Em resumo, as propostas feitas aqui, junto com o sistema de valorac¸˜ao de trac¸os proposto, permite que capturemos uma propriedade interessante de construc¸˜oes existenciais em PB, a saber, a possibilidade do verbo existencial concordar em n´umero ou n˜ao com o associado. A discuss˜ao tamb´em permitiu ver melhor o funcionamento do sistema de valorac¸˜ao de trac¸os assumido.
2.3
Uma definic¸˜ao de dom´ınios sint´aticos uniformemente ba-
seada em termos de fase
Al´em de heranc¸a de trac¸os e o sistema de valorac¸˜ao de trac¸os delineado na sec¸˜ao anterior, vou basear a an´alise de OGs em uma definic¸˜ao de dom´ınios sint´aticos uniformemente baseada na noc¸˜ao de fase. No sistema de valorac¸˜ao de trac¸os assumido aqui, fases exercem um papel importante, j´a que assumo que todas as operac¸˜oes sint´aticas ocorrem dentro de uma fase. Isso ´e enunciado em(4), repetido abaixo.
(47) Todas as operac¸˜oes sint´aticas ocorrem ao n´ıvel de uma fase: uma fase (vP ou CP) ´e constru´ıda a partir da combinac¸˜ao de elementos da numerac¸˜ao e s´o ent˜ao operac¸˜oes sint´aticas desencadeadas por esses elementos s˜ao efetuadas.
Estendo essa ancoragem do sistema computacional no conceito de fase propondo que n˜ao ape- nas todas as operac¸˜oes sint´aticas, mas tamb´em todas as relac¸˜oes sint´aticas s˜ao definidas em termos de fases. Em outras palavras, hipotetizo que todos os dom´ınios relevantes para a sintaxe dependem do conceito de fase
(48) Hip´otese da uniformidade de dom´ınios sint´aticos
Todos os dom´ınios sint´aticos s˜ao definidos em termos de fases.
De um ponto de vista conceitual, uma vantagem potencial de definir todos os dom´ınios sint´aticos em termos de fases ´e que isso poderia tornar o sistema mais uniforme e, portanto, mais simples. (Ver, por´em, nota8, p. 44.)
Abaixo, discuto dois tipos de dom´ınio que v˜ao ser relevantes na an´alise de OGs, a saber, o dom´ınio de ligac¸˜ao e o dom´ınio para alc¸amento de quantificador (QR, quantifier raising). Lembremos do cap´ıtulo1que, juntamente com alc¸amento (ou, de modo mais geral, marcac¸˜ao de Caso), essas s˜ao as bases emp´ıricas para a distinc¸˜ao entre as classe de OGs:
Classe Alc¸amento An´afora Escopo
1 * * *
2
3
2.3. Uma definic¸˜ao de dom´ınios sint´aticos uniformemente baseada em termos de fase
Como mostra a tabela, ligac¸˜ao, QR e marcac¸˜ao de Caso dividem OGs em dois grandes grupos, um que inclui as OGs de classe 1 apenas e outro que inclui tanto OGs de classe 2 como OGs de classe 3. Se cada classe de OG tem a sua pr´opria categoria (a saber, CP, TP ou AspP), por que elas se agrupam da maneira como elas se agrupam? A hip´otese de que dom´ınios sint´aticos s˜ao uniformemente definidos em termos de fase poderia ajudar a explicar essa organizac¸˜ao particular. OGs que s˜ao CPs tamb´em s˜ao fases, de modo que, de acordo com as assunc¸˜oes feitas aqui, elas seriam dom´ınios para ligac¸˜ao, QR e operac¸˜oes sint´aticas como valorac¸˜ao de Caso e movimento. OGs que s˜ao ou TPs ou AspPs n˜ao s˜ao fases e, portanto, n˜ao deveriam contar como dom´ınio para as propriedades mencionadas. Um contraste ´e portanto esperado. Nos cap´ıtulos remanescentes, mostro como isso pode ser derivado. Antes disso, mostro os detalhes das minhas assunc¸˜oes sobre os dom´ınios de ligac¸˜ao e de QR.
2.3.1
Dom´ınio de ligac¸˜ao
Assumo a teoria de ligac¸˜ao emChomsky and Lasnik(1993) e, por(48), que domain em(49) ´e a menor fase que cont´em a an´afora ou pronome.27
(49) a. Principle A: ifα is an anaphor, interpret it as correferential with a c-commanding phrase in its domain.
b. Principle B: ifα is a pronoun, interpret it as disjoint from every c-commanding phrase in its domain.
c. Principle C: ifα is an R-expression, interpret it as disjoint from every c-comman- ding phrase.
