A importante mudança da visão cristã ocidental em relação à união possível entre espí- rito criado e Espírito Incriado, ocorrida no século XIII, trouxe novas formas na compreensão da união mística. Segundo McGinn, encontramos aí ênfase sem precedentes quanto:
a preexistência virtual do místico em Deus, antes da criação;
ou a necessidade de aniquilamento de modo a mergulhar num abismo sem fun- do onde Deus e a alma são um só abismo;
ou modos de expressão enfatizando a união sem distinção ou mediação.
Todos esses argumentos visam um novo sentido radical de unidade com Deus e que pode ser atendida nesta vida. “Mesmo onde essas novas formas de expressão co-existem com a linguagem mais tradicional sobre a união amorosa das vontades que mantém a distinção de substâncias entre Deus e humanos, podemos sentir o início de uma nova e mais desafiadora noção de unio mystica” (McGINN, 1998, p. 261, (tradução livre)75. Como exemplo dessa no- va visão temos Marguerite Porete que, como William de São Thierry, viu no Espírito Santo, o Amor unindo o Pai e o Filho na Trindade, como o poder atraindo a alma para a mais profunda união com Deus – “A Bondade do Espírito Santo une a Alma no amor do Pai e do Filho” (cap. 115). Mas, afirma McGinn, Marguerite Porete vai mais além que o místico cisterciense ao seguir esta afirmação com um paradoxo apofático depreciando qualquer descrição estável
74 Cf site de Fundamentos de Jacques Lacan: http://psicanaliselacaniana.vilabol.uol.com.br/fundamentos.html (acesso: 08/08/2009).
75 Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: “Even where these new forms of expression coexist with more traditional language about the loving union of wills between God and human that maintains the distinction of substances, we can sense the onset of a new and more challenging notion of unio mystic”.
dessa união: “Tal união coloca a Alma no ser sem ser, que é o Ser“ (cap. 115). Embora o pen- samento de Marguerite Porete sobre união não possa ter dado origem a qualquer dos artigos explícitos extraídos de O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas para sua condenação co- mo herética, sua visão de união foi fundamental para um dos aspectos mais controvertidos de seu ensino.
Segundo McGinn, Marguerite Porete foi a primeira mística ocidental a falar da união mística como um retorno à existência pré-criacional e ideal em Deus como um modo de ex- pressar a autoridade de sua mensagem. Por outro lado, ela usa a existência virtual em Deus de modo a enfatizar a necessidade para o aniquilamento do ser e de sua vontade criacional. Até então não existia esse pensamento de que a alma pode desejar ser antes de ter existido. A ne- cessidade de Marguerite Porete de voltar para a pré-criação em que não há nenhum bem além de Deus foi muito além de Agostinho76 e outros teólogos ocidentais anteriores. Conforme afirma McGinn, ela descobriu na própria noção de vontade criada e sua possibilidade de não querer o bem, uma separação ou falta que tortura a alma amorosa até ser negada por meio da aniquilação. Encontramos em toda a sua obra ênfase dada à pré-existência eterna da Alma em Deus, mas esta se torna especialmente insistente nos capítulos finais 135-138. A união encon- trada na consciência do Longeperto despoja a Alma “de todas as coisas, pois está sem ser, lá onde estava antes de ter sido” (cap. 135). A Alma nadificada professa a sua religião e observa bem sua regra que é “ser reconduzida pela aniquilação ao estado inicial, onde Amor a rece- beu”. Finalmente, no capítulo 138, Marguerite Porete (2008, p. 227) resume como a Alma retorna ao seu estado anterior à criação:
Agora essa alma está no primeiro estado do ser que é seu estado próprio e, as- sim, deixou três [mortes], e fez de duas [naturezas] somente uma. Mas quando se tem esse uno? Esse uno se tem quando a Alma é recolocada naquela Dei- dade simples, que é um Ser simples de fruição transbordante, na plenitude do saber sem sentimento, acima do pensamento. Esse Ser simples faz na Alma, por caridade, tudo o que a Alma faz, porque a vontade tornou-se simples.
