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Para Lacan, o indivíduo afetado pelo significante é o suporte do sujeito. “O significan- te é signo de um sujeito. Enquanto suporte formal, o significante atinge um outro que não aquele que ele é cruamente, ele, como significante, um outro (indivíduo falante) que ele afeta e que dele é feito sujeito, ou, pelo menos, que passa por sê-lo” (LACAN/1972-73, 1985, p. 195). E, como vimos na introdução deste capítulo, a hipótese de Lacan (1972-73, 1985, p. 194), de o indivíduo que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o sujeito de um significante – o que enuncia que um significante representa um sujeito para um outro signifi-

cante, faz uma relação de equivalência entre indivíduo e sujeito. Ao acrescentar que indivíduo significa corpo (e não organismo) faz uma relação de equivalência também entre corpo e su- jeito, possibilitando a afirmação de que corpo é sujeito. Daí temos, como Gerbase traduz essa hipótese, que o corpo afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o sujeito de um sig- nificante, é o próprio sujeito de um significante92. Isso se sustenta na ideia de que o inconsci- ente seja o Real. Mas, como o corpo é afetado por isso?

O corpo é afetado pelo inconsciente no sentido em que um significante tem ressonância nele, num sentido em que um dizer faz eco nesse corpo e isso só é possível acontecer num corpo sensível ao significante. Se falo ao corpo do cão, ao corpo do gato, ao corpo mesmo desses animais domésticos, não há resposta porque não são corpos sensíveis ao significante, mas se falo ao cor- po de vocês que estão me ouvindo nesta conferência, se por acaso eu per- gunto quanto tempo eu tenho e algum de vocês me responde, significa que o corpo de vocês é sensível à palavra. (....) Essa ressonância, esse eco no corpo que é sensível a palavra é o que chamamos de pulsão.”93

As pulsões são, no corpo, diz Lacan e seu seminário “O sinthoma” (1975-76, 2007, p.

18), “o eco do fato de que há um dizer. Esse dizer, para que ressoe, para que consoe [...], é preciso que o corpo lhe seja sensível. É um fato que ele o é”. Para ele, embora a voz e o olhar sejam recursos

92 Cf. GERBASE, Jairo. Vídeo-Conferência, A hipótese de Lacan sobre A mulher. Núcleo Márcio Peter de Ensi- no - Conexão Lacaniana. Disponível em: http://www.marciopeter.com.br/links2/inter/gerbase1_pdf.pdf (acesso em 20/02/2010).

de abordagem da realidade, e o objeto olhar faça concorrência eminente ao objeto voz, a pre- valência é do objeto voz.. Em sua conferência em Genebra, Lacan diz que “é sempre com a ajuda de palavras que o homem pensa. E é no encontro dessas palavras com seu corpo que alguma coisa se esboça. [...] É aí que ele coloca o sentido”.94 Acrescenta que, ele só tentou fazer reviver o que já tinha sido percebido pelos antigos estóicos, quando a filosofia era uma maneira de viver em relação à qual se podia perceber, muito antes de Freud, “que a lingua- gem, essa linguagem que não tem absolutamente nenhuma existência teórica, intervém sem- pre sob a forma do que chamo, com uma palavra, que desejei que estivesse o mais próximo possível da palavra lalação – alíngua”95 (lalation – lalangue, em francês).

Para dizer isso de outra forma, talvez facilite perguntar: De onde se extrai o significan- te que afeta o corpo? Para isso, o inconsciente necessita de um instrumento que é o significan- te extraído de lalíngua (ou alíngua)96. Como vimos, lalíngua (lalangue, escrito numa só pala- vra e que, portanto, produz o efeito de equívoco com la langue – a língua, intencionalmente proposto por Lacan) é um termo que faz aproximação com o vocábulo latino lallare – ato de cantar o lá, lá, lá, usado para fazer a criança dormir e que também “designa o balbucio da cri- ança que ainda não fala, mas que já produz sons. A lalação é o som separado do sentido, en-

94 LACAN, Jacques. Conferência em Genebra, sobre o sintoma (pronunciada em 04/10/1975). Rev. Opção La- caniana, nº 23. Ed. Eólia. Dez. 1998, p. 9.

