sociedade de massas”, nomeadamente sem a devida contextualização.