Como mencionado anteriormente (ver(56), p. 32), o verbo em construc¸˜oes existenciais pode concordar opcionalmente com o associado.
(40) a. Tinhamumas crianc¸as no estacionamento. b. Tinham umas crianc¸as no estacionamento.
Tendo delineado o sistema de valorac¸˜ao de trac¸os em que eu me baseio nessa dissertac¸˜ao, po- demos finalmente ver a derivac¸˜ao das sentenc¸as em(40). Vamos prestar atenc¸˜ao particular `a opcionalidade mencionada. A discuss˜ao tamb´em vai nos ajudar a ver melhor como o sistema funciona.
Comec¸amos com a construc¸˜ao existencial em que h´a concordˆancia verbo-associado,(40-b).24 A derivac¸˜ao comec¸a com a combinac¸˜ao de algumas crianc¸as com o predicado existencial ter. Como vamos ver na sec¸˜ao4.2, assumo a an´alise de Belletti (1988) para os efeitos de defini- tude em construc¸˜oes existenciais. De acordo com essa an´alise, eles s˜ao uma conseq¨uˆencia do predicado existencial atribuir Caso partitivo para o associado. Efeitos de definitude emergem porque Caso partitivo s´o pode ser recebido por nomes indefinidos. Assumo essa an´alise aqui e, al´em disso, assumo que o partitivo (prtv), por ser uma instˆancia de Caso inerente, n˜ao tem que esperar at´e uma fase ser derivada para poder ser atribu´ıdo.
(41) VP V0 te- DP algumas crianc¸as -Caso: prtv +P:3; +N:pl
A derivac¸˜ao prossegue com a formac¸˜ao de TP e depois de CP. Assumo, seguindo Boˇskovi´c
(2007, 603), que pro ´e inserido diretamente em [Spec, TP].25 Lembremos que os trac¸os que eu proponho que o expletivo existencial tem s˜ao[-P(essoa):3;+N(´umero):sg;-Caso: ]. Porque uma fase (CP) foi constru´ıda, operac¸˜oes sint´aticas s˜ao desencadeadas nesse ponto da derivac¸˜ao. A primeira delas ´e heranc¸a de trac¸os de C para T.
24Na discuss˜ao a seguir, omito a representac¸˜ao de no estacionamento para simplificar. Uma discuss˜ao mais aprofundada de construc¸˜oes existenciais e do estatuto desse PP est´a al´em do escopo dessa dissertac¸˜ao.
25Outras possibilidades (por exemplo, que pro ´e gerado em uma posic¸˜ao mais baixa e s´o ent˜ao se move para [Spec, TP], como emHornstein(2000), por exemplo) n˜ao s˜ao discutidas.
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os (42) CP C0 -Caso:nom -P: ; -N: Tempo TP pro -Caso: -P:3; +N:sg T′ T0 -Caso:nom -P: ; -N: Tempo VP V0 te- DP algumas crianc¸as -Caso:prtv +P:3; +N:pl
Suponha que trac¸os-ϕ podem sondar a estrutura individualmente, ao inv´es de como um feixe ´unico.26 O trac¸o de n´umero em T sonda o dom´ınio de c-comando de T e encontra os trac¸os- ϕ valorados no associado algumas crianc¸as como alvo. [N: ] em T ´e ent˜ao valorado como
plural. (43) CP C0 TP pro -Caso: -P:3; +N:sg T′ T0 -Caso:nom -P: ; -N: pl Tempo VP V0 te- DP algumas crianc¸as -Caso:prtv +P:3; +N:pl
Proponho tamb´em que o expletivo tem um trac¸o de Caso a ser valorado. Ele sonda o seu dom´ınio de c-comando e encontra o trac¸o de Caso nominativo em T como alvo. Isso permite que o Caso em T, que j´a tem um valor, mas que ´e n˜ao-interpret´avel, participe parasiticamente de uma relac¸˜ao de Agree, permitindo que ele seja deletado.
26Quando o verbo concorda com um ´unico nome, n˜ao tem diferenc¸a, mas n˜ao parece haver nenhuma raz˜ao ´obvia por que trac¸os-ϕ n˜ao poderiam funcionar separadamente.
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os (44) CP C0 TP pro -Caso: nom -P:3; +N:sg T′ T0 -Caso:nom -P: ; -N:pl Tempo VP V0 te- DP algumas crianc¸as -Caso:prtv +P:3; +N:pl
Lembremos que uma maneira de interpretar uma relac¸˜ao de Agree como a que ocorre entre pro e T para prop´ositos de Caso ´e que pro n˜ao c-comanda T assimetricamente, mas simetricamente. Esse ´e o caso se assumirmos Bare Phrase Structure, de acordo com a qual, T′ cont´em todos os trac¸os que o n´ucleo do sintagma “projetado” tem. Sob esse ponto de vista, pro e T′ est˜ao numa relac¸˜ao de c-comando m´utuo. Essa relac¸˜ao permite que o trac¸o de Caso em pro seja valorado. Porque esse c-comando ´e m´utuo, ele tamb´em permite que o trac¸o de pessoa de T seja valorado pelo trac¸o correspondente em pro. Como conseq¨uˆencia, o trac¸o[-P:3] em pro tamb´em pode participar parasiticamente em uma relac¸˜ao de Agree e ser deletado, como exigido pelas condic¸˜oes de interface.