Assumo tamb´em a hip´otese nula de que as c´opias de um objeto sint´atico movido tˆem exatamente os mesmos trac¸os desse objeto (verNunes 2004) e, portanto, uma c´opia pode ser um antecedente v´alido para uma an´afora ou para um pronome.28
27(a) Princ´ıpio A: “se α ´e uma an´afora, interprete α como sendo correferente com um sintagma c-comandante em seu dom´ınio”. (b) Princ´ıpio B: “se α ´e um pronome, interprete α como sendo disjunto de qualquer sintagma c-comandante em seu dom´ınio”. (c) Princ´ıpio C: “se α ´e uma express˜ao-R, interprete α como sendo disjunto de qualquer sintagma c-comandante”. (traduc¸˜ao minha, SF)
28Evidˆencia emp´ırica independente para essa afirmac¸˜ao pode talvez ser fornecida pela an´alise deThompson (2001, 2005) para a interpretac¸˜ao temporal de OGs adnominais em posic¸˜ao de sujeito (ver sec¸˜oes4.5 e7.3). Essas construc¸˜oes podem ser interpretadas ou como sendo temporalmente independentes (i.e., elas s˜ao ordenadas diretamente em relac¸˜ao ao momento da enunciac¸˜ao) –(i-b-1)– ou como sendo dependentes do momento do evento da orac¸˜ao-matriz –(i-b-2).
(i) a. Um passageiro [esperando pelo vˆoo 307] reclamou com o comiss´ario de bordo.
b. 1) Evento da OG (esperando) ´e interpretado como ocorrendo simultaneamente ao evento-matriz (reclamou).
2) Evento da OG (esperando) ´e interpretado como ocorrendo simultaneamente ao momento da enunciac¸˜ao.
(com base emThompson 2001, 291)
Thompson(2001,2005) afirma que a leitura independente (i.e., simultaneidade com o momento da enunciac¸˜ao)
resulta quando o sujeito que cont´em a OG ´e interpretado na posic¸˜ao em que ele ´e pronunciado, [Spec, TP]. A leitura dependente (i.e., simultaneidade com o evento-matriz) resulta quando esse sujeito e interpretado na sua posic¸˜ao de
2.3. Uma definic¸˜ao de dom´ınios sint´aticos uniformemente baseada em termos de fase
Em(50-a), vP ´e a menor fase que cont´em a an´afora se/o pronome ele e portanto ´e o dom´ınio
de ligac¸˜ao deles.29 De acordo com (49-a), se deve ser interpretado como sendo correferente com um sintagma c-comandante dentro do seu dom´ınio. O ´unico candidato em(50-a) ´e uma c´opia de o Jo˜ao. Uma vez que, de acordo com a hip´otese nula mencionada acima, c´opias podem ser antecedentes leg´ıtimos, se ´e interpretado como sendo correferente com o Jo˜ao. O vP tamb´em funciona como o dom´ınio de ligac¸˜ao para o pronome ele. De acordo com(49-b), ele deve ser interpretado como sendo disjunto de todo nome c-comandante dentro desse dom´ınio. O ´unico nome c-comandante relevante em(50-a)´e uma c´opia de o Jo˜ao. Dessa forma, ele n˜ao pode tomar o Jo˜ao como seu antecedente. Isso captura corretamente as propriedades de ligac¸˜ao desse pronome.
(50) a. O Paulojdisse que o Jo˜aoisei/∗ j/∗k machucou ele∗i/ j/k .
b. CP C0 TP DP o-Paulo T 0 vP DP o Paulo v0 VP V0 diz- CP C0 que TP DP o-Jo˜ao T0 vP DP o Jo˜ao v0 VP V0 machuc- DP se ele
2.3.2
Dom´ınio de alc¸amento de quantificador
De acordo comWurmbrand(2013), QR ´e restringido tanto por economia semˆantica como por fases. Que QR ´e restringido por economia semˆantica significa que ele s´o ´e permitido quando resulta na extens˜ao do escopo de um sintagma quantificacional (QP). QR ´e tamb´em restringido `a borda de fases. Assim, quando QP se move, ele deve ter como alvo de movimento a posic¸˜ao [Spec, PhP] (PhP = fase). Esquematicamente:
base, [Spec, vP]. Essa proposta implica que as c´opias de um objeto sint´atico movido tˆem o mesmo estatuto no que diz respeito a computac¸˜ao temporal. Essa ´e justamente a hip´otese nula de acordo com a teoria de movimento por c´opia.