Em O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas, encontramos, como afirma o filósofo e psicanalista Luc Richer (2002), a soberania do Um – que exige a destituição de toda forma
76 Santo Agostinho já havia refletido sobre a preexistência da alma e sua vontade em Deus, em seu tratado sobre A Trindade, notando que em seu estado criado a alma pode ou será convertida à fonte da qual ela veio ou voltar- se contra ela e deixar de ser uma vontade boa. Mas que “a alma que poderia desejar ser antes de ter existido não existia ainda”. Para Agostinho, tudo o que existia antes do tempo era “nosso Bem no qual vemos se a coisa deve- ria ter sido ou deveria ser...”. Cf. McGINN, Bernard. The Flowering of Mysticism. New York: Crossroad Herd- er, 1998, p. 262).
de alteridade suscetível de diminuir sua plenitude. Para Marguerite Porete, é isso que a bon- dade de Deus espera da alma, que ela lhe sacrifique sua própria existência, a saber, “toda a diferença” que a distingue do divino. Deus, este Muito Elevado Ciumento, tem apenas um desejo: que ela faça-lhe dom gratuito - “sem razão” - de seu ser, o qual se confunde com a essência da humanidade: uma vontade livre.
“O Espelho faz uso de muitas metáforas para sugerir a natureza desse unum simplex
esse77 primordial em que não há mais nenhuma distinção entre Deus e Alma.” (McGINN, 1998, 263), (tradução livre)78. O abismo é também um termo bastante usado por Marguerite Porete (2008) como uma outra forma de expressar o aniquilamento que vem do reconheci- mento da Alma de sua pecaminosidade total,como temos por exemplo no cap. 118 (p. 192, 5º estado):
Agora essa Alma é nada [...]. E assim ela é tudo, pois vê por meio da pro- fundidade da compreensão de sua própria maldade, que é tão profunda e tão grande que ela aí não encontra nem começo, nem meio, nem fim, exceto um abismo abissal sem fundo. Lá ela se encontra, sem se encontrar e sem encon- trar o fundo.
McGinn nos lembra que, apesar de não falar explicitamente de Deus como abismo, como fez a beguina Hadewijch, o discurso místico de Marguerite Porete em que a alma atinge seu próprio abismo por meio da humildade, efetivamente redunda na mesma coisa na medida em que a anima abyssata não existe, mas é o nada onde “ela vê não a si mesma nem a ele, e assim Deus vê somente a si mesmo, por sua bondade divina” (cap. 91).
Tal união, expressa como um retorno ao ser primordial ou encontrada pelo ser submer- so num abismo sem fundo, é chamada união sem mediação, até mesmo uma união sem dife- rença (nulle difference). Entre a Alma transformada e seu bem-amado “não há diferença, quaisquer que sejam suas naturezas” (cap. 23). Marguerite Porete introduz qualificações sobre a compreensão adequada dessa falta de mediação e diferença, como vemos por exemplo, quando ela usa a fórmula tradicional de atingir a união por meio da graça de Deus e não pela natureza: “Sou o que sou pela graça de Deus” (cap. 70). “Em termos da compreensão da be-
77 Ser uno simples – “É a definição clássica de Deus como Um e Simples, sem contradição ou partes dele que não seja ele e causada por ele, logo, ser simples e um...”. PONDÉ, Luiz Felipe, comentário por e-mail, em 11/08/2010.
78 Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: The Mirror uses many metaphors for suggesting the nature of this primordial unum simplex esse in which there is no longer any distinction between God and Soul.
guina de união isso pode ser tomado como significando que a Alma deve perder sua própria natureza como alguma coisa criada pela graça, ou dom, do Amor Divino de modo a poder retornar ao ser primordial abissal onde não há nenhuma mediação ou diferença entre a Alma e Deus”(McGINN, 1998, p. 263-264), (tradução livre)79.
Para dizer-nos mais sobre como a Alma conduz a si mesma nessa união, Marguerite Porete nos leva a outro tema místico que ela desenvolve ricamente e que encontramos de for- ma sucinta no capítulo 134: “a liberdade perfeita não tem nenhum porquê” (parfaicte franchi-
se n’a nul pourquoy/perfecta libertas non habet aliquod propter quid). Para ela, viver sem um
porquê é amar com a pura espontaneidade de uma criança (cf. cap. 29), o que implica em que a Alma reduzida ao nada não tenha nenhuma preocupação em relação a si mesma, nem por seus próximos ou mesmo por Deus (cf. cap. 81). Nesse mesmo capítulo Amor explica: “E esse nada do qual falamos lhe dá tudo” Então a Alma, “aprisionada e detida no país da paz total, está sempre em plena satisfação, na qual submerge, ondula e flutua na fruição e paz di- vina, sem movimento algum em seu interior e sem obras externas de sua parte. [...] Se ela faz alguma coisa externa, é sempre sem ela”, porque a obra é obra de Deus “nela, sem ela, por ela”. Nenhuma obra pode barrá-la, “pois ela mesma não tem nada. Ela deu tudo livremente sem nenhum porquê, pois ela é a dama do esposo de sua juventude”. McGinn diz que foi, cer- tamente, essa forma de frase que levantou suspeitas nos inquisidores de Marguerite Porete.