95 Ibidem.

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Optamos pelo termo lalíngua, embora as traduções dos textos de Lacan apresentem ora a palavra alíngua, ora lalíngua. Outros ainda preferem manter a grafia francesa, lalangue, por considerarem intraduzível esse neologis- mo de Lacan, já que ele associa o termo à lalação do bebê. Entretanto, nosso saudoso poeta e ensaísta, Haroldo de Campos, não recuou frente a essa desafio e foi o tradutor-inventor desse significante lacaniano: lalíngua. Ele recusa o termo alíngua pois, o prefixo “a”, em português, pode-se confundir com o de negação, de privação, que daria a entender que não há língua – o que o distancia do artigo feminino francês La, escolhido por Lacan, e poderia vir a significar o oposto do que se pretende com lalangue. Em vez de um destaque, de uma ênfase nas ressonâncias com “lalia”, “lalação” e de uma evocação de tudo o que nos afeta quanto a um fluxo polifônico das palavras, poderíamos incorrer no erro de conceber lalangue como uma ausência de linguagem. “Ora, LALAN- GUE, pode-se dizer, é o oposto de não-língua, de privação de língua. É antes uma língua enfatizada, uma língua tensionada pela „função poética‟, uma língua que „serve a coisas inteiramente diversas da comunicação‟”. CAM- POS, Haroldo. O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura).

http://revistas.ulusofona.pt/index.php/afreudite/article/viewFile/824/665 (acesso em 21/02/2010). Disponível em: Cf também o texto Lalíngua ou alíngua: pequena introdução, postado pela psicanalista Drª Maria Holthausen, Disponível em http://psicanaliselacaniana.blogspot.com/2009/02/lalingua-ou-alingua-pequeno-percurso.html Mas deixa-se registrado, também, que o termo alíngua é defendido por outras pessoas, inclusive, por Jairo Ger- base, que teve contato com Haroldo de Campos. Gerbase assim escreveu em resposta ao encaminhamento que fizemos a ele, do mencionado texto de Campos: “Conheço este texto de Haroldo de Campos, [...] mas apesar do respeito que devemos ao mestre Haroldo, divergimos no fato de que embora lalíngua seja uma tradução que evoca a lalação, o fato de ser unívoca me leva a preferir alíngua por ser equívoca. Digo alíngua e você não sabe se quis dizer a língua ou alíngua” (23/02/2010).

tretanto, como se sabe, não separado do estado de contentamento”97. Essa lalação do bebê, essa tentativa de falar a língua materna, remete ao inconsciente real, ou seja, ao inconsciente fora do sentido98. Essa forma de satisfação não depende da significação e introduz a conse- qüência na linguagem, mediada pela figura materna. “Desde a origem há uma relação com lalíngua, que merece ser chamada, com toda razão, de materna, porque é pela mãe que a cri- ança – se assim posso dizer – a recebe. Ela não aprende lalíngua” (tradução livre)99.

Haroldo de Campos vai dizer que esse idiomaterno100

“é „lalangue dite maternelle‟ („lalíngua dita maternal‟), não por nada - sub- linha Lacan - escrita numa só palavra, já que designa a „ocupação (l'affIàire) de cada um de nós‟, na medida mesma em que o inconsciente „é feito de la- língua‟. [...] Lalia, lalação derivados do grego laléo, têm as acepções de „fa- la‟, „loquacidade‟, e também por via do lat. lallare. verbo onomatopaico, „cantar para fazer dormir as crianças‟ (Ernout/Meillet); glossolalia quer di- zer: „dom sobrenatural de falar línguas desconhecidas‟ (Aurélio). Toda a á- rea semântlca que essa aglutinação convoca (e que está no francês lalangue, mas se perde em alíngua) corresponde aos propósitos da cunhagem lacania- na, servindo a justaposição enfática para frisar que, se „a linguagem é feita de lalíngua‟, se é „uma elucubração de saber sobre lalíngua‟, o „nconsciente é um saber, um saber-fazer com lalíngua‟, sendo certo que esse „saber-fazer com lalíngua ultrapassa de muito aquilo de que podemos dar conta a título de linguagem‟. O „idomaterno‟ - LALÍNGUA - nos „afecta‟ com „efeitos‟ que são „afectos‟ resume Lacan, mostrando que sabe jogar com mestria o jo- go que enuncia”.101

Lacan, em sua conferência em Genebra (1975), nos remete à antiguidade para dizer que desde a época de Esopo já haviam percebido que lalíngua (ou alíngua) era absolutamente capital.