2.4. Conclus˜ao (51) a. PhP QP Ph0 (...) (...) OP ... QP... b. * PhP QP Ph0 (...) (...) ⊘OP ... QP... c. * XP QP X0 (...) (...) ... QP...
Em(51)-a, o QP, em sua posic¸˜ao de base, n˜ao tem escopo sobre o operadorOP, j´a que aquele n˜ao c-comanda este. QP se move ent˜ao para a borda de uma fase e, dessa nova posic¸˜ao, pode ter escopo sobreOP. Assim, essa instˆancia de QR ´e semanticamente leg´ıtima porque ela resulta na extens˜ao do escopo de QP. Al´em disso, ela tamb´em se limita ao dom´ınio de uma fase. Em
(51)-b, o movimento de QP ´e igualmente restringido a uma fase. Por´em, entre a posic¸˜ao de onde o QP sai e a posic¸˜ao para a qual ele se move (a borda de uma fase), n˜ao tem nenhum operador (isso ´e representado como ‘⊘OP’). Assim, essa instˆancia de QR ´e exclu´ıda porque ela
´e semanticamente v´acua. Em (51)-c, QP se move para uma posic¸˜ao que n˜ao ´e uma borda de uma fase (XP em(51)-c n˜ao ´e uma fase). Uma vez que esse movimento n˜ao ´e restringido ao interior de uma fase, ele ´e exclu´ıdo, independentemente do escopo de QP ter sido estendido.
2.4
Conclus˜ao
Neste cap´ıtulo, vimos as ferramentas te´oricas que v˜ao ser importantes para a an´alise. O prin- cipal foco do cap´ıtulo foi a maneira por que assumo que o sistema computacional funciona. Tentei apresentar sustentac¸˜ao conceitual para esse sistema, com base em hip´oteses minimalistas sobre a faculdade da linguagem. Esse sistema, juntamente com as propriedades idiossincr´aticas de certos itens lexicais, v˜ao ser cruciais na explicac¸˜ao das propriedades de cada subtipo de OG analisado nessa dissertac¸˜ao. Outra ferramenta apresentada foi heranc¸a de trac¸os, que vai ser de importˆancia particular na derivac¸˜ao de OGs de classe 1 e na distinc¸˜ao dela em relac¸˜ao `as duas outras classes. As OGs que pertencem a essa classe s˜ao as ´unicas que projetam CP e, portanto, as ´unicas cujo T herda trac¸os. Finalmente, hipotetizei que todos os dom´ınios sint´aticos s˜ao uniformemente definidos em termos de fase. Essa proposta, que parece ser conceitualmente elegante, vai ser importante na derivac¸˜ao de contrastes entre as classes de OG quanto `as possi- bilidades de alc¸amento, ligac¸˜ao e QR.
Cap´ıtulo 3
OGs de classe 1
Temos agora os instrumentos adequados para analisar cada subtipo de OG. Comec¸amos com OGs de classe 1. Essa classe inclui OGs desiderativas –(1-a)– e OGs adverbiais altas –(1-b),
(1-c).
(1) a. O Jo˜ao quer/preferiu os filhos n˜ao soltando nenhum pio durante o jantar. b. O Jo˜ao terminando o trabalho mais cedo, a Maria vai ficar contente. c. Terminando o trabalho mais cedo, o Jo˜ao ficou contente.
Neste cap´ıtulo, uma derivac¸˜ao passo-a-passo de OGs desiderativas vai ser apresentada. Deixo a derivac¸˜ao de OGs adverbiais altas para o cap´ıtulo6porque acho que ´e mais produtivo comparar os diferentes subtipos de OGs adverbiais e as propriedades de controle delas. O comportamento particular de cada subtipo de OG da classe 1 vai ser derivado da computac¸˜ao sint´atica, em conjunc¸˜ao com as propostas e assunc¸˜oes da caixa de ferramentas do cap´ıtulo2. As propriedades do comportamento de OGs que eu vou tentar explicar s˜ao as seguintes:
Subtipo de OG ILP Negac¸˜ao Adv´erbio Alc¸amento An´afora Escopo
Desiderativa * * ???
Adv alta * *
Tabela 3.1: Comportamento de OGs de classe 1
Antes de chegarmos na derivac¸˜ao propriamente dita, na pr´oxima sec¸˜ao, mostro as conseq¨uˆencias de propor que OGs de classe 1 s˜ao CPs e de assumir heranc¸a de trac¸os (ver sec¸˜ao2.1).