OGs perceptuais parecem permitir que o sujeito delas seja movido para a posic¸˜ao de sujeito- matriz quando o verbo perceptual ´e passivizado.
(14) O morro pˆode ser ouvido t desabando a quilˆometros de distˆancia. ´
E necess´ario considerar passivizac¸˜ao a partir de OGs perceptuais com cautela. Seq¨uˆencias line- ares DP2 + verbo perceptual + DP1 + verbondocomo a em(15)s˜ao multiplamente amb´ıguas.
(15) O Jo˜ao viu a menina andando de ˆonibus.
Trˆes das poss´ıveis leituras est˜ao em(16)–(18). A estrutura correspondente a cada uma delas est´a indicada entre colchetes e por meio de testes de constituinte no exemplo (b) de cada par. (16) a. O Jo˜ao viu [a menina andando de ˆonibus].
b. [O que] o Jo˜ao viu?
(17) a. O Jo˜ao viu [a meninai] [eciandando de ˆonibus]
b. [Quem] o Jo˜ao viu [andando de ˆonibus]? (18) a. O Jo˜ao viu [[a menina] [ec andando de ˆonibus]]
4.1. OGs perceptuais
Em (16), o complemento do verbo perceptual ´e uma OG, isto ´e, a seq¨uˆencia linear DP1 +
verbondocorresponde a um ´unico constituinte, que pode ser perguntado por o que –(16-b). Em
(17), o complemento do verbo perceptual ´e um DP e verbondo ´e parte de uma orac¸˜ao adverbial.1
Assim, a seq¨uˆencia DP1 + verbondo n˜ao forma um constituinte ´unico, mas dois. Isso pode ser
visto em(17-b), onde DP1 pode ser perguntado independentemente de verbondo. Em(18), DP1 e verbondo acabam formando um constituinte ´unico, mas por raz˜oes diferentes do que ocorre em(16). Em(18), DP1 (a menina) ´e o complemento nominal do verbo perceptual e verbondo ´e
parte n˜ao de um adjunto adverbial, como em(17), mas de um adjunto adnominal. Essa seria a raz˜ao por que a seq¨uˆencia DP1 + verbondotamb´em pode ser perguntada como uma unidade s´o.
Por´em, o pronome interrogativo agora ´e quem, ao inv´es de o que, como em(16).2
Assim, diante de construc¸˜oes passivas como (19-a), n˜ao ´e imediatamente claro se ela ´e resultado de uma passivizac¸˜ao que parte de uma OG (i.e., alc¸amento do sujeito da OG para a posic¸˜ao de sujeito-matriz – ver esquema em (19-b)). No restante dessa sec¸˜ao, discuto se ´e poss´ıvel ou n˜ao determinar se a seq¨uˆencia DP1 + verbondo, quando ela est´a contida numa construc¸˜ao perceptual passivizada, pode corresponder a uma OG. A conclus˜ao vai ser que ´e realmente poss´ıvel que passivizac¸˜ao parta de uma OG perceptual.
(19) a. A menina foi vista andando de ˆonibus.
b. A menina foi vista [OG a menina andando de ˆonibus].
Existem trˆes argumentos emp´ıricos para sustentar a afirmac¸˜ao de que ´e poss´ıvel que o sujeito de uma OG perceptual seja passivizado: (i) comparac¸˜ao entre o comportamento de uma OG perceptual e o de uma OG adverbial quando ambas fazem parte da mesma sentenc¸a; (ii) restric¸˜oes de selec¸˜ao de ouvir; (iii) restric¸˜oes de selec¸˜ao de assistir.
Vejamos uma sentenc¸a como(20-a), em que h´a duas seq¨uˆencias DP1 + verbondo, a saber, a
Maria cantando ‘Clocks’e estalando os dedos. A agramaticalidade de(20-b) sugere que n˜ao ´e poss´ıvel que as duas seq¨uˆencias sejam adverbiais, como s˜ao cantando e estalando os dedos. Al´em do mais, n˜ao pode ser o caso que as duas seq¨uˆencias em(20-a)sejam complementos, j´a que ouvir n˜ao ´e um predicado bitransitivo. Podemos concluir, ent˜ao, que, das duas seq¨uˆencias
DP1 + verbondoem(20-a), uma deve ser um complemento e a outra, uma orac¸˜ao adverbial. Por
seu turno,(20-c)(pronunciada com entonac¸˜ao chata) mostra que n˜ao ´e poss´ıvel que um adjunto fique entre o verbo-matriz (comer) e o seu objeto (uva). Assim, a conclus˜ao ´e que a ordem entre as OGs em(20-a) ´e: primeiro, o complemento (i.e., uma OG perceptual) e, depois, a OG adverbial.
(20) a. O Jo˜ao ouviu a Maria cantando ‘Clocks’ estalando os dedos. b. *O Jo˜ao chegou cantando ‘Clocks’ estalando os dedos. c. *O Jo˜ao comeu estalando os dedos uva.
1Mais precisamente, isso ´e um adv´erbio baixo. Ver sec¸˜oes4.4e6.4.
