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Seguindo id´eias desenvolvidas em Boˇskovi´c (2007) e assumindo os tipos de trac¸o acima, as- sumo que todos os trac¸os que precisam ser valorados e deletados (i.e., trac¸os que n˜ao tˆem um
3Notac¸˜ao utilizada: ‘+’ = interpret´avel; ‘-’ = n˜ao-interpret´avel; ‘val’ = valorado; ‘ ’ = n˜ao-valorado; ‘F’ = um trac¸o formal qualquer.
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os
valor, qualquer que seja a sua interpretabilidade, e trac¸os n˜ao-interpret´aveis, qualquer que seja o seu valor) precisam participar de uma relac¸˜ao de Agree para que valorac¸˜ao de trac¸o ocorra. Assumo tamb´em que Agree implica sondagem, o que acarreta que todo trac¸o que precisa ser valorado e deletado precisa atuar como uma sonda.
Potencialmente, um sistema baseado em sondagem generalizada tem algumas vantagens so- bre um a sistema em que h´a assimetria ente sondas e alvos. EmChomsky(2000), por exemplo, um T finito e v transitivo s˜ao sondas e um DP, o alvo deles. Al´em disso, ´e assumido que para que um alvo seja assim definido, ele precisa ter um trac¸o n˜ao-valorado/n˜ao-interpret´avel.5 Se um DP tem um trac¸o n˜ao-interpret´avel, por que ele n˜ao poderia atuar como sonda? Ademais a relac¸˜ao assim´etrica entre sonda e alvo nesse sistema (Chomsky,2000,2001) implica valorac¸˜ao por reflexo: a sonda (T ou v) tem trac¸os-ϕ a serem valorados, enquanto o alvo tem um trac¸o de Caso a ser valorado. Se a sonda forϕ-completa, como reflexo do DP-alvo valorar os trac¸os- ϕ da sonda, o trac¸o de Caso dele ´e valorado. Como argumentado em Boˇskovi´c (2007), n˜ao existe explicac¸˜ao fundamentada para valorac¸˜ao de trac¸o como reflexo, tampouco existe uma justificativa para a relac¸˜ao entre trac¸os-ϕ e Caso.
Uma maneira de lidar com esse problema conceitual ´e assumir que sonda ´e qualquer trac¸o F que precisa ser valorado.6 Alvo, por seu turno, ´e um trac¸o do mesmo tipo,F, mas com valor, que est´a dentro do dom´ınio de c-comando da sonda, isto ´e, no seu dom´ınio de sondagem. A definic¸˜ao de c-comando assumida ´e a seguinte:
(3) C-comando
X c-comanda Y sse X n˜ao domina Y, Y n˜ao domina X e o primeiro n´o ramificante que domina X tamb´em domina Y.
Al´em disso, assumo que todas as operac¸˜oes sint´aticas ocorrem ao n´ıvel da fase, isto ´e, quando um CP ou um vP ´e derivado.
(4) Momento em que ocorrem operac¸˜oes sint´aticas
Todas as operac¸˜oes sint´aticas7 ocorrem ao n´ıvel de uma fase: uma fase (vP ou CP) ´e constru´ıda a partir da combinac¸˜ao de elementos da numerac¸˜ao e s´o ent˜ao operac¸˜oes sint´aticas desencadeadas por esses elementos s˜ao efetuadas.
Uma vantagem potencial da condic¸˜ao em(4) ´e que ela torna o sistema mais uniforme.8 Como
5Lembrando que, emChomsky(2000), existe uma relac¸˜ao de um-para-um entre valor e interpretabilidade. 6Essa ´e precisamente a proposta feita em Boˇskovi´c(2007); eu s´o estou fazendo uma reformulac¸˜ao para os prop´ositos dessa dissertac¸˜ao. No original: “Assumo que a correlac¸˜ao entre funcionar como uma sonda e ter um trac¸o n˜ao-interpret´avel ´e uma correlac¸˜ao que vai nos dois sentidos: da mesma forma que uma sonda tem que ter um trac¸o n˜ao-interpret´avel, tamb´em um trac¸o n˜ao-interpret´avel deve funcionar como uma sonda.”Boˇskovi´c(2007, 619, traduc¸˜ao minha, SF).
7Por ‘operac¸˜oes sint´aticas’, eu quero dizer sondagem, Agree, valorac¸˜ao de trac¸o, delec¸˜ao de trac¸o, c´opia etc. Em(4), n˜ao estou considerando a formac¸˜ao da numerac¸˜ao, selec¸˜ao de elementos dessa numerac¸˜ao e a combinac¸˜ao deles em sintagmas porque essas s˜ao as operac¸˜oes necess´arias para construir objetos sint´aticos complexos em primeiro lugar.