97 SOLER, Colette. O corpo falante. PRAXIS - Fórum do Campo lacaniano, Seminário de Psicanálise. Hospitais Pediátricos La Scarpetta, Roma, 12 de maio de 2007. Tradução de Elisabeth Saporiti para uso interno dos mem- bros da IF-EPFCL – Fórum São Paulo.

98 O inconsciente real (fora do sentido) difere do inconsciente transferencial, que é o inconsciente estruturado como uma linguagem.

99 LACAN, Jacques. Conference et entretiens dans des universités nord-americaines. Scilicet n. 6/7, 1975, p.47. Tradução nossa, do texto : “[...] c´est que dés l´origine Il y a un rapport avec „lalangue‟ qui mérite d´être appelée, juste titre, maternelle parce que c´est par la mére que l´enfant – si je puis dire – la reçoit. Il ne l´apprend pas.”

100 Termo utilizado por Haroldo de Campos em seu poema "Ciropédia ou a Educação do .Príncipe", de 1952). 101 CAMPOS, Haroldo. O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura) - http://revistas.ulusofona.pt/index.php/afreudite/article/viewFile/824/665 (acesso em 21/02/2010). Os conceitos lacanianos aí desenvolvidos por Campos podem ser encontrados em LACAN, O Seminário, livro 20, Mais, ain- da. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 1985, especialmente na aula de 26 de junho de 1973: O rato no labirinto.

Não é por acaso que, na alíngua, qualquer que seja ela, na qual alguém rece- beu uma primeira marca, uma palavra é ambígua. [...] É absolutamente certo que é pelo modo como a alíngua foi falada e, também, entendida por fulano ou beltrano, em sua particularidade, que alguma coisa, em seguida, reapare- cerá nos sonhos, em todo tipo de tropeço, em todo tipo de formas de dizer. [...] É nesse motérialisme102que reside a tomada do inconsciente – quero di-

zer que o que faz com que cada um não tenha encontrado outros modos de se sustentar não é senão o que chamei de sintoma.103

Podemos dizer que lalíngua é a língua da magia, a língua das crianças e também dos amantes, pois ambos fazem uso da palavra fora da significação. Lalíngua está em oposição à linguagem estruturada, que separa o saber do real, uma vez que ela é um saber que está intei- ramente investido no fazer, um saber-fazer (savoir-faire), um saber-fazer com isso que está aí.

O que sustenta a hipótese do inconsciente, para a psicanálise, é justamente a maneira que o sujeito encontrou de se impregnar pela linguagem. Daí, a máxima lacaniana de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. E o inconsciente, para afetar o corpo, vale- se do significante extraído de lalíngua – que é o modo que a criança pequena lida com os sig- nificantes antes mesmo de ter acesso ao seu sentido. Temos então a língua materna (em nosso caso, a língua portuguesa) e lalíngua do inconsciente. Lalíngua “é constituída das interpreta- ções equivocadas do sentido das palavras. Com ela se constroem o sonho, o lapso, a piada, a poesia e o sintoma”104 – que a psicanálise sustenta serem as formações do inconsciente. Por ser anterior ao significante-mestre (S1), lalíngua não serve como instrumento de comunicação, mas é uma forma de tecer um esboço de laço social. A língua nos serve como meio de comu- nicação – mesmo que seja uma comunicação truncada, pois a comunicação nunca é toda. En- tretanto, lalíngua é fonte de mal-entendidos, isto é, lalíngua do inconsciente serve ao mal- entendido. Enquanto a linguagem e o discurso podem ser considerados uma defesa contra o real, lalangue veicula o real.

Para Lacan105 a formação do sintoma depende destes mal-entendidos, os quais vão se depositando como um aluvião e que forma o sintoma. Para a psicanálise, todo sintoma é uma

102 Condensação, em francês, de mot (palavra) e matérialisme (materialismo), isto é, materialismo da palavra. 103 LACAN, Jacques. Conferência em Genebra, sobre o sintoma (pronunciada em 04/10/1975). Rev. Opção Lacaniana, nº 23. Ed. Eólia. Dez. 1998, p. 9.