(45) CP C0 TP pro -Caso:nom -P:3; +N:sg T′ T0 -Caso:nom -P: 3 ; -N:pl Tempo VP V0 te- DP algumas crianc¸as -Caso:prtv +P:3; +N:pl
A derivac¸˜ao converge porque todos os trac¸os inelig´ıveis foram deletados. O verbo ´e realizado na forma plural – tinham – em(40-b) como conseq¨uˆencia de ter tido o seu trac¸o de n´umero valorado pelo associado plural algumas crianc¸as.
Dois coment´arios precisam ser feitos. Em primeiro lugar, em princ´ıpio, o trac¸o de pessoa em T poderia ter sido valorado por meio de T assimetricamente c-comandar o associado, assim como o trac¸o de n´umero foi. Por´em, se esse tivesse sido o caso, o trac¸o[-P:3] em pro n˜ao poderia participar parasiticamente na relac¸˜ao de Agree e, portanto, chegaria nas interfaces, onde ele faria com que a derivac¸˜ao fracassasse. Em segundo, T poderia entrar em Agree indiferente-
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os
mente com pro ou com o associado para que o seu trac¸o de pessoa fosse valorado. Isso acontece porque nenhum dos alvos potenciais intervˆem entre T e o outro alvo potencial. Assumo que intervenc¸˜ao ´e calculada em termos de c-comando:
(46) Intervenc¸˜ao
β interv´em entre α e γ se α c-comanda β e β c-comanda γ.
Tal relac¸˜ao de c-comando n˜ao existe entre pro, T e o associado, de modo que T entrar em Agree com pro n˜ao ´e bloqueado pelo associado e vice-versa e as duas opc¸˜oes s˜ao igualmente leg´ıtimas. Ainda assim, somente uma das opc¸˜oes leva a convergˆencia, a saber, a opc¸˜ao em que o trac¸o de pessoa de T ´e valorado pelo trac¸o equivalente em pro. Esse ´e o caso porque o trac¸o de pessoa que eu proponho que o expletivo tem ´e n˜ao-interpret´avel, mesmo que ele seja valorado. De acordo com as assunc¸˜oes feitas aqui, isso significa que ele deve participar de uma relac¸˜ao de Agree para poder ser deletado antes de chegar nas interfaces. Por economia, isso s´o pode ser feito parasiticamente, isto ´e, quando ´e o trac¸o de pessoa n˜ao-valorado em T que desencadeia essa operac¸˜ao de Agree. Se T entrar em Agree com o associado para valorar o seu trac¸o de pessoa (novamente, essa opc¸˜ao em si ´e leg´ıtima), o trac¸o de pessoa valorado, mas n˜ao-interpret´avel em pro n˜ao poderia ser deletado. Como resultado, essa opc¸˜ao derivacional, embora leg´ıtima no momento em que ela ´e efetuada, em ´ultima instˆancia, n˜ao permite que a derivac¸˜ao convirja.
Mas existe outro caminho derivacional que realmente leva a convergˆencia. Ao final da derivac¸˜ao que acabamos de ver, o predicado existencial ´e pronunciado como tinham porque o trac¸o de n´umero em T foi valorado pelo associado plural. Essa ´e a derivac¸˜ao para a sentenc¸a
em(40-b), onde verbo e associado concordam. Vamos ver agora o caso em que eles n˜ao con-
cordam, (40-a). A derivac¸˜ao ´e basicamente a mesma, exceto que pro valora n˜ao somente o trac¸o de pessoa em T, mas tamb´em o seu trac¸o de n´umero. Propus que o expletivo tem um trac¸o[+N:sg]. Se o trac¸o de n´umero em T concorda com ele, o resultado ´e que o predicado existencial acaba pronunciado como a forma singular tinha. Se ele n˜ao concorda com o associ- ado em n´umero, n˜ao h´a efeitos sobre a convergˆencia da derivac¸˜ao porque todos os trac¸os-ϕ em um DP como algumas crianc¸as s˜ao interpret´aveis e tˆem um valor como especificac¸˜ao lexical. Em outras palavras, esses s˜ao trac¸os do tipo [+F:val], que n˜ao precisam desencadear Agree (porque eles j´a tˆem um valor). Eles tamb´em n˜ao dependem parasiticamente de uma relac¸˜ao de Agree desencadeada por alguma outra sonda, j´a que eles s˜ao interpret´aveis. Assim, ´e irrele- vante que os trac¸os-ϕ em um DP participem em uma relac¸˜ao de Agree. Conseq¨uentemente, se T na construc¸˜ao existencial em quest˜ao n˜ao concordar com eles, n˜ao h´a conseq¨uˆencia nega- tiva para a convergˆencia da derivac¸˜ao. O mesmo pode ser dito em relac¸˜ao ao trac¸o de n´umero em pro, que tamb´em ´e uma instˆancia de[+F:val]. Em (40-a), T concorda com o expletivo, tendo como resultado a falta de concordˆancia manifesta entre o verbo e o associado. Por´em, em
(40-b), n˜ao existe concordˆancia entre T e pro em trac¸o de n´umero. Isso tamb´em n˜ao tem efeitos
negativos sobre a convergˆencia da derivac¸˜ao porque[+N:sg] no expletivo ´e leg´ıvel por si s´o, independente de Agree.