No século XV, a Europa entrava na modernidade num ambiente tenso, provocado pelas rápidas transformações renascentistas. A Igreja, por exemplo, convocou os concílios de Constância, Pisa e Basileia para reagir contra a sua crescente perda de prestígio, influência, poder e autoridade, devido à acção de humanistas como Erasmo de Roterdão, Thomas More ou Nicolau de Cusa, cuja espiritualidade desassossegada indiciava a Reforma Protestante.
A tensão que animava a Europa de Quatrocentos era reforçada pelo perigo que constituía a atitude expansionista do Império Otomano (turco), cujos valores islâmicos e teocráticos se afastavam daqueles que a Europa do Renascimento lentamente construía. Mas os europeus também não se entendiam entre si, por vezes nem sequer para enfrentar o inimigo turco comum. As guerras devastavam o Velho Continente, não apenas por motivos de defesa da agressão turca, mas também provocadas pelas rivalidades entre países e impérios expansionistas. A diplomacia e as políticas de alianças cresciam em importância. Os modernos estados europeus, no seio dessa conjuntura, desejavam mostrar a sua soberania e independência, precisando, por isso, de cidadãos que formassem uma base nacional, de leis que regulassem os procedimentos administrativos e assegurassem a lealdade desses cidadãos, de exércitos que os defendessem ou fossem os braços armados das suas políticas e de dinheiro para sustentar toda a máquina estatal. Ao mesmo tempo, as monarquias necessitavam de obter a lealdade dos súbditos, nomeadamente dos exércitos, e de quebrar definitivamente a reacção da nobreza feudal e os resquícios de feudalismo que ainda subsistiam. Assim, se por um lado a imprensa pré- jornalística contribuía para a democratização do acesso à informação, do conhecimento e da cultura e ajudava a forjar uma consciência europeia, por outro lado também contribuía para a propaganda dos regimes, para a uniformização das
línguas nacionais e para o reforço das nacionalidades (e, em última instância, dos nacionalismos), sendo mais ou menos tolerada pelos governantes.
Por sua vez, os Descobrimentos, iniciados por Portugal, tinham levado os portugueses ao Índico e os espanhóis à América do Centro e do Norte. Em 1500, levariam também os portugueses à América do Sul. Os territórios descobertos pelos estados ibéricos cedo suscitaram a cobiça dos restantes estados europeus e colocaram-nos perante a necessidade de colonização, de domínio dos povos indígenas e de exploração económica e comercial. Mas também forneceram novas notícias e suscitaram a natural curiosidade de quem via abrirem-se novos horizontes à humanidade.
O século XVI viu, ainda, aparecerem as primeiras feiras bibliográficas (Frankfurt, Leipzig e Lyon), surgir um sistema de correio à escala europeia, desencadear-se a Reforma Protestante, etc. A ameaça turca foi afastada com as derrotas otomanas de Lepanto e Viena. Mas o século XVI também assistiu ao incremento das guerras religiosas, à Reforma e à Contra-Reforma (Concílio de Trento, 1545-1563, e fundação da Congregação para a Propaganda da Fé, 1568) e às guerras que tentavam unificar a Europa por via das armas, protagonizadas pelos Habsburgos e pelo Sacro Império. Nesse ambiente, as folhas noticiosas, elogiadas por personalidades como Lutero, persistiram e começaram, gradualmente, a transformar-se em jornais, tal como ocorreu com as newsletters comerciais, como aquela que era mantida pela importante família alemã dos Fuggers, que continha informação sobre a disponibilidade e preços de vários bens e serviços, notícias políticas e militares susceptíveis de afectar os negócios, etc. (estas folhas noticiosas comerciais, pela sua exactidão, podem ser consideradas antepassadas dos jornais “de qualidade”).
Os mais variados temas serviram aos editores-tipógrafos de pretexto para a publicação de folhas volantes, que indiciavam, com as suas histórias, os mais diversos aspectos da vida colectiva. O jornalismo configurava-se, assim, como a actividade de contar histórias sobre a vida quotidiana. Muitas dessas histórias eram (e são) publicamente úteis, enquanto outras se destinavam (e destinam) essencialmente a satisfazer a curiosidade humana. Mesmo estas últimas notícias, porém, podem ser positivas para a vida de uma sociedade, já que as notícias, ao representarem as atitudes, comportamentos e cognições humanas e ao delimitarem o que é considerado desvio, ajudam a definir as regras de convivência e as normas que asseguram a sobrevivência e a estabilidade da sociedade.
Entre os temas das publicações noticiosas ocasionais quinhentistas encontram-se naufrágios, batalhas, descobrimentos, o divórcio de Henrique VIII, acordos de paz, cerimónias públicas, episódios da vida nas cortes, casamentos, baptizados, celebrações e festas, crimes e criminosos, descrições de lugares, fenómenos insólitos, maravilhas da natureza, enfim, uma enorme variedade de temas que encontraríamos, sem surpresa, em qualquer meio jornalístico dos nossos dias e que já se encontram, como vimos anteriormente, em publicações anteriores. Afinal, os conteúdos não mudaram muito desde que os romanos fofocavam sobre a vida privada entre as informações políticas, comerciais e militares que serviam de tema às suas cartas e às Actas Diurnas.