4.1. OGs perceptuais
Essa conclus˜ao ´e corroborada pelas possibilidades de extrac¸˜ao. Enquanto ´e poss´ıvel mover um constituinte-Wh a partir de complementos, n˜ao ´e poss´ıvel mover a partir de orac¸˜oes adjuntas. O objeto dentro da OG da primeira seq¨uˆencia DP1 + verbondo em (20-a)pode ser extra´ıdo –
(21-a)–, mas o de dentro da segunda seq¨uˆencia (uma OG adverbial), n˜ao pode –(21-b).
(21) a. O que o Jo˜ao ouviu a Maria cantando t estalando os dedos? b. *O que o Jo˜ao ouviu a Maria cantando ‘Clocks’ estalando t?
Na mesma estrutura, ´e poss´ıvel mover o DP1 da primeira seq¨uˆencia DP1 + verbondo para a
posic¸˜ao de sujeito-matriz e extrair o objeto dessa seq¨uˆencia – (22-a). T´ınhamos conclu´ıdo anteriormente que essa era uma OG perceptual em posic¸˜ao de complemento. Extrac¸˜ao a partir da segunda seq¨uˆencia DP1 + verbondocontinua proibida –(22-b).
(22) a. O que a Maria foi ouvida cantando t estalando os dedos? b. *O que a Maria foi ouvida cantando ‘Clocks’ estalando t?
Podemos concluir, ent˜ao, que ´e poss´ıvel distinguir uma OG perceptual de outras estruturas subjacentes a uma sentenc¸a multiplamente amb´ıgua como (15) e que, al´em disso, ´e poss´ıvel que o sujeito da OG perceptual seja alc¸ado para a posic¸˜ao de sujeito-matriz.
As restric¸˜oes semˆanticas que verbos perceptuais como ouvir e assistir imp˜oem sobre o seu complemento tamb´em podem ser ´uteis para verificar se ´e poss´ıvel ou n˜ao passivizac¸˜ao a partir de OGs perceptuais. Falando informalmente, ouvir exige que a denotac¸˜ao do seu objeto seja uma entidade que produza algum tipo de som. Essa seria a raz˜ao por que(23)´e mal formada: o
morro, n˜ao pode satisfazer esse requisito semˆantico. (23) *O Jo˜ao ouviu o morro.
No entanto, se ouvir for seguido pela seq¨uˆencia DP1 + verbondo, o morro pode ser o DP1 , como podemos ver em(24-a).
Como foi visto em (16)–(18), em princ´ıpio, h´a trˆes possibilidades de estrutura: (i) a seq¨uˆencia DP1 + verbondo ´e um constituinte ´unico, uma OG perceptual; (ii) essa seq¨uˆencia
n˜ao forma um constituinte ´unico, DP1 ´e um complemento n˜ao-oracional de ouvir e verbondo ´e
parte de uma OG adverbial; (iii) a seq¨uˆencia ´e equivalente a um constituinte ´unico, mas o com- plemento de ouvir ´e n˜ao-oracional; ela ´e um DP ao qual verbondoest´a adjungido como parte de
um adjunto adnominal. Uma vez que DP1 ´e o morro, as opc¸˜oes (ii) e (iii) est˜ao descartadas, j´a que, nos dois casos, o complemento de ouvir ´e um DP. Se esse DP ´e o morro, as restric¸˜oes semˆanticas de ouvir n˜ao podem ser satisfeitas. Assim, a seq¨uˆencia DP1 + verbondo em(24-a)
s´o pode ser uma OG perceptual – opc¸˜ao (i).
Conseq¨uentemente, o DP o morro na posic¸˜ao pr´e-verbal em (24-b-i) s´o pode ter partido da posic¸˜ao de sujeito de uma OG perceptual, isto ´e,(24-b-i) ´e uma instˆancia inconfund´ıvel de passivizac¸˜ao partindo de uma OG perceptual, como esquematizado em(24-b-ii).
4.1. OGs perceptuais
(24) a. A populac¸˜ao ouviu o morro desabando a quilˆometros de distˆancia. b. (i) O morro foi ouvido desabando a quilˆometros de distˆancia.
(ii) O morro foi ouvido [OG o morro desabando a quilˆometros de distˆancia].
Um argumento semelhante ´e fornecido pelo verbo assistir, que requer que a entidade de- notada pelo seu objeto seja [–HUMANA]. Uma violac¸˜ao dessa exigˆencia poderia explicar a m´a formac¸˜ao de(25-a). De acordo com esse racioc´ınio, a seq¨uˆencia DP1 + verbondoem(25-b)s´o
pode ser uma OG perceptual – n˜ao ´e poss´ıvel que a Maria seja um complemento n˜ao-oracional de assistir. Logo, o DP pr´e-verbal na construc¸˜ao passiva(25-c)s´o pode ter sido gerado dentro de uma OG perceptual. Em outras palavras, (25-c)tamb´em ´e uma instˆancia inconfund´ıvel de passivizac¸˜ao partindo de uma OG perceptual.3,4
(25) a. #O Jo˜ao assistiu a Maria.
b. O Jo˜ao assistiu a Maria cantando. c. A Maria foi assistida cantando.