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os
vamos ver na sec¸˜ao2.3, proponho que dom´ınios sint´aticos, como os para ligac¸˜ao e para QR, s˜ao uniformemente definidos em termos de fases, isto ´e, um dom´ınio de ligac¸˜ao ´e uma fase e um sintagma quantificacional s´o pode ser alc¸ado fase por fase. Assim, a noc¸˜ao de fase pode tornar o sistema computacional mais uniforme e portanto mais simples, o que ´e desej´avel metodol´ogica e conceitualmente.
Juntando as considerac¸˜oes acima sobre quais trac¸os devem ser valorados (os que n˜ao tˆem um valor, independentemente de interpretabilidade), a maneira como valorac¸˜ao e delec¸˜ao de trac¸os ocorrem (via Agree) e a definic¸˜ao de sonda assumidos aqui (todo trac¸o que deve ser valorado), a conseq¨uˆencia ´e que os trac¸os[±F: ] –(2-b),(2-c)– s˜ao os considerados aqui como sondas. Em resumo, essas s˜ao as definic¸˜oes importantes para o sistema de valorac¸˜ao de trac¸os em que vou basear a an´alise:
(5) a. Sonda: um trac¸o que precisa ser valorado, independente de interpretabilidade (i.e., [±F: ]);
b. Alvo: um trac¸o dentro do dom´ınio de sondagem do objeto sint´atico que porta a sonda, sendo que ele ´e um trac¸o do mesmo tipo do da sonda, independente de inter- pretabilidade (i.e.,[±F:val]). ‘Dom´ınio de sondagem’ ´e definido como ‘dom´ınio de c-comando’;
c. Agree: uma relac¸˜ao sint´atica entre dois trac¸os mediada por c-comando. Consiste em o trac¸o n˜ao-valorado (sonda) c-comandar um trac¸o correspondente, mas valo- rado (alvo); o valor do alvo ´e copiado na sonda.
Esquematicamente, sondagem e valorac¸˜ao de[±F: ] (um trac¸o n˜ao-valorado e portanto uma sonda) acontece da seguinte maneira:
(6) a. PhP Ph0 (...) X [±F: ] (...) (...) Y [±F:α] b. PhP Ph0 (...) X [±F: α ] (...) (...) Y [±F:α]
A estrutura em (6)-a corresponde a uma fase, PhP. Depois de uma fase ter sido derivada, operac¸˜oes sint´aticas s˜ao desencadeadas. A sondagem de [±F: ] encontra [±F:α] em Y como alvo, j´a que ´e um trac¸o do mesmo tipoF do da sonda, mas ele tem um valor, qualquer que seja a interpretabilidade. Depois de ocorrer Agree entre sonda e alvo, o valorα no alvo pode ser copiado na sonda –(6)-b.9
para concordˆancia e para movimento-A s˜ao diferentes.
9Notac¸˜ao utilizada: o dom´ınio de c-comando/de sondagem de X, o objeto sint´atico que porta a sonda (i.e., [±F: ]), est´a representado num retˆangulo. O valor copiado na sonda est´a dentro de uma caixa cinza.
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os
2.2.3
Valorac¸˜ao de trac¸o e movimento: derivando os efeitos de EPP
´
E geralmente assumido que existe uma correlac¸˜ao entre (i) a relac¸˜ao de Agree envolvendo T e o DP que vai se tornar o sujeito e (ii) o movimento desse DP para [Spec, TP]. Uma maneira de implementar esse movimento ´e assumir que EPP ´e um trac¸o que desencadeia movimento para a posic¸˜ao de Spec do n´ucleo que ´e especificado com esse trac¸o.
Um dos objetivos emBoˇskovi´c(2007) ´e eliminar o EPP. A raz˜ao ´e que esse trac¸o n˜ao pode ser acomodado muito facilmente dentro do sistema e, portanto, ele ´e conceitualmente suspeito. Um dos problemas ´e que o EPP n˜ao tem que ser valorado e tamb´em n˜ao tem que valorar um trac¸o correspondente. Na realidade, n˜ao parece haver nenhum outro trac¸o que seja compar´avel a EPP. Al´em disso, o EPP requer movimento para ser deletado, diferentemente dos demais trac¸os, que podem ser valorados simplesmente via Agree `a distˆancia. Em suma, EPP ´e um trac¸o diferente de qualquer outro e requer mecanismos especiais para ser deletado. Assim, ´e suscitada a quest˜ao da possibilidade de corrigir essa excepcionalidade. A maneira mais simples de fazer isso ´e eliminando o EPP completamente. Essa ´e exatamente a estrat´egia adotada emBoˇskovi´c
(2007).