Prefigurando o jornalismo de investigação, e conforme assegura Braojos Garrido (1999: 21-22), os “mercadores da notícia” chegaram a espiar e subornar, mas alguns também se colocaram ao serviço da propaganda de causas políticas, ajustando o jornalismo incipiente à manipulação da opinião. Independentemente de quaisquer juízos de valor que possamos fazer acerca da atitude dos pré-jornalistas de Quinhentos e Seiscentos, pelo menos uma coisa se observa: as publicações noticiosas tinham suficiente impacto e importância entre a sociedade para justificar os esforços censurantes ou manipuladores de alguns.
O século XVI viu, também, a emergência de um novo fenómeno pré-jornalístico: o aparecimento dos livros noticiosos, que constituem outro dos antepassados dos actuais jornais.
Os livros e opúsculos noticiosos diferem das folhas volantes e de outras publicações noticiosas ocasionais
monotemáticas (1) no volume de páginas e de informações, (2) na diversidade de notícias, (3) na periodicidade mais ou menos definida (anual e semestral) e (4) na existência de um título que denominava todas as sucessivas edições. Os
livros noticiosos são, portanto, mais diversificados nos conteúdos e estilos do que as folhas volantes e outras
publicações noticiosas ocasionais monotemáticas, agrupando quer notícias “sérias” e com valor histórico, quer notícias “populares” e “sensacionalistas ”. Podemos considerar esses livros como uma espécie de dos anuários noticiosos, com ambições simultaneamente historiográficas e jornalísticas, numa época em que as fronteiras entre jornalismo e
historiografia não estavam definidas. Os livros noticiosos são, enfim, com propriedade, relações periódicas de notícias de grande volume e extensão.
Tal como acontecia com as publicações ocasionais, alguns dos livros noticiosos eram escritos em latim, o que acentua o seu carácter universal (o latim era a língua franca da época) e o seu valor intelectual.
A tradição dos livros noticiosos parece ter sido iniciada pelo austríaco Michael von Aitzinger, que entre 1587 e 1598 publicou semestralmente uma compilação resumida das principais notícias com valor histórico surgidas nas folhas volantes que chegavam à sua mão. Esses livros, vendidos nas feiras bibliográficas, em particular na de Frankfurt, designaram-se genericamente por messrelationen, mas tinham títulos sugestivos. Os de von Aitzinger, por exemplo, chamavam-se Prostrema Relatio Histórica; os de Jacobus Francus (pseudónimo do pregador protestante Conrad Lautenbach) denominavam-se Historicae Relationis Complementorum (1591); e os do francês Palma-Cayet
Cronologias Novenarias.
Cedo, a frequência de publicação dos livros noticiosos começou a aumentar e o seu volume a diminuir (embora o hábito de publicar relações de notícias sob a forma de livro perdurasse até, pelo menos, ao século XIX). Em 1597, apareceu aquela que, provavelmente, foi a primeira publicação mensal noticiosa: a RorschacherMonatsschrift, editada por Samuel Dilbaumn e Leonhard Straub em 1597, em Rorschach. Igualmente em 1597, apareceu o Noviny Poradné Celého
Mesice Zari Léta 1597 (Jornal Completo do Mês Inteiro de Setembro de 1597), mensário editado em Praga por Daniel
Sedltchansky. Algumas dessas publicações mensais popularizaram-se com o nome de mercúrios, em honra do deus greco-romano mensageiro dos deuses, protector do comércio e do lucro (sendo Hermes a sua designação grega). O seu sucesso indicia a apetência do mercado por notícias, devido às crescentes necessidades informativas de uma sociedade em acelerado processo de mudança.
O sucesso da imprensa jornalística emergente foi também a causa das dificuldades que conheceu para se implementar. As convulsões militares, políticas e religiosas da Europa quinhentista acentuaram as tentativas de controlo e censura das actividades pré-jornalísticas por parte das autoridades civis e religiosas. O sistema de licenciamento prévio foi o processo mais usado em toda a Europa: apenas os indivíduos bem vistos pelas autoridades obtinham a licença prévia que lhes dava o direito a instalarem tipografias e/ou a exercerem o ofício de tipógrafo e editor. A censura prévia foi, igualmente, uma prática corrente nos estados europeus: as publicações tinham de passar pelo crivo do censor para poderem ter licença de impressão. O papado promulgou a Index Librorum Prohibitorum, lista dos livros de leitura proibida, considerados heréticos, ameaçadores ou infundados. Alguns dos editores-tipógrafos, pré-jornalistas, chegaram mesmo a morrer às mãos dos carrascos papistas por causa daquilo que escreveram, como os italianos Niccolo Franco e Annabale Capello. Aliás, a atitude da Igreja Católica contra a liberdade de pensamento e expressão é explícita em documentos como a Constitutio Contra Scribentes et Dictantes Monita, Vulgo Dicta Avvisi et Ritorni (Pio XII, 1570) e
Contra Famigeratores et Menantes (Gregório XIII, 1572). É de referir, porém, que houve sempre desafios às tentativas
de limitar a liberdade de expressão e alguns editores arriscavam, por vezes, a sua liberdade ou mesmo a própria vida para lançarem publicações noticiosas e outras clandestinamente.