Trˆes argumentos emp´ıricos foram apresentados para sustentar a afirmac¸˜ao de que passi- vizac¸˜ao a partir de uma OG perceptual ´e poss´ıvel. Essa quest˜ao ´e importante por causa da ambig¨uidade m´ultipla de seq¨uˆencias DP2 + verbo perceptual + DP1 + verbondoe porque essa
´e uma das propriedades em relac¸˜ao `as quais OGs de classe 1, de um lado, e OGs de classe 2 e de 3 OGs, de outro, se distinguem.
Dito isso, podemos voltar para(14), repetida abaixo, que podemos agora dizer ser um caso n˜ao-amb´ıguo de passivizac¸˜ao partindo de uma OG perceptual. A representac¸˜ao esquem´atica dessa sentenc¸a est´a em(27).
(26) O morro pˆode ser ouvido desabando a quilˆometros de distˆancia.
3Juanito Avelar (c.p.) observa que(25-a)pode ser uma sentenc¸a bem formada. E pode mesmo, s´o que ela tem, nesse caso, uma “camada” adicional de significado. Acho que(25-a), na sua vers˜ao bem formada, significa que o Jo˜ao est´a encarando a Maria atentamente, por exemplo. Significativamente, acho que essa camada a mais de significado n˜ao precisa estar presente em(25-c)para que ela possa ser bem formada.
4Juanito Avelar (c.p.) menciona tamb´em que construc¸˜oes como(i-a), em que o DP ´e o complemento nominal de assistir, ´e bem formada. Creio que esse seja um caso de meton´ımia.(i-a)significa que o falante assistiu algum programa de TV com o Roberto Carlos.
(i) a. Ontem, eu assisti o Roberto Carlos. b. Vocˆe vai na Evani amanh˜a?
Isso ´e parecido com o que acontece na sentenc¸a n˜ao-perceptual(i-b), onde Evani ´e usado para fazer referˆencia, via meton´ımia, para a aula do indiv´ıduo nomeado por esse nome pr´oprio (ou, mais precisamente, o local em que vai acontecer a aula). Assim,(i-a)´e outra instˆancia canˆonica dos padr˜oes de selec¸˜ao de assistir mencionados acima (i.e., o complemento deve ser [–HUMANO]). Agradec¸o ao Juanito Avelar pelas observac¸˜oes.
4.1. OGs perceptuais (27) CP C0 TP T0 ser -Caso:nom -ϕ: Tempo VP V0 ouv- AspP Asp0 -ndo -Caso: vP DP o-morro -Caso: +ϕ:val v0 VP desab-
Porque uma OG de classe 3 n˜ao ´e auto-suficiente para Caso, todos os trac¸os n˜ao-valorados de Caso dentro da OG acabam dependendo de um alvo externo. Em uma sentenc¸a ativa, o que valora o trac¸o de Caso do sujeito da OG perceptual ´e o V-matriz. O sujeito da OG se move para [Spec, VP] para estender o seu dom´ınio de sondagem e assim passa a c-comandar o Caso acusativo que V herda (ver(5)acima). Em uma sentenc¸a passiva, a primeira posic¸˜ao para a qual o sujeito da OG pode se mover ´e o [Spec, TP]-matriz. Dessa forma, o morro em(27)se move para [Spec, TP] para ter o seu trac¸o Caso valorado.
(28) CP C0 TP DP o-morro -Caso: nom +ϕ:val T0 ser -Caso:nom -ϕ: val Tempo VP V0 ouv- AspP Asp0 -ndo -Caso: vP DP o morro -Caso: +ϕ:val v0 VP desab-
Mais tarde na derivac¸˜ao, a c´opia mais alta do sujeito sonda a estrutura para poder valorar o trac¸o de Caso da c´opia mais baixa.
4.1. OGs perceptuais (29) CP C0 TP DP o-morro -Caso:nom +ϕ:val T0 ser -Caso:nom -ϕ:val Tempo VP V0 ouv- AspP Asp0 -ndo -Caso: vP DP o morro -Caso: nom +ϕ:val v0 VP desab-
Agora, o morfema de ger´undio pode finalmente c-comandar um trac¸o valorado de Caso, de modo que o seu trac¸o de Caso tamb´em pode ser valorado e deletado. Esse trac¸o ainda est´a acess´ıvel na derivac¸˜ao tanto por causa da condic¸˜ao de ativac¸˜ao quanto porque todas as operac¸˜oes sint´aticas mencionadas acima est˜ao acontecendo na mesma fase (o CP da orac¸˜ao-matriz).
(30) CP C0 TP DP o-morro -Caso:nom +ϕ:val T0 ser -Caso:nom -ϕ:val Tempo VP V0 ouv- AspP Asp0 -ndo -Caso: nom vP DP o morro -Caso:nom +ϕ:val v0 VP desab-
Em suma, a an´alise proposta foi capaz de capturar a possibilidade de alc¸amento a partir de OGs perceptuais, uma das bases emp´ıricas centrais da an´alise proposta.
4.1. OGs perceptuais