Ainda assim, ´e necess´ario encontrar uma maneira de implementar o movimento do sujeito gerado dentro do vP para [Spec, TP], j´a que esse movimento ´e empiricamente atestado. Para esse fim, basta manter a proposta deBoˇskovi´c(2007) de que uma sonda deve c-comandar o seu alvo. Um sujeito tem um trac¸o de Caso a ser valorado; de acordo com as definic¸˜oes assumidas aqui, um sujeito possui uma sonda. O sujeito precisa portanto estar numa posic¸˜ao a partir da qual ele pode c-comandar um objeto sint´atico que tem um trac¸o correspondente, mas valorado, isto ´e, um alvo. Esse objeto sint´atico pode ser um T finito, que ´e especificado com Caso nominativo (ap´os heranc¸a de trac¸os). O sujeito se move ent˜ao para [Spec, TP], a primeira posic¸˜ao em que esse sujeito pode c-comandar um trac¸o correspondente ao trac¸o de Caso n˜ao-valorado que ele possui. ´E assim que o efeito de EPP, isto ´e, movimento de DP para uma posic¸˜ao alta como [Spec, TP], ´e derivado. Isso foi feito sem recorrer a um artif´ıcio te´orico como o EPP enquanto trac¸o extraordin´ario.
O que permite o movimento do sujeito ou, de modo mais geral, de um objeto sint´atico que tem uma sonda, ´e a seguinte definic¸˜ao de Last Resort:
(7) Last Resort(Boˇskovi´c,2007, 610)
X undergoes movemente iff without the movement, the structure will crash (with crash evaluated locally).10
Por conveniˆencia, denomino o movimento de um objeto sint´atico portando uma sonda ‘extens˜ao do dom´ınio de sondagem’:
10“X se move sse, sem o movimento, a derivac¸˜ao fracassa, sendo que o fracasso de uma derivac¸˜ao ´e avaliado localmente” (traduc¸˜ao minha, SF).
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os
(8) Extens˜ao do dom´ınio de sondagem11
Se um objeto sint´atico X, que tem uma sonda (i.e., uma trac¸o[±F: ] a ser valorado), n˜ao encontrar um alvo apropriado no seu dom´ınio de c-comando/sondagem inicial, X pode se mover para a primeira posic¸˜ao em que ele pode c-comandar um alvo. Esse movimento ´e restrito ao interior de uma fase.
O movimento para estender o dom´ınio de sondagem pode ser esquematizado da seguinte ma- neira: (9) PhP Ph0 YP Y0 [±F:α] (...) X [±F: ] ⊘F (...)
No dom´ınio de c-comando/sondagem da sonda[±F: ] em X, n˜ao existe um alvo apropriado, como indicado por ‘⊘F’. De acordo com(8), X pode se mover – depois que a menor fase tiver sido constru´ıda – para estender o dom´ınio de sondagem de[±F: ]. Esse movimento tem que ter como alvo a primeira posic¸˜ao dentro de uma fase em que a sonda pode c-comandar um alvo.
(10) PhP Ph0 YP X [±F: ] Y′ Y0 [±F:α] (...) X ⊘F (...)
Da nova posic¸˜ao ([Spec, YP]), a sonda[±F: ] tem um novo dom´ınio de sondagem, que inclui o alvo[±F:α]. Nessa nova configurac¸˜ao, ´e poss´ıvel que a sonda c-comande o seu alvo e ent˜ao pode ocorrer Agree entre sonda e alvo. Isso resulta na sonda ser valorada comoα, o valor do alvo (i.e., o valorα do alvo ´e copiado na sonda). O movimento de X foi efetuado na ausˆencia de EPP: X se moveu para estender o dom´ınio de sondagem da sonda[±F: ], em observˆancia a Last Resort.
11Essa id´eia tem alguma semelhanc¸a com o EPP como Extended Peeking Principle deNunes(2007). Uma das diferenc¸as ´e que, no sistema proposto aqui, a motivac¸˜ao para movimento (que tem como efeito a extens˜ao do dom´ınio de sondagem) reside no elemento a ser movido e n˜ao no alvo do movimento, como emNunes(2007). Uma comparac¸˜ao extensiva dos dois sistemas est´a al´em do escopo dessa dissertac¸˜ao.
2.2. Um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os (11) PhP Ph0 YP X [±F: α ] Y′ Y0 [±F:α] (...) X ⊘F (...)
Como vamos ver no exemplo de derivac¸˜ao na sec¸˜ao 2.2.10, ´e assim que implemento o movimento para a posic¸˜ao de sujeito, [Spec, TP], tal como seria esperado de um sistema de valorac¸˜ao de trac¸os baseado emBoˇskovi´c(2007).