104 GERBASE, Jairo. Vídeo-Conferência, A hipótese de Lacan sobre A mulher. Núcleo Márcio Peter de Ensino - Conexão Lacaniana. http://www.marciopeter.com.br/links2/inter/gerbase1_pdf.pdf (acesso em 20/02/2010). 105 Cf. LACAN, Jacques. Conferência em Genebra, sobre o sintoma (pronunciada em 04/10/1975). Rev. Opção Lacaniana, nº 23. Ed. Eólia. Dez. 1998.

responsabilidade do sujeito, uma vez que encontra nele um benefício; mesmo quando a pessoa se queixa de um determinado sintoma (angústia, tristeza, etc.), há ali uma satisfação, ou seja, o gozo.

Temos assim lalíngua como suporte da ideia de significante, e este (o significante) como a causa de gozo. Para Lacan, lalíngua é o ponto-chave de articulação entre corpo e go- zo, e no campo de lalíngua, a operação da fala. É no encontro das palavras com o corpo que alguma coisa se esboça, tropeça. O ser falante, diz Lacan, é essa relação perturbada com seu próprio corpo que se chama gozo.

Ao citar o discurso científico, que tateia em vista ao que se possa produzir de saber, Lacan (1972-73, 1985, p. 188) afirma que “a linguagem é apenas aquilo que o discurso cientí- fico elabora para dar conta do que chamo de alíngua”. Para ele o saber (diferente de aprendi- zagem e de conhecimento) é um enigma que se presentifica pelo inconsciente – como é reve- lado pelo discurso analítico, para quem o saber é o que se articula. “A gente poderia ter per- cebido isso há um bocado de tempo, pois traçar os caminhos do saber, não se fazia senão arti- cular coisas e, durante muito tempo, centrá-las no ser. Ora é evidente que nada é, senão na medida em que é dito que isso é” (LACAN, 1985, p. 188).

Em seus matemas106 Lacan, vai nomear este saber de S2, ou seja, é um significante posterior, que está necessariamente ligado a um significante anterior, ao significante-mestre (S1), portanto o saber se produz a partir da cadeia significante.

“Se eu disse que a linguagem é aquilo como o que o inconsciente é estrutu- rado, é mesmo porque, a linguagem, de começo, ela não existe. A linguagem é o que se tenta saber concernentemente à função da alíngua. Certamente, é assim que o próprio discurso científico a aborda, exceto que lhe é difícil rea- lizá-la plenamente, pois ele não leva em consideração o inconsciente. O in- consciente é o testemunho de um saber, no que em grande parte escapa ao ser falante. Este ser dá oportunidade de perceber até onde vão os efeitos da lalíngua, pelo seguinte, que ele apresenta toda sorte de afetos que restam e- nigmáticos. Esses afetos são o que resulta da presença de lalíngua no que, de saber, ela articula coisas que vão muito mais longe do que aquilo que o ser falante suporta de saber enunciado. A linguagem, sem dúvida, é feita de a- língua. É uma elocubração de saber sobre alíngua. Mas o inconsciente é um saber, um saber-fazer com alíngua. E o que sabe fazer com alíngua ultrapas-

106 Matema é um termo criado por Lacan, em 1971, a partir do mitema de Lévi-Strauss e do termo grego mathe- ma (conhecimento), para designar uma escrita algébrica capaz de expor cientificamente os conceitos psicanalíti- cos, e que permitem transmiti-los em termos estruturais. São fórmulas que representam de maneira simbólica os termos de uma estrutura as relações de seus componentes entre si.

sa de muito o de que podemos dar conta a título de linguagem.” (LACAN, 1972-3, 1985, p.189).

Lacan nos mostra assim que lalíngua (ou alíngua) nos afeta primeiro.

O significante primordial leva Lacan a formular que o significante é aquilo que repre- senta um sujeito para um outro significante - formando a cadeia significante. “Este é o sujeito- hipótese, por sua evanescência. O sujeito é uma hipótese e há um indivíduo falante que o su- porta. A única prova disto: o significante se torna signo, ou seja, o significante é chamado a fazer sinal. Signo extraído de lalíngua.”107