Como vimos anteriormente, Marguerite Porete faz uso da linguagem metafórica do rio e do mar para expressar a união indistinta da vida sem um porquê. No capítulo 82, por exem- plo, Amor volta a contar como a Alma desimpedida “perde seu nome no Um [...] com o qual se funde e se dissolve por meio dele e nele e por ela mesma”. O exemplo dado é de um rio, tal como o Aisne ou Sena, que tem um nome na medida em que flui por si mesmo, mas quando retorna ao mar ele perde seu nome e todo seu labor. Uma outra metáfora de Porete para a uni- ão é aquela do fogo que se auto consome: “Agora tal Alma está tão inflamada na fornalha do fogo do Amor, que se tornou propriamente o fogo, razão pela qual não sente nenhum fogo. Pois ela é fogo em si pelo poder de Amor que a transforma no fogo de Amor” (cap. 25). Es- sas duas metáforas são combinadas no cap. 85 “num exemplo espantoso do dom que Margue-
79 Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: “In terms of the beguine‟s understanding of union this can be taken to mean that the Soul must lose her own nature as a created something through the grace, or gift, of Divine Love in order to return to the abyss of primordial being where there is no mediation or difference between the Soul and God.”
rite Porete tem para a linguagem” (McGINN, 1998, p. 264), (tradução livre)80: “Essa Alma, diz Amor, foi despelada em mortificação, e queimada pelo ardor do fogo da caridade, e suas cinzas jogadas em alto-mar aberto pela nulidade da vontade”.
Ao se perguntar sobre a estabilidade e duração da compreensão que Marguerite Porete tem da união, especialmente à luz da insistência da mística tradicional de que a união amorosa de vontades (unitas spiritus) era necessariamente um fenômeno raro e breve, McGinn, formu- la a seguinte questão: Será que a união é um fenômeno mais permanente para Marguerite Po- rete? McGinn vai dizer que a resposta parece ser um paradoxal sim e não. A Alma nadificada, que abandona tudo à vontade divina, é de fato “confirmada no nada” (cap. 80). Marguerite Porete insiste que uma vez que a alma atinge o quinto estado não há como voltar aos níveis mais baixos do amor.
Nesse sentido a união é permanente. Não obstante, fica claro que o estágio mais alto atingido na terra, o clarão súbito [flash]da aperture ou abertura do abismo Trinitário em si, é breve e raro e assim o cume da união não é um es- tágio atingido aqui na terra, mas tem um movimento, um caráter epektetic81
como aquele encontrado em muitos místicos cristãos. Ao se falar sobre esses
flashes de glória da vida divina, como nos capítulos 58, 61, 80, 117 e 136, onde Marguerite chega mais perto daquilo que alguns descreveriam como autobiográfias de consciência mística, mas o rigor de seu apofaticismo en- fraquece toda tentativa de descrever „o que‟ se funde no abismo, precisa- mente porque não é um o que! (McGINN, 1998, p. 265), (tradução li- vre)82.
80Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: “in a striking example of Porete‟s gift for language.”
81 Epektetic: perpetuamente progressiva, a união com Deus aqui e na eternidade. Esse termo vem do nome do filósofo grego Epicteto, pertencente à Escola Estóica, que pemaneceu a maior parte de sua vida como escravo em Roma. Seu nome vem do grego, "epiktetos", que quer dizer "adquirido" ou "comprado". Seu nome de nasci- mento é desconhecido. O ensino de Epicteto se concentra principalmente na questão ética que tem como centro a liberdade moral interior e a autonomia dos indivíduos. Ele faz uma separação estrita entre as coisas e condições que estão fora do poder humano e devem ser aceitas como um dado adquirido, e aquelas que afetam o coração do homem e, portanto, só estão sujeitos à sua influência. A ação humana é para ele determinada e guiada por Deus, que está em cada indivíduo, no mundo e no cosmos. Disponível em:
http://educacao.uol.com.br/biografias/epicteto.jhtm (acesso em abril 2010).
82 Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: “In that sense, union is permanent. Nevertheless, it is clear that the highest earthly stage, the flash of the aperture or opening of the Trinitarian abyss itself, is brief and rare and thus the height of union is not an achieved state here on earth but has a moving, epektetic character like that found in many Christian mystics. It is in speaking about these flashes of glory from the divine life, as in chapters 58, 61, 80, 117, and 136, where Marguerite comes closest to what some would describe as autobiographical accounts of mystical consciousness, but the rigor of her apophaticism undercuts all attempts to describe “what” merging into the abyss is like, precisely because it is not